Herdade da Contenda

fotografia: pedro sousa | 23 março 2024

 






















Dispam-se de medos, aversões, superstições ou falsas percepções, como agora se diz, e atentem na beleza deste animal. É um exemplar de víbora-cornuda encontrado no concelho de Moura, com o característico “corno” na extremidade da cabeça e os inconfundíveis “olhos de gato”. Há mais de trinta anos que não havia notícia do seu avistamento na Contenda. Até que o biólogo Pedro Sousa a fotografou no ano passado, no âmbito da sua tese de mestrado*. Convém dizer que, embora possa representar algum perigo por inocular veneno, a probabilidade de encontrarmos uma víbora é muito reduzida e, quando acontece, o mais frequente é o animal fugir, a menos que seja ameaçado. Ainda assim não se livra da perseguição humana, movida por mitos e crenças, que, juntamente com a perda e degradação do habitat, está na origem do seu declínio nas últimas décadas. O seu reaparecimento na Contenda é visto, por isso, como um sinal de esperança nos esforços aí em curso de conservação da biodiversidade. A sua perda, pelo contrário, poderá levar ao declínio de mais espécies ou ao aumento descontrolado de outras, causando efeitos dominó, com impactos no equilíbrio dos ecossistemas.
Aqui chegados, hoje tem início o novo ano chinês, o ano da Serpente, símbolo da sabedoria, intuição, mistério e transformação. Como os chineses, os hindus ainda hoje respeitam as cobras. Algumas tribos africanas têm-nas por deuses, como no Antigo Egipto. Por cá, a realidade é bem diferente, infelizmente para esses seres rastejantes. Entre nós, os répteis e também os anfíbios figuram entre os animais mais odiados do reino animal. Para esta falta de estima contribui certamente a tradição judaico-cristã e a sua influência na cultura popular e no nosso imaginário, apesar dos esforços feitos, nos últimos anos, na área da educação ambiental.
É sobre este terror que as cobras infundem e, curiosamente, sobre as inesperadas semelhanças entre elas e nós que fala Nuno Júdice, falecido no ano passado, num dos seus contos menos conhecidos:

(…)
A cobra escapa a todas estas previsões, fazendo com que nos seja impossível adivinhar o seu percurso - o que, para os que vivem no terror do arquétipo, conduz a imaginar que ela irá aparecer por entre os pés, e enrolar-se no corpo, puxando-nos para o instante fundador da vida, mas desta vez no sentido oposto, como se a fusão com a cobra representasse a absorção da consciência pelo barro animado de que nascemos, até à última perda da nossa diferença. No entanto, se há ser de que sejamos próximos, é ela: e de cada vez que nos encontramos em grupo, falando uns com os outros, nessa comunidade própria da natureza humana, um observador mais atento poderá adivinhar um serpentear de gestos e pensamentos que nasce de cada um, mesmo que ele não se aperceba disso, procurando enlear os outros, fundir-se com eles, ou pelo contrário esperando a melhor oportunidade para os picar, derramando na sua aparência descuidada o veneno que logo sombreia o rosto, provoca uma súbita palidez, muda a direcção das conversas.
Compreendo que a cobra tenha fugido para o interior das dunas, levando com ela estes pensamentos. Admiro-a pela sua capacidade dialéctica, contorcendo-se até ao limite nesse movimento que a relaciona connosco e, quando isso deixa de ser possível, mudando de pele, e começando um novo ciclo, como se partisse do zero, o que nos obriga a reformular todas as crenças, convicções e ideias. O nosso espírito, então, surge-nos como essa areia onde ela se enterrou, e sabemos que um dia voltará a emergir daí, no mesmo movimento inesperado, provocando o sobressalto de quem nos rodeia, até tudo passar, e os hábitos imporem a sua lei. Mas será sempre difícil que nos olhem como dantes, quando o espírito se revelou na sua essência primitiva. O veneno faz parte da sua própria matéria; e não são muitos os que dispõem do antídoto para sobreviverem, intactos na sua fé, às mudanças de pele. (...)

Nuno Júdice, «Manhã», A Ideia do Amor e Outros Contos, 1ª ed., Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp. 163-164.