Mata dos Medos

filipe sousa | 21 novembro 2025

 

















Que, em 2026, não nos falte o oxigénio, o ar puro, o ar respirável para desempoeirarmos a alma, arejarmos toda a casa empestada (a própria dor arejada), para arrombarmos a janela e gritarmos a plenos pulmões: Ar livre, sem restrições!

AR LIVRE
Ar livre, que não respiro!
Ou são pela asfixia?
Miséria de cobardia
Que não arromba a janela
Da sala onde a fantasia
Estiola e fica amarela!
Ar livre, digo-vos eu!
Ou estamos nalgum museu
De manequins de cartão?
Abaixo! E ninguém se importe!
Antes o caos que a morte...
De par em par, pois então?!
Ar livre! Correntes de ar
Por toda a casa empestada!
(Vendavais na terra inteira,
A própria dor arejada,
- E nós nesta borralheira
De estufa calafetada!)
Ar livre! Que ninguém canta
Com a corda na garganta,
Tolhido da inspiração!
Ar livre, como se tem
Fora do ventre da mãe
Desligado do cordão!
Ar livre, sem restrições!
Ou há pulmões,
Ou não há!
Fechem as outras riquezas,
Mas tenham fartas as mesas
Do ar que a vida nos dá!
Miguel Torga, Cântico do Homem (1950), 3ª ed., Coimbra, 1954, pp. 14-16.

PS
340 hectares, ou 340 campos de futebol de biodiversidade rica, ou 3,4 quilómetros quadrados de paisagens belas, ou 34 mil quilos de oxigénio produzidos diariamente por pinheiros, zimbros, medronheiros, carrascos… É aqui, na Mata dos Medos (pronunciar médus), estendida sobre a Arriba Fóssil da Costa de Caparica, que, de vez em quando, venho abastecer-me do quinhão de ar bem oxigenado (um quilo diário é o suficiente para um humano), mistura revitalizante de resina da terra e salsugem atlântica.

Terra das Onças, Amapá

fotografia: pedro sousa | 5 agosto 2025

 






















Quem se aventura nos fundões da Amazónia deve saber ao que vai. Sobreviver aí significa sabedoria e sentido prático apurado para caçar e pescar, subir a palmeiras para colher açaí, preparar antídotos para a “peçonha” de certos bichos, desbravar caminhos na floresta cerrada, com a espingarda numa mão e a catana noutra, de noite e de dia. De todos os perigos, visíveis e ocultos, nenhum se compara ao do feitiço da selva, que se apodera do corpo e da alma como um vírus resistente. Não há forma de escapar incólume da experiência, sem marcas para a vida. Avaliadas as consequências, o que nos ensina a selva sobre nós próprios, sobre os outros, sobre o mundo? No regresso à civilização preparam-se as sínteses vindouras, com um desejo compulsivo de voltar a partir.

«Um caminhito, serpeando no barranco, ligava a sua cabana à velha piroga. Nos dias de boa disposição, ele embarcava e seguia rio acima ou rio abaixo, chape, chape, o remo preguiçoso espadanando a água, até que uma das margens oferecesse entrada para lago onde existisse piracucu. E quando os movimentos do peixe deixavam brilhar, num relâmpago, os aparentes rubis das suas escamas vermelhas, o caboclo soerguia-se, esguichava a saliva negra do tabaco que vinha mascando e despedia o arpão.»

«De longe a longe, uma palmeira muito esguia e clara subia, em arranco de foguete, para olhar a selva por cima do ondeado em que terminava todo o arvoredo. E eram, então, quatro palmas solitárias lá no alto, como se quisessem fugir dos homens – dos homens que, apesar de tudo, lhes iam roubar o cacho saboroso, de onde extraíam o açaí.»

«Dir-se-ia que a selva, como uma fera, aguardava há muitos milhares de anos a chegada de maravilhosa e incognoscível presa.»

«Adivinhava-se a luta desesperada de caules e ramos, ali onde dificilmente se encontrava um palmo de chão que não alimentasse vida triunfante. A selva dominava tudo. Não era o segundo reino, era o primeiro em força e categoria, tudo abandonando a um plano secundário. E o homem, simples transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele despotismo.»

«Nos recessos da selva, Alberto tinha visto lianas que pareciam serpentes e serpentes que dir-se-iam lianas. Vegetal ou animal, tudo quanto, lá em cima, se enlaçava de galho para galho, num verde limo escorreguento, sugeria o mesmo visco, o mesmo mundo de veneno e de pavor.»

Ferreira de Castro, A Selva (1930), 33ª edição, Guimarães & Companhia Editores, Lisboa, 1981, pp. 55, 95, 96, 106, 186.

Quinta da Esperança, Moura

fotografia: filipe sousa | 2 maio 2025

 

















Além de fotografias, colecciono textos sobre oliveiras. Este é o mais recente achado.

«Mas, desde Beja até Serpa e Moura, a árvore mais característica pela idade e porte, a que reveste a paisagem dum burel sombrio e lhe dá o seu ar de fundura concentrada, é a oliveira multicentenária e, porventura, em certos casos, mais que milenária. Densas e em fila, a perder de vista, correm à estrada para ver-nos passar. Os troncos, largos e atarracados, dilacerados de rasgões e cicatrizes, fenestrados em ogiva, dum lado ao outro, dividem-se às vezes em três, quatro e mais membros, apartados uns dos outros, como se outras tantas oliveiras se houvessem fundido numa única. Outras lembram feixes de grossas cordoalhas, que um pé de vento houvesse torcido com violência, gravando-se-lhes no cerne em voltas de espiral.»
Jaime Cortesão, Portugal – a Terra e o Homem (1966), Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 1987, p. 250.

Saint-Rémy-de-Provence

fotografia: filipe sousa | 26 setembro 2025

 






















Os acessos de loucura e a genialidade fulgurante.
A descida aos infernos e a subida ao sol glorioso.
A solidão do quarto e a evasão através das grades.
O quotidiano atormentado e a epifania e a salvação pela arte.
A desconsideração em vida e o reconhecimento póstumo.
Uma viagem às profundezas do ser, até onde a ambivalência humana pode levar.
Uma experiência e tanto ter visitado o asilo psiquiátrico de Saint Paul de Mausole, em Saint-Rémy-de-Provence, e entrado no quarto que lhe pertenceu entre 8 de Maio de 1889 e 16 de Maio de 1890.

Carta de Vincent van Gogh ao irmão Theo van Gogh, Saint-Rémy-de-Provence, quinta-feira, 9 Maio 1889
«(…)
Quero dizer-te que acho que fiz bem em vir para cá, porque ao ver a realidade da vida das diversas pessoas loucas ou perturbadas neste asilo, estou a perder o medo vago, o receio… E, aos poucos, posso começar a considerar a loucura como uma doença como qualquer outra. Além disso, a mudança de ambiente está a fazer-me bem, imagino.
Pelo que sei, o médico está inclinado a considerar o que tive como um ataque de natureza epiléptica. Mas não fiz nenhuma investigação.
Por acaso já recebeste a caixa com as pinturas? Estou curioso para saber se elas sofreram mais danos, sim ou não.
Tenho outras duas em andamento — íris violetas e um arbusto de lilás. Dois temas retirados do jardim.
A ideia do meu dever de trabalhar volta-me à cabeça com frequência, e acredito que todas as minhas faculdades para o trabalho voltarão rapidamente. É que o trabalho muitas vezes absorve-me tanto que penso que sempre serei distraído e desajeitado no resto da vida também. (…)»

Carta de Vincent van Gogh ao irmão Theo van Gogh, Saint-Rémy-de-Provence, quinta-feira, 23 Maio 1889
(...)
«Garanto-te que estou muito bem aqui e que, por enquanto, não vejo nenhum motivo para ir morar em Paris ou nos arredores. Tenho um pequeno quarto com papel de parede cinza-esverdeado e duas cortinas verde-água com desenhos de rosas muito claras, realçadas por finas linhas vermelho-sangue. Essas cortinas, provavelmente sobras de um homem rico falido e falecido, têm um desenho muito bonito. Provavelmente da mesma origem, há uma poltrona muito gasta, coberta com uma tapeçaria salpicada ao estilo de um Diaz ou um Monticelli, vermelho-acastanhado, rosa, branco cremoso, preto, azul miosótis e verde garrafa.
Através da janela com grades de ferro, consigo ver um quadrado de trigo num recinto, uma perspectiva ao estilo de Van Goyen, acima do qual vejo o sol nascer em toda a sua glória pela manhã. (…)
Desde que estou aqui, o jardim negligenciado, plantado com pinheiros altos sob os quais cresce relva alta e mal cuidada, misturada com várias ervas daninhas, tem-me dado trabalho suficiente, e, por isso, ainda não saí para fora.
No entanto, a paisagem de Saint-Rémy é muito bonita e, pouco a pouco, irei provavelmente fazer alguns passeios para a conhecer. Mas, ficando aqui, o médico naturalmente está em melhor posição para ver o que há de errado e, ouso esperar, ficará mais tranquilo para me deixar pintar.
(...)
É verdade que há alguns (pacientes) que estão numa condição mais grave, sejam eles sujos ou perigosos. Estes ficam noutro pátio. Agora tomo banho duas vezes por semana, durante duas horas. O meu estômago está infinitamente melhor do que há um ano; por isso só tenho de continuar, pelo que sei. Acho que vou gastar menos aqui do que noutro lugar, já que aqui ainda tenho trabalho a fazer, pois a natureza é linda.
A minha esperança é que, no final de um ano, saiba melhor do que agora o que posso fazer e o que quero. Então, aos poucos, surgirá uma ideia para recomeçar. Neste momento, voltar para Paris ou para qualquer outro lugar não me atrai de forma alguma. Sinto que estou no lugar certo aqui. Na minha opinião, o que aflige a maioria das pessoas que estão aqui há anos é uma extrema lassidão. Agora, o meu trabalho irá preservar-me disso até certo ponto. (…)»

Valence

fotografia: filipe sousa | 23 setembro 2025

 






















De regresso a Valence, à beira Ródano, voltada para os promontórios de Ardèche, onde começa o Mediterrâneo, a cultura da oliveira e do azeite.

«Para chegar por fim a Valence, onde tem início a mudança de sotaque: a gastronomia muda subitamente da nata para o azeite e para especiarias na dieta mais austera do Sul, com as primeiras azeitonas e amoras e o contraste trágico de uma árvore-de-judas em flor, a pincelada violeta brilhante única da árvore-de-judas.

(…)
Subitamente, o mediterrâneo começa a afirmar-se e o folclore tradicional provençal, o velho mecanismo turístico, dá sinal de si com os seus ciprestes e com os telhados de telha assada, com a sua hera e madressilva, os sicómoros e os plátanos serenos, traçando o curso de rios secretos escavados pelo movimento constante dos glaciares suíços na sua descida para o mar. Ródano!»

Lawrence Durell, A Sombra Infinita de César (Caeser’s Vast Ghost, 1999), trad. Sérgio Gonçalves, Edições Saídas de Emergência, Porto Salvo, pp. 23, 33. 

Rio Amaparí, Amapá

fotografia: pedro sousa | 2 agosto 2025

 






















A aldeia de Pedra Branca do Amaparí, no estado brasileiro de Amapá, é um pequeno oásis de civilização numa zona remota da Amazónia. Para ir daí para Terra das Onças – selvagem por natureza! - são precisos quarenta e cinco minutos a bordo de uma piroga com motor, serpenteando o rio Amaparí, um subafluente do Amazonas. «É seguir o rio (…) sem nunca o perder de vista. É muito fácil.»* Bem-vindos ao admirável mundo desconhecido da floresta virgem de Amapá, desligado de tudo e de todos, sem estradas de terra, electricidade, televisão, telefone ou redes sociais a perseguirem-nos. Mas, em contrapartida, chega-se com o espírito transbordante de possibilidades de encontrar aranhas, cobras, jacarés, onças, piranhas, insectos, calor, humidade, lama…, o que é uma felicidade imensa para o jovem aventureiro protagonista desta história. Afinal, não há nada melhor do que embarcar em viagens que prometem ser árduas e um salto no escuro. Se o destino fosse conhecido e amigável, qual o interesse de ir até lá? E, acima de tudo, há a experiência do sublime que resulta dessa provação e nos inspira a ser melhores – eis o seu lema.

«O nosso guia encontrou um rapaz que aceitou levar-nos pelo rio de piroga, uma espécie de canoa mais comprida. Acondicionadas com muita cautela, as nossas malas manejavam-se com facilidade. Partimos debaixo de uma chuva fraca que rapidamente se transformou em aguaceiro torrencial. O rapaz entregou-me um guarda-chuva e avisou-nos para não pormos os dedos dentro de água à volta do barco de madeira, que era bastante raso. Subitamente reparei que o rio estava repleto de pequenos peixes muito escuros. Piranhas! Ele riu-se quando retirei rapidamente a mão.»

Patty Smith, M Train (2015), trad. Helder Moura Pereira, Quetzal Editores, Lisboa, 2023, p. 23.

«E mais nada. O resto era a selva, com a sua vida sombria, ali pertinho, muito pertinho, fechando-o num anel estrangulador. Sentia-se-lhe a existência pesada, enigmática, numa vigília que dir-se-ia constante ameaça, um pânico jacente. Fatigados da muralha, os olhos tinham de procurar no céu um pouco de lonjura e de enlevo.»

Ferreira de Castro, A Selva (1930), 33ª edição, Guimarães & Companhia Editores, Lisboa, 1981, p. 119.

«68-205 Quando considero a pequena duração da minha vida, absorvida na eternidade que precede e na que segue, o pequeno espaço que ocupo e que vejo devorado pela imensidão infinita dos espaços que ignoro e que me ignoram, enche-me de terror e espanto achar-me aqui em vez de ali, porque não há razão alguma para estar aqui e não ali, agora e não outrora. Quem me pôs aqui? (...)»

Blaise Pascal, Pensamentos (Pensées, 1669), Publicações Europa-América, Mem Martins, 1978, p. 96.

Moura, rua 5 de Outubro

fotografia; filipe sousa | 23 setembro 2025

 






















Imagino que ser-se dono de uma casa antiga, de taipa, se assemelhe a ser-se dono de um automóvel histórico, de colecção. Em ambos os casos, a conservação é pesada e tem que se lhe diga. Eu que o diga, dono de uma dessas casas. Falando do carro, é preciso restaurar peças que já não se fabricam ou adquirir réplicas das peças originais; falando da casa de taipa, é preciso ir à procura de materiais compatíveis com a construção de terra, como a cal, enquanto tinta e base de argamassas, ou o óleo de linhaça para proteger o pavimento de terracota, as madeiras das coberturas, portas e janelas ou para hidratar a própria cal, no momento da sua extinção, conferindo às argamassas maior resistência, durabilidade e plasticidade.
Mas tão ou mais difícil do que arranjar as ditas peças ou os ditos materiais é encontrar um mecânico que dê garantias e faça bem o serviço ou um pedreiro digno desse nome, que não cometa o sacrilégio de rebocar paredes de taipa com cimento, com resultados desastrosos. À falta destes peritos, não me resta senão, referindo-me à casa, deitar mãos à obra, gretando-as do manuseio da cal, e seguir os mandamentos dessa bíblia a que volto sempre – Diálogos de edificação – técnicas tradicionais de construção* -, com concessões à criatividade e liberdade para fazer experiências q.b.
Depois do trabalho duro e paciente, sento-me finalmente, em paz comigo próprio, para desfrutar do prazer de habitar “a” casa, pelo tempo fora; um prazer tão sublime, calculo eu, como o de conduzir “o” automóvel, pela estrada fora.
É este o momento propício para citar Hassan Fathy e Jack Kerouac:

«Todas as construções eram bonitas de se ver. Fosse para homens, para burros ou para servir de armazéns, todas tinham o ritmo de curvas desejado que parecia surgir de si próprio quando se desenhava as abóbadas, mas que linhas direitas e tectos planos quase nunca reproduzem. (…) Dentro dos limites da resistência do material - a terra - e das leis da estática, o arquitecto encontra-se, de súbito, livre para modular o espaço com a sua construção, para inventar novos volumes e para devolver a esse espaço a ordem e o significado à escala humana, de tal forma que a sua casa já não terá necessidade de decorações adicionais. Os próprios elementos estruturais proporcionam um interesse visual infinito. A abóbada, a cúpula, as trompas e os pendentes, os arcos e as paredes proporcionam ao arquitecto um campo ilimitado de emaranhados racionais de linhas curvas vindas de todas as direcções, com passagens harmoniosas de uma para outra.»
Hassan Fathy, Arquitectura para os Pobres - uma experiência no Egipto rural (Arquitecture for the Poor, an experiment in rural Egypt, 1969), trad. Joana Pedroso Correia, Argumentum/Dinalivro, Lisboa, 2009, p. 25.

«Caía uma chuva miudinha e o ar estava misterioso, no início da nossa viagem. Pressentia que ia ser tudo uma grande saga de névoa.
-Uau! – gritou Dean – cá vamos nós!
E inclinou-se sobre o volante e acelerou bruscamente; estava outra vez no seu elemento, era visível para toda a gente. Sentíamo-nos todos nas nuvens, todos nos apercebemos de que deixávamos para trás a confusão e o absurdo e desempenhávamos a nossa única e nobre função do tempo: pôr-nos em movimento. E como nós nos deslocávamos!
(…)
Que sentimento é esse que temos quando vamos de carro e nos afastamos das pessoas e elas vão diminuindo de tamanho na planície até vermos as suas manchas dispersar? É o mundo demasiado grande a pesar-nos, é o adeus. Contudo, curvamo-nos avançando para a próxima louca aventura debaixo do céu.»
Jack Kerouac, Pela estrada fora (On the road, 1957), trad. Armanda Rodrigues e Margarida Vale de Gato, Relógio d’Água, Lisboa, 2011, pp. 145, 170.

Manaus

fotografia: rebeca souza | 13 julho 2025

 






















Escolho quatro frases lapidares de quatro escritores universais para legendar duas mãos cheias de fotografias que me foram enviadas da Amazónia. São palavras que ajudam a descrever o turbilhão de emoções que assaltam o rapaz embrenhado na selva. Conforta-me pensar que possam ser também guias de sobrevivência para o ajudar a enfrentar a vastidão, a solidão, a maravilha mas também o inóspito da maior floresta, eu ia dizer labirinto, do mundo. Porque toda a grande literatura digna desse nome é sempre reparadora, protectora, redentora*.

*Apraz-me saber que na mochila do rapaz viaja, para lá de necessidades prosaicas, da garrafa de água ao repelente de mosquitos, um desses amuletos: A Selva, de Ferreira de Castro, pois claro!«O que faço eu aqui?», a questão que Rimbaud se colocou na Etiópia.

«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo», a constatação de Flaubert acerca da fragilidade do viajante.

«Realmente, a Amazónia é a última página, ainda a escrever-se, do Génesis», ou como Euclides da Cunha sintetiza a natureza dinâmica e em constante transformação da Amazónia.

«Tudo selva, selva por toda a parte, fechando o horizonte na primeira curva do monstro líquido.», ou o assombro da vastidão, do incomensurável, que pesa e esmaga, nas palavras de Ferreira de Castro.

Berlin / Berlim, Hauptstrasse 157

fotografia: filipe sousa | 15 junho 2024

 

















Coroai-me de rosas
Coroai-me em verdade
De rosas.

Quero ter a hora
Nas mãos pagãmente
E leve,

Mal sentir a vida,
Mal sentir o sol
Sob ramos.

Coroai-me de rosas
E de folhas de hera
E basta.

Ricardo Reis, Poesia I, Odes, 12-6-1914, Fernando Pessoa, Obra completa de Ricardo Reis, ed. de Jerónimo e Jorge Uribe, Tinta-da-China, Lisboa, 2024, p. 45.

Les Mées, rue Clovis Picon

fotografia: filipe sousa | 23 maio 2025

 

















Não longe do sítio onde me encontro, Vicent van Gogh (1853-1890) deixou-se fascinar pelas oliveiras da Provença, a ponto de as imortalizar em quadros como "Oliveiras com Céu Amarelo e Sol" e "Olival com Céu Laranja", ambos de 1889. Estou na pequena aldeia de Lurs, construída sobre um afloramento rochoso a 621 metros de altitude, de onde se avista um vasto território da Alta-Provença, incluindo o vale do rio Durance, que se estende a meus pés.
É lá em baixo, sobretudo entre Lurs et Les Mées, que prospera a maior mancha de olival provençal, num total de cerca de cem mil árvores, muitas delas centenárias, embora também se encontrem à volta de Lurs e até dentro dela! Por aqui não há lugar a produtos químicos e as árvores, de troncos imponentes e retorcidos, são veneradas por olivicultores apaixonados pela sua terra, comprometidos com a defesa da paisagem, da cultura e da biodiversidade, como um pastor que cuida zelosamente das suas ovelhas e lhes conhece os nomes e os humores. O que faz com que passear por entre estas árvores com identidade seja um prazer indescritível e o azeite delas obtido, em lagares antigos, de uma grande pureza, atestada pelo selo AOP Bio Haute-Provence. Podemos saboreá-lo e adquiri-lo das mãos dos próprios produtores, nas explorações agrícolas ou nos mercados locais que se realizam regularmente na região, como o que visitei em Forcalquier.
Por aqui, o carácter estético, pedagógico e livre destas árvores reflecte a paixão do seu cuidador. A oliveira sente-se em casa na Provença. Ela faz parte da paisagem. Ela é a paisagem. E uma paisagem bela, como a que se avista a partir de Lurs, precisará sempre da mão generosa do homem.
A palavra a Jean Giono (1895-1970), o escritor provençal que cantou o amor às oliveiras e à cultura do azeite como mais nenhum:

«Nesta época de azeitonas. Não consigo pensar em nada mais épico.
Do ramo de aço cinzento ao pote de barro, a azeitona escorrega nas mãos, desce como uma torrente, acumula a sua água negra e pesada nos sótãos, e as velhas vigas gemem sob o seu peso durante a noite. Nas margens deste grande rio de frutos que corre, o nosso mundo inteiro canta.
É o tempo da colheita, o tempo em que se ordenha a árvore como se ordenha uma cabra, a mão agarrada ao ramo, o polegar no ar, e depois a pressão para baixo. Mas em vez de leite, é o azeite que corre.» (tradução livre)
Jean Giono, Poème de l’olive (1958), Éditions Gallimard, 1986, pp. 95-96.

Aix-en-Provence

fotografia: filipe sousa | 18 maio 2025

 






















Escala em Aix-en-Provence, porta de entrada para a luz provençal, que seduziu o mais dilecto dos seus filhos, Paul Cézanne (1839-1906). Aproveitámos a manhã para reviver os passos do pintor impressionista na capital da Provence e acabámos quase engolidos pelo mar de gente de todo o mundo que veio para participar e assistir à corrida Ironman 70.3. Um ambiente de verdadeira loucura, que tomou conta de Aix por umas boas horas.
Abalámos para Forcalquier ainda a prova não havia terminado.

«Mas nada consegue fazer jus à luz – nem câmara, nem pincel. (…) Estes céus – o azul ferido especial que por vezes encontramos nos céus de Mantegna – são exclusivos de Provença, pois não são gregos nem romanos.»

Lawrence Durell, A Sombra Infinita de César (Caeser’s Vast Ghost, 1999), trad. Sérgio Gonçalves, Edições Saídas de Emergência, Porto Salvo, p. 33.

«Quando estava em Aix, pensei que estaria melhor noutro lugar, mas agora que estou aqui, tenho saudades de Aix. Quando se nasce em Aix, tudo acaba, já nada significa para nós.»
Paul Cezanne

Arriba Fóssil da Costa de Caparica

fotografia: pedro sousa | 24 dezembro 2025















«Areia e céu, mar e céu. (...) E luz? E o prodígio da luz?... A gente está tão afeita à luz que não repara nela e trata como uma coisa conhecida e velha este azul que nos envolve e penetra e que desaba em torrentes sobre as águas verdes desmaiadas e sobre as terras amarelas e vermelhas até ao cabo Espichel...»

Raul Brandão, Os Pescadores (1923), Estante Editora, Aveiro, 1989, p. 165.


MAR SONORO

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do Mar (1947), Poemas escolhidos, Círculo de Leitores, Lisboa, 1981, p. 8.

Verona

fotografia: filipe sousa | 10 maio 2025























Do que fizeste a dor não te possua:
rosas têm picos, fontes de prata lama,
nuvens e eclipses turvam sol e lua,
no mais doce botão vil verme acama.
Os homens todos erram e eu segui-os
abonando-te a falta com perdão;
corrompo-me remindo os meus desvios,
mais erro é desculpá-los do que o são.
Se à falta dos sentidos dou sentido,
a parte a ti adversa é o defensor
e contra mim o pleito é dirigido,
eis em guerra civil meu ódio e amor
e tal que a ser um cúmplice me impele
de quem me é ladrão doce e cruel.

William Shakespeare, Os Sonetos, trad. Vasco Graça Moura, Bertrand Editora, Lisboa, 2002, p. 81.

Rimini, Piazza Cavour

fotografia: filipe sousa | 9 maio 2025

 





















Sete poemas

A mulher colhe rosas. De repente
toca o membro vivo dele, botão
cheio. Assusta-a a diferença, e num instante
esvaem-se nela os jardins [de Verão]

Reiner Maria Rilke, Momentos de Paixão, com desenhos de Auguste Rodin (1905?), trad. Isabel Castro Silva, João Barrento, José Miranda Justo, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2004, p.15.

Rio Amazonas

fotografia: pedro sousa | 18 julho 2025

 






















As fotografias e os vídeos da Amazónia continuam a chegar a conta-gotas, via WhatsApp, enviados da selva pelo rapaz aventureiro, que viaja por sua conta e risco.
Imagino que assistir ao nascer do sol no Amazonas seja uma daquelas experiências para a vida, sublimada pela beleza da luz e da paisagem, pela variedade de matizes que combinam cores frias e quentes espelhadas no céu e no rio, pelo «silêncio sinfónico» da natureza, de que nos fala Ferreira de Castro, n’A Selva. Assim, nos quatro dias e três noites que dura a viagem de 1.300 quilómetros entre Manaus e Macapá, na linha do Equador, o privilégio só pode ser a triplicar! Primeiro a bordo de um ferry, depois navegando num gaiola, após transbordo em Santarém, na foz do Tapajós; o que não muda mesmo é a rede espreguiçadeira suspensa no convés, que funciona como casa, quarto e cama de dormir, num espaço compartilhado com dezenas de outros passageiros. Ao longo do trajecto sucedem-se terras com nomes de vilas e cidades portuguesas: além de Santarém, passa-se por Silves, Óbidos, Nazaré, Alenquer, Almeirim…, entre topónimos de raíz indígena: Amatari, Itacoatiara, Jurupari, Arapucu, Parintins, Juruti… Quando não existem condições para acostagem nestas localidades ou para não atrasar a viagem já de si demorada, pessoas e mercadorias são baldeadas do ferry ou do gaiola em andamento para uma rabeta que surge do nada, espécie de canoa com motor à popa. De todos estes sortilégios é feita a magia do Amazonas.
E o que se seguirá ao desembarque em Macapá, capital do estado de Amapá? – pergunta-se. Ao que parece, nova incursão aos confins da selva, agora subindo o rio Amapari de canoa, em busca da chamada Terra das Onças, perto da fronteira com a Guiana francesa, um ponto perdido num mapa vegetal onde a capacidade de sobrevivência é posta à prova a todo o instante. Aqui, viajar é resistir!

Quem disse que a selva amazónica «obriga a alma a dobrar-se sobre si mesma» não podia estar mais certo.

«…adormecer embalado numa rede, sob a brisa tépida das noites amazonenses, devia ser regalo de truz, inesquecível por muito que se vivesse.»

Ferreira de Castro, A Selva (1930), 33ª edição, Guimarães & Companhia Editores, Lisboa, 1981, pp. 41-42.

Lurs

fotografia: filipe sousa | 21 maio 2025





























«Nesta época de azeitonas. Não consigo pensar em nada mais épico.
Do ramo de aço cinzento ao pote de barro, a azeitona escorrega nas mãos, desce como uma torrente, acumula a sua água negra e pesada nos sótãos, e as velhas vigas gemem sob o seu peso durante a noite. Nas margens deste grande rio de frutos que corre, o nosso mundo inteiro canta.
É o tempo da colheita, o tempo em que se ordenha a árvore como se ordenha uma cabra, a mão agarrada ao ramo, o polegar no ar, e depois a pressão para baixo. Mas em vez de leite, é o azeite que corre.» (tradução livre)
Jean Giono, Poème de l’olive (1958), Éditions Gallimard, 1986, pp. 95-96.

Forcalquier, Avenue du Professeur René Cassin

fotografia: filipe sousa | 23 maio 2025

 






















As “boules”, que incluem o jogo da petanca, são uma "instituição" muito francesa, e contam com um lídimo representante na Provença: a Association Bouliste Forcalquier. No outro dia, passei pelo terreiro de Cour des Artisans, durante e depois de partidas que se realizam habitualmente ao fim da tarde e atraem boulistes exímios da cidade, à procura dessa atmosfera especial tão bem captada pela arte de Lawrence Durrell (1912-1990) e Marcel Pagnol (1895-1974):

«O anisete (pastis) por toda a parte declara-se como o acompanhamento ideal para as meditações nocturnas dos jogadores de boules; não havia praça de aldeia no verão sem o tinido das pequenas bolas de aço, nenhuma aldeia sombria sem os seus boulistes embrenhados na austeridade socrática do silêncio entre lançamentos. O silêncio sagrado do bouliste está prenhe de futuridade, as suas convulsões e contorções quando as coisas correm mal são puro cinema primitivo; a imortalidade de Pagnol baseia-se num cuidadoso estudo dos originais gráficos, para ele disponíveis numa longa vida de participação em torneios de vilas e aldeolas.»

Lawrence Durell, A Sombra Infinita de César (Caeser’s Vast Ghost, 1999), trad. Sérgio Gonçalves, Edições Saídas de Emergência, Porto Salvo, p. 24.

Lisboa

fotografia: filipe sousa | 20 abril 2025

 






















O povo saiu à rua num dia assim.
25 de Abril, sempre!

«Uma bela partida. Ouvia-o dizer, enquanto no piso de cima os convidados riam, e eu própria senti vontade de rir, sobretudo em que o antigo embaixador quis lembrar-se do nome das flores que os portugueses em 1974 enfiavam no cano das espingardas e não lhe ocorria. Nós três, como se os nossos cérebros estivessem programados para o esquecimento simultâneo, empancámos na designação. Eu própria simulei estar esquecida. O anfitrião ficou suspenso. Perguntou – “Pois como se chamavam as flores?”
Sim, aquelas flores vermelhas?
Nenhum de nós se lembrava. Era inacreditável que os três soubéssemos que as páginas da pétala dessas flores eram dentadas, uma unha longa em pecíolo forte, que tinham sido oferecidas pelas floristas logo pela manhã do próprio dia 25, quando os insurrectos galgavam a Baixa, até o Bob sabia do caso, sabia que começara por ser a oferta de uma vendedeira quando a coluna sublevada fazia a volta em torno de uma praça, até ele sabia, e, no entanto, nenhum de nós se lembrava do nome da flor. Como é que você não sabe? Inquieto, o anfitrião confessava estar surpreendido por que a palavra não estivesse colada na minha cabeça, mas ele conhecia o processo, sabia que a distância geográfica e a mistura dos idiomas criam por vezes buracos inimagináveis na memória linguística da pessoa que migra. Uma questão de sinapses que se alucinam no aparelho cerebral quando se muda de língua. Sendo assim, pois que nome tinha aquela flor. O seu rosto estava corado. Era indecente. Como nos lembrávamos que se tratava de carnations? Red carnations? Disse em inglês.
Também o antigo embaixador sentia uma espécie de vexame.
Cravos, claro que eram cravos. How awful, it’s carnations, of course, dear Bob! Pois como não lhe tinha vindo o nome dessa planta à memória? Como não? E nesse instante, rodou a sua cadeira na minha direcção – “Sabe, Miss Machado, se regressar a Lisboa e procurar entre as pedras da calçada miudinha que lá existe por toda a parte, vai ver que ainda encontra os restos dessas flores, a única metralha de que se socorreu o seu povo para derrubar os velhos tipos, e também para se entenderem entre si.»
Lídia Jorge, Os Memoráveis (2014), Leya, Alfragide, 2018, pp. 21-22.

Porto

fotografia: filipe sousa | 23 fevereiro 2025

 





















«Quem percorrer o velho centro do Porto, ao lado do labirinto do antigo burgo medieval, espraiado aqui e além em belas ruas quinhentistas, e seguir depois, para lá desse primitivo núcleo, pelas antiquadas ruas irradiantes, seis, sete e oitocentistas – que representam o povoamento das estradas de acesso às portas da cidade, e o desenvolvimento do seu transbordar inicial além-muralhas -, é de entrada surpreendido apenas pela completa falta de uniformidade das casas que aí se encontram: casas de todos os feitios e tamanhos, cada qual de sua altura e cor, contíguas umas às outras, numa total confusão de formas, que parece condenar a fracasso qualquer tentativa de seriação.
Atentando-se porém um pouco melhor, logo algumas ideias gerais se vão definindo, que introduzem uma certa ordem nesse polimorfismo caprichoso, para lá da aparente diversidade, descobrem-se semelhanças essenciais…(…) vêem-se casas que, embora com um número variável de andares – na sua maioria com três ou quatro, fora os acréscimos, e não raro com cinco e mais, e com duas ou três janelas ou portas de frente, raramente com mais e às vezes só com uma – são todas elas uniformemente esguias, estreitas e altas, desenvolvendo-se, numa palavra, em solução vertical, e mostram um estilo comum de motivos, que afirma o seu parentesco (…)».
Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Gallhano, Arquitectura Tradicional Portuguesa (1992), 5ª ed., Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp. 310-311.

Porto

fotografia: filipe sousa | 23 fevereiro 2025
 

















«Álvaro Siza Vieira – Aqui estamos a ver a outra ponte, a D. Luís, interessantíssima! Esta sim, participa da vida urbana intensamente, não é só uma passagem, tem os dois tabuleiros e fixa, numa imagem, o que foi a grande transformação do Porto, nos finais do século XIX. Transformação que corresponde a uma série de factos: criação de infraestruturas novas e movimentos muito diferentes na cidade.»
Manuel Graça Dias, Ao Volante pela Cidade (dez entrevistas de arquitectura), Relógio d’Água Editores, Lisboa, 1999, p. 230.

Campo Alegre, Porto

fotografia: filipe sousa | 22 fevereiro 2025

 

















Quinta do Campo Alegre (Casa Andresen)
Jardim Botânico / Galeria da Biodiversidade
Porto
22.02.2025

Ela, a miúda do cabelo louro. Com uma cana na mão toca ao de leve na superfície do lago, aspergindo o jardim em volta com breves jactos de água. Fica maravilhada com o efeito produzido. E repete, e repete, sem se fartar. Ele, o miúdo com o mesmo tom palha no cabelo. Alheio ao que se passa à sua volta, indaga o fundo do lago com olhos de falcão. Que sortilégios procurará ele na escuridão, entre as raízes dos nenúfares: um pimpão, um cágado, um tritão, um duende, um anão, um tesouro? Nada disso? O que será então? Esses dois tomados pelo deslumbramento, imagino-os irmãos, primos, amigos, nórdicos, descendentes do Cavaleiro da Dinamarca…. Palavra que quando os vi não pude deixar de lembrar-me de Sophia e Ruben A. e das suas memórias de infância. E de como foram felizes neste mesmo paraíso, num passado já distante, «quando os dias eram compridos e se podia cismar», com os “joelhos deitados abaixo” das inúmeras subidas às árvores, correrias e trambolhões. Um mundo inesgotável de descoberta e encantamento pessoal, que acabou por marcar as obras de ambos e todos os que as leram. Já agora, o que farão as duas crianças louras com o capital de experiência deste dia? Que memórias guardarão para serem revividas, desfrutadas mais à frente? Seguirão as pisadas dos primos Andresen? Escreverão também eles os seus livros, como reflexos e prolongamentos do seu ser, das suas vidas, do seu tempo? Para que outras crianças se possam inspirar com as suas histórias e «aprenderem a aventura / de quebrar horizontes esbarrados / e avançar sem mapas à procura / do corpo e do desenho da verdade»? Este apontamento, tão exacto e veemente, poderá parecer inventado. Mas nunca nada é inventado, como diria Sophia.

«Esta casa desmedida, cheia de gente mas também cheia de lugares vazios e quartos desabitados e fechados, cheia de vozes, silêncios ressonâncias, mistérios, medos e encantações e assombros, aparece, assim como o jardim, o parque, o pinhal e a quinta, em muitos dos poemas e contos que ao longo dos anos escrevi. É a casa de Hans do conto «Saga», o jardim do Rapaz de Bronze. E, múltipla, a casa é também «um dos palácios do Minotauro» de que falo num dos meus poemas. É igualmente esta a casa que o meu primo Ruben A. descreve no seu livro O Mundo à Minha Procura: uma óptima descrição, tão exacta e veemente que poderá parecer inventada. Mas nunca nada é inventado.»

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Memórias de Sophia - Inéditos", Revista Ler, Dezembro 2012, nº 119.

«A casa e a Quinta do Campo Alegre pertencem hoje ao Estado. Aí foi instalado o Museu de Ciências Naturais da cidade do Porto e o Jardim Botânico. Percorri a casa e andei pela Quinta. Agradeço ao seu conservador as facilidades prodigalizadas para que esse mundo fabuloso se vivesse com mais intensidade ao contactar os quartos onde dormi, as salas onde passei natais seguidos, as ruas da Quinta que me conheceram nos fins de tarde, os recantos onde vivi dores de um lirismo exacerbado. Voltar ao Campo Alegre foi para mim qualquer coisa de enorme na vida, mais importante do que ir à Lua, ou andar em órbita à volta da Terra. (…) A ideia da grandeza do Campo Alegre hoje em dia já é difícil de formar para quem não se lembre do que era aquele território no seu apogeu. A mata da Quinta, o souto de castanheiros, os altos muros de camélias, os milheirais em vários andares, os campos, tudo foi sacrificado aos novos urbanismos, à auto-estrada que entra no Porto pela ponte da Arrábida. Para quem viaja de Lisboa, o Campo Alegre é aquele parque imenso que se depara logo à saída da ponte, e de onde sobressai uma construção monumental cheia de alicerces e uma clarabóia que tanta luz me incutiu.»

Ruben A., O Mundo à Minha Procura, vol. I (1964), Assírio & Alvim, Lisboa, 2020, p. 22.

Serralves, Porto

fotografia: filipe sousa | 22 fevereiro 2025

 

















«Álvaro Siza Vieira - Estamos aqui, em frente ao portão da Casa de Serralves, uma casa construída no final dos anos 40, mandada construir por um industrial iluminado, um industrial culto! É uma magnífica residência art déco, com um parque que engloba um jardim clássico, uma mata, instalações agrícolas; isto, em boa hora, foi comprado pelo Governo e aqui vai-se construir, num terreno anexo, o Museu de Arte Contemporânea. Foi uma grande sorte ter-se salvo este parque no meio da cidade; estava, em determinada altura, condenado a ser, parcialmente, loteado. Manteve-se a unidade, o conjunto da quinta, e é também um núcleo de actividade cultural de grande importância.»
Manuel Graça Dias, Ao Volante pela Cidade (dez entrevistas de arquitectura), Relógio d’Água Editores, Lisboa, 1999, pp. 242-243.
«Aqui encontrei o meu porto de abrigo.»
Álvaro Siza Vieira sobre Serralves (revista Visão, 28.10.2023).