lugares de passagem
Venezia / Veneza
Rimini
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| fotografia. filipe sousa | 21 abril 2026 |
Seria arriscado adiantar que os primeiros habitantes da Laguna vieram aí estabelecer-se guiados pelos Evangelhos. Sabe-se, no entanto, que todo o Adriático viria a chamar-se a breve trecho Golfo de Veneza. Assim o designariam amigos e inimigos da Sereníssima.»
Pedrag Matvejevitch, A Outra Veneza (L'Autre Venise, 2004), trad. Antonio Sabler, Quetzal Editores, Lisboa, 2022, p. 59.
Dresden, Großer Garten
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| fotografia: filipe sousa | 11 junho 2024 |
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Nada me ajudou mais a compreender os fenómenos naturais do que os dois signos herméticos que significam o ar e a água e depois, modificados por uma barra que de algum modo abranda a força, simbolizam o fogo, menos livre, ligado à matéria lenhosa ou ao óleo fóssil, a terra de partículas espessas e moles. A árvore inclui no seu hieróglifo os quatro. Agarrada ao solo, alimentada de ar e água, sobe no entanto para o céu como uma chama; é chama verde antes de acabar um dia, chama vermelha, nas chaminés, nos incêndios de floresta e nas fogueiras. Pertence, pelo seu porte vertical, ao mundo das formas que se elevam e, como a água que a alimenta, ao das formas que, deixadas a si próprias, regressam ao solo.
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Signo hermético do ar, triângulo vazio apontando para o alto. Pelos dias calmos, a pirâmide verde da árvore sustém-se no ar em perfeito equilíbrio. Em dias de vento, os ramos agitados esboçam o começo de um voo.
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Signo hermético da terra, triângulo apontando para baixo, mas que uma barra sustém na sua queda. Torrão de terra sólido quando nem a gravitação, nem o vento, nem o pontapé de um passante intervém.
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Que haverá de mais belo do que esta estátua suplicante de Rodin em que o homem que reza estende os braços e se alonga como uma árvore. Decerto a árvore reza à luz divina.
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As raízes enterradas no solo, os ramos protectores dos esquilos brincalhões, do ninho e da chilreada dos pássaros, a sombra dada aos animais e aos homens, a cabeça em pleno céu. Haverá mais sábia e benéfica maneira de existir?
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Daí o movimento de revolta perante o lenhador e o horror mil vezes maior diante da serra mecânica. Abater e matar aquilo que não pode fugir.
O teu corpo composto – três quartos de água, mais um punhado de minerais terrestres. E essa grande chama em ti de que desconheces a natureza. E, nos teus pulmões, sorvido e libertado sem cessar no teu tórax, o ar, esse belo estrangeiro, sem quem não podes viver.»
Marguerite Yourcenar, O Tempo, Esse Grande Escultor (Le Temps, ce grand sculpteur, 1983), trad. Helena Vaz da Silva, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2020, pp. 175-178.
Mata dos Medos
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| filipe sousa | 21 novembro 2025 |
Amapá, Terra das Onças
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| fotografia: pedro sousa | 5 agosto 2025 |
«De longe a longe, uma palmeira muito esguia e clara subia, em arranco de foguete, para olhar a selva por cima do ondeado em que terminava todo o arvoredo. E eram, então, quatro palmas solitárias lá no alto, como se quisessem fugir dos homens – dos homens que, apesar de tudo, lhes iam roubar o cacho saboroso, de onde extraíam o açaí.»
«Dir-se-ia que a selva, como uma fera, aguardava há muitos milhares de anos a chegada de maravilhosa e incognoscível presa.»
«Adivinhava-se a luta desesperada de caules e ramos, ali onde dificilmente se encontrava um palmo de chão que não alimentasse vida triunfante. A selva dominava tudo. Não era o segundo reino, era o primeiro em força e categoria, tudo abandonando a um plano secundário. E o homem, simples transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele despotismo.»
«Nos recessos da selva, Alberto tinha visto lianas que pareciam serpentes e serpentes que dir-se-iam lianas. Vegetal ou animal, tudo quanto, lá em cima, se enlaçava de galho para galho, num verde limo escorreguento, sugeria o mesmo visco, o mesmo mundo de veneno e de pavor.»
Ferreira de Castro, A Selva (1930), 33ª edição, Guimarães & Companhia Editores, Lisboa, 1981, pp. 55, 95, 96, 106, 186.
Moura, Quinta da Esperança
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| fotografia: filipe sousa | 2 maio 2025 |
Saint-Rémy-de-Provence
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| fotografia: filipe sousa | 26 setembro 2025 |
Valence
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| fotografia: filipe sousa | 23 setembro 2025 |
De regresso a Valence, à beira Ródano, voltada para os promontórios de Ardèche, onde começa o Mediterrâneo, a cultura da oliveira e do azeite.
«Para chegar por fim a Valence, onde tem início a mudança de sotaque: a gastronomia muda subitamente da nata para o azeite e para especiarias na dieta mais austera do Sul, com as primeiras azeitonas e amoras e o contraste trágico de uma árvore-de-judas em flor, a pincelada violeta brilhante única da árvore-de-judas.
(…)
Subitamente, o mediterrâneo começa a afirmar-se e o folclore tradicional provençal, o velho mecanismo turístico, dá sinal de si com os seus ciprestes e com os telhados de telha assada, com a sua hera e madressilva, os sicómoros e os plátanos serenos, traçando o curso de rios secretos escavados pelo movimento constante dos glaciares suíços na sua descida para o mar. Ródano!»
Lawrence Durell, A Sombra Infinita de César (Caeser’s Vast Ghost, 1999), trad. Sérgio Gonçalves, Edições Saídas de Emergência, Porto Salvo, pp. 23, 33.
Amapá, Rio Amaparí
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| fotografia: pedro sousa | 2 agosto 2025 |
Moura, rua 5 de Outubro
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| fotografia; filipe sousa | 23 setembro 2025 |
Manaus
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| fotografia: rebeca souza | 13 julho 2025 |
«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo», a constatação de Flaubert acerca da fragilidade do viajante.
«Realmente, a Amazónia é a última página, ainda a escrever-se, do Génesis», ou como Euclides da Cunha sintetiza a natureza dinâmica e em constante transformação da Amazónia.
«Tudo selva, selva por toda a parte, fechando o horizonte na primeira curva do monstro líquido.», ou o assombro da vastidão, do incomensurável, que pesa e esmaga, nas palavras de Ferreira de Castro.
Berlin / Berlim, Hauptstrasse 157
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| fotografia: filipe sousa | 15 junho 2024 |
Coroai-me de rosas
Coroai-me em verdade
De rosas.
Quero ter a hora
Nas mãos pagãmente
E leve,
Mal sentir a vida,
Mal sentir o sol
Sob ramos.
Coroai-me de rosas
E de folhas de hera
E basta.
Ricardo Reis, Poesia I, Odes, 12-6-1914, Fernando Pessoa, Obra completa de Ricardo Reis, ed. de Jerónimo e Jorge Uribe, Tinta-da-China, Lisboa, 2024, p. 45.
Les Mées, rue Clovis Picon
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| fotografia: filipe sousa | 23 maio 2025 |
Aix-en-Provence
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| fotografia: filipe sousa | 18 maio 2025 |
Arriba Fóssil da Costa de Caparica
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| fotografia: pedro sousa | 24 dezembro 2025 |
«Areia e céu, mar e céu. (...) E luz? E o prodígio da luz?... A gente está tão afeita à luz que não repara nela e trata como uma coisa conhecida e velha este azul que nos envolve e penetra e que desaba em torrentes sobre as águas verdes desmaiadas e sobre as terras amarelas e vermelhas até ao cabo Espichel...»
Raul Brandão, Os Pescadores (1923), Estante Editora, Aveiro, 1989, p. 165.
MAR SONORO
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do Mar (1947), Poemas escolhidos, Círculo de Leitores, Lisboa, 1981, p. 8.
Verona
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| fotografia: filipe sousa | 10 maio 2025 |
rosas têm picos, fontes de prata lama,
nuvens e eclipses turvam sol e lua,
no mais doce botão vil verme acama.
Os homens todos erram e eu segui-os
abonando-te a falta com perdão;
corrompo-me remindo os meus desvios,
mais erro é desculpá-los do que o são.
Se à falta dos sentidos dou sentido,
a parte a ti adversa é o defensor
e contra mim o pleito é dirigido,
eis em guerra civil meu ódio e amor
e tal que a ser um cúmplice me impele
de quem me é ladrão doce e cruel.
William Shakespeare, Os Sonetos, trad. Vasco Graça Moura, Bertrand Editora, Lisboa, 2002, p. 81.
Rimini, Piazza Cavour
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| fotografia: filipe sousa | 9 maio 2025 |
Sete poemas
toca o membro vivo dele, botão
cheio. Assusta-a a diferença, e num instante
esvaem-se nela os jardins [de Verão]
Reiner Maria Rilke, Momentos de Paixão, com desenhos de Auguste Rodin (1905?), trad. Isabel Castro Silva, João Barrento, José Miranda Justo, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2004, p.15.
Rio Amazonas
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| fotografia: pedro sousa | 18 julho 2025 |
Quem disse que a selva amazónica «obriga a alma a dobrar-se sobre si mesma» não podia estar mais certo.
«…adormecer embalado numa rede, sob a brisa tépida das noites amazonenses, devia ser regalo de truz, inesquecível por muito que se vivesse.»
Ferreira de Castro, A Selva (1930), 33ª edição, Guimarães & Companhia Editores, Lisboa, 1981, pp. 41-42.
Lurs
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| fotografia: filipe sousa | 21 maio 2025 |
Forcalquier, Avenue du Professeur René Cassin
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| fotografia: filipe sousa | 23 maio 2025 |
Lawrence Durell, A Sombra Infinita de César (Caeser’s Vast Ghost, 1999), trad. Sérgio Gonçalves, Edições Saídas de Emergência, Porto Salvo, p. 24.
Lisboa
| fotografia: filipe sousa | 20 abril 2025 |













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