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| fotografia: pedro sousa | 18 julho 2025 |
As fotografias e os vídeos da Amazónia continuam a chegar a conta-gotas, via WhatsApp, enviados da selva pelo rapaz aventureiro, que viaja por sua conta e risco.
Imagino que assistir ao nascer do sol no Amazonas seja uma daquelas experiências para a vida, sublimada pela beleza da luz e da paisagem, pela variedade de matizes que combinam cores frias e quentes espelhadas no céu e no rio, pelo «silêncio sinfónico» da natureza, de que nos fala Ferreira de Castro, n’A Selva. Assim, nos quatro dias e três noites que dura a viagem de 1.300 quilómetros entre Manaus e Macapá, na linha do Equador, o privilégio só pode ser a triplicar! Primeiro a bordo de um ferry, depois navegando num gaiola, após transbordo em Santarém, na foz do Tapajós; o que não muda mesmo é a rede espreguiçadeira suspensa no convés, que funciona como casa, quarto e cama de dormir, num espaço compartilhado com dezenas de outros passageiros. Ao longo do trajecto sucedem-se terras com nomes de vilas e cidades portuguesas: além de Santarém, passa-se por Silves, Óbidos, Nazaré, Alenquer, Almeirim…, entre topónimos de raíz indígena: Amatari, Itacoatiara, Jurupari, Arapucu, Parintins, Juruti… Quando não existem condições para acostagem nestas localidades ou para não atrasar a viagem já de si demorada, pessoas e mercadorias são baldeadas do ferry ou do gaiola em andamento para uma rabeta que surge do nada, espécie de canoa com motor à popa. De todos estes sortilégios é feita a magia do Amazonas.
E o que se seguirá ao desembarque em Macapá, capital do estado de Amapá? – pergunta-se. Ao que parece, nova incursão aos confins da selva, agora subindo o rio Amapari de canoa, em busca da chamada Terra das Onças, perto da fronteira com a Guiana francesa, um ponto perdido num mapa vegetal onde a capacidade de sobrevivência é posta à prova a todo o instante. Aqui, viajar é resistir!
Quem disse que a selva amazónica «obriga a alma a dobrar-se sobre si mesma» não podia estar mais certo.
«…adormecer embalado numa rede, sob a brisa tépida das noites amazonenses, devia ser regalo de truz, inesquecível por muito que se vivesse.»
Ferreira de Castro, A Selva (1930), 33ª edição, Guimarães & Companhia Editores, Lisboa, 1981, pp. 41-42.
