Dresden, Großer Garten

fotografia: filipe sousa | 11 junho 2024

 






















«Um jardineiro faz-me notar que é no Outono que vemos a verdadeira cor das árvores. Na Primavera, a abundância de clorofila veste-as a todas com uma libré verde. Chegado Setembro, elas mostram-se cobertas das suas cores próprias, a bétula loira ou doirada, o bordo amarelo-laranja-vermelho, o carvalho cor de bronze e ferro.
 
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Nada me ajudou mais a compreender os fenómenos naturais do que os dois signos herméticos que significam o ar e a água e depois, modificados por uma barra que de algum modo abranda a força, simbolizam o fogo, menos livre, ligado à matéria lenhosa ou ao óleo fóssil, a terra de partículas espessas e moles. A árvore inclui no seu hieróglifo os quatro. Agarrada ao solo, alimentada de ar e água, sobe no entanto para o céu como uma chama; é chama verde antes de acabar um dia, chama vermelha, nas chaminés, nos incêndios de floresta e nas fogueiras. Pertence, pelo seu porte vertical, ao mundo das formas que se elevam e, como a água que a alimenta, ao das formas que, deixadas a si próprias, regressam ao solo.
 
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Signo hermético do ar, triângulo vazio apontando para o alto. Pelos dias calmos, a pirâmide verde da árvore sustém-se no ar em perfeito equilíbrio. Em dias de vento, os ramos agitados esboçam o começo de um voo.
 
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Signo hermético da terra, triângulo apontando para baixo, mas que uma barra sustém na sua queda. Torrão de terra sólido quando nem a gravitação, nem o vento, nem o pontapé de um passante intervém.
 
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Que haverá de mais belo do que esta estátua suplicante de Rodin em que o homem que reza estende os braços e se alonga como uma árvore. Decerto a árvore reza à luz divina.
 
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As raízes enterradas no solo, os ramos protectores dos esquilos brincalhões, do ninho e da chilreada dos pássaros, a sombra dada aos animais e aos homens, a cabeça em pleno céu. Haverá mais sábia e benéfica maneira de existir?
 
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Daí o movimento de revolta perante o lenhador e o horror mil vezes maior diante da serra mecânica. Abater e matar aquilo que não pode fugir.

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O teu corpo composto – três quartos de água, mais um punhado de minerais terrestres. E essa grande chama em ti de que desconheces a natureza. E, nos teus pulmões, sorvido e libertado sem cessar no teu tórax, o ar, esse belo estrangeiro, sem quem não podes viver.»
 
Marguerite Yourcenar, O Tempo, Esse Grande Escultor (Le Temps, ce grand sculpteur, 1983), trad. Helena Vaz da Silva, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2020, pp. 175-178.

Mata dos Medos

filipe sousa | 21 novembro 2025

 

















Que, em 2026, não nos falte o oxigénio, o ar puro, o ar respirável para desempoeirarmos a alma, arejarmos toda a casa empestada (a própria dor arejada), para arrombarmos a janela e gritarmos a plenos pulmões: Ar livre, sem restrições!

AR LIVRE
Ar livre, que não respiro!
Ou são pela asfixia?
Miséria de cobardia
Que não arromba a janela
Da sala onde a fantasia
Estiola e fica amarela!
Ar livre, digo-vos eu!
Ou estamos nalgum museu
De manequins de cartão?
Abaixo! E ninguém se importe!
Antes o caos que a morte...
De par em par, pois então?!
Ar livre! Correntes de ar
Por toda a casa empestada!
(Vendavais na terra inteira,
A própria dor arejada,
- E nós nesta borralheira
De estufa calafetada!)
Ar livre! Que ninguém canta
Com a corda na garganta,
Tolhido da inspiração!
Ar livre, como se tem
Fora do ventre da mãe
Desligado do cordão!
Ar livre, sem restrições!
Ou há pulmões,
Ou não há!
Fechem as outras riquezas,
Mas tenham fartas as mesas
Do ar que a vida nos dá!
Miguel Torga, Cântico do Homem (1950), 3ª ed., Coimbra, 1954, pp. 14-16.

PS
340 hectares, ou 340 campos de futebol de biodiversidade rica, ou 3,4 quilómetros quadrados de paisagens belas, ou 34 mil quilos de oxigénio produzidos diariamente por pinheiros, zimbros, medronheiros, carrascos… É aqui, na Mata dos Medos (pronunciar médus), estendida sobre a Arriba Fóssil da Costa de Caparica, que, de vez em quando, venho abastecer-me do quinhão de ar bem oxigenado (um quilo diário é o suficiente para um humano), mistura revitalizante de resina da terra e salsugem atlântica.