Mata dos Medos

filipe sousa | 21 novembro 2025

 

















Que, em 2026, não nos falte o oxigénio, o ar puro, o ar respirável para desempoeirarmos a alma, arejarmos toda a casa empestada (a própria dor arejada), para arrombarmos a janela e gritarmos a plenos pulmões: Ar livre, sem restrições!

AR LIVRE
Ar livre, que não respiro!
Ou são pela asfixia?
Miséria de cobardia
Que não arromba a janela
Da sala onde a fantasia
Estiola e fica amarela!
Ar livre, digo-vos eu!
Ou estamos nalgum museu
De manequins de cartão?
Abaixo! E ninguém se importe!
Antes o caos que a morte...
De par em par, pois então?!
Ar livre! Correntes de ar
Por toda a casa empestada!
(Vendavais na terra inteira,
A própria dor arejada,
- E nós nesta borralheira
De estufa calafetada!)
Ar livre! Que ninguém canta
Com a corda na garganta,
Tolhido da inspiração!
Ar livre, como se tem
Fora do ventre da mãe
Desligado do cordão!
Ar livre, sem restrições!
Ou há pulmões,
Ou não há!
Fechem as outras riquezas,
Mas tenham fartas as mesas
Do ar que a vida nos dá!
Miguel Torga, Cântico do Homem (1950), 3ª ed., Coimbra, 1954, pp. 14-16.

PS
340 hectares, ou 340 campos de futebol de biodiversidade rica, ou 3,4 quilómetros quadrados de paisagens belas, ou 34 mil quilos de oxigénio produzidos diariamente por pinheiros, zimbros, medronheiros, carrascos… É aqui, na Mata dos Medos (pronunciar médus), estendida sobre a Arriba Fóssil da Costa de Caparica, que, de vez em quando, venho abastecer-me do quinhão de ar bem oxigenado (um quilo diário é o suficiente para um humano), mistura revitalizante de resina da terra e salsugem atlântica.