Porto, Campo Alegre

fotografia: filipe sousa | 22 fevereiro 2025

 

















Quinta do Campo Alegre (Casa Andresen)
Jardim Botânico / Galeria da Biodiversidade
Porto
22.02.2025

Ela, a miúda do cabelo louro. Com uma cana na mão toca ao de leve na superfície do lago, aspergindo o jardim em volta com breves jactos de água. Fica maravilhada com o efeito produzido. E repete, e repete, sem se fartar. Ele, o miúdo com o mesmo tom palha no cabelo. Alheio ao que se passa à sua volta, indaga o fundo do lago com olhos de falcão. Que sortilégios procurará ele na escuridão, entre as raízes dos nenúfares: um pimpão, um cágado, um tritão, um duende, um anão, um tesouro? Nada disso? O que será então? Esses dois tomados pelo deslumbramento, imagino-os irmãos, primos, amigos, nórdicos, descendentes do Cavaleiro da Dinamarca…. Palavra que quando os vi não pude deixar de lembrar-me de Sophia e Ruben A. e das suas memórias de infância. E de como foram felizes neste mesmo paraíso, num passado já distante, «quando os dias eram compridos e se podia cismar», com os “joelhos deitados abaixo” das inúmeras subidas às árvores, correrias e trambolhões. Um mundo inesgotável de descoberta e encantamento pessoal, que acabou por marcar as obras de ambos e todos os que as leram. Já agora, o que farão as duas crianças louras com o capital de experiência deste dia? Que memórias guardarão para serem revividas, desfrutadas mais à frente? Seguirão as pisadas dos primos Andresen? Escreverão também eles os seus livros, como reflexos e prolongamentos do seu ser, das suas vidas, do seu tempo? Para que outras crianças se possam inspirar com as suas histórias e «aprenderem a aventura / de quebrar horizontes esbarrados / e avançar sem mapas à procura / do corpo e do desenho da verdade»? Este apontamento, tão exacto e veemente, poderá parecer inventado. Mas nunca nada é inventado, como diria Sophia.

«Esta casa desmedida, cheia de gente mas também cheia de lugares vazios e quartos desabitados e fechados, cheia de vozes, silêncios ressonâncias, mistérios, medos e encantações e assombros, aparece, assim como o jardim, o parque, o pinhal e a quinta, em muitos dos poemas e contos que ao longo dos anos escrevi. É a casa de Hans do conto «Saga», o jardim do Rapaz de Bronze. E, múltipla, a casa é também «um dos palácios do Minotauro» de que falo num dos meus poemas. É igualmente esta a casa que o meu primo Ruben A. descreve no seu livro O Mundo à Minha Procura: uma óptima descrição, tão exacta e veemente que poderá parecer inventada. Mas nunca nada é inventado.»

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Memórias de Sophia - Inéditos", Revista Ler, Dezembro 2012, nº 119.

«A casa e a Quinta do Campo Alegre pertencem hoje ao Estado. Aí foi instalado o Museu de Ciências Naturais da cidade do Porto e o Jardim Botânico. Percorri a casa e andei pela Quinta. Agradeço ao seu conservador as facilidades prodigalizadas para que esse mundo fabuloso se vivesse com mais intensidade ao contactar os quartos onde dormi, as salas onde passei natais seguidos, as ruas da Quinta que me conheceram nos fins de tarde, os recantos onde vivi dores de um lirismo exacerbado. Voltar ao Campo Alegre foi para mim qualquer coisa de enorme na vida, mais importante do que ir à Lua, ou andar em órbita à volta da Terra. (…) A ideia da grandeza do Campo Alegre hoje em dia já é difícil de formar para quem não se lembre do que era aquele território no seu apogeu. A mata da Quinta, o souto de castanheiros, os altos muros de camélias, os milheirais em vários andares, os campos, tudo foi sacrificado aos novos urbanismos, à auto-estrada que entra no Porto pela ponte da Arrábida. Para quem viaja de Lisboa, o Campo Alegre é aquele parque imenso que se depara logo à saída da ponte, e de onde sobressai uma construção monumental cheia de alicerces e uma clarabóia que tanta luz me incutiu.»

Ruben A., O Mundo à Minha Procura, vol. I (1964), Assírio & Alvim, Lisboa, 2020, p. 22.

Porto, Serralves

fotografia: filipe sousa | 22 fevereiro 2025

 

















«Álvaro Siza Vieira - Estamos aqui, em frente ao portão da Casa de Serralves, uma casa construída no final dos anos 40, mandada construir por um industrial iluminado, um industrial culto! É uma magnífica residência art déco, com um parque que engloba um jardim clássico, uma mata, instalações agrícolas; isto, em boa hora, foi comprado pelo Governo e aqui vai-se construir, num terreno anexo, o Museu de Arte Contemporânea. Foi uma grande sorte ter-se salvo este parque no meio da cidade; estava, em determinada altura, condenado a ser, parcialmente, loteado. Manteve-se a unidade, o conjunto da quinta, e é também um núcleo de actividade cultural de grande importância.»
Manuel Graça Dias, Ao Volante pela Cidade (dez entrevistas de arquitectura), Relógio d’Água Editores, Lisboa, 1999, pp. 242-243.
«Aqui encontrei o meu porto de abrigo.»
Álvaro Siza Vieira sobre Serralves (revista Visão, 28.10.2023).

Porto, Foz do Douro

fotografia: filipe sousa | 22 fevereiro 2025

 

















«A Foz é para mim a Corguinha, o castelo e o Monte com o rio da Vila a atravessá-lo, e a Rua da Cerca até ao farol. O que está para lá não existe… Só me interessa a vila de pescadores e marítimos que cresceu naturalmente como um ser, adaptando-se pouco a pouco à vida do mar largo. (…)
As casas, limpas como o convés de um navio, espreitavam para o mar, umas por cima das outras. Todas tinham um grande óculo de engonços, para ver o iate ou a barca que partia, ou para procurar ansiosamente, lá no fundo, o navio que trazia a bordo o marido ou o filho ausente, e um mastro no quintal para lhes acenar pela derradeira vez. Meu avô materno partiu um dia no seu lugre; minha avó Margarida esperou-o desde os vinte anos até à morte, desde os cabelos loiros que lhe chegavam aos pés, até aos cabelos brancos com que foi para o túmulo. Quando os rolos de espuma rebramiam no Cabedelo, apertavam-se os corações no peito, e à luz da candeia rezavam horas esquecidas «pelos que andam sobre as águas do mar».»
Raul Brandão*, Os Pescadores (1923), Estante Editora, Aveiro, 1989, pp. 27-28.
*(1867-1930) nasceu na Foz do Douro, onde passou a sua infância e juventude.
«Muita gente vinha do Porto, de madrugada, tomava banho e regressava à cidade. Este serviço era em grande parte feito pelos carroções, um dos mais extraordinários inventos do espírito portuense, aplicado à locomoção. (…)
Além das famílias que iam à Foz de carroção, havia as pessoas que iam em burros. Ao pé de Sobreiras parava tudo para desaguar o gado e para os homens comerem.
Ninguém fazia o trajecto de ida e volta à Foz em menos de seis a oito horas, compreendido o tempo do banho.»
Ramalho Ortigão*, As praias de Portugal – Guia do banhista e do viajante (1876), Frenesi, Lisboa, pp. 33, 37.
*(1836-1915) nascido em Santo Ildefonso, era frequentador assíduo da Foz do Douro.

Vila do Conde, Caxinas

fotografia: filipe sousa | 21 fevereiro 2025

 
















«Começam a vir os nevoeiros compactos, que se metem pelas narinas e cheiram a mar e a fumo. Há-os que têm léguas de espessura e levam dias a passar, coortes desordenadas de fantasmas enchendo todo o horizonte. (...) Cerração cada vez mais mole e espessa... Só a voz se ouve, e o lamento parece vir de mais longe e de mais fundo.»
Raul Brandão, Os Pescadores (1923), Estante Editora, Aveiro, 1989, p. 60.

Porto, Ribeira

fotografia: filipe sousa | 20 fevereiro 2025

 
















(...)
«Ali, o cais da Ribeira, os rostos, as vozes, os gritos, os gestos. Uma beleza funda, grave, rude e rouca. Escadas, arcadas, ruelas abrindo um rosto emergindo do fundo do mar da vida.» (...)
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Nasci no Porto, Memórias de Sophia - Inéditos", Revista Ler, Dezembro 2012, nº 119.