Porto, Foz do Douro

fotografia: filipe sousa | 22 fevereiro 2025

 

















«A Foz é para mim a Corguinha, o castelo e o Monte com o rio da Vila a atravessá-lo, e a Rua da Cerca até ao farol. O que está para lá não existe… Só me interessa a vila de pescadores e marítimos que cresceu naturalmente como um ser, adaptando-se pouco a pouco à vida do mar largo. (…)
As casas, limpas como o convés de um navio, espreitavam para o mar, umas por cima das outras. Todas tinham um grande óculo de engonços, para ver o iate ou a barca que partia, ou para procurar ansiosamente, lá no fundo, o navio que trazia a bordo o marido ou o filho ausente, e um mastro no quintal para lhes acenar pela derradeira vez. Meu avô materno partiu um dia no seu lugre; minha avó Margarida esperou-o desde os vinte anos até à morte, desde os cabelos loiros que lhe chegavam aos pés, até aos cabelos brancos com que foi para o túmulo. Quando os rolos de espuma rebramiam no Cabedelo, apertavam-se os corações no peito, e à luz da candeia rezavam horas esquecidas «pelos que andam sobre as águas do mar».»
Raul Brandão*, Os Pescadores (1923), Estante Editora, Aveiro, 1989, pp. 27-28.
*(1867-1930) nasceu na Foz do Douro, onde passou a sua infância e juventude.
«Muita gente vinha do Porto, de madrugada, tomava banho e regressava à cidade. Este serviço era em grande parte feito pelos carroções, um dos mais extraordinários inventos do espírito portuense, aplicado à locomoção. (…)
Além das famílias que iam à Foz de carroção, havia as pessoas que iam em burros. Ao pé de Sobreiras parava tudo para desaguar o gado e para os homens comerem.
Ninguém fazia o trajecto de ida e volta à Foz em menos de seis a oito horas, compreendido o tempo do banho.»
Ramalho Ortigão*, As praias de Portugal – Guia do banhista e do viajante (1876), Frenesi, Lisboa, pp. 33, 37.
*(1836-1915) nascido em Santo Ildefonso, era frequentador assíduo da Foz do Douro.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.