Olhos de Água

fotografia: filipe sousa | 23 dezembro 2022

 


















Mar camaleónico.

«O mar às vezes parece um véu diáfano, outras pó verde. Às vezes é dum azul transparente, outras cobalto. Ou não tem consistência e é céu, ou é confusão e cólera. De manhã desvanece-se, de tarde sonha. E há dias de nevoeiro em que ele é extraordinário, quando a névoa espessa pouco e pouco se adelgaça, e surge atrás da última cortina vaporosa, todo verde, dum verde que apetece respirar. Diferentes verdes bóiam na água, esbranquiçados, transparentes, escuros, quase negros, misturados com restos de onda que se desfaz e redemoinha até ao longe. E ainda outros azulados, com a cor das podridões. Tudo isso graduado e dependendo do céu, da hora e das marés. Há momentos em que me julgo metido dentro duma esmeralda, e, depois, numa jóia esplêndida, dum azul único que se incendeia. Mas a luz morre, e a luz agonizando exala-se como um perfume. É uma grande flor que desfalece. O doirado não é simplesmente doirado, nem o verde simplesmente verde: possuem uma alma delicada e extática.»

Raul Brandão, Os Pescadores (1923), Estante Editora, Aveiro, 1989, p. 115.

Ilhas Desertas (no horizonte)

fotografia: filipe sousa | 18 setembro 2022

 















Se há livro de António Mega Ferreira capaz de nos dar ao mesmo tempo a dimensão do seu pensamento, da sua obra, dos seus gostos e interesses, do seu espírito cultivado, e a que volto sempre, esse livro é “Uma Caligrafia de Prazeres” – com desenhos de Fernanda Fragateiro.
Nesse roteiro afectivo e íntimo convivem prazeres superlativos que vão da boa mesa aos melhores hotéis, das cidades marcantes, com Veneza à cabeça, ao urbanismo mais visionário, da alma do sapato à defesa da gravata!, passando por teatro, pintura, ópera, música e, claro, os livros, a sua grande paixão!
António Mega Ferreira partiu ontem, deixando um vasto legado ao futuro.

«Um só livro

Admitamos, por cedência ao lugar-comum literário, que as ilhas desertas ainda existem. E que, pressionado por um jornalista persistente, me cabia nomear um livro, um só livro, para levar comigo quando, por obscura razão, fosse obrigado a partir para a tal ilha deserta. Esse livro seria Ficções, de Jorge Luís Borges.
É claro que a leitura de Ficções não dispensa Cervantes, Sterne, Flaubert, Joyce, Nabokov. Mas, perante o desafio (a ameaça?) da ilha deserta, cabe aliviar a bagagem e levar apenas o essencial. Acresce que o exercício é um absoluto relativo, uma espécie de suplício intolerável que se impõe a um leitor: um livro? Só um livro? Convém escolher o que melhor engane a fome de outras leituras, recordando-se todas e em todas buscando a memória de uma outra vida. (...)
Numa ilha deserta, Ficções serve de bíblia a qualquer leitor compulsivo: é um livro interminável e, precisamente porque não é extenso, é a relativa escassez do seu texto que alimenta a elaboração incessante. Ficções é o guião virtual de todos os livros possíveis, a verificação hipotética da sua existência e a possibilidade da sua ainda não existência. Uma coisa e a outra são verosímeis dentro do universo mágico de Ficções

António Mega Ferreira, Uma Caligrafia de Prazeres, Texto Editores, Lisboa, 2003, pp. 16-17. 

Lagoa de Albufeira

fotografia: filipe sousa | 23 dezembro 2022

 

















A certa altura, deixa de haver pegadas no areal. À minha frente, quilómetros de praia selvagem sem vivalma. A caminho da Lagoa de Albufeira* estende-se o paraíso.

*Conhecida também por Lagoa d’el-Rei, por ser o retiro predilecto de D. Pedro V, onde vinha pescar e caçar coelhos, maçaricos e patos. Ramalho Ortigão dá disso nota nas Praias de Portugal, assim como o episódio de ter fisgado um polvo na Lagoa com uma navalha americana oferecida pelo amigo Eça de Queiroz.

«Um belo passeio de cerca de três léguas pela charneca até à Lagoa de El-Rei, o retiro predilecto de D. Pedro V. O pequeno e modesto prédio da casa real, de um só pavimento ao rés-do-chão, fica à beira do lago, na solidão da charneca. A paisagem é de uma grande melancolia simpática, de um encanto profundamente penetrante. A água tranquila da grande lagoa, o áspero aspecto da charneca, a grande solidão, a planície, o profundo silêncio, infundem uma pacificação e um sentimento de serenidade inefável. A lagoa é muito povoada, mas a pesca é proibida sem licença expressa do indivíduo que a arremata em cada ano. Não obstante, o autor destas linhas na última vez que ali foi apoderou-se de um polvo, fisgando-o contra uma rocha com uma navalha americana que o seu amigo Eça de Queiroz lhe mandou de presente das margens do Niagara. Fundámos o nosso direito a este polvo na circunstância de que a rocha não é água mas sim terra firme. Em todo o caso aproveitamos esta ocasião para desencarregarmos a consciência pedindo humildemente perdão a sua excelência o arrematante da lagoa e a sua majestade o proprietário dela. Estamos prontos a dar outro polvo, se a coroa assim o exigir. Os contornos do lago são habitados por óptimos coelhos, magros, mas de um especial sabor salgado e bravio. O sr. D. Pedro V matava-os na carreira, à bala, com notável perícia. A caça não tem arrematante e é permitida ao público. Além dos coelhos, que são abundantes, há maçaricos, patos e outras aves marinhas.»

Ramalho Ortigão, As praias de Portugal - guia do banhista e do viajante (1ª ed. 1876), Frenesi, Lisboa, 2001, pp. 151-152.

Avignon / Avinhão, Rue du Limas 49

fotografia: filipe sousa | 19 outubro 2022

 


Um clássico intemporal.
No melhor pano cai a folha.

Feira Desmanchada

Num frouxo de riso, desmonto o barraco;
vida é outra loiça, que não este caco.

Rio como pode rir um português
ao ouvir ocioso: -Será para outra vez...

-Aqui há talento! Dizem-me os vedores.
Seja para alívio das nossas dores!

Mas que remédio senão ser talentoso
quando tudo anda tão nervoso

e não há licença de porte dessa arma
que é a palavra não desfigurada!

Talento manejado a meu talante,
sê modesto, já que és, afinal, o circunstante,

e eu, o teu dono, se tivesse lazer,
sem disparos verbais andava era aos pardais,

por esses trigais e milharais
que lhes dão de comer...

Alexandre O'Neill, Poesias Completas (Feira Cabisbaixa, 1965), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 251.

Sligeach / Sligo

fotografia: filipe sousa | 2 dezembro 2022

 


















De Sligo a Dublin. A Irlanda de costa a costa. Na companhia de W. B. Yeats (1865-1939), um dos mais importantes poetas irlandeses, que viveu nas duas cidades. E como não há ilhas sem mares, nem mares sem sereias...

The Mermaid

A mermaid found a swimming lad,
Picked him for her own,
Pressed her body to his body,
Laughed; and plunging down
Forgot in cruel happiness
That even lovers drown.

W. B. Yeats, "A Man Young And Old: III. The Mermaid.", The Tower. New York, Macmillan, 1928.

Cora Droma Rúisk / Carrick-on-Shannon

fotografia: filipe sousa | 2 dezembro 2022

 

















Carrick-on-Shannon (gaélico Cora Droma Rúisk).
Norte da República da Irlanda.

Carrick
 
I will not walk these roads of pain
I will turn back to youth again,
Tis fun  sunlight, though passed
the noon,
 
The night will not come very soon,
And if we haste we may lie down,
Before sunset in Carrick town.
 
 
No bigger than a bulrush,
I beside the rushy Shannon cry.
There are no children on the store,
The singing voices sing no more,
The sea draws all the rivers down,
And love has sailed from
Carrick town.
 
Susan Langstaff Mitchell
Poet, satirist, journalist, mystic, nationalist and agri campaigner of the Irish Renaissance
Born in Carrick-on-Shannon 1866
Died in Dublin 1926

Cruachan / Tulsk

fotografia: filipe sousa | 1 dezembro 2022









Ainda sob o signo da insularidade. Depois da Ilha de Gelo e Fogo, o regresso à Ilha Esmeralda.

«-O que procuras na Irlanda? - Seamas O'Hogain.
-...o pote de ouro do duende! - Corto Maltese.
-Como o irás encontrar? - Seamas O'Hogain.
-Encontrá-lo-ei no dia em que encontrar uma rapariga a chorar à beira do rio... Sinn Fein... Sozinhos os dois... - Corto Maltese.
-Sinn Fein... Sozinhos os dois. Bem-vindo à Irlanda, Corto Maltese. - Seamas O'Hogain.»

Hugo Pratt, «Concerto em O menor para Harpa e Nitroglicerina» in Corto Maltese - As Célticas (Les Celtiques, 1970), trad. Jorge Colaço, Edição Geomais, Estoril, 2019, p. 71.