Lisboa

fotografia: filipe sousa | 20 abril 2025

 






















O povo saiu à rua num dia assim.
25 de Abril, sempre!

«Uma bela partida. Ouvia-o dizer, enquanto no piso de cima os convidados riam, e eu própria senti vontade de rir, sobretudo em que o antigo embaixador quis lembrar-se do nome das flores que os portugueses em 1974 enfiavam no cano das espingardas e não lhe ocorria. Nós três, como se os nossos cérebros estivessem programados para o esquecimento simultâneo, empancámos na designação. Eu própria simulei estar esquecida. O anfitrião ficou suspenso. Perguntou – “Pois como se chamavam as flores?”
Sim, aquelas flores vermelhas?
Nenhum de nós se lembrava. Era inacreditável que os três soubéssemos que as páginas da pétala dessas flores eram dentadas, uma unha longa em pecíolo forte, que tinham sido oferecidas pelas floristas logo pela manhã do próprio dia 25, quando os insurrectos galgavam a Baixa, até o Bob sabia do caso, sabia que começara por ser a oferta de uma vendedeira quando a coluna sublevada fazia a volta em torno de uma praça, até ele sabia, e, no entanto, nenhum de nós se lembrava do nome da flor. Como é que você não sabe? Inquieto, o anfitrião confessava estar surpreendido por que a palavra não estivesse colada na minha cabeça, mas ele conhecia o processo, sabia que a distância geográfica e a mistura dos idiomas criam por vezes buracos inimagináveis na memória linguística da pessoa que migra. Uma questão de sinapses que se alucinam no aparelho cerebral quando se muda de língua. Sendo assim, pois que nome tinha aquela flor. O seu rosto estava corado. Era indecente. Como nos lembrávamos que se tratava de carnations? Red carnations? Disse em inglês.
Também o antigo embaixador sentia uma espécie de vexame.
Cravos, claro que eram cravos. How awful, it’s carnations, of course, dear Bob! Pois como não lhe tinha vindo o nome dessa planta à memória? Como não? E nesse instante, rodou a sua cadeira na minha direcção – “Sabe, Miss Machado, se regressar a Lisboa e procurar entre as pedras da calçada miudinha que lá existe por toda a parte, vai ver que ainda encontra os restos dessas flores, a única metralha de que se socorreu o seu povo para derrubar os velhos tipos, e também para se entenderem entre si.»
Lídia Jorge, Os Memoráveis (2014), Leya, Alfragide, 2018, pp. 21-22.

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