| fotografia: pedro sousa | 23 março 2024 |
| fotografia: pedro sousa | 23 março 2024 |
| fotografia: filipe sousa | 8 janeiro 2020 |
— Ora a bicicleta resolveu o problema. Remedeia a nossa lentidão e suprime a fadiga. O homem tem agora à disposição todos os meios. O vapor e a electricidade não passam de progressos que serviam o seu bem‑estar. A bicicleta é um aperfeiçoamento do próprio corpo, quer dizer, o seu acabamento. É um par de pernas mais rápidas que lhe é oferecido. O homem e a máquina são um só. Não são dois seres diferentes como o homem e o cavalo, dois instintos em oposição. Não, é um só ser, um autómato feito de uma só peça. Não há um homem e uma máquina. Há só um homem mais rápido.
Maurice Leblanc, Voici des ailes!, 1897, in De Bicicleta, Antologia de textos, trad. José Cláudio, Júlia Ferreira, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2012, pp. 11-12.
| fotografia: filipe sousa | 23 dezembro 2024 |
| fotografia: filipe sousa | 9 dezembro 2024 |
| fotografia: pedro sousa | 1 dezembro 2024 |
«O que será amanhã, evita perguntar; e seja qual for, dos dias possíveis, aquele que a Sorte dará, regista-o como lucro (…)»
Quinto Horácio Flaco (65 a.C. – 8 a.C.), Poesia Completa, texto latino, estabelecido, traduzido e anotado por Frederico Lourenço, Odes, Livro I, frag. 1.9.13-15, Quetzal, Lisboa, 2023, pp. 45-47.
«(…) Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente (…)»
Ricardo Reis, Poesia I, Odes, 16-6-1914, Fernando Pessoa, Obra completa de Ricardo Reis, ed. de Jerónimo e Jorge Uribe, Tinta-da-China, Lisboa, 2024, p. 41.
| fotografia: filipe sousa | 30 novembro 2024 |
UM DIA
| fotografia: filipe sousa | 12 setembro 2023 |
| fotografia: filipe sousa | 4 outubro 2024 |
| fotografia: filipe sousa | 28 setembro 2024 |
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 12 maio 2024 |
TROMPE L'OEIL
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 23 julho 2024 |
«Halito do inferno, já duas vezes o suão, ou vento levante, passando o Estreito, todo abrasado da escandencia das areias africanas, veio sobre esses grandes vales argilosos do districto de Beja, lançar a morte; e o verão do paiz sem agua, o verão alemtejano, martyrizante, irradiante, começa a encher d'angustias a provincia, e prepara scenario á colheita cerealifera, que, est'anno foi, sempre lh'o digo, d'uma victoriosa e esplendida abundancia.
(....)
A ceifa, assêfa, como elles dizem, é o trabalho mais angustiado e estragador da gente alemtejana, por causa do sol, e por isso se paga, conforme os annos e a pressa, duplo ou triplo das outras operações anteriores da sementeira. Nada mais que observando, do caminho de ferro, crepitando, reverberando a luz por entre syncopes de sêde, em colinas sem arvores, ou com sobreiras e azinheiras cuja sombra metalica ainda parece mais asphyxica, em planicies sem fontes, onde nos meados de abril quasi que não ha ribeiros circulantes, para de longe se interpretar a agonia que seja viver hi enterrado, com a fouce na mão, os olhos cegos, a bocca em lama fétida, a pelle dos dedos gretada pelo bisel cortante das gavelas, respirando a moinha palustre que derrama no corpo uma brotoeja insupportavel, onde os insectos se abatem, para sugar o sangue dos irritados borbotões...»
Fialho de Almeida, Ceifeiros, separata ed. Livraria Clássica Editora, Empresa Industrial Gráfica do Porto, s.d., pp. 5-7.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 22 junho 2024 |
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 14 junho 2024 |
Johann W. Goethe, Fausto (Faust, Eine Tragödie, 1808, 1832), trad. João Barrento, Relógio d'Água Editores, Lisboa, p. 84, vv. 1220-1237.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 13 junho 2024 |
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 11 junho 2024 |
«Andávamos de bicicleta - porque é que isso dá prazer? Muda-se de paisagem mas é o fruto do nosso esforço, sentimo-nos compensados. E há o triunfo do equilíbrio na aresta das duas rodas, todo o nosso corpo subutilizado nesse mínimo de suporte. E há a ascensão de nós nesse movimento alado. E há a simplicidade, quase o esquematismo dessa máquina de andar.»
Vergílio Ferreira, Para sempre, 3ª ed., Livraria Bertrand, Lisboa, 1983, p. 226.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 12 junho 2024 |
«O Tony Visconti e eu fomos para os estúdios Hansa para terminar a produção do novo disco. Estávamos finalmente em Berlim. Nem o Jim, nem eu perdemos muito tempo a olhar para as listas de êxitos. Berlim chamava-nos, por isso mergulhámos nela como gatos vadios. Passávamos horas nos seus cafés e nos seus cabarés.
Contámos com uma cicerone fabulosa: a Romy Haag, que, num abrir e fechar de olhos, caiu na minha teia de sedução. Parecia saída da Berlim dos anos 1930. envolvemo-nos em tudo o que a cidade nos oferecia e fizemos as nossas farras, embora sem perder as estribeiras. Tinha de ter atenção para os traficantes de Berlim não se aproximarem demasiado do Jim e ele fazia o mesmo comigo. As coisas eram assim: tínhamos de cuidar um do outro.
O IGGY E EU TÍNHAMOS PROBLEMAS GRAVES COM AS DROGAS. PARA RESOLVÊ-LOS, MUDÁMO-NOS PARA BERLIM, CAPITAL MUNDIAL DA HEROÍNA.
O Jim andava todos os dias catorze quilómetros para se pôr em forma. Eu gostava de me perder pelos bairros dos operários estrangeiros e passar horas nas suas pequenas lojas sem que ninguém me reconhecesse. Depois juntávamo-nos e púnhamos as notícias em dia.
Os imigrantes, os cabarés e um muro de betão a dividir a cidade ao meio: tudo aquilo era Berlim. Não podia deixar de pensar num par de namorados a beijar-se em frente do Muro para desafiar aquela estrutura de arame farpado e desconfiança. Assim nasceu »Heroes», um hino que recordava que nada era mais transgressor do que o afecto entre duas pessoas.»
María Hesse, Fran Ruiz, Bowie, Uma biografia (Una biografia, 2018), trad. Lucília Filipe, Penguin Random House, Lisboa, 2019, p. 85.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 8 junho 2023 |
DESEJO DE SE TORNAR ÍNDIO
Oh, se fôssemos índios, já preparados e, em cima de um cavalo que corre, inclinados contra o vento, estremecêssemos repetidamente sobre o solo que treme até largarmos as esporas porque nunca houve esporas, até deitarmos fora as rédeas porque nunca houve rédeas e quase não víssemos a terra à nossa frente revelar um prado ceifado e liso, agora que o cavalo perdeu o pescoço e a cabeça.
Franz Kafka, «Observação» («Betrachtung», 1913), trad. José Maria Vieira Mendes, in Os Contos, 1º vol., Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, p. 46.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 8 junho 2024 |
«Ao chegar ao Monte Petřín, uma colina verdejante que se ergue no centro de Praga, percebeu com espanto que não estava lá ninguém. Era estranho porque habitualmente, e seja a que horas for, as suas áleas estão sempre cheias de gente que lá vai apanhar ar. Sentia-se extremamente angustiada, mas o monte estava tão silencioso e o silêncio era tão tranquilizante que se entregava confiadamente a ele. Subiu, parando de vez em quando para olhar para trás. A seus pés, descobria-se uma infinidade de torres e de pontes. Os santos, com os seus olhos petrificados e posto nas nuvens, erguiam ameaçadoramente os punhos. Era a cidade mais bonita do mundo.»
Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser (Nesnesitelná lehkost byti, 1983), trad. Joana Varela, 25ª ed., Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2002, p. 179.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 7 junho 2024 |
A JANELA PARA A RUA
Quem leve uma vida solitária e tenha de vez em quando a necessidade de algum tipo de contacto, que, atento às mudanças da hora do dia, mudanças de clima, das relações profissionais e afins, queira ter um simples braço, um qualquer a que se possa agarrar - uma pessoa destas não conseguirá aguentar muito tempo sem uma janela que dê para a rua. E se esta pessoa por acaso não estiver à procura de nada e apenas se aproximar do parapeito, como um homem cansado, para passear os olhos, para cima e para baixo, alternando entre o público e o céu, e não quiser olhar e incline a cabeça um pouco para trás, então, nesse caso, os cavalos lá em baixo arrastá-lo-ão consigo no seu cortejo de carruagens e barulho e assim finalmente em direcção à harmonia humana.
Franz Kafka, «Observação» («Betrachtung», 1913), trad. José Maria Vieira Mendes, in Os Contos, 1º vol., Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, p. 44.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 11 maio 2024 |
«Florença tem o tamanho exato das cidades para sempre amadas: tudo se pode conhecer num dia; e todos os dias haverá, dentro dela, coisas para ver - até o fim do mundo, que é mais do que o fim da vida.»
Cecília Meireles, «Voz em Florença» in Crônicas de viagem 2 (1953), reimpr. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999, p. 76.
«Florença por dois dias, duas semanas, dois meses? Florença pelo tempo de um suspiro? Mas esta cidade é vasta como um continente, inesgotável como o universo.»
José Saramago, Manual de Pintura e Caligrafia - Ensaio de romance, 1ª edição, Moraes Editores, Lisboa, p. 183.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 11 maio 2024 |
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 11 maio 2024 |
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 8 maio 2024 |
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 7 maio 2024 |
«A torre inclinada é uma vista detestável, e no entanto é muito provável que se tenham esmerado por construí-la assim. Encontro a seguinte explicação para este disparate: nos tempos da grande instabilidade urbana todo o grande edifício era uma fortaleza, na qual as famílias poderosas erguiam uma torre. Com o tempo, isto transformou-se numa questão de capricho e prestígio, cada uma queria mostrar a melhor torre, e quando as torres direitas começaram a ficar cada vez mais corriqueiras, alguém mandou construir uma inclinada. E o arquitecto e o proprietário conseguiram o que queriam, porque as pessoas passam pelas muitas torres direitas à procura da inclinada. Subi depois ao cimo desta. As camadas de tijolo são horizontais. Com uma boa massa e esteios de ferro podem fazer-se coisas espantosas.»
J.W.Goethe, Viagem a Itália (Italienische Reise, 1786-1787), trad. João Barrento, Relógio d'Água Editores, Lisboa, p. 129.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 7 maio 2024 |
J.W.Goethe, Viagem a Itália (Italienische Reise, 1786-1787), trad. João Barrento, Relógio d'Água Editores, Lisboa, p. 128.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 4 janeiro 2024 |
«Quando o homem
desceu para o oceano por um carreiro talhado na falésia, a amiga dele
abeirou-se do precipício e teve medo. Mar para um lado e para o outro, mar e
mais mar. Mar à altura dos olhos – no horizonte; mar por baixo dos pés. E ao
alto, fechando o mar, um céu fosco arrepiado pela berraria das gaivotas. Tudo
ermo. Em relação à terra, campo raso e um pinhalzito antes de se chegar à
estrada; em relação ao oceano, o que se sabe.
(…)
«Apetecia-me
ir por aí», disse ela a dada altura (…)
(…)
A seguir foi sentar-se entre a porta do carro e correu a vista pelo mar, procurando desviar a memória.
(...)
O descampado arrefecia, agora que o sol se afogava na última dobra do mar. Arrefecia o tempo e ia escurecendo a terra, alumiada pobremente por uns farrapos de nuvens afogueadas.
(...)
«Já reparou
como se fez noite?»
«É verdade.
Pela minha parte tive uma tarde adorável.»
(…)
«Apetecia-me
vadiar até se fazer dia…»
(…)
No automóvel, a caminho de Lisboa:
«Que faz
você amanhã?»
«Não sei. E
você?»
O carro
mordia a estrada, aos uivos nas curvas.»
José Cardoso Pires, O Anjo Ancorado (1958), 5ª ed., Moraes Editores, Lisboa, 1977, pp. 35, 62, 68, 142-143, 148.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 16 junho 2023 |
Ítaca fica a 200 km, para sul, do estreito de Corfu. A minha Ítaca a muitos mais, para oeste. Embalado pelo mar Jónio, ao sabor da brisa e da poesia.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 22 junho 2022 |
«É assim, vem um gajo, numa boa, todo manselinho, o dia tá porreiro, lá a ver os meus velhotes, e zá e zá, que isto é só ternura, pá, com lágrimas que eu não mostro porque eu choro pra dentro e mijo pra fora, ó para esta cara mais querida, aqui na minha frente, mamã, mamã, ó para este pai, esta figura, esta firmeza facial e marcial, se faz favor, que até parece um senador ou o caraças, não me sacudas a mão, pai, que eu ia só fazer uma festa amigável, é assim: podias ao menos dar-me um abraço, eu não tenho pulgas, um gajo lá por usar rabo de cavalo e não ter tempo pra cortes de cabelo e essas macaquices, não obriga a andar carregado de vermes e carraças e fiocos de palha e essas merdas, quero dizer, desculpe lá, essas trampas, vá lá, pai, seja tolerante, que eu falo à moderna, linguagem viva, do povo mesmo, percebes? É assim: trato por tu porque é o que eu costumo com toda a gente e por maioria de razão com o meu pai que me é mais chegado, mas se não quer, por mim, tudo bem, isto cada um, pá, é como cada qual, e amigo não empata amigo. É assim: eu é que não fossilizei no tempo, essa é que é essa, eu sou desenrascado, abertura prò mundo que está a mudar, escutem os sinais, vejam os sinais, meus, agora vocês, eu compreendo, já há artrose, escoliose, ancilose, salvo seja, e mesmo que quisessem não percebiam, é assim: não podem perceber, vão à janela e vejam-me esses muros, as portas dos prédios, os candeeiros e o camandro, pá, lá está o meu tag, eu tou a deixar a minha marca nas paredes, e há uns gajos que sabem que sou eu, o Lencastre, o filho do coronel que riscou aquilo e que impediu a burguesia de ter ideias incolores contra os muros brancos, muro liso não tem expressão, os tags, atenção, atenção, não os grafitti, são vida e libertação, o grafitte amocha, faz o jeito ao burguês, tem harmonia, cores, armado ao artístico, o tag não!, é pra desconstruir, para emporqueirar e dar sobressaltos. A volúpia do perigo, pá, nunca ouviu falar?, assim mesmo, pás, mas porque é que o pai há-de ter esse feitio?, não ouve, só sabe mandar, escute, quando passo por um muro e deixo o meu rasto, o tag secreto e o tag exógeno, pá, é como aqueles gajos que libertam continentes inteiros, sei lá, o Simão Bolívar, o Fidel Castro e essa malta toda, fixe, mas que é que tem o facto de eu ter quarenta e dois anos? É assim: eu tenho a culpa? Está aqui o vosso filho, na frente, em carne e osso, e pensam é no BI, a burocracia já chegou à família, catano? Os piercings não faz mal, é prata, não infecta, é tudo do simbólico, o pai não usava galões? Chegue pra lá a mão, chegue pra lá a mãozinha, são símbolos, pá, um gajo constrói o mundo que quer, depois desconstrói, passa as mensagens que quer, eu até posso ganhar bem, que é que tem?, é assim: um gajo é três vezes mestre de palco em três concertos e tá safo prò resto do ano, orienta-se com umas gajas, com umas ganzas, isto é vida, a nova cultura, o hip-hop, só cá é que é esta merda tradicionalista, pequeno-burguesa, tudo certinho, tudo direitinho e o caraças, o que eu gostava, percebe, deixe lá o «de», mãe, quem é que liga a isso da gramática, dos acentos e coisa e tal, era o dia mais feliz da minha vida era dar umas sprayadas na merda dos painéis de São Vicente e encher aquela bodega toda com o meu tag e repintar aquilo tudo que é um convite ao imobilismo e ao passadismo, pai, pai, não vale a pena perder a cabeça, um pai, onde é que já se viu, a bater num filho adulto só por não ser capaz de ouvir umas verdades, obrigado mamã, sempre me protegeu, fez o que pôde, olhe pai, não me bata, eu sou mais alto que o pai, porra, já me rompeu a polpa do beiço eu não mereço isto, ó, ó para os meus braços, lisinhos, aqui nunca furou agulha, charros não digo que não, mas é assim: os maiores especialistas do mundo garantem - tá escrito, tá escrito! - que faz bem ò sistema, e passam atestados e tudo, ali, estou limpo ou não, mãe?, há razão prò pai me bater? Mamã, agora a sério, mamã é um aperto, houve um mal-entendido, são só cinquenta euros, eu devolvo já amanhã, sempre fui sério de contas, ó pai não se meta, caraças, se não tem respeito pelo seu filho, tenha dó da sua mulher. Caraças, pai, porra, vou-me já embora desta puta de casa. Vê, vê? É assim: tenho o sobrolho a sangrar, tá a ver? Mamã? Vou telefonar pràs televisões, vou escrever em todas as paredes que o coronel Amílcar Lencastre é todo antigo regime, pá, tem maus bofes e dá porrada no filho, e aquilo é só por ódio à modernidade e à humanidade...»
Mário de Carvalho, Fantasia para dois coronéis e uma piscina, 3ª ed. Editorial Caminho, Lisboa, 2003, pp. 73-75.