Rimini, Piazza Cavour

fotografia: filipe sousa | 9 maio 2025

 





















Sete poemas

A mulher colhe rosas. De repente
toca o membro vivo dele, botão
cheio. Assusta-a a diferença, e num instante
esvaem-se nela os jardins [de Verão]

Reiner Maria Rilke, Momentos de Paixão, com desenhos de Auguste Rodin (1905?), trad. Isabel Castro Silva, João Barrento, José Miranda Justo, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2004, p.15.

Rio Amazonas

fotografia: pedro sousa | 18 julho 2025

 






















As fotografias e os vídeos da Amazónia continuam a chegar a conta-gotas, via WhatsApp, enviados da selva pelo rapaz aventureiro, que viaja por sua conta e risco.
Imagino que assistir ao nascer do sol no Amazonas seja uma daquelas experiências para a vida, sublimada pela beleza da luz e da paisagem, pela variedade de matizes que combinam cores frias e quentes espelhadas no céu e no rio, pelo «silêncio sinfónico» da natureza, de que nos fala Ferreira de Castro, n’A Selva. Assim, nos quatro dias e três noites que dura a viagem de 1.300 quilómetros entre Manaus e Macapá, na linha do Equador, o privilégio só pode ser a triplicar! Primeiro a bordo de um ferry, depois navegando num gaiola, após transbordo em Santarém, na foz do Tapajós; o que não muda mesmo é a rede espreguiçadeira suspensa no convés, que funciona como casa, quarto e cama de dormir, num espaço compartilhado com dezenas de outros passageiros. Ao longo do trajecto sucedem-se terras com nomes de vilas e cidades portuguesas: além de Santarém, passa-se por Silves, Óbidos, Nazaré, Alenquer, Almeirim…, entre topónimos de raíz indígena: Amatari, Itacoatiara, Jurupari, Arapucu, Parintins, Juruti… Quando não existem condições para acostagem nestas localidades ou para não atrasar a viagem já de si demorada, pessoas e mercadorias são baldeadas do ferry ou do gaiola em andamento para uma rabeta que surge do nada, espécie de canoa com motor à popa. De todos estes sortilégios é feita a magia do Amazonas.
E o que se seguirá ao desembarque em Macapá, capital do estado de Amapá? – pergunta-se. Ao que parece, nova incursão aos confins da selva, agora subindo o rio Amapari de canoa, em busca da chamada Terra das Onças, perto da fronteira com a Guiana francesa, um ponto perdido num mapa vegetal onde a capacidade de sobrevivência é posta à prova a todo o instante. Aqui, viajar é resistir!

Quem disse que a selva amazónica «obriga a alma a dobrar-se sobre si mesma» não podia estar mais certo.

«…adormecer embalado numa rede, sob a brisa tépida das noites amazonenses, devia ser regalo de truz, inesquecível por muito que se vivesse.»

Ferreira de Castro, A Selva (1930), 33ª edição, Guimarães & Companhia Editores, Lisboa, 1981, pp. 41-42.

Lurs

fotografia: filipe sousa | 21 maio 2025





























«Nesta época de azeitonas. Não consigo pensar em nada mais épico.
Do ramo de aço cinzento ao pote de barro, a azeitona escorrega nas mãos, desce como uma torrente, acumula a sua água negra e pesada nos sótãos, e as velhas vigas gemem sob o seu peso durante a noite. Nas margens deste grande rio de frutos que corre, o nosso mundo inteiro canta.
É o tempo da colheita, o tempo em que se ordenha a árvore como se ordenha uma cabra, a mão agarrada ao ramo, o polegar no ar, e depois a pressão para baixo. Mas em vez de leite, é o azeite que corre.» (tradução livre)
Jean Giono, Poème de l’olive (1958), Éditions Gallimard, 1986, pp. 95-96.

Forcalquier, Avenue du Professeur René Cassin

fotografia: filipe sousa | 23 maio 2025

 






















As “boules”, que incluem o jogo da petanca, são uma "instituição" muito francesa, e contam com um lídimo representante na Provença: a Association Bouliste Forcalquier. No outro dia, passei pelo terreiro de Cour des Artisans, durante e depois de partidas que se realizam habitualmente ao fim da tarde e atraem boulistes exímios da cidade, à procura dessa atmosfera especial tão bem captada pela arte de Lawrence Durrell (1912-1990) e Marcel Pagnol (1895-1974):

«O anisete (pastis) por toda a parte declara-se como o acompanhamento ideal para as meditações nocturnas dos jogadores de boules; não havia praça de aldeia no verão sem o tinido das pequenas bolas de aço, nenhuma aldeia sombria sem os seus boulistes embrenhados na austeridade socrática do silêncio entre lançamentos. O silêncio sagrado do bouliste está prenhe de futuridade, as suas convulsões e contorções quando as coisas correm mal são puro cinema primitivo; a imortalidade de Pagnol baseia-se num cuidadoso estudo dos originais gráficos, para ele disponíveis numa longa vida de participação em torneios de vilas e aldeolas.»

Lawrence Durell, A Sombra Infinita de César (Caeser’s Vast Ghost, 1999), trad. Sérgio Gonçalves, Edições Saídas de Emergência, Porto Salvo, p. 24.

Lisboa

fotografia: filipe sousa | 20 abril 2025

 






















O povo saiu à rua num dia assim.
25 de Abril, sempre!

«Uma bela partida. Ouvia-o dizer, enquanto no piso de cima os convidados riam, e eu própria senti vontade de rir, sobretudo em que o antigo embaixador quis lembrar-se do nome das flores que os portugueses em 1974 enfiavam no cano das espingardas e não lhe ocorria. Nós três, como se os nossos cérebros estivessem programados para o esquecimento simultâneo, empancámos na designação. Eu própria simulei estar esquecida. O anfitrião ficou suspenso. Perguntou – “Pois como se chamavam as flores?”
Sim, aquelas flores vermelhas?
Nenhum de nós se lembrava. Era inacreditável que os três soubéssemos que as páginas da pétala dessas flores eram dentadas, uma unha longa em pecíolo forte, que tinham sido oferecidas pelas floristas logo pela manhã do próprio dia 25, quando os insurrectos galgavam a Baixa, até o Bob sabia do caso, sabia que começara por ser a oferta de uma vendedeira quando a coluna sublevada fazia a volta em torno de uma praça, até ele sabia, e, no entanto, nenhum de nós se lembrava do nome da flor. Como é que você não sabe? Inquieto, o anfitrião confessava estar surpreendido por que a palavra não estivesse colada na minha cabeça, mas ele conhecia o processo, sabia que a distância geográfica e a mistura dos idiomas criam por vezes buracos inimagináveis na memória linguística da pessoa que migra. Uma questão de sinapses que se alucinam no aparelho cerebral quando se muda de língua. Sendo assim, pois que nome tinha aquela flor. O seu rosto estava corado. Era indecente. Como nos lembrávamos que se tratava de carnations? Red carnations? Disse em inglês.
Também o antigo embaixador sentia uma espécie de vexame.
Cravos, claro que eram cravos. How awful, it’s carnations, of course, dear Bob! Pois como não lhe tinha vindo o nome dessa planta à memória? Como não? E nesse instante, rodou a sua cadeira na minha direcção – “Sabe, Miss Machado, se regressar a Lisboa e procurar entre as pedras da calçada miudinha que lá existe por toda a parte, vai ver que ainda encontra os restos dessas flores, a única metralha de que se socorreu o seu povo para derrubar os velhos tipos, e também para se entenderem entre si.»
Lídia Jorge, Os Memoráveis (2014), Leya, Alfragide, 2018, pp. 21-22.

Porto

fotografia: filipe sousa | 23 fevereiro 2025

 





















«Quem percorrer o velho centro do Porto, ao lado do labirinto do antigo burgo medieval, espraiado aqui e além em belas ruas quinhentistas, e seguir depois, para lá desse primitivo núcleo, pelas antiquadas ruas irradiantes, seis, sete e oitocentistas – que representam o povoamento das estradas de acesso às portas da cidade, e o desenvolvimento do seu transbordar inicial além-muralhas -, é de entrada surpreendido apenas pela completa falta de uniformidade das casas que aí se encontram: casas de todos os feitios e tamanhos, cada qual de sua altura e cor, contíguas umas às outras, numa total confusão de formas, que parece condenar a fracasso qualquer tentativa de seriação.
Atentando-se porém um pouco melhor, logo algumas ideias gerais se vão definindo, que introduzem uma certa ordem nesse polimorfismo caprichoso, para lá da aparente diversidade, descobrem-se semelhanças essenciais…(…) vêem-se casas que, embora com um número variável de andares – na sua maioria com três ou quatro, fora os acréscimos, e não raro com cinco e mais, e com duas ou três janelas ou portas de frente, raramente com mais e às vezes só com uma – são todas elas uniformemente esguias, estreitas e altas, desenvolvendo-se, numa palavra, em solução vertical, e mostram um estilo comum de motivos, que afirma o seu parentesco (…)».
Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Gallhano, Arquitectura Tradicional Portuguesa (1992), 5ª ed., Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp. 310-311.

Porto

fotografia: filipe sousa | 23 fevereiro 2025
 

















«Álvaro Siza Vieira – Aqui estamos a ver a outra ponte, a D. Luís, interessantíssima! Esta sim, participa da vida urbana intensamente, não é só uma passagem, tem os dois tabuleiros e fixa, numa imagem, o que foi a grande transformação do Porto, nos finais do século XIX. Transformação que corresponde a uma série de factos: criação de infraestruturas novas e movimentos muito diferentes na cidade.»
Manuel Graça Dias, Ao Volante pela Cidade (dez entrevistas de arquitectura), Relógio d’Água Editores, Lisboa, 1999, p. 230.

Porto, Campo Alegre

fotografia: filipe sousa | 22 fevereiro 2025

 

















Quinta do Campo Alegre (Casa Andresen)
Jardim Botânico / Galeria da Biodiversidade
Porto
22.02.2025

Ela, a miúda do cabelo louro. Com uma cana na mão toca ao de leve na superfície do lago, aspergindo o jardim em volta com breves jactos de água. Fica maravilhada com o efeito produzido. E repete, e repete, sem se fartar. Ele, o miúdo com o mesmo tom palha no cabelo. Alheio ao que se passa à sua volta, indaga o fundo do lago com olhos de falcão. Que sortilégios procurará ele na escuridão, entre as raízes dos nenúfares: um pimpão, um cágado, um tritão, um duende, um anão, um tesouro? Nada disso? O que será então? Esses dois tomados pelo deslumbramento, imagino-os irmãos, primos, amigos, nórdicos, descendentes do Cavaleiro da Dinamarca…. Palavra que quando os vi não pude deixar de lembrar-me de Sophia e Ruben A. e das suas memórias de infância. E de como foram felizes neste mesmo paraíso, num passado já distante, «quando os dias eram compridos e se podia cismar», com os “joelhos deitados abaixo” das inúmeras subidas às árvores, correrias e trambolhões. Um mundo inesgotável de descoberta e encantamento pessoal, que acabou por marcar as obras de ambos e todos os que as leram. Já agora, o que farão as duas crianças louras com o capital de experiência deste dia? Que memórias guardarão para serem revividas, desfrutadas mais à frente? Seguirão as pisadas dos primos Andresen? Escreverão também eles os seus livros, como reflexos e prolongamentos do seu ser, das suas vidas, do seu tempo? Para que outras crianças se possam inspirar com as suas histórias e «aprenderem a aventura / de quebrar horizontes esbarrados / e avançar sem mapas à procura / do corpo e do desenho da verdade»? Este apontamento, tão exacto e veemente, poderá parecer inventado. Mas nunca nada é inventado, como diria Sophia.

«Esta casa desmedida, cheia de gente mas também cheia de lugares vazios e quartos desabitados e fechados, cheia de vozes, silêncios ressonâncias, mistérios, medos e encantações e assombros, aparece, assim como o jardim, o parque, o pinhal e a quinta, em muitos dos poemas e contos que ao longo dos anos escrevi. É a casa de Hans do conto «Saga», o jardim do Rapaz de Bronze. E, múltipla, a casa é também «um dos palácios do Minotauro» de que falo num dos meus poemas. É igualmente esta a casa que o meu primo Ruben A. descreve no seu livro O Mundo à Minha Procura: uma óptima descrição, tão exacta e veemente que poderá parecer inventada. Mas nunca nada é inventado.»

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Memórias de Sophia - Inéditos", Revista Ler, Dezembro 2012, nº 119.

«A casa e a Quinta do Campo Alegre pertencem hoje ao Estado. Aí foi instalado o Museu de Ciências Naturais da cidade do Porto e o Jardim Botânico. Percorri a casa e andei pela Quinta. Agradeço ao seu conservador as facilidades prodigalizadas para que esse mundo fabuloso se vivesse com mais intensidade ao contactar os quartos onde dormi, as salas onde passei natais seguidos, as ruas da Quinta que me conheceram nos fins de tarde, os recantos onde vivi dores de um lirismo exacerbado. Voltar ao Campo Alegre foi para mim qualquer coisa de enorme na vida, mais importante do que ir à Lua, ou andar em órbita à volta da Terra. (…) A ideia da grandeza do Campo Alegre hoje em dia já é difícil de formar para quem não se lembre do que era aquele território no seu apogeu. A mata da Quinta, o souto de castanheiros, os altos muros de camélias, os milheirais em vários andares, os campos, tudo foi sacrificado aos novos urbanismos, à auto-estrada que entra no Porto pela ponte da Arrábida. Para quem viaja de Lisboa, o Campo Alegre é aquele parque imenso que se depara logo à saída da ponte, e de onde sobressai uma construção monumental cheia de alicerces e uma clarabóia que tanta luz me incutiu.»

Ruben A., O Mundo à Minha Procura, vol. I (1964), Assírio & Alvim, Lisboa, 2020, p. 22.

Porto, Serralves

fotografia: filipe sousa | 22 fevereiro 2025

 

















«Álvaro Siza Vieira - Estamos aqui, em frente ao portão da Casa de Serralves, uma casa construída no final dos anos 40, mandada construir por um industrial iluminado, um industrial culto! É uma magnífica residência art déco, com um parque que engloba um jardim clássico, uma mata, instalações agrícolas; isto, em boa hora, foi comprado pelo Governo e aqui vai-se construir, num terreno anexo, o Museu de Arte Contemporânea. Foi uma grande sorte ter-se salvo este parque no meio da cidade; estava, em determinada altura, condenado a ser, parcialmente, loteado. Manteve-se a unidade, o conjunto da quinta, e é também um núcleo de actividade cultural de grande importância.»
Manuel Graça Dias, Ao Volante pela Cidade (dez entrevistas de arquitectura), Relógio d’Água Editores, Lisboa, 1999, pp. 242-243.
«Aqui encontrei o meu porto de abrigo.»
Álvaro Siza Vieira sobre Serralves (revista Visão, 28.10.2023).

Porto, Foz do Douro

fotografia: filipe sousa | 22 fevereiro 2025

 

















«A Foz é para mim a Corguinha, o castelo e o Monte com o rio da Vila a atravessá-lo, e a Rua da Cerca até ao farol. O que está para lá não existe… Só me interessa a vila de pescadores e marítimos que cresceu naturalmente como um ser, adaptando-se pouco a pouco à vida do mar largo. (…)
As casas, limpas como o convés de um navio, espreitavam para o mar, umas por cima das outras. Todas tinham um grande óculo de engonços, para ver o iate ou a barca que partia, ou para procurar ansiosamente, lá no fundo, o navio que trazia a bordo o marido ou o filho ausente, e um mastro no quintal para lhes acenar pela derradeira vez. Meu avô materno partiu um dia no seu lugre; minha avó Margarida esperou-o desde os vinte anos até à morte, desde os cabelos loiros que lhe chegavam aos pés, até aos cabelos brancos com que foi para o túmulo. Quando os rolos de espuma rebramiam no Cabedelo, apertavam-se os corações no peito, e à luz da candeia rezavam horas esquecidas «pelos que andam sobre as águas do mar».»
Raul Brandão*, Os Pescadores (1923), Estante Editora, Aveiro, 1989, pp. 27-28.
*(1867-1930) nasceu na Foz do Douro, onde passou a sua infância e juventude.
«Muita gente vinha do Porto, de madrugada, tomava banho e regressava à cidade. Este serviço era em grande parte feito pelos carroções, um dos mais extraordinários inventos do espírito portuense, aplicado à locomoção. (…)
Além das famílias que iam à Foz de carroção, havia as pessoas que iam em burros. Ao pé de Sobreiras parava tudo para desaguar o gado e para os homens comerem.
Ninguém fazia o trajecto de ida e volta à Foz em menos de seis a oito horas, compreendido o tempo do banho.»
Ramalho Ortigão*, As praias de Portugal – Guia do banhista e do viajante (1876), Frenesi, Lisboa, pp. 33, 37.
*(1836-1915) nascido em Santo Ildefonso, era frequentador assíduo da Foz do Douro.

Vila do Conde, Caxinas

fotografia: filipe sousa | 21 fevereiro 2025

 
















«Começam a vir os nevoeiros compactos, que se metem pelas narinas e cheiram a mar e a fumo. Há-os que têm léguas de espessura e levam dias a passar, coortes desordenadas de fantasmas enchendo todo o horizonte. (...) Cerração cada vez mais mole e espessa... Só a voz se ouve, e o lamento parece vir de mais longe e de mais fundo.»
Raul Brandão, Os Pescadores (1923), Estante Editora, Aveiro, 1989, p. 60.

Porto, Ribeira

fotografia: filipe sousa | 20 fevereiro 2025

 
















(...)
«Ali, o cais da Ribeira, os rostos, as vozes, os gritos, os gestos. Uma beleza funda, grave, rude e rouca. Escadas, arcadas, ruelas abrindo um rosto emergindo do fundo do mar da vida.» (...)
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Nasci no Porto, Memórias de Sophia - Inéditos", Revista Ler, Dezembro 2012, nº 119.

Herdade da Contenda

fotografia: pedro sousa | 23 março 2024

 






















Dispam-se de medos, aversões, superstições ou falsas percepções, como agora se diz, e atentem na beleza deste animal. É um exemplar de víbora-cornuda encontrado no concelho de Moura, com o característico “corno” na extremidade da cabeça e os inconfundíveis “olhos de gato”. Há mais de trinta anos que não havia notícia do seu avistamento na Contenda. Até que o biólogo Pedro Sousa a fotografou no ano passado, no âmbito da sua tese de mestrado*. Convém dizer que, embora possa representar algum perigo por inocular veneno, a probabilidade de encontrarmos uma víbora é muito reduzida e, quando acontece, o mais frequente é o animal fugir, a menos que seja ameaçado. Ainda assim não se livra da perseguição humana, movida por mitos e crenças, que, juntamente com a perda e degradação do habitat, está na origem do seu declínio nas últimas décadas. O seu reaparecimento na Contenda é visto, por isso, como um sinal de esperança nos esforços aí em curso de conservação da biodiversidade. A sua perda, pelo contrário, poderá levar ao declínio de mais espécies ou ao aumento descontrolado de outras, causando efeitos dominó, com impactos no equilíbrio dos ecossistemas.
Aqui chegados, hoje tem início o novo ano chinês, o ano da Serpente, símbolo da sabedoria, intuição, mistério e transformação. Como os chineses, os hindus ainda hoje respeitam as cobras. Algumas tribos africanas têm-nas por deuses, como no Antigo Egipto. Por cá, a realidade é bem diferente, infelizmente para esses seres rastejantes. Entre nós, os répteis e também os anfíbios figuram entre os animais mais odiados do reino animal. Para esta falta de estima contribui certamente a tradição judaico-cristã e a sua influência na cultura popular e no nosso imaginário, apesar dos esforços feitos, nos últimos anos, na área da educação ambiental.
É sobre este terror que as cobras infundem e, curiosamente, sobre as inesperadas semelhanças entre elas e nós que fala Nuno Júdice, falecido no ano passado, num dos seus contos menos conhecidos:

(…)
A cobra escapa a todas estas previsões, fazendo com que nos seja impossível adivinhar o seu percurso - o que, para os que vivem no terror do arquétipo, conduz a imaginar que ela irá aparecer por entre os pés, e enrolar-se no corpo, puxando-nos para o instante fundador da vida, mas desta vez no sentido oposto, como se a fusão com a cobra representasse a absorção da consciência pelo barro animado de que nascemos, até à última perda da nossa diferença. No entanto, se há ser de que sejamos próximos, é ela: e de cada vez que nos encontramos em grupo, falando uns com os outros, nessa comunidade própria da natureza humana, um observador mais atento poderá adivinhar um serpentear de gestos e pensamentos que nasce de cada um, mesmo que ele não se aperceba disso, procurando enlear os outros, fundir-se com eles, ou pelo contrário esperando a melhor oportunidade para os picar, derramando na sua aparência descuidada o veneno que logo sombreia o rosto, provoca uma súbita palidez, muda a direcção das conversas.
Compreendo que a cobra tenha fugido para o interior das dunas, levando com ela estes pensamentos. Admiro-a pela sua capacidade dialéctica, contorcendo-se até ao limite nesse movimento que a relaciona connosco e, quando isso deixa de ser possível, mudando de pele, e começando um novo ciclo, como se partisse do zero, o que nos obriga a reformular todas as crenças, convicções e ideias. O nosso espírito, então, surge-nos como essa areia onde ela se enterrou, e sabemos que um dia voltará a emergir daí, no mesmo movimento inesperado, provocando o sobressalto de quem nos rodeia, até tudo passar, e os hábitos imporem a sua lei. Mas será sempre difícil que nos olhem como dantes, quando o espírito se revelou na sua essência primitiva. O veneno faz parte da sua própria matéria; e não são muitos os que dispõem do antídoto para sobreviverem, intactos na sua fé, às mudanças de pele. (...)

Nuno Júdice, «Manhã», A Ideia do Amor e Outros Contos, 1ª ed., Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp. 163-164.

Bourdeaux / Bordéus, Place de Quinconces

fotografia: filipe sousa | 8 janeiro 2020

 















— Ora a bicicleta resolveu o problema. Remedeia a nossa lentidão e suprime a fadiga. O homem tem agora à disposição todos os meios. O vapor e a electricidade não passam de progressos que serviam o seu bem‑estar. A bicicleta é um aperfeiçoamento do próprio corpo, quer dizer, o seu acabamento. É um par de pernas mais rápidas que lhe é oferecido. O homem e a máquina são um só. Não são dois seres diferentes como o homem e o cavalo, dois instintos em oposição. Não, é um só ser, um autómato feito de uma só peça. Não há um homem e uma máquina. Há só um homem mais rápido.

Maurice Leblanc, Voici des ailes!, 1897, in De Bicicleta, Antologia de textos, trad. José Cláudio, Júlia Ferreira, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2012, pp. 11-12. 

Lagoa da Albufeira

fotografia: filipe sousa | 23 dezembro 2024

 






















«EPIDAURO

O cardo floresce na claridade do dia. Na doçura do dia se abre o figo. Eis o país do exterior onde cada coisa é
trazida à luz
trazida à liberdade da luz
trazida ao espanto da luz (…)»
Sophia de Mello Breyner Andersen, Poemas escolhidos (Geografia, 1967), Círculo de Leitores, 1981, p. 98.

Bourdeaux / Bordéus

fotografia: filipe sousa | 9 dezembro 2024

 

















Soneto do vinho

Em que reino, em que século, sob que silenciosa
Conjugação astral, em que secreto dia
Que o mármore não salvou, surgiu a valorosa
Ideia singular de inventar a alegria?
Com outonos dourados a inventaram. O vinho
Vai fluindo vermelho pelas gerações
Como o rio do tempo e no árduo caminho
Oferece-nos a música, o fogo, os leões.
Na noite jubilosa ou na jornada adversa
Ele exalta a alegria ou suaviza o espanto
E o ditirambo novo que agora lhe canto
Outrora lhe cantaram o árabe e o persa.
Vinho, ensina-me a arte de ver minha história
Como se ela já fosse cinza na memória.
Jorge Luís Borges, O Outro, o Mesmo (1964), Poesia completa, trad. Fernando Pinto do Amaral, Quetzal, Lisboa, 2022, p. 228.

Reserva Botânica da Mata dos Medos

fotografia: pedro sousa | 1 dezembro 2024

 






















«O que será amanhã, evita perguntar; e seja qual for, dos dias possíveis, aquele que a Sorte dará, regista-o como lucro (…)»

Quinto Horácio Flaco (65 a.C. – 8 a.C.), Poesia Completa, texto latino, estabelecido, traduzido e anotado por Frederico Lourenço, Odes, Livro I, frag. 1.9.13-15, Quetzal, Lisboa, 2023, pp. 45-47.

«(…) Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente (…)»

Ricardo Reis, Poesia I, Odes, 16-6-1914, Fernando Pessoa, Obra completa de Ricardo Reis, ed. de Jerónimo e Jorge Uribe, Tinta-da-China, Lisboa, 2024, p. 41.

Mata dos Medos, Arriba Fóssil da Costa de Caparica

fotografia: filipe sousa | 30 novembro 2024

 






















UM DIA

Um dia mortos, gastos voltaremos 
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados, irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais, na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Sophia de Mello Breyner Andersen, Poemas escolhidos (Dia do Mar, 1947), Círculo de Leitores, 1981, p. 19.

Monte da Esperança, Moura

fotografia: filipe sousa | 12 setembro 2023 


















(...)
E também Pisa me incita, donde vêm 
para os homens os cantos outorgados pelos deuses,
quando ao vencedor, cumprindo as ordens antigas de Héracles,
o severo arbítrio etólio coloca, sobre as frontes,
à volta dos cabelos,
o adereço de cor glauca da oliveira, que outrora
de junto das nascentes sombrias do Istro
trouxe o filho de Anfitrião,
como belíssima recordação dos jogos em Olímpia, (,,,)

Píndaro (518 a.C.- 438 a.C), Ode Olímpica III a Terão de Agrigento, vencedor na corrida de cavalos (476 a.C.), frag. 9-15, trad. do grego por Frederico Lourenço, Poesia Grega, Quetzal, Lisboa, 2020, pp. 183-185.

Safara, Rua 1º Maio 27

fotografia: filipe sousa | 4 outubro 2024

 
























ALENTEJO

Agonia
dos lentos inquietos
amarelos,
a solidão do vermelho
sufocado,
por fim o negro,
fundo espesso,
como no Alentejo,
o branco obstinado.

Eugénio de Andrade, «Escrita da Terra» (1970-1978), in Poesia e Prosa (1940-1980), 2ª ed., Limiar, Porto, s.d., pp. 144.

Lisboa, Rua Marquês de Fronteira 2

fotografia: filipe sousa | 28 setembro 2024 


«Saí para o jardim, onde caminhei no meio das árvores. É um jardim de muito verde, quase sem flores. O verde é uma cor tranquilizante. As linhas do jardim também. Horizontais e verticais. Árvores e água. Céu, um lago, placas de cimento ladeadas de arbustos, e vastas extensões de prado.
Sentei-me numa cadeira do pequeno anfiteatro ao ar livre. Havia outras pessoas por ali, algumas lendo livros ou jornais, pares de namorados abraçavam-se, crianças corriam em baixo, na relva, seguidas pelo olhar de duas ou três mães sentadas. Um grupo em fato de treino praticava artes marciais. Por cima de nós um avião riscou o céu, deixando atrás de si um traço branco que levou algum tempo a desaparecer.»

Teolinda Gersão, A Cidade de Ulisses, (1ª ed. 2011), 6ª ed., Porto Editora, Porto, 2019, p. 12   

Estação Aeroporto (Metropolitano de Lisboa)

fotografia: filipe sousa | 12 maio 2024























TROMPE L'OEIL

Lembras-te jóia, daquele bacalhau
que comemos em Viana do Castelo?
Parece que foi ontem, mas já lá vão dez anos!
Ainda tinhas tu muito cabelo...

Chovia nesse dia, bem me lembro.
Deixaste no comboio o guarda-chuva.
Quem te mandou levar toda a viagem
a fazer olhinhos à viúva?

Contos largos... Mas quando o bacalhau,
como tu disseste: deu à costa,
esqueceste o guarda-chuva e a viúva
e perguntaste a mim: góta não góta?

Ó jóia! E o azeitinho! Aquilo sim!
P´ra comer só no Norte, só no Norte!
E depois... Na pensão... Os pés juntinhos...
Foi mais forte que nós, muito mais forte!

Alexandre O'Neill, Poesias Completas (Dispersos), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 528.

Amareleja

fotografia: filipe sousa | 23 julho 2024

 






















«Halito do inferno, já duas vezes o suão, ou vento levante, passando o Estreito, todo abrasado da escandencia das areias africanas, veio sobre esses grandes vales argilosos do districto de Beja, lançar a morte; e o verão do paiz sem agua, o verão alemtejano, martyrizante, irradiante, começa a encher d'angustias a provincia, e prepara scenario á colheita cerealifera, que, est'anno foi, sempre lh'o digo, d'uma victoriosa e esplendida abundancia.

(....)

      A ceifa, assêfa, como elles dizem, é o trabalho mais angustiado e estragador da gente alemtejana, por causa do sol, e por isso se paga, conforme os annos e a pressa, duplo ou triplo das outras operações anteriores da sementeira. Nada mais que observando, do caminho de ferro, crepitando, reverberando a luz por entre syncopes de sêde, em colinas sem arvores, ou com sobreiras e azinheiras cuja sombra metalica ainda parece mais asphyxica, em planicies sem fontes, onde nos meados de abril quasi que não ha ribeiros circulantes, para de longe se interpretar a agonia que seja viver hi enterrado, com a fouce na mão, os olhos cegos, a bocca em lama fétida, a pelle dos dedos gretada pelo bisel cortante das gavelas, respirando a moinha palustre que derrama no corpo uma brotoeja insupportavel, onde os insectos se abatem, para sugar o sangue dos irritados borbotões...»

Fialho de Almeida, Ceifeiros, separata ed. Livraria Clássica Editora, Empresa Industrial Gráfica do Porto, s.d., pp. 5-7. 

Moura, rua 5 de Outubro 17

fotografia: filipe sousa | 22 junho 2024

 






















«Procurando uma síntese definidora do Alentejo, tal como o vejo, direi que ele é a luz da cal e a extensão, a seara cor de sol, sob a intensidade do azul; e que nessa extensão acontece, de longe em longe, a quieta serenidade dos sobreiros e das azinheiras. Pureza, miragem do absoluto, voto de vida livre e de transcendência. Um povo pobre e altivo. Terra de muito poucos e, ao mesmo tempo, terra de ninguém. Ou terra de todos para todos, terra do impossível. Do sonho feito vida.»  

Urbano Tavares Rodrigues, A Luz da Cal, 1ª ed., Edição Éter, Ponta Delgada, p.11.

Frankfurt am Main, Großer Hirschgraben 21

fotografia: filipe sousa | 14 junho 2024

 

















«(...)
FAUSTO

Abrir o arquitexto é uma tentação,
Para, com sentir puro e leal,
Verter o sagrado original
No meu tão amado idioma alemão.

           Abre um volume e prepara-se para o trabalho.

«Ao princípio era o Verbo!», é o que está escrito.
Quem me ajuda? Logo aqui hesito!
Tanto não vale o verbo. Não,
Outra vai ter de ser a tradução,
Se bem me inspira o Espírito. Atento
Esta linha tem de ser bem pensada,
Para que a pena não corra apressada!
É o Pensamento que tudo mova e cria?
Certo é: «Ao princípio era a Energia!»
Mas agora que esta versão escrevi,
Algo me avisa já para não parar aí.
Vale-me o Espírito, já vejo a solução,
E escrevo, confiante: «Ao princípio era a Acção!»»

Johann W. Goethe, Fausto (Faust, Eine Tragödie, 1808, 1832), trad. João Barrento, Relógio d'Água Editores, Lisboa, p. 84, vv. 1220-1237.

Berlin / Berlim, Tiergarten

fotografia: filipe sousa | 13 junho 2024

 


















«Os povos do Meio-Dia, infelizmente, não professam com o mesmo respeito e austeridade aquela religião dos bosques, tão sagrada para as nações do Norte. (...) há muito pouco entre nós o culto das árvores.»

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846), ed. didáctica de Luís Amaro Oliveira, 1977, cap. XXVII, p. 174.

Dresden, Großer Garten

fotografia: filipe sousa | 11 junho 2024

 

















«Andávamos de bicicleta - porque é que isso dá prazer? Muda-se de paisagem mas é o fruto do nosso esforço, sentimo-nos compensados. E há o triunfo do equilíbrio na aresta das duas rodas, todo o nosso corpo subutilizado nesse mínimo de suporte. E há a ascensão de nós nesse movimento alado. E há a simplicidade, quase o esquematismo dessa máquina de andar.»

Vergílio Ferreira, Para sempre, 3ª ed., Livraria Bertrand, Lisboa, 1983, p. 226.

Berlin / Berlim, Hauptstrasse 155

fotografia: filipe sousa | 12 junho 2024

 






















«O Tony Visconti e eu fomos para os estúdios Hansa para terminar a produção do novo disco. Estávamos finalmente em Berlim. Nem o Jim, nem eu perdemos muito tempo a olhar para as listas de êxitos. Berlim chamava-nos, por isso mergulhámos nela como gatos vadios. Passávamos horas nos seus cafés e nos seus cabarés.

Contámos com uma cicerone fabulosa: a Romy Haag, que, num abrir e fechar de olhos, caiu na minha teia de sedução. Parecia saída da Berlim dos anos 1930. envolvemo-nos em tudo o que a cidade nos oferecia e fizemos as nossas farras, embora sem perder as estribeiras. Tinha de ter atenção para os traficantes de Berlim não se aproximarem demasiado do Jim e ele fazia o mesmo comigo. As coisas eram assim: tínhamos de cuidar um do outro.

O IGGY E EU TÍNHAMOS PROBLEMAS GRAVES COM AS DROGAS. PARA RESOLVÊ-LOS, MUDÁMO-NOS PARA BERLIM, CAPITAL MUNDIAL DA HEROÍNA.

O Jim andava todos os dias catorze quilómetros para se pôr em forma. Eu gostava de me perder pelos bairros dos operários estrangeiros e passar horas nas suas pequenas lojas sem que ninguém me reconhecesse. Depois juntávamo-nos e púnhamos as notícias em dia.

Os imigrantes, os cabarés e um muro de betão a dividir a cidade ao meio: tudo aquilo era Berlim. Não podia deixar de pensar num par de namorados a beijar-se em frente do Muro para desafiar aquela estrutura de arame farpado e desconfiança. Assim nasceu »Heroes», um hino que recordava que nada era mais transgressor do que o afecto entre duas pessoas.»

María Hesse, Fran Ruiz, Bowie, Uma biografia (Una biografia, 2018), trad. Lucília Filipe, Penguin Random House, Lisboa, 2019, p. 85.