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| fotografia: filipe sousa | 23 maio 2025 |
Não longe do sítio onde me encontro, Vicent van Gogh (1853-1890) deixou-se fascinar pelas oliveiras da Provença, a ponto de as imortalizar em quadros como "Oliveiras com Céu Amarelo e Sol" e "Olival com Céu Laranja", ambos de 1889. Estou na pequena aldeia de Lurs, construída sobre um afloramento rochoso a 621 metros de altitude, de onde se avista um vasto território da Alta-Provença, incluindo o vale do rio Durance, que se estende a meus pés.
É lá em baixo, sobretudo entre Lurs et Les Mées, que prospera a maior mancha de olival provençal, num total de cerca de cem mil árvores, muitas delas centenárias, embora também se encontrem à volta de Lurs e até dentro dela! Por aqui não há lugar a produtos químicos e as árvores, de troncos imponentes e retorcidos, são veneradas por olivicultores apaixonados pela sua terra, comprometidos com a defesa da paisagem, da cultura e da biodiversidade, como um pastor que cuida zelosamente das suas ovelhas e lhes conhece os nomes e os humores. O que faz com que passear por entre estas árvores com identidade seja um prazer indescritível e o azeite delas obtido, em lagares antigos, de uma grande pureza, atestada pelo selo AOP Bio Haute-Provence. Podemos saboreá-lo e adquiri-lo das mãos dos próprios produtores, nas explorações agrícolas ou nos mercados locais que se realizam regularmente na região, como o que visitei em Forcalquier.
Por aqui, o carácter estético, pedagógico e livre destas árvores reflecte a paixão do seu cuidador. A oliveira sente-se em casa na Provença. Ela faz parte da paisagem. Ela é a paisagem. E uma paisagem bela, como a que se avista a partir de Lurs, precisará sempre da mão generosa do homem.
A palavra a Jean Giono (1895-1970), o escritor provençal que cantou o amor às oliveiras e à cultura do azeite como mais nenhum:
«Nesta época de azeitonas. Não consigo pensar em nada mais épico.
Do ramo de aço cinzento ao pote de barro, a azeitona escorrega nas mãos, desce como uma torrente, acumula a sua água negra e pesada nos sótãos, e as velhas vigas gemem sob o seu peso durante a noite. Nas margens deste grande rio de frutos que corre, o nosso mundo inteiro canta.
É o tempo da colheita, o tempo em que se ordenha a árvore como se ordenha uma cabra, a mão agarrada ao ramo, o polegar no ar, e depois a pressão para baixo. Mas em vez de leite, é o azeite que corre.» (tradução livre)
Jean Giono, Poème de l’olive (1958), Éditions Gallimard, 1986, pp. 95-96.

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