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| fotografia: pedro sousa | 5 agosto 2025 |
«Um caminhito, serpeando no barranco, ligava a sua cabana à velha piroga. Nos dias de boa disposição, ele embarcava e seguia rio acima ou rio abaixo, chape, chape, o remo preguiçoso espadanando a água, até que uma das margens oferecesse entrada para lago onde existisse piracucu. E quando os movimentos do peixe deixavam brilhar, num relâmpago, os aparentes rubis das suas escamas vermelhas, o caboclo soerguia-se, esguichava a saliva negra do tabaco que vinha mascando e despedia o arpão.»
«De longe a longe, uma palmeira muito esguia e clara subia, em arranco de foguete, para olhar a selva por cima do ondeado em que terminava todo o arvoredo. E eram, então, quatro palmas solitárias lá no alto, como se quisessem fugir dos homens – dos homens que, apesar de tudo, lhes iam roubar o cacho saboroso, de onde extraíam o açaí.»
«Dir-se-ia que a selva, como uma fera, aguardava há muitos milhares de anos a chegada de maravilhosa e incognoscível presa.»
«Adivinhava-se a luta desesperada de caules e ramos, ali onde dificilmente se encontrava um palmo de chão que não alimentasse vida triunfante. A selva dominava tudo. Não era o segundo reino, era o primeiro em força e categoria, tudo abandonando a um plano secundário. E o homem, simples transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele despotismo.»
«Nos recessos da selva, Alberto tinha visto lianas que pareciam serpentes e serpentes que dir-se-iam lianas. Vegetal ou animal, tudo quanto, lá em cima, se enlaçava de galho para galho, num verde limo escorreguento, sugeria o mesmo visco, o mesmo mundo de veneno e de pavor.»
Ferreira de Castro, A Selva (1930), 33ª edição, Guimarães & Companhia Editores, Lisboa, 1981, pp. 55, 95, 96, 106, 186.
«De longe a longe, uma palmeira muito esguia e clara subia, em arranco de foguete, para olhar a selva por cima do ondeado em que terminava todo o arvoredo. E eram, então, quatro palmas solitárias lá no alto, como se quisessem fugir dos homens – dos homens que, apesar de tudo, lhes iam roubar o cacho saboroso, de onde extraíam o açaí.»
«Dir-se-ia que a selva, como uma fera, aguardava há muitos milhares de anos a chegada de maravilhosa e incognoscível presa.»
«Adivinhava-se a luta desesperada de caules e ramos, ali onde dificilmente se encontrava um palmo de chão que não alimentasse vida triunfante. A selva dominava tudo. Não era o segundo reino, era o primeiro em força e categoria, tudo abandonando a um plano secundário. E o homem, simples transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele despotismo.»
«Nos recessos da selva, Alberto tinha visto lianas que pareciam serpentes e serpentes que dir-se-iam lianas. Vegetal ou animal, tudo quanto, lá em cima, se enlaçava de galho para galho, num verde limo escorreguento, sugeria o mesmo visco, o mesmo mundo de veneno e de pavor.»
Ferreira de Castro, A Selva (1930), 33ª edição, Guimarães & Companhia Editores, Lisboa, 1981, pp. 55, 95, 96, 106, 186.

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