Terra das Onças, Amapá

fotografia: pedro sousa | 5 agosto 2025

 






















Quem se aventura nos fundões da Amazónia deve saber ao que vai. Sobreviver aí significa sabedoria e sentido prático apurado para caçar e pescar, subir a palmeiras para colher açaí, preparar antídotos para a “peçonha” de certos bichos, desbravar caminhos na floresta cerrada, com a espingarda numa mão e a catana noutra, de noite e de dia. De todos os perigos, visíveis e ocultos, nenhum se compara ao do feitiço da selva, que se apodera do corpo e da alma como um vírus resistente. Não há forma de escapar incólume da experiência, sem marcas para a vida. Avaliadas as consequências, o que nos ensina a selva sobre nós próprios, sobre os outros, sobre o mundo? No regresso à civilização preparam-se as sínteses vindouras, com um desejo compulsivo de voltar a partir.

«Um caminhito, serpeando no barranco, ligava a sua cabana à velha piroga. Nos dias de boa disposição, ele embarcava e seguia rio acima ou rio abaixo, chape, chape, o remo preguiçoso espadanando a água, até que uma das margens oferecesse entrada para lago onde existisse piracucu. E quando os movimentos do peixe deixavam brilhar, num relâmpago, os aparentes rubis das suas escamas vermelhas, o caboclo soerguia-se, esguichava a saliva negra do tabaco que vinha mascando e despedia o arpão.»

«De longe a longe, uma palmeira muito esguia e clara subia, em arranco de foguete, para olhar a selva por cima do ondeado em que terminava todo o arvoredo. E eram, então, quatro palmas solitárias lá no alto, como se quisessem fugir dos homens – dos homens que, apesar de tudo, lhes iam roubar o cacho saboroso, de onde extraíam o açaí.»

«Dir-se-ia que a selva, como uma fera, aguardava há muitos milhares de anos a chegada de maravilhosa e incognoscível presa.»

«Adivinhava-se a luta desesperada de caules e ramos, ali onde dificilmente se encontrava um palmo de chão que não alimentasse vida triunfante. A selva dominava tudo. Não era o segundo reino, era o primeiro em força e categoria, tudo abandonando a um plano secundário. E o homem, simples transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele despotismo.»

«Nos recessos da selva, Alberto tinha visto lianas que pareciam serpentes e serpentes que dir-se-iam lianas. Vegetal ou animal, tudo quanto, lá em cima, se enlaçava de galho para galho, num verde limo escorreguento, sugeria o mesmo visco, o mesmo mundo de veneno e de pavor.»

Ferreira de Castro, A Selva (1930), 33ª edição, Guimarães & Companhia Editores, Lisboa, 1981, pp. 55, 95, 96, 106, 186.

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