Moura, rua 5 de Outubro

fotografia; filipe sousa | 23 setembro 2025

 






















Imagino que ser-se dono de uma casa antiga, de taipa, se assemelhe a ser-se dono de um automóvel histórico, de colecção. Em ambos os casos, a conservação é pesada e tem que se lhe diga. Eu que o diga, dono de uma dessas casas. Falando do carro, é preciso restaurar peças que já não se fabricam ou adquirir réplicas das peças originais; falando da casa de taipa, é preciso ir à procura de materiais compatíveis com a construção de terra, como a cal, enquanto tinta e base de argamassas, ou o óleo de linhaça para proteger o pavimento de terracota, as madeiras das coberturas, portas e janelas ou para hidratar a própria cal, no momento da sua extinção, conferindo às argamassas maior resistência, durabilidade e plasticidade.
Mas tão ou mais difícil do que arranjar as ditas peças ou os ditos materiais é encontrar um mecânico que dê garantias e faça bem o serviço ou um pedreiro digno desse nome, que não cometa o sacrilégio de rebocar paredes de taipa com cimento, com resultados desastrosos. À falta destes peritos, não me resta senão, referindo-me à casa, deitar mãos à obra, gretando-as do manuseio da cal, e seguir os mandamentos dessa bíblia a que volto sempre – Diálogos de edificação – técnicas tradicionais de construção* -, com concessões à criatividade e liberdade para fazer experiências q.b.
Depois do trabalho duro e paciente, sento-me finalmente, em paz comigo próprio, para desfrutar do prazer de habitar “a” casa, pelo tempo fora; um prazer tão sublime, calculo eu, como o de conduzir “o” automóvel, pela estrada fora.
É este o momento propício para citar Hassan Fathy e Jack Kerouac:

«Todas as construções eram bonitas de se ver. Fosse para homens, para burros ou para servir de armazéns, todas tinham o ritmo de curvas desejado que parecia surgir de si próprio quando se desenhava as abóbadas, mas que linhas direitas e tectos planos quase nunca reproduzem. (…) Dentro dos limites da resistência do material - a terra - e das leis da estática, o arquitecto encontra-se, de súbito, livre para modular o espaço com a sua construção, para inventar novos volumes e para devolver a esse espaço a ordem e o significado à escala humana, de tal forma que a sua casa já não terá necessidade de decorações adicionais. Os próprios elementos estruturais proporcionam um interesse visual infinito. A abóbada, a cúpula, as trompas e os pendentes, os arcos e as paredes proporcionam ao arquitecto um campo ilimitado de emaranhados racionais de linhas curvas vindas de todas as direcções, com passagens harmoniosas de uma para outra.»
Hassan Fathy, Arquitectura para os Pobres - uma experiência no Egipto rural (Arquitecture for the Poor, an experiment in rural Egypt, 1969), trad. Joana Pedroso Correia, Argumentum/Dinalivro, Lisboa, 2009, p. 25.

«Caía uma chuva miudinha e o ar estava misterioso, no início da nossa viagem. Pressentia que ia ser tudo uma grande saga de névoa.
-Uau! – gritou Dean – cá vamos nós!
E inclinou-se sobre o volante e acelerou bruscamente; estava outra vez no seu elemento, era visível para toda a gente. Sentíamo-nos todos nas nuvens, todos nos apercebemos de que deixávamos para trás a confusão e o absurdo e desempenhávamos a nossa única e nobre função do tempo: pôr-nos em movimento. E como nós nos deslocávamos!
(…)
Que sentimento é esse que temos quando vamos de carro e nos afastamos das pessoas e elas vão diminuindo de tamanho na planície até vermos as suas manchas dispersar? É o mundo demasiado grande a pesar-nos, é o adeus. Contudo, curvamo-nos avançando para a próxima louca aventura debaixo do céu.»
Jack Kerouac, Pela estrada fora (On the road, 1957), trad. Armanda Rodrigues e Margarida Vale de Gato, Relógio d’Água, Lisboa, 2011, pp. 145, 170.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.