Rio Amaparí, Amapá

fotografia: pedro sousa | 2 agosto 2025

 






















A aldeia de Pedra Branca do Amaparí, no estado brasileiro de Amapá, é um pequeno oásis de civilização numa zona remota da Amazónia. Para ir daí para Terra das Onças – selvagem por natureza! - são precisos quarenta e cinco minutos a bordo de uma piroga com motor, serpenteando o rio Amaparí, um subafluente do Amazonas. «É seguir o rio (…) sem nunca o perder de vista. É muito fácil.»* Bem-vindos ao admirável mundo desconhecido da floresta virgem de Amapá, desligado de tudo e de todos, sem estradas de terra, electricidade, televisão, telefone ou redes sociais a perseguirem-nos. Mas, em contrapartida, chega-se com o espírito transbordante de possibilidades de encontrar aranhas, cobras, jacarés, onças, piranhas, insectos, calor, humidade, lama…, o que é uma felicidade imensa para o jovem aventureiro protagonista desta história. Afinal, não há nada melhor do que embarcar em viagens que prometem ser árduas e um salto no escuro. Se o destino fosse conhecido e amigável, qual o interesse de ir até lá? E, acima de tudo, há a experiência do sublime que resulta dessa provação e nos inspira a ser melhores – eis o seu lema.

«O nosso guia encontrou um rapaz que aceitou levar-nos pelo rio de piroga, uma espécie de canoa mais comprida. Acondicionadas com muita cautela, as nossas malas manejavam-se com facilidade. Partimos debaixo de uma chuva fraca que rapidamente se transformou em aguaceiro torrencial. O rapaz entregou-me um guarda-chuva e avisou-nos para não pormos os dedos dentro de água à volta do barco de madeira, que era bastante raso. Subitamente reparei que o rio estava repleto de pequenos peixes muito escuros. Piranhas! Ele riu-se quando retirei rapidamente a mão.»

Patty Smith, M Train (2015), trad. Helder Moura Pereira, Quetzal Editores, Lisboa, 2023, p. 23.

«E mais nada. O resto era a selva, com a sua vida sombria, ali pertinho, muito pertinho, fechando-o num anel estrangulador. Sentia-se-lhe a existência pesada, enigmática, numa vigília que dir-se-ia constante ameaça, um pânico jacente. Fatigados da muralha, os olhos tinham de procurar no céu um pouco de lonjura e de enlevo.»

Ferreira de Castro, A Selva (1930), 33ª edição, Guimarães & Companhia Editores, Lisboa, 1981, p. 119.

«68-205 Quando considero a pequena duração da minha vida, absorvida na eternidade que precede e na que segue, o pequeno espaço que ocupo e que vejo devorado pela imensidão infinita dos espaços que ignoro e que me ignoram, enche-me de terror e espanto achar-me aqui em vez de ali, porque não há razão alguma para estar aqui e não ali, agora e não outrora. Quem me pôs aqui? (...)»

Blaise Pascal, Pensamentos (Pensées, 1669), Publicações Europa-América, Mem Martins, 1978, p. 96.

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