Porto, Serralves

fotografia: filipe sousa | 22 fevereiro 2025

 

















«Álvaro Siza Vieira - Estamos aqui, em frente ao portão da Casa de Serralves, uma casa construída no final dos anos 40, mandada construir por um industrial iluminado, um industrial culto! É uma magnífica residência art déco, com um parque que engloba um jardim clássico, uma mata, instalações agrícolas; isto, em boa hora, foi comprado pelo Governo e aqui vai-se construir, num terreno anexo, o Museu de Arte Contemporânea. Foi uma grande sorte ter-se salvo este parque no meio da cidade; estava, em determinada altura, condenado a ser, parcialmente, loteado. Manteve-se a unidade, o conjunto da quinta, e é também um núcleo de actividade cultural de grande importância.»
Manuel Graça Dias, Ao Volante pela Cidade (dez entrevistas de arquitectura), Relógio d’Água Editores, Lisboa, 1999, pp. 242-243.
«Aqui encontrei o meu porto de abrigo.»
Álvaro Siza Vieira sobre Serralves (revista Visão, 28.10.2023).

Porto, Foz do Douro

fotografia: filipe sousa | 22 fevereiro 2025

 

















«A Foz é para mim a Corguinha, o castelo e o Monte com o rio da Vila a atravessá-lo, e a Rua da Cerca até ao farol. O que está para lá não existe… Só me interessa a vila de pescadores e marítimos que cresceu naturalmente como um ser, adaptando-se pouco a pouco à vida do mar largo. (…)
As casas, limpas como o convés de um navio, espreitavam para o mar, umas por cima das outras. Todas tinham um grande óculo de engonços, para ver o iate ou a barca que partia, ou para procurar ansiosamente, lá no fundo, o navio que trazia a bordo o marido ou o filho ausente, e um mastro no quintal para lhes acenar pela derradeira vez. Meu avô materno partiu um dia no seu lugre; minha avó Margarida esperou-o desde os vinte anos até à morte, desde os cabelos loiros que lhe chegavam aos pés, até aos cabelos brancos com que foi para o túmulo. Quando os rolos de espuma rebramiam no Cabedelo, apertavam-se os corações no peito, e à luz da candeia rezavam horas esquecidas «pelos que andam sobre as águas do mar».»
Raul Brandão*, Os Pescadores (1923), Estante Editora, Aveiro, 1989, pp. 27-28.
*(1867-1930) nasceu na Foz do Douro, onde passou a sua infância e juventude.
«Muita gente vinha do Porto, de madrugada, tomava banho e regressava à cidade. Este serviço era em grande parte feito pelos carroções, um dos mais extraordinários inventos do espírito portuense, aplicado à locomoção. (…)
Além das famílias que iam à Foz de carroção, havia as pessoas que iam em burros. Ao pé de Sobreiras parava tudo para desaguar o gado e para os homens comerem.
Ninguém fazia o trajecto de ida e volta à Foz em menos de seis a oito horas, compreendido o tempo do banho.»
Ramalho Ortigão*, As praias de Portugal – Guia do banhista e do viajante (1876), Frenesi, Lisboa, pp. 33, 37.
*(1836-1915) nascido em Santo Ildefonso, era frequentador assíduo da Foz do Douro.

Vila do Conde, Caxinas

fotografia: filipe sousa | 21 fevereiro 2025

 
















«Começam a vir os nevoeiros compactos, que se metem pelas narinas e cheiram a mar e a fumo. Há-os que têm léguas de espessura e levam dias a passar, coortes desordenadas de fantasmas enchendo todo o horizonte. (...) Cerração cada vez mais mole e espessa... Só a voz se ouve, e o lamento parece vir de mais longe e de mais fundo.»
Raul Brandão, Os Pescadores (1923), Estante Editora, Aveiro, 1989, p. 60.

Porto, Ribeira

fotografia: filipe sousa | 20 fevereiro 2025

 
















(...)
«Ali, o cais da Ribeira, os rostos, as vozes, os gritos, os gestos. Uma beleza funda, grave, rude e rouca. Escadas, arcadas, ruelas abrindo um rosto emergindo do fundo do mar da vida.» (...)
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Nasci no Porto, Memórias de Sophia - Inéditos", Revista Ler, Dezembro 2012, nº 119.

Herdade da Contenda

fotografia: pedro sousa | 23 março 2024

 






















Dispam-se de medos, aversões, superstições ou falsas percepções, como agora se diz, e atentem na beleza deste animal. É um exemplar de víbora-cornuda encontrado no concelho de Moura, com o característico “corno” na extremidade da cabeça e os inconfundíveis “olhos de gato”. Há mais de trinta anos que não havia notícia do seu avistamento na Contenda. Até que o biólogo Pedro Sousa a fotografou no ano passado, no âmbito da sua tese de mestrado*. Convém dizer que, embora possa representar algum perigo por inocular veneno, a probabilidade de encontrarmos uma víbora é muito reduzida e, quando acontece, o mais frequente é o animal fugir, a menos que seja ameaçado. Ainda assim não se livra da perseguição humana, movida por mitos e crenças, que, juntamente com a perda e degradação do habitat, está na origem do seu declínio nas últimas décadas. O seu reaparecimento na Contenda é visto, por isso, como um sinal de esperança nos esforços aí em curso de conservação da biodiversidade. A sua perda, pelo contrário, poderá levar ao declínio de mais espécies ou ao aumento descontrolado de outras, causando efeitos dominó, com impactos no equilíbrio dos ecossistemas.
Aqui chegados, hoje tem início o novo ano chinês, o ano da Serpente, símbolo da sabedoria, intuição, mistério e transformação. Como os chineses, os hindus ainda hoje respeitam as cobras. Algumas tribos africanas têm-nas por deuses, como no Antigo Egipto. Por cá, a realidade é bem diferente, infelizmente para esses seres rastejantes. Entre nós, os répteis e também os anfíbios figuram entre os animais mais odiados do reino animal. Para esta falta de estima contribui certamente a tradição judaico-cristã e a sua influência na cultura popular e no nosso imaginário, apesar dos esforços feitos, nos últimos anos, na área da educação ambiental.
É sobre este terror que as cobras infundem e, curiosamente, sobre as inesperadas semelhanças entre elas e nós que fala Nuno Júdice, falecido no ano passado, num dos seus contos menos conhecidos:

(…)
A cobra escapa a todas estas previsões, fazendo com que nos seja impossível adivinhar o seu percurso - o que, para os que vivem no terror do arquétipo, conduz a imaginar que ela irá aparecer por entre os pés, e enrolar-se no corpo, puxando-nos para o instante fundador da vida, mas desta vez no sentido oposto, como se a fusão com a cobra representasse a absorção da consciência pelo barro animado de que nascemos, até à última perda da nossa diferença. No entanto, se há ser de que sejamos próximos, é ela: e de cada vez que nos encontramos em grupo, falando uns com os outros, nessa comunidade própria da natureza humana, um observador mais atento poderá adivinhar um serpentear de gestos e pensamentos que nasce de cada um, mesmo que ele não se aperceba disso, procurando enlear os outros, fundir-se com eles, ou pelo contrário esperando a melhor oportunidade para os picar, derramando na sua aparência descuidada o veneno que logo sombreia o rosto, provoca uma súbita palidez, muda a direcção das conversas.
Compreendo que a cobra tenha fugido para o interior das dunas, levando com ela estes pensamentos. Admiro-a pela sua capacidade dialéctica, contorcendo-se até ao limite nesse movimento que a relaciona connosco e, quando isso deixa de ser possível, mudando de pele, e começando um novo ciclo, como se partisse do zero, o que nos obriga a reformular todas as crenças, convicções e ideias. O nosso espírito, então, surge-nos como essa areia onde ela se enterrou, e sabemos que um dia voltará a emergir daí, no mesmo movimento inesperado, provocando o sobressalto de quem nos rodeia, até tudo passar, e os hábitos imporem a sua lei. Mas será sempre difícil que nos olhem como dantes, quando o espírito se revelou na sua essência primitiva. O veneno faz parte da sua própria matéria; e não são muitos os que dispõem do antídoto para sobreviverem, intactos na sua fé, às mudanças de pele. (...)

Nuno Júdice, «Manhã», A Ideia do Amor e Outros Contos, 1ª ed., Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp. 163-164.

Bourdeaux / Bordéus, Place de Quinconces

fotografia: filipe sousa | 8 janeiro 2020

 















— Ora a bicicleta resolveu o problema. Remedeia a nossa lentidão e suprime a fadiga. O homem tem agora à disposição todos os meios. O vapor e a electricidade não passam de progressos que serviam o seu bem‑estar. A bicicleta é um aperfeiçoamento do próprio corpo, quer dizer, o seu acabamento. É um par de pernas mais rápidas que lhe é oferecido. O homem e a máquina são um só. Não são dois seres diferentes como o homem e o cavalo, dois instintos em oposição. Não, é um só ser, um autómato feito de uma só peça. Não há um homem e uma máquina. Há só um homem mais rápido.

Maurice Leblanc, Voici des ailes!, 1897, in De Bicicleta, Antologia de textos, trad. José Cláudio, Júlia Ferreira, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2012, pp. 11-12. 

Lagoa da Albufeira

fotografia: filipe sousa | 23 dezembro 2024

 






















«EPIDAURO

O cardo floresce na claridade do dia. Na doçura do dia se abre o figo. Eis o país do exterior onde cada coisa é
trazida à luz
trazida à liberdade da luz
trazida ao espanto da luz (…)»
Sophia de Mello Breyner Andersen, Poemas escolhidos (Geografia, 1967), Círculo de Leitores, 1981, p. 98.

Bourdeaux / Bordéus

fotografia: filipe sousa | 9 dezembro 2024

 

















Soneto do vinho

Em que reino, em que século, sob que silenciosa
Conjugação astral, em que secreto dia
Que o mármore não salvou, surgiu a valorosa
Ideia singular de inventar a alegria?
Com outonos dourados a inventaram. O vinho
Vai fluindo vermelho pelas gerações
Como o rio do tempo e no árduo caminho
Oferece-nos a música, o fogo, os leões.
Na noite jubilosa ou na jornada adversa
Ele exalta a alegria ou suaviza o espanto
E o ditirambo novo que agora lhe canto
Outrora lhe cantaram o árabe e o persa.
Vinho, ensina-me a arte de ver minha história
Como se ela já fosse cinza na memória.
Jorge Luís Borges, O Outro, o Mesmo (1964), Poesia completa, trad. Fernando Pinto do Amaral, Quetzal, Lisboa, 2022, p. 228.

Reserva Botânica da Mata dos Medos

fotografia: pedro sousa | 1 dezembro 2024

 






















«O que será amanhã, evita perguntar; e seja qual for, dos dias possíveis, aquele que a Sorte dará, regista-o como lucro (…)»

Quinto Horácio Flaco (65 a.C. – 8 a.C.), Poesia Completa, texto latino, estabelecido, traduzido e anotado por Frederico Lourenço, Odes, Livro I, frag. 1.9.13-15, Quetzal, Lisboa, 2023, pp. 45-47.

«(…) Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente (…)»

Ricardo Reis, Poesia I, Odes, 16-6-1914, Fernando Pessoa, Obra completa de Ricardo Reis, ed. de Jerónimo e Jorge Uribe, Tinta-da-China, Lisboa, 2024, p. 41.

Mata dos Medos, Arriba Fóssil da Costa de Caparica

fotografia: filipe sousa | 30 novembro 2024

 






















UM DIA

Um dia mortos, gastos voltaremos 
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados, irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais, na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Sophia de Mello Breyner Andersen, Poemas escolhidos (Dia do Mar, 1947), Círculo de Leitores, 1981, p. 19.

Monte da Esperança, Moura

fotografia: filipe sousa | 12 setembro 2023 


















(...)
E também Pisa me incita, donde vêm 
para os homens os cantos outorgados pelos deuses,
quando ao vencedor, cumprindo as ordens antigas de Héracles,
o severo arbítrio etólio coloca, sobre as frontes,
à volta dos cabelos,
o adereço de cor glauca da oliveira, que outrora
de junto das nascentes sombrias do Istro
trouxe o filho de Anfitrião,
como belíssima recordação dos jogos em Olímpia, (,,,)

Píndaro (518 a.C.- 438 a.C), Ode Olímpica III a Terão de Agrigento, vencedor na corrida de cavalos (476 a.C.), frag. 9-15, trad. do grego por Frederico Lourenço, Poesia Grega, Quetzal, Lisboa, 2020, pp. 183-185.

Safara, Rua 1º Maio 27

fotografia: filipe sousa | 4 outubro 2024

 
























ALENTEJO

Agonia
dos lentos inquietos
amarelos,
a solidão do vermelho
sufocado,
por fim o negro,
fundo espesso,
como no Alentejo,
o branco obstinado.

Eugénio de Andrade, «Escrita da Terra» (1970-1978), in Poesia e Prosa (1940-1980), 2ª ed., Limiar, Porto, s.d., pp. 144.

Lisboa, Rua Marquês de Fronteira 2

fotografia: filipe sousa | 28 setembro 2024 


«Saí para o jardim, onde caminhei no meio das árvores. É um jardim de muito verde, quase sem flores. O verde é uma cor tranquilizante. As linhas do jardim também. Horizontais e verticais. Árvores e água. Céu, um lago, placas de cimento ladeadas de arbustos, e vastas extensões de prado.
Sentei-me numa cadeira do pequeno anfiteatro ao ar livre. Havia outras pessoas por ali, algumas lendo livros ou jornais, pares de namorados abraçavam-se, crianças corriam em baixo, na relva, seguidas pelo olhar de duas ou três mães sentadas. Um grupo em fato de treino praticava artes marciais. Por cima de nós um avião riscou o céu, deixando atrás de si um traço branco que levou algum tempo a desaparecer.»

Teolinda Gersão, A Cidade de Ulisses, (1ª ed. 2011), 6ª ed., Porto Editora, Porto, 2019, p. 12   

Estação Aeroporto (Metropolitano de Lisboa)

fotografia: filipe sousa | 12 maio 2024























TROMPE L'OEIL

Lembras-te jóia, daquele bacalhau
que comemos em Viana do Castelo?
Parece que foi ontem, mas já lá vão dez anos!
Ainda tinhas tu muito cabelo...

Chovia nesse dia, bem me lembro.
Deixaste no comboio o guarda-chuva.
Quem te mandou levar toda a viagem
a fazer olhinhos à viúva?

Contos largos... Mas quando o bacalhau,
como tu disseste: deu à costa,
esqueceste o guarda-chuva e a viúva
e perguntaste a mim: góta não góta?

Ó jóia! E o azeitinho! Aquilo sim!
P´ra comer só no Norte, só no Norte!
E depois... Na pensão... Os pés juntinhos...
Foi mais forte que nós, muito mais forte!

Alexandre O'Neill, Poesias Completas (Dispersos), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 528.

Amareleja

fotografia: filipe sousa | 23 julho 2024

 






















«Halito do inferno, já duas vezes o suão, ou vento levante, passando o Estreito, todo abrasado da escandencia das areias africanas, veio sobre esses grandes vales argilosos do districto de Beja, lançar a morte; e o verão do paiz sem agua, o verão alemtejano, martyrizante, irradiante, começa a encher d'angustias a provincia, e prepara scenario á colheita cerealifera, que, est'anno foi, sempre lh'o digo, d'uma victoriosa e esplendida abundancia.

(....)

      A ceifa, assêfa, como elles dizem, é o trabalho mais angustiado e estragador da gente alemtejana, por causa do sol, e por isso se paga, conforme os annos e a pressa, duplo ou triplo das outras operações anteriores da sementeira. Nada mais que observando, do caminho de ferro, crepitando, reverberando a luz por entre syncopes de sêde, em colinas sem arvores, ou com sobreiras e azinheiras cuja sombra metalica ainda parece mais asphyxica, em planicies sem fontes, onde nos meados de abril quasi que não ha ribeiros circulantes, para de longe se interpretar a agonia que seja viver hi enterrado, com a fouce na mão, os olhos cegos, a bocca em lama fétida, a pelle dos dedos gretada pelo bisel cortante das gavelas, respirando a moinha palustre que derrama no corpo uma brotoeja insupportavel, onde os insectos se abatem, para sugar o sangue dos irritados borbotões...»

Fialho de Almeida, Ceifeiros, separata ed. Livraria Clássica Editora, Empresa Industrial Gráfica do Porto, s.d., pp. 5-7. 

Moura, rua 5 de Outubro 17

fotografia: filipe sousa | 22 junho 2024

 






















«Procurando uma síntese definidora do Alentejo, tal como o vejo, direi que ele é a luz da cal e a extensão, a seara cor de sol, sob a intensidade do azul; e que nessa extensão acontece, de longe em longe, a quieta serenidade dos sobreiros e das azinheiras. Pureza, miragem do absoluto, voto de vida livre e de transcendência. Um povo pobre e altivo. Terra de muito poucos e, ao mesmo tempo, terra de ninguém. Ou terra de todos para todos, terra do impossível. Do sonho feito vida.»  

Urbano Tavares Rodrigues, A Luz da Cal, 1ª ed., Edição Éter, Ponta Delgada, p.11.

Frankfurt am Main, Großer Hirschgraben 21

fotografia: filipe sousa | 14 junho 2024

 

















«(...)
FAUSTO

Abrir o arquitexto é uma tentação,
Para, com sentir puro e leal,
Verter o sagrado original
No meu tão amado idioma alemão.

           Abre um volume e prepara-se para o trabalho.

«Ao princípio era o Verbo!», é o que está escrito.
Quem me ajuda? Logo aqui hesito!
Tanto não vale o verbo. Não,
Outra vai ter de ser a tradução,
Se bem me inspira o Espírito. Atento
Esta linha tem de ser bem pensada,
Para que a pena não corra apressada!
É o Pensamento que tudo mova e cria?
Certo é: «Ao princípio era a Energia!»
Mas agora que esta versão escrevi,
Algo me avisa já para não parar aí.
Vale-me o Espírito, já vejo a solução,
E escrevo, confiante: «Ao princípio era a Acção!»»

Johann W. Goethe, Fausto (Faust, Eine Tragödie, 1808, 1832), trad. João Barrento, Relógio d'Água Editores, Lisboa, p. 84, vv. 1220-1237.

Berlin / Berlim, Tiergarten

fotografia: filipe sousa | 13 junho 2024

 


















«Os povos do Meio-Dia, infelizmente, não professam com o mesmo respeito e austeridade aquela religião dos bosques, tão sagrada para as nações do Norte. (...) há muito pouco entre nós o culto das árvores.»

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846), ed. didáctica de Luís Amaro Oliveira, 1977, cap. XXVII, p. 174.

Dresden, Großer Garten

fotografia: filipe sousa | 11 junho 2024

 

















«Andávamos de bicicleta - porque é que isso dá prazer? Muda-se de paisagem mas é o fruto do nosso esforço, sentimo-nos compensados. E há o triunfo do equilíbrio na aresta das duas rodas, todo o nosso corpo subutilizado nesse mínimo de suporte. E há a ascensão de nós nesse movimento alado. E há a simplicidade, quase o esquematismo dessa máquina de andar.»

Vergílio Ferreira, Para sempre, 3ª ed., Livraria Bertrand, Lisboa, 1983, p. 226.

Berlin / Berlim, Hauptstrasse 155

fotografia: filipe sousa | 12 junho 2024

 






















«O Tony Visconti e eu fomos para os estúdios Hansa para terminar a produção do novo disco. Estávamos finalmente em Berlim. Nem o Jim, nem eu perdemos muito tempo a olhar para as listas de êxitos. Berlim chamava-nos, por isso mergulhámos nela como gatos vadios. Passávamos horas nos seus cafés e nos seus cabarés.

Contámos com uma cicerone fabulosa: a Romy Haag, que, num abrir e fechar de olhos, caiu na minha teia de sedução. Parecia saída da Berlim dos anos 1930. envolvemo-nos em tudo o que a cidade nos oferecia e fizemos as nossas farras, embora sem perder as estribeiras. Tinha de ter atenção para os traficantes de Berlim não se aproximarem demasiado do Jim e ele fazia o mesmo comigo. As coisas eram assim: tínhamos de cuidar um do outro.

O IGGY E EU TÍNHAMOS PROBLEMAS GRAVES COM AS DROGAS. PARA RESOLVÊ-LOS, MUDÁMO-NOS PARA BERLIM, CAPITAL MUNDIAL DA HEROÍNA.

O Jim andava todos os dias catorze quilómetros para se pôr em forma. Eu gostava de me perder pelos bairros dos operários estrangeiros e passar horas nas suas pequenas lojas sem que ninguém me reconhecesse. Depois juntávamo-nos e púnhamos as notícias em dia.

Os imigrantes, os cabarés e um muro de betão a dividir a cidade ao meio: tudo aquilo era Berlim. Não podia deixar de pensar num par de namorados a beijar-se em frente do Muro para desafiar aquela estrutura de arame farpado e desconfiança. Assim nasceu »Heroes», um hino que recordava que nada era mais transgressor do que o afecto entre duas pessoas.»

María Hesse, Fran Ruiz, Bowie, Uma biografia (Una biografia, 2018), trad. Lucília Filipe, Penguin Random House, Lisboa, 2019, p. 85.

Praha / Praga, Vězeňská 1

fotografia: filipe sousa | 8 junho 2023

 






















DESEJO DE SE TORNAR ÍNDIO

       Oh, se fôssemos índios, já preparados e, em cima de um cavalo que corre, inclinados contra o vento, estremecêssemos repetidamente sobre o solo que treme até largarmos as esporas porque nunca houve esporas, até deitarmos fora as rédeas porque nunca houve rédeas e quase não víssemos a terra à nossa frente revelar um prado ceifado e liso, agora que o cavalo perdeu o pescoço e a cabeça.

Franz Kafka, «Observação» («Betrachtung», 1913), trad. José Maria Vieira Mendes, in Os Contos, 1º vol., Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, p. 46.

Praha / Praga, Petřín

fotografia: filipe sousa | 8 junho 2024

 

















«Ao chegar ao Monte Petřín, uma colina verdejante que se ergue no centro de Praga, percebeu com espanto que não estava lá ninguém. Era estranho porque habitualmente, e seja a que horas for, as suas áleas estão sempre cheias de gente que lá vai apanhar ar. Sentia-se extremamente angustiada, mas o monte estava tão silencioso e o silêncio era tão tranquilizante que se entregava confiadamente a ele. Subiu, parando de vez em quando para olhar para trás. A seus pés, descobria-se uma infinidade de torres e de pontes. Os santos, com os seus olhos petrificados e posto nas nuvens, erguiam ameaçadoramente os punhos. Era a cidade mais bonita do mundo.»  

Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser (Nesnesitelná lehkost byti, 1983), trad. Joana Varela, 25ª ed., Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2002, p. 179.

Praha / Praga, Karlův Most / Ponte Carlos

fotografia: filipe sousa  | 7 junho 2024

 






















A JANELA PARA A RUA

Quem leve uma vida solitária e tenha de vez em quando a necessidade de algum tipo de contacto, que, atento às mudanças da hora do dia, mudanças de clima, das relações profissionais e afins, queira ter um simples braço, um qualquer a que se possa agarrar - uma pessoa destas não conseguirá aguentar muito tempo sem uma janela que dê para a rua. E se esta pessoa por acaso não estiver à procura de nada e apenas se aproximar do parapeito, como um homem cansado, para passear os olhos, para cima e para baixo, alternando entre o público e o céu, e não quiser olhar e incline a cabeça um pouco para trás, então, nesse caso, os cavalos lá em baixo arrastá-lo-ão consigo no seu cortejo de carruagens e barulho e assim finalmente em direcção à harmonia humana.

Franz Kafka, «Observação» («Betrachtung», 1913), trad. José Maria Vieira Mendes, in Os Contos, 1º vol., Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, p. 44.

Firenze / Florença

fotografia: filipe sousa | 11 maio 2024
















«Florença tem o tamanho exato das cidades para sempre amadas: tudo se pode conhecer num dia; e todos os dias haverá, dentro dela, coisas para ver - até o fim do mundo, que é mais do que o fim da vida.»

Cecília Meireles, «Voz em Florença» in Crônicas de viagem 2 (1953), reimpr. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999, p. 76.


«Florença por dois dias, duas semanas, dois meses? Florença pelo tempo de um suspiro? Mas esta cidade é vasta como um continente, inesgotável como o universo.»

José Saramago, Manual de Pintura e Caligrafia - Ensaio de romance, 1ª edição, Moraes Editores, Lisboa, p. 183.

Firenze / Florença, Oltrarno, San Miniato al Monte

fotografia: filipe sousa | 11 maio 2024























«As oliveiras são plantas estranhas; parecem-se com salgueiros, também ficam ocas, a casca estala e salta. Mas têm um aspecto mais sólido. Vê-se que a madeira cresce lentamente e a sua estrutura é extremamente fina. A folha é do tipo da do salgueiro, mas com menos folhas por ramo. Nos montes à volta de Florença só se vêem oliveiras e vinhas, e entre elas ocupa-se a terra com cereais.»

J.W.Goethe, Viagem a Itália (Italienische Reise, 1786-1787), trad. João Barrento, Relógio d'Água Editores, Lisboa, pp. 140-141.

Firenze / Florença, via Dante Alighieri

fotografia: filipe sousa | 11 maio 2024

 






















«Fiorenza dentro dalla cerchia antica,
onde ella togle ancora a terza e nona,
si stava in pace sobria e pudica.»

«Florença dentro lá da cerca antiga 
aonde a terça e a nona inda ressoa, 
pudica e sóbria estava em paz amiga.»

Dante Alighieri, A Divina Comédia (La Divina Commedia, sec. XIV)Parte III - Paraíso, Canto XV, versos 97-99trad. Vasco Graça Moura, 6ª ed, Bertrand Editora, Chiado, 2002, p. 275. 

Firenze / Florença, Piazza Santa Croce

fotografia: filipe sousa | 11 maio 2024

 


















«Tinha atingido aquele ponto emocional em que as sensações celestiais das belas-artes e os sentimentos apaixonados se encontram. Ao sair de Santa Croce, o meu coração batia forte, a vida esvaziava-se de mim e eu caminhava com medo de cair.» (tradução livre).
Stendhal, Rome, Naples et Florence (1817), éd. Delaunay, Paris,1826, tome II, p. 102.

Rimini

fotografia: filipe sousa | 8 maio 2024


 
















«…nasci em Itália, em Rimini, a 15 de Junho de 1927.

- Porque nasceu em Rimini?

-Porque os meus pais se encontravam lá a banhos, em casa da minha tia Eglantine, irmã de meu pai. Ela casara com um jockey célebre, originário de Urbino. Nasci perto da praia de Lido di Ravenna – entre Ravena e Rimini -, num casebre, não na praia propriamente dita.

-Não há nesse casebre uma placa que assinale o seu nascimento?

-Ouça lá, eu não sou Garibalbi – a mulher dele, Anita, morreu bem perto desse local. Dez dias depois os meus pais regressaram comigo a Veneza.»

Hugo Pratt, O Desejo de Ser Inútil, Memórias e Reflexões (Le Désir D'Être Inutile - Souvenirs et Refléxions, 1991), trad. António Sabler, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2005, pp. 17, 21.
 

«Em direcção a Rimini, Agosto
(…)
Agora começam as praias da minha infância e da minha adolescência: já não se trata de descobertas, mas de constatações.
A Riccione ia veranear quando estava no secundário. Chego: não reconheço quase nada. A nouvelle vague dos banhistas e dos industriais conferiu à praia uma nova violência, um novo sentido no qual triunfam os jovens de hoje, que de novo tudo sabem.
A alameda central, com as duas filas de árvores muito verdes, a sua angústia proto-novecentista, os seus bares cheios como exércitos em formatura, continua mais ou menos igual, Sento-me a uma mesa e, após tantos anos sem o fazer, como um gelado.
Antes, quando com uma alegria interior, comia um gelado todos os dias, tudo aqui era mais absoluto e mais eterno. Os dias eram longuíssimos, eram entidades dotadas de verdadeiro valor e verdadeira duração: o período de férias era um período de vida.»

Pier Paolo Pasolini, A longa Estrada de Areia (La Lunga Strada di Sabbia, 1959), trad. João Coles, Edições do Saguão, Lisboa, 2023, p. 82.

Bologna / Bolonha, Piazza di Porta Ravegnana

fotografia: filipe sousa | 7 maio 2024

 























«Tal como se afigura a Garisenda,
quando passa uma nuvem, inclinada,
de modo tal que ao seu encontro penda, (...)»

Dante Alighieri, A Divina Comédia (La Divina Commedia, sec. XIV)Parte I - Inferno, Canto XXXI, verso 136trad. Vasco Graça Moura, 6ª ed, Bertrand Editora, Chiado, 2002, p. 283. 

«A torre inclinada é uma vista detestável, e no entanto é muito provável que se tenham esmerado por construí-la assim. Encontro a seguinte explicação para este disparate: nos tempos da grande instabilidade urbana todo o grande edifício era uma fortaleza, na qual as famílias poderosas erguiam uma torre. Com o tempo, isto transformou-se numa questão de capricho e prestígio, cada uma queria mostrar a melhor torre, e quando as torres direitas começaram a ficar cada vez mais corriqueiras, alguém mandou construir uma inclinada. E o arquitecto e o proprietário conseguiram o que queriam, porque as pessoas passam pelas muitas torres direitas à procura da inclinada. Subi depois ao cimo desta. As camadas de tijolo são horizontais. Com uma boa massa e esteios de ferro podem fazer-se coisas espantosas.» 

J.W.Goethe, Viagem a Itália (Italienische Reise, 1786-1787), trad. João Barrento, Relógio d'Água Editores, Lisboa, p. 129.

Bologna / Bolonha, Piazza Cavour

fotografia: filipe sousa | 7 maio 2024

 




































«Ao cair do dia livrei-me finalmente desta velha, digna e sábia cidade, das multidões que passeiam, protegidas do sol e do mau tempo por caramanchões abobadados que estenderam por quase todas as ruas, por onde vão olhando, fazendo compras e os seus negócios.»

J.W.Goethe, Viagem a Itália (Italienische Reise, 1786-1787), trad. João Barrento, Relógio d'Água Editores, Lisboa, p. 128.