Fonte Souto de Baixo

fotografia: pedro sousa | 18 agosto 2020

 


«Uma vez na minha vida fiz mais: ofereci às constelações o sacrifício de uma noite inteira. Foi depois da minha visita a Osroés, durante a travessia do deserto sírio. Deitado de costas, com os olhos bem abertos, abandonando por algumas horas todos os cuidados humanos, entreguei-me, do anoitecer à madrugada, àquele mundo de chama e de cristal. Foi a mais bela das minhas viagens. O grande astro da constelação da Lira, estrela polar dos homens que hão-de viver dezenas de milhares de anos depois de nós termos deixado de existir, resplandecia por cima da minha cabeça. Os Gémeos luziam frouxamente nos últimos clarões do poente; a Serpente precedia o Sagitário; a Águia subia para o zénite, as asas abertas, e a seus pés a constelação ainda não designada pelos astrónomos e à qual dei o mais querido dos nomes. A noite, nunca tão completa como julgam os que vivem e dormem em quartos, tornou-se mais escura, depois mais clara. As fogueiras, acesas para espantar os chacais, apagaram-se; aqueles montes de carvões ardentes fizeram-me lembrar o meu avô, de pé na sua vinha, e as suas profecias tornadas presente e pouco depois passado. Tentei unir-me  ao divino sob várias formas; conheci mais de um êxtase; há alguns atrozes e outros de uma perturbante doçura. O da noite síria foi estranhamente lúcido. Gravou em mim os movimentos celestes com uma precisão que nenhuma outra observação parcial me teria jamais permitido atingir.»

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (Mémoires d'Hadrien, 1951), trad. Maria Lamas, 3ª ed., Editora Ulisseia, 1984, pp. 127-128.

Serra de S. Mamede

fotografia: filipe sousa | 15 julho 2021

 

























Com 1025 metros acima do nível do mar, a serra de S. Mamede granjeia os títulos de Everest do Alentejo e tecto do Sul de Portugal. Ontem, foi dia de subir ao cume.

«A Serra de S. Mamede é, ao Sul do Tejo, o relevo mais alto a destacar-se nos vastos peneplanos e planícies do Alentejo. A sua direcção NO.-SE. contrasta  com a do maior número das formações montanhosas que se encontram  na metade setentrional do nosso território. É, no seu conjunto, a continuação das serras espanholas que pertencem ao sistema toledano. Entre a parte O. da massa orográfica espanhola e a de S. Mamede um vale marca uma divisória entre os dois países contíguos, embora a fronteira não siga exactamente essa feição natural.
Distingue-se esta serra pelo seu carácter peneplano, sem arestas agudas de lombada facilmente transitável, revelando uma longa acção demolidora dos agentes externos.
Do seu vértice, a 1025 m., a vista alcança uma enorme superfície, e em dias muito claros o horizonte alarga-se consideravelmente até ao mar, permitindo reconhecer os sucessivos degraus de que se compõe o sul do Tejo.
A paisagem que se observa do alto é diferente conforme nos voltamos a leste, oeste ou norte. Do lado de Espanha mostram-se  pequenos relevos descarnados, simétricos e piramidais, com afloramentos rochosos cuja silhueta se esbate à medida que se afastam da fronteira; a O. desenrola-se a vasta planura alentejana, semeada aqui e além de relevos-testemunhas; e ao N., para lá do Tejo, descortina-se um arco de montanhas em semicírculo, que se desdobra desde a serra da Penha Garcia, pela Gardunha e a Estrela, até à de Muradal-Nisa, que se interrompe bruscamente para reaparecer na serra de Portalegre. Quando a atmosfera está sem bruma, vê-se distintamente uma grande parte do plano inclinado do distrito de Castelo Branco  que vem morrer  ao Tejo fronteiriço, onde se lançam as ribeiras do  Elges, Aravil e Pônsul.»

Silva Teles, "À Serra de S. Mamede" in Guia de Portugal, vol. II - Estremadura, Alentejo, Algarve, 2ª reimpressão, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1991, pp. 425-426. 

Odres

fotografia: filipe sousa | 13 julho 2021
















«Também as ordens e as arcadas se juntam num tipo de edifícios que já mencionámos como caracteristicamente romano: as termas. Com um plano simétrico e calor graduado (uma piscina - natatio ou frigidarium, banhos mornos - tepidarium; e quentes - caldarium) local para as pessoas se despirem (apodyterium) e para fazerem exercícios (palaestra), salas de massagens, restaurantes, bibliotecas, salas para leituras públicas, solários, lojas, exterior com parques, estes edifícios monumentais e polivalentes atraíam multidões ruidosas1 e eram objecto de ostentação, logo, de publicidade, dos seus patronos. Assim, não admira que os imperadores se tenham empenhado em tais construções. Nero, Trajano, Caracala, Diocleciano o fizeram2. Na Roma imperial, é aí que decorre grande parte da vida social da cidade.»

1 Sobre a agitação de umas termas, é muito elucidativa a Carta 56 do Livro VI das Cartas a Lucílio, de Séneca, que quis provar, morando acima de um desses estabelecimentos, que o sábio pode recolher-se, sempre que queira, na sua meditação. O filósofo fala do ruído ensurdecedor proveniente de um sem número de actividades que se processavam no local: desde a queda dos banhistas nas águas da piscina aos atletas que gemiam sob os pesos que levantavam, aos jogos de bola, ao depilador, ao pregão do vendedor de bebidas, de salsichas e de outros alimentos.

2 As mais antigas de que há notícia foram erigidas por Agripa, mas já no seu tempo atingiram a cifra de cento e setenta. De modelo principal serviram as de Trajano. as mais bem conservadas são as de Caracala e as de Diocleciano (nestas últimas está hoje instalado o Museo delle Terme).

Maria Helena da Rocha Pereira, Estudos de História da Cultura Clássica, II volume - Cultura Romana, 1ª ed., Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1984, pp. 444-445.  

Lisboa, castelo de S. Jorge

fotografia: filipe sousa |  7 julho 2021

 
















Lisboa segundo um seu ilustre visitante, no início do século XII, de nome completo Abu Abd Allah Muhammad al-Idrisi al-Qurtubi al-Hasani al-Sabti, ou simplesmente al-Idrisi ou Edrici, geógrafo árabe ao serviço de Roger II, rei normando da Sicília.

«Lisboa ergue-se na margem de um rio que se chama Tejo ou rio de Toledo. A sua largura junto de Lisboa é de 6 milhas e a maré faz-se sentir aí vivamente. Esta bela cidade estende-se ao longo do rio, está cercada de muralhas e é protegida por um castelo. No centro da cidade existe uma fonte de água quente, tanto no Verão como no Inverno.
Situada nas proximidades do Mar Tenebroso, esta cidade tem à sua frente, na margem oposta e junto à foz do rio, o forte de Almada (1) , assim chamado porque o mar lança palhetas de ouro sobre a margem. Durante o Inverno, os habitantes da região vão junto do forte à procura desse metal e entregam-se à faina com maior ou menor sucesso enquanto dura a estação rigorosa. É um facto curioso de que eu próprio fui testemunha.» 

(1) A Mina

Abu Abd Allah Muhammad al-Idrisi al-Qurtubi al-Hasani al-Sabti (simplesmente al-Idrisi ou Edrici), século XII, in António Borges Coelho, Portugal na Espanha Árabe - vol. 1 Geografia e Cultura, 2ª ed., Editorial Caminho, Lisboa, 1989, p. 68. 

Siena, Piazza del Campo

fotografia: filipe sousa | 6 julho 2021


«Entro num bar para beber um café. O empregado atende-me com a voz e o sorriso de Siena. Sinto-me fora do mundo. Desço ao Campo, uma praça inclinada e curva como uma concha, que os construtores não quiseram alisar e que assim ficou, para que fosse uma obra-prima. Coloco-me no meio dela como num regaço e olho os prédios de Siena, casas antiquíssimas onde gostaria de poder viver um dia, onde tivesse uma janela que me pertencesse, voltada para os telhados cor de barro, para as portadas verdes das janelas, a tentar decifrar donde vem este segredo que Siena murmura e que eu vou continuar a ouvir, mesmo que o não entenda, até ao fim da vida.»  

José Saramago, Manual de Pintura e Caligrafia - Ensaio de romance, 1ª edição, Moraes Editores, Lisboa, p. 212.

Estrada Nacional 258 | GPS 38.117258; -7.259771

fotografia: filipe sousa | 20 junho 2021
















O VERÃO

Afaga o ardor 
da palha
antes da manhã.

Prepara a semente
do sol.

Respira devagar,
grão a grão,

o azul,

o frio,
implacável,
azul do verão.

Arranca à terra escura
o difícil silêncio
sem lágrimas nem figura:

não tens outra flor,
não tens outro irmão.

Eugénio de Andrade, «Obscuro Domínio» (1970-1971), in Poesia e Prosa (1940-1980), 2ª ed., Limiar, Porto, s.d., p. 185.

Puerto Lápice, Calle El Molino 2

fotografia: filipe sousa | 8 março 2020

 




Luís Miguel Cintra, ontem, no Público, a propósito da sua mais recente criação como encenador, Pequeno Teatro — Ad Usum Delphini Vanitas, construído a partir de diálogos retirados de D. Quixote de La Mancha: «Aquela figura (D. Quixote) sonha com ideais de beleza, de lealdade, de amizade — tem uma utopia de vida. O que é engraçado é que acredita que será possível realizar essa utopia. Não a vive como utopia. Isso é importante porque, mais modernamente, quando se fala de utopia está a dizer-se que são ideais falhados. Mas não são falhados, são desejados, e mesmo que se considere que é difícil serem alcançados, deixa de ser desejo se não se acreditar que pode realizar-se. Quem mudará o mundo são os que acreditam na utopia e a gente vive numa época de um pragmatismo horrível. Um mundo em que já não existe a crença numa mudança, há antes um cinismo permanente que me horroriza.»
Um espectáculo pela utopia e pelos ideais, contra o cinismo e o calculismo vigentes, no Museu das Marionetas, Lisboa, de 17 de Junho a 8 de Julho.

«-Quisera eu, senhor duque - respondeu D.Quixote -, que estivesse aqui presente aquele bendito religioso que à mesa, no outro dia, mostrou ter tão más maneiras e má vontade contra os cavaleiros andantes, para que visse com os próprios olhos se os tais cavaleiros são necessários no mundo: veria com os seus olhos que os extraordinariamente aflitos e desprezados, em casos importantes e em desditas enormes não vão buscar o seu remédio às casas dos letrados, nem às dos sacristães das aldeias, nem ao cavaleiro a quem nunca sucedeu sair dos confins da sua aldeia, nem ao indolente cortesão que mais procura novas para dizê-las e contá-las que fazer obras e façanhas para que outros as contem e as escrevam; o remédio das aflições, o socorro das necessidades, o amparo das donzelas, o consolo das viúvas, em nenhuma espécie de pessoas se acha melhor que nos cavaleiros andantes, e por eu o ser dou infinitas graças ao céu, e dou por muito bem empregado qualquer acontecimento infeliz e trabalho que neste honroso exercício possa suceder-me.»
(...)
-Sem dúvida este teu amo, Sancho amigo, deve ser um louco.
-Como deve? - respondeu Sancho. - Não deve nada a ninguém: pois paga tudo, e mais quando a moeda é loucura. Bem o vejo eu e bem lho digo a ele. Mas - que adianta?»

Miguel de Cervantes, O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha (El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha, 1605), trad. José Bento, Relógio d'Água Editores, 2005, parte II, caps. XXXVI, LXVI, pp. 716,898,899.

Moura, Estrada da Barca

fotografia: filipe sousa | 12 junho 2021

 















«Abro um parêntese para frisar que as pétalas secas do cardo leiteiro, ou cardo do coalho, constituem o único coagulante oficialmente autorizado no fabrico do Queijo de Serpa. A tradição assim o impôs uma vez que as terras de barro da região são pródigas na produção espontânea de tão bela e utilitária planta.
(...)
Após a filtragem e a salga, procede-se às tarefas de coagulação. A sua «velocidade» tem a ver com a consistência da massa. Não se pergunte ao artesão queijeiro o porquê desta relação. Ele só sabe que a massa fica tanto mais rija quanto mais rápida for a formação da coalhada. Por isso ao adicionar-se ao leite a infusão de cardo levemente aquecida, esta não pode provocar a a aceleração exagerada do coalho nem, pelo contrário, demorá-lo excessivamente.
A coagulação rápida gera queijos ásperos, com sabor acentuado a cardo. A sua demora dá origem a queijos de paladar indefinido e de maturação complicada.
A infusão que se adiciona ao leite é feita com antecipação de um dia. O roupeiro pisa o cardo no almofariz com um pouco de sal. Mete depois a mistura num recipiente de louça, adicionando-lhe água quanto baste, deixando-a ficar até ao dia seguinte.
Antes da sua incorporação côa-se a mistura através de um pano para evitar a passagem das partículas do cardo. Depois inicia-se a operação. Com a lentidão de um ritual, o roupeiro vai deitando o fermento no assado, vasilha de barro com duas asas onde o leite permanece coado e previamente salgado. Pausadamente a mistura vai sendo homogeneizada com o palheto, espécie de grande espátula de pau. Está-se no domínio da alquimia. A quantidade administrada é ditada pela sensibilidade prática do mestre. Está escrito na sua cartilha que a duração óptima da coalhada deve rondar os noventa minutos. Assim mesmo, sem tirar nem pôr. Mas o roupeiro ainda há de referir que tudo isso varia com a «força» do cardo, a qualidade do leite, a quantidade de sal utilizado...Não vale a pena pedir explicações particularizadas, porque o roupeiro remeterá para os domínios da sua sensibilidade - e aí não há nada a fazer.»

João Mário Caldeira, Margem Esquerda do Guadiana - as gentes, a terra, os bichos, Contexto Editora, Lisboa, 2000, pp. 68-70.

Bordeaux / Bordéus, Pont de Pierre

fotografia: filipe sousa | 7 janeiro 2020



ELOGIO BARROCO DA BICICLETA

Redescubro, contigo, o pedalar eufórico
pelo caminho, que  seu tempo se desdobra,
reolhando os beirais - eu que era um teórico
do ar livre - e revendo o passarame à obra.

Avivento, contigo, o coração, já lânguido
das quatro soníferas redondas almofadas
sobre as quais me estangui e bocejei, num trânsito
de corpos em corridas, mas de almas paradas.

Ó ágil e frágil bicicleta andarilha,
ó tubular engonço, ó vaca e andorinha,
ó menina travessa da escola fugida,
ó possuída brincadeira, ó querida filha,

dá-me as asas - trrrim! trrrim! - pra que eu possa traçar
no quotidiano asfalto um oito exemplar!

Alexandre O'Neill, Poesias Completas (A Saca de Orelhas, 1979), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 348.

Mediterrâneo, Palombaggia

fotografia: filipe sousa | outubro 2005

 






















Para lá da espuma dos dias, fica a espuma essencial que nos mantém à tona, como a das águas turquesas de Palombaggia.

«Normalmente fala-se da espuma em termos gerais ou pedantes, a maioria das vezes a propósito das vagas e do vento. As analogias com a ligeireza ou a frivolidade, a facúndia ou a fecundidade, mais não são que comparações: não dizem o que é, de facto, a espuma. Raros são aqueles que pretendem saber o seu volume, a sua composição, se é salgada como o mar, porque é que este a rejeita com tanta obstinação para a praia, e em que quantidades. De resto, não se sabe bem se se pode falar de quantidades a propósito dela. Não esqueçamos também a diferença entre a espuma que flutua no mar e a que se depõe na praia: dificilmente se deixam dissociar, embora por vezes se excluam uma à outra. Ambas nos são familiares e cada uma tem o seu lugar. Não há espuma no mar Morto.» 

Predrag Matvejevitch, Breviário Mediterrânico (1987), trad. do francês Pedro Tamen, Quetzal Editores, Lisboa, 2019, p. 44. 

Ponta de São Lourenço

fotografia: filipe sousa | 18 setembro 2020

 























Hoje celebra-se o Dia Internacional do Fascínio das Plantas. A condizer, fascinado me confesso pelas plantas resilientes da Ponta de São Lourenço e palavras sábias de Teofrasto.

As partes de uma planta

«Depois de ter enumerado as suas partes, tentaremos falar acerca de cada uma. As primeiras, principais e comuns à maioria, são a raiz, caule, ramo e galho, que são como que os membros em em que a planta pode dividir-se, tal como os animais. Cada uma é distinta daas outras, e delas todas se forma o conjunto. Raiz é a parte pela qual é levado o alimento; o caule, aquela par onde é conduzido. Chamo caule à parte simples que surge acima da terra, que é comum igualmente às plantas anuais e perenes, e que nas árvores se chama tronco; ramos, às partes que se bifurcam a partir dele, e a que alguns chamam franças; e galhos aos rebentos que delas se originam, tais como têm sobretudo as plantas anuais, e que são especialmente próprios das árvores.
O caule, como se disse, é a parte mais comum. Mas, a este mesmo, nem todas o têm, como certas herbáceas. Algumas não têm sempre, mas só anualmente, como aquelas cujas raízes duram mais. De um modo geral, a planta é coisa múltipla, variada e difícil de definir no seu conjunto. Prova disso é que não podemos tomar nenhuma característica em comum, que exista em todas, como a boca e o ventre, nos animais.
Por analogia, umas partes são assim, outras de outro modo. Com efeito, nem todas as plantas têm raiz, ou caule, ramos, galhos, folhas, flores ou frutos, nem casca, medula, nervos ou veias, como o cogumelo e a túbera. Mas nestas e noutras assim a sua natureza existe. Todavia, é sobretudo nas árvores que, como dissemos, se encontram estas partes, e a elas que pertencem especificamente. É justo, pois que sejam o ponto de referência para as restantes plantas.»

Teofrasto (séc. IV-III a.C.), História das Plantas, I, 9-11 (trad. Maria Helena da Rocha Pereira, Hélade, Antologia da Cultura Grega (1959), 8ª ed. Edições Asa, Porto, 2003, p. 464.  

Marvão

fotografia: filipe sousa | 24 agosto 2020 














 


Não parece. Mas aproxima-se o Verão, a passos largos. Talvez se cumpra a promessa de Marvão, como em 2020. A fotografia desse instante, em que miradouro e paisagem se fundem na mesma combustão das pedras, só podia pedir este poema de Fiama Hasse Pais Brandão.

O Miradouro

Temi o verão, o tempo. Aproximava-se.

Vi-o transparecer do que é parado,
de bermas e de vistas.
As pedras de Marvão estavam ligadas,
no miradouro, às pedras
da paisagem. Em tudo era a passagem
da temperatura, o verão,
que começava - eu vi - entre muralhas, as aves,
as gralhas do alentejo trasmudavam-se 
tão quentes, como poderiam ser os fogos
da vila mais vorazes?
Esses fogos nas lajes, a mesma combustão
das pedras, a denegrida pele dessas lareiras
em redor.

O temor - era o poente - então reverberava
sobre as partes do horizonte, o monte só
da vila, logo a extensão das terras
baixas, brenhas, os tumultos
de um miradouro alto despenhado
sobre sopés, profusos
traços de uma estação de tempo
que me deteve,
tépida no miradouro, assim como
temendo a posição de ver,
temia a vez
da solidão.

Fiama Hasse Pais Brandão ((Este) Rosto, 1970), Obra Breve - Poesia Reunida, Assírio & Alvim, Lisboa, 2017, p. 87.

Moura, Rua Henrique José Pinto

fotografia: filipe sousa | 27 abril 2020
















Safo, primeira autora da literatura europeia (nasceu na ilha de Lesbos, na segunda metade do século VII a.C.), «quinta-essência do registo lírico na Grécia (…), representa a própria ideia da perfeição em verso» (Frederico Lourenço); «é nela que, pela primeira vez, se toma consciência do valor da poesia» (Maria Helena da Rocha Pereira); por isso «os gregos honram-na como a décima musa» (Platão).

São dessa Safo poetisa da paixão e da natureza, de que nos chegaram sobretudo registos mutilados, os três versos seguintes retirados do seu «O Pomar de Afrodite», bem à medida das fotografias, ou, pensando melhor, que as dispensam ou tornam acessórias, pois que «em nenhum autor grego encontramos uma alquimia tão milagrosa entre o som da poesia e a sugestão visual do respectivo significante» (Frederico Lourenço).

O pomar de Afrodite (fr.2 PLF)

(...)

       A pradaria onde pastam os cavalos está florida
10   de corolas primaveris; as brisas sopram
       suaves...

(...)

Safo in Poesia Grega, de Hesíodo a Teócrito, trad. (notas e comentários) Frederico Lourenço, ed. bilingue grego e português, Quetzal Editores, Lisboa, 2020, p. 79. 

Berlin / Berlim, Mühlenstrasse (East Side Gallery)

fotografia: filipe sousa | 25 janeiro 2020

 
















Trinta anos passaram sobre a sua publicação, como introdução à obra Salvemos a Terra (Save The Earth, 1991), e, no entanto, este texto de Gonçalo Ribeiro Telles surge imbuído de uma actualidade perturbadora, dando-nos a exacta dimensão do seu autor, sempre à frente do seu tempo.

É, por isso, a nossa escolha para assinalar o Dia Mundial da Terra.

«Nos nossos dias, é quase impossível encontrar um recanto da Terra onde a Natureza não tenha já sofrido com a presença do homem.

Muitos povos, transformando o coberto vegetal da biosfera, souberam criar paisagens de grande beleza onde se desenvolveram notáveis civilizações. Nessa paisagens mantêm-se a complexidade biológica indispensável à realização dos fenómenos e relações ecológicas que garantem a presença da Natureza. Uma gestão sábia dos recursos vivos assegura a manutenção da capacidade de regeneração dos mesmos e a fertilidade da terra, de que dependem a existência e o desenvolvimento das comunidades humanas.

Estão incluídos nestas paisagens os agro-sistemas tradicionais que, ainda hoje, ocupam grande parte do território português. Estes sistemas culturais, utilizando solos delgados, constituem uma herança valiosa que importa conservar e desenvolver. a sua estrutura ecológica e funcionamento equilibrado garantem o povoamento e a estabilidade do território bem como um quadro de significativa riqueza biológica. 

O mundo moderno que considerou o universo como uma máquina sujeita, por isso, a uma ordem matemática e precisa, procurou dominar e reordenar a Natureza aplicando-lhe os princípios da mecânica. Nasceu, assim, a ideia de um progresso amoral e contínuo  a que Darwin, sem o querer, reconhecendo a fatal sobrevivência dos mais fortes e aptos, veio dar alento com a sua teoria sobre a selecção natural.

Estava aberto o caminho para a concretização abusiva das ideias de Adam Smith: o mundo pertence aos mais aptos, isto é, àqueles e às gerações que melhor são capazes de proteger o seu interesse material.

Neste final do século XX, se olharmos para trás, podemos admirar as inúmeras conquistas da ciência, e o avanço da tecnologia, realizadas nos últimos séculos, em prol da humanidade. No entanto, não podemos deixar de verificar que, apesar do progresso, cresceram enormes barreiras, culturais, sociais e económicas, entre povos de diferentes regiões e camadas da população de um mesmo país. Milhões de seres humanos, pertencentes às sociedades consideradas desenvolvidas, têm uma eficaz assistência à saúde, é-lhes garantida uma certa segurança social, podem adquirir um elevado número de bens e enriquecerem-se culturalmente, enquanto muitos outros vegetam, sem dignidade, ao lado ou à distância da abundância, sem esperança de melhores dias, ou, mesmo, morrem de fome e subalimentação, como sucede, tragicamente, em tantas regiões da África, da América do Sul e da Índia.

Esta enorme desigualdade é, em grande parte, consequência da aplicação dum economicismo exacerbado, assente na rentabilização financeira, a curto prazo, dos investimentos.

A eliminação dos biótopos silvestres que permitem as mais variadas formas de vida, e que constituem a estrutura básica das paisagens tradicionais, diversificadas e equilibradas, também contribui para o processo de desertificação e despovoamento que se verifica em muitas regiões do globo terrestre.

A destruição sistemática da Natureza tanto se verifica nos chamados países desenvolvidos como nos de subdesenvolvimento crónico ou, ainda, nas regiões onde a espécie humana, devido a condicionalismos ecológicos, está sujeita a rigorosos limites demográficos. Neste caso, a devastação afecta muitos dos sistemas naturais indispensáveis ao equilíbrio ecológico do nosso planeta.

Os recursos naturais do Terceiro Mundo, facilmente exportáveis, são explorados até à exaustão, dando lugar a efémeras explorações extensivas, agrícolas ou de pecuária.

Em nome do progresso, assistimos na Europa à contaminação das paisagens tradicionais por produtos tóxicos industriais, que degradam a qualidade dos elementos essenciais à vida: o ar, a água e o solo vivo. Os sistemas agro-químicos de exploração da terra têm vindo, no Velho Continente, a provocar a destruição sistemática da variedade e do equilíbrio biológico e das estruturas ecológicas permanentes, que são factores indispensáveis à fertilidade e à riqueza genética do espaço rural.

O modelo de crescimento económico que tem sido seguido em Portugal necessita de um gasto excessivo de energia importada e promove a degradação da Natureza e a simplificação da paisagem.

O crescimento não se traduz, na maioria dos casos, por um desenvolvimento real da sociedade, mas sim pelo aumento do produto nacional bruto, o que só favorece alguns sectores privilegiados da economia e camadas minoritárias da população.

Na sequência do processo, o fundo de fertilidade dos melhores solos aráveis é destruído pelos sistemas agro-químicos, grandes consumidores de energia exterior. As terras menos férteis, onde foram instalados ecossistemas humanizados de significativa riqueza paisagística e biológica, tais como os «montados» e as «bouças», são sistematicamente ocupadas por extensos povoamentos industriais de eucalipto. Estes povoamentos, para além de degradação e provocarem  a sua rápida mineralização e erosão, são a principal causa da desertificação e despovoamento do espaço rural, obrigando os camponeses a emigrarem dos campos para os subúrbios das cidades do litoral, onde os espera a marginalidade social e carências económicas e culturais de toda a ordem.

A simplificação das paisagens e a degradação da Natureza, fazendo crescer o afluxo da população rural aos grandes espaços urbanos, provoca o aumento das áreas «betonizadas», devido à construção de edifícios e de vias de circulação, e a «mineralização» dos solos suburbanos, devido à sua ocupação por barracas, resíduos e lixos ou por serem abandonados pela agricultura, em face da expectativa de valorização financeira que sempre atinge os terrenos situados na vizinhança dos centros urbanos. Neste último caso, a Natureza, antes mesmo de chegar o betão, degrada-se e morre porque a agricultura desapareceu.

O espaço urbano alarga-se, indiscriminadamente, à custa dos bens e do capital humano, produzidos e acumulados no sector rural e exportados para as grandes cidades.

As «barracas» miseráveis, alternando com os grandes blocos, «colmeias» de habitações exíguas, alastram por todo o lado como mancha de óleo vazada em tampo de vidro. As ribeiras, as matas e sebes vivas, as hortas são destruídas pelas construções e infra-estruturas. A agricultura e a Natureza são obrigadas a afastarem-se para áreas cada vez mais longínquas onde ainda se faça sentir a valorização especulativa dos terrenos urbanizáveis.

A «mineralização» dos solos das cidades, ainda libertos de construções, pelo excessivo calcamento e deposição de resíduos, e a dos solos agrícolas, devido à «eucaliptização» e agro-química, é um dos aspectos mais graves que afecta, em Portugal, a Natureza.

A imposição do betão no espaço rural, substituindo a pedra dos muros e das casas, a madeira e o granita dos esteios das vinhas, a margem natural das linhas de água, também concorre para a degradação da Natureza, e empobrecimento cultural dos povos. O regime hídrico é alterado com a retirada das areias dos rios para fabrico do betão, com graves prejuízos para os ecossistemas fluviais.

A poluição dos rios, provocada por uma industrialização selvagem, constitui em Portugal um problema ambiental de extrema gravidade, dada a sua repercussão nos sistemas fluviais e estuarinos das bacias hidrográficas e na própria costa.

O futuro dos nossos filhos obriga-nos a defender a paisagem e a procurar aumentar a sua capacidade para a vida em todo o território nacional. Só assim será possível criar as condições que permitem aumentar o bem-estar das populações, quer no espaço rural quer no urbano, e recriar uma paisagem onde a Natureza tenha os eu lugar primordial.

A paisagem do futuro deverá assentar: na produção de bens; na permanência da fertilidade; na preservação da variedade genética e da vida silvestre; na manutenção dos processos ecológicos essenciais à vida, que incluem a manutenção da capacidade de regeneração dos recursos vivos; na conservação da multiplicidade de formas da Natureza.

Esta paisagem deve possuir os atributos do Jardim do Paraíso concebido para o homem.

Na realidade, o Éden é, desde a mais remota Antiguidade, o protótipo ideal da felicidade e plena realização da humanidade. Lugar onde a Natureza, percorrida por águas livres e sussurrantes, adquire, por um lado, a máxima expressão de espiritualidade, beleza, equilíbrio e variedade de formas e, por outro, produz os bens materiais necessários à existência da espécie humana. Compete-nos realizá-lo.

O livro Salvemos a Terra é um valioso contributo para abrir o caminho do futuro, não só porque é um alerta, em face da catástrofe ecológica de que o mundo começa a ter consciência, como também é um instrumento eficaz de informação e de educação para que seja possível uma sociedade mais justa e uma terra onde a Natureza seja amada, respeitada e sabiamente gerida.

Lisboa, 9 de Abril de 1991

Gonçalo Ribeiro Telles

Arquitecto paisagista; engenheiro-agrónomo; professor catedrático da Universidade de Évora; presidente do conselho do Departamento de Planeamento Biofísico e Paisagístico da UE; professor coordenador da Secção Autónoma de Arquitectura Paisagista do Instituto Superior de Agronomia da UTL; ex-secretário de Estado do Ambiente, ex-ministro de Estado e da Qualidade de Vida.»  

in Jonathon Porritt, Salvemos a Terra (Save The Earth, 1991), trad. Wanda Viegas, Maria Leonor Cecílio, Livraria Civilização Editora, 1992, pp. 10-13. 

Berlin / Berlim, Tempelhofer Feld

fotografia: filipe sousa | 6 junho 2019

 
















E POR FALAR EM AEROPORTO...
No dia 6 de Junho de 2019, em que Berlim foi a capital europeia mais quente, registando 33 graus Celsius à sombra, a Regina e o Markus, munido de geladeira com cervejas e salame de carne, deram-nos a conhecer, a mim e à Clara, o maior parque público da cidade. A sua criação data de 2010, depois do encerramento do aeroporto de Tempelhof, dois anos antes, e de os berlinenses terem sido chamados a pronunciar-se sobre o destino a dar às antigas instalações aeroportuárias, que incluem terminais de partida e chegada, hangares e oficinas, pistas de aviação e espaços envolventes.
Beneficiando deste envolvimento cívico e de algum investimento público, o aeroporto de Tempelhof transformou-se em poucos anos no principal local de lazer da cidade alemã, ou seja, no Tempelhofer Feld, um espaço de cerca de 400 hectares onde é possível a prática de bicicleta, skate, patins, segway ou kitesurf, mas também a realização de festivais de música, actividades de conservação da natureza e agricultura sustentável, de economia circular e colaborativa, assim como o desenvolvimento de processos participativos como os que dizem respeito a criação e gestão de hortas-jardins comunitários pelos cidadãos.
Há quem venha propositadamente do centro de Berlim, de comboio, como nós fizemos, para passar uns bons momentos no seu “paraíso” de 4 metros x 4 metros, entre canteiros de flores e legumes, com uma viola ou um livro nas mãos, apanhado ali perto, na pequena biblioteca instalada dentro de uma espécie de cabina telefónica. Há também aqueles que vivem nas redondezas e chegam a pé ou de bicicleta, em grupos de amigos ou famílias, para tomar apenas ar ou refastelar-se na relva a pretexto de um piquenique.
Construído nas décadas de 20 e 30 do século passado, o aeroporto de Tempelhof serviu também para manutenção de aeronaves e de base militar durante o regime nazi. Em 1945, foi ocupado pelo exército soviético e, nesse mesmo ano, entregue à administração americana. Tornou-se ainda um dos principais cenários de uma das mais graves crises da Guerra Fria. Durante o bloqueio terrestre de Berlim pelas forças soviéticas, entre Junho de 1948 e Maio de 1949, o abastecimento de Berlim Ocidental foi assegurado pelas Forças Aéreas dos EUA e Reino Unido através, precisamente, do aeroporto de Tempelhof. Só em 1993, a Força Aérea norte-americana devolveria o aeroporto à cidade.

Graham Greene, no seu Journey without maps, transporta-nos aos anos 30 do século passado, descrevendo uma aterragem no Tempelhof.

«O avião oscilava sobre Hanover, ainda empurrado por uns restos de temporal, afundou-se de repente uns cento e cinquenta metros em direcção da pequenina aerogare e elevou-se de novo para Leste. Atrás do aparelho o pôr-do-Sol alongava-se pelas nuvens, que tomavam cores pálidas em sulcos compridos. Por cima dos lagos o ar era plúmbeo, e a água parecia enterrada no chão, semelhante a rodelas de chumbo. Aqui e além as luzes das aldeias. Anoitecera muito antes de se chegar a Berlim: a cidade veio ao encontro do avião, através do negrume, como um archote, línguas de fogo saídas da noite pesada. As tabuletas luminosas eram do tamanho de estampilhas; podia-se ver todo o traçado da cidade, como nos mapas do metropolitano quando se carrega no botão para verificar o percurso. O enorme rectângulo de Tempelhof estava marcado a vermelho e amarelo. O aparelho inclinou-se sobre Berlim, deu uma volta e desceu; apagaram-se as luzes do interior, os faróis varreram a pista asfaltada, viram-se clarões atrás da asa parda do Lufta Hansa quando o trem de aterragem tocou o solo e deslizou. Rápida e feliz sensação! Na terra, porém, entre as cruzes suásticas, notava-se a dor a cada quilómetro percorrido.»

Graham Greene, Jornada sem mapas (Journey without maps, 1936), trad. Cabral do Nascimento, Editorial Minerva, Lisboa, 1964, p. 34. 

València / Valência, Plaça del Mercat

fotografia: filipe sousa | 11 março 2020























E as "dama" sozinhas de Angola (que não constam do cartaz!), com vidas destroçadas, habitantes dos limites da vida?

«Teresa Chilambo, 35 anos, o marido morreu na guerra, são quatro pessoas em casa, ganha a vida com a lenha;

Alice Vissopa, 49 anos, cria quatro órfãos cujas mães faleceram e cujos pais, um foi para a mata e outro morreu na mina; tem uma pequena lavra;

Joaquina Ngueve, 31 anos, teve dois maridos, um desapareceu há quinze anos, o outro está em Luanda há dois anos, tem sete filhos e vive de vender bebidas fermentadas;

Adélia Jepele, 35 anos, o marido faleceu por doença há três meses, tem seis filhos, vive vendendo fuba;

Jacinta Vondila, 45 anos, o marido faleceu há três anos por doença, cinco filhos, vive de lenha;

Firmina Susso, 40 anos, o marido faleceu na guerra há cinco anos, quatro filhos, vive de lenha;

Clementina Chova, 24 anos, o marido está preso há três anos em Luanda, dois filhos, vive de lenha;

Maria de Fátima, 27 anos, dois maridos, o primeiro faleceu em emboscada, o segundo está com outra senhora em Benguela, três filhos vive de lenha;

Margarida Jondo, 43 anos, o marido faleceu há três anos por doença, quatro filhos, vive da lenha;

Teresa Chicumbo, 24 anos, o marido foi para a tropa há quatro anos e não deu mais notícia, três filhos, vive da candonga;

Maria da Natividade, 30 anos, o marido morreu na guerra, cinco pessoas em casa, vive da candonga;

Flora Massanga, 32 anos, teve três maridos, o último está no Lobango com outra, cinco pessoas em casa, tem uma lavra;

Joaquina Chacuvala, 39 anos, teve dois maridos, um faleceu de doença, outro na guerra, sete pessoas em casa, vive da candonga;

Regina Negueve, 24 anos, teve um marido que foi para o Lubango há três anos, vive com outras cinco pessoas em casa, tem lavra;

Josefa Chissuva, 59 anos, o marido faleceu com doença, cria dois órfãos cujos pais faleceram na guerra, vive da lenha;

Madalena Salassa, 35 anos, o marido faleceu na mina, cinco pessoas em casa, vive da lenha;

Maria Nagueve, 50 anos, dois maridos, um está na UNITA, o segundo tem outra mulher, cria dois órfãos cuja mãe faleceu com doença e cujo pai foi para Luanda com outra, tem lavra;

Margarida Naombo, 60 anos, o marido é cego, cria três órfãos cuja mãe faleceu num ataque e cujo pai tem outra, vive da lenha;

Celestina Cuvanja, 69 anos, o marido faleceu com doença, cria três órfãos, a mãe foi com outro e o pai faleceu;

Evalina Dumala, 63 anos, o marido faleceu com doença, cria quatro órfãos cuja mãe faleceu com doença e cujo pai foi para a tropa, vive da lenha...

Em Setembro de 1992, o Centro de Saúde da periferia de Huambo convidou as «mães sozinhas» residentes na área a recensearem-se. Em duas semanas, acorreram 693. O Centro servia uma população de cerca de 70 mil pessoas, o que representaria cerca de 12 mil famílias. Cinco em cada cem, portanto, seriam «mães sozinhas». «Vieram das aldeias para a periferia das cidades, principalmente por razões de insegurança física. Vieram com os maridos ou juntaram-se já na cidade», explicou na sua edição de 11 desse mês o Jango, com a lista de nomes. «Depois os maridos desapareceram: uns morreram de doença, os mais pela guerra; outros emigraram de novo para outras cidades mas sem a família; alguns escolheram outras mulheres - e elas ficaram sozinhas, mais os filhos. Não sabem ler, não têm profissão, conhecem apenas como trabalhar as terras, mas não têm terras. Saíram das aldeias que foram queimadas, destruídas, perderam os laços sociais (familiares e comunitários) que as enquadravam, juntaram-se a outros homens, párias semelhantes. Agora eles foram e elas, só com os filhos, nada mais têm, nem mesmo existência legal.»»

Pedro Rosa Mendes, Baía dos Tigres, 3ª ed., Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, pp. 347-349.

Siena

fotografia: Filipe Sousa | 6 julho 2009

 























A minha primeira vez na ruiva Siena

Cheguei a Siena, vindo de Roma, no final de uma tarde quente de Julho de 2009, depois de atravessar de comboio as belas paisagens da Toscânia. Entrei pela Porta Ovile, a tempo de ver a cidade com luz natural e captar, num desenho, a Piazza del Campo, aquela que Montaigne descreveu, no século XVI, como «la più bella che si vedda in nissuna altra città». Enquanto o desenho fluía, surgiram, em pano de fundo, as palavras inspiradas de Cecília Meireles, que também se perdeu de amores por Siena quando aqui esteve em 1953.

«…a Piazza del Campo – em forma de concha, cercada de soberbos palácios, com muitas ruas desembocando por todo o lado e a solitária Torre del Mangia varando o tempo (…), onde outrora, como os muezins, nas mesquitas, um homem chamado Mangia vinha anunciar as horas… (…) Siena, a rival de Florença, não se pode descrever facilmente. Florença é clara, quase linear e translúcida, - comparada a esta cidade tão medieval, de uma ruiva tonalidade, que faz pensar em ouro, sangue, ferrugem, e em cujas ladeiras e esquinas não se pode deixar de ver o perfil das antiquíssimas guerras. (…) Com o meu panforte me vou por estas ruas de Siena, que sobem e descem, em pedras, degraus, ladeiras, encruzilhadas, por entre palácios fechados, de suntuosas fachadas. Ai, não fosse a vida esta urgência! Pudéssemos nós ir sempre subindo e descendo estas ruas, estas escadas, sem fome, sem cansaço, sem hora certa, puramente em alma!...»

Cecília Meireles, «Da ruiva Siena» in Crônicas de viagem 2 (1953), reimpr. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999, pp. 55-58.

Lisboa

fotografia: 30 novembro 2008

 



























 




O Homem na Cidade deixou-nos hoje, com o futuro no horizonte.

Carlos do Carmo (1939-2021).


UM HOMEM NA CIDADE

Agarro a madrugada
como se fosse uma criança
uma roseira entrelaçada
uma videira de esperança
tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem por força da vontade
de trabalhar nunca se cansa.

Vou pela rua
desta lua
que no meu Tejo acende o cio
vou por Lisboa maré nua
que desagua no Rossio.

Eu sou um homem na cidade
que manhã cedo acorda e canta
e por amar a liberdade
com a cidade se levanta.

Vou pela estrada
deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresça na vela da canoa.

Sou a gaivota 
que derrota
todo o mau tempo no mar alto
eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.

E quando agarro a madrugada
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada
um malmequer azul na cor.

O malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém
o malmequer desta cidade
que me quer bem que me quer bem!

Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis que me quer bem! 

José Carlos Ary dos Santos, 1977
cantado por Carlos do Carmo

Funchal

 
fotografia: filipe sousa | 22 setembro 2020


A meio da tarde, deixei-me teletransportar para a baixa do Funchal, com um pé na varanda do 7º andar do nº 75 da Avenida Arriaga e outro num catamarã fundeado ao largo da enseada, para assistir ao fogo-de-artifício em honra de S. Silvestre e saudar o novo ano.

O serviço incluiu o regresso ao Funchal dos anos 30 do século passado, e a entrada a bordo do «Guiné», acompanhando Juvenal e Elisabeth, que se despedem saudosos da cidade a caminho da ilha do Sal, em Cabo Verde.

«Com Elisabeth muito encostada a si, no extremo da amurada, afastados dos outros passageiros, Juvenal recordava a noite já longínqua, fim de ano alegre em que ele viera para a baía, não banido, como agora, mas curioso de ver quanto fogo-de-artifício se queimava em honra de S. Silvestre.

Era velho costume da ilha saudar o ano nascente e fazer ao morto coruscantes funerais com uma festa pirotécnica. Antes mesmo de cair a meia-noite sobre o último santo do calendário, portas e janelas da cidade, fossem de vivendas modernas, de antigos e austeros palácios ou de pobres casebres, começavam a esparrinhar fogo na grande encosta, enchendo a escuridade de lumaréus, fogachos rabiantes, rútilas serpentinas, jactos de luz que se cruzavam, derramando estrelas e lágrimas, flamas de vida errante e efémera, dando sempre lugar a outras, a muitas outras, que se entrançavam com todas as cores do arco-íris e se perdiam num espectáculo demoníaco, fantasmagórico e inesquecível. Tudo ardia, tudo fulgurava; já não existia a noite; já não existia a terra; vivia-se num outro mundo, um mundo de fogo crepitante, que arremessava estilhaços de constelações e de astros, por entre os quais vagueavam serpentes vermelhas e caíam, lentamente, lentamente flores extravagantes, pétalas rubras, como se se estivessem a desfolhar os inesgotáveis jardins do céu. A noite era uma apoteose aos génios do mar. (...)

O «Guiné» afastava-se da baía do Funchal e, agora, abrangia-se melhor a encosta povoada de focos luminosos e cada vez mais fantástica na noite atlântica.»

Ferreira de Castro, Eternidade (1933), 15ª ed., Cavalo de Ferro, Amadora, 2020, pp. 266, 270.

Bordeaux / Bordéus, Quai des Chartrons 35

fotografia: filipe sousa | 9 novembro 2019
















Futebol escreve-se com oito letras: Maradona!

«Mais tarde, em Buenos Aires, a televisão transmitiu o segundo ajuste de contas: a detenção em directo e ao vivo, como se fosse um jogo, para quem gostou de ver o espectáculo do rei nu que a polícia leva preso.
«É um doente», disseram. E disseram: «Está acabado.». O messias convocado para redimir a maldição histórica dos italianos do sul tinha sido, também, o vingador da derrota argentina na Guerra das Malvinas, através de um golo batoteiro e de outro golo fabuloso, que deixou os ingleses a girar como piões durante alguns anos; mas na hora da queda, o Pibe de Ouro passou a ser, apenas, um farsante agarrado ao pó e um putanheiro. Maradona tinha traído os miúdos e desonrado o desporto. Deram-no como morto.
Mas o cadáver levantou-se de um salto. Cumprida a penitência da cocaína, Maradona foi o bombeiro da selecção argentina que queimava as últimas possibilidades de chegar ao Mundial de 1994. Graças a Maradona chegou lá. E, nesse torneio, Maradona voltou a ser, novamente, como nos melhores tempos, o melhor de todos, quando rebentou o escândalo da efedrina.
A máquina do poder tomara-o de ponta. Ele não tinha papas na língua, isso tem o seu preço, esse preço paga-se com dinheiro à vista e sem descontos. E foi o próprio Maradona quem lhes deu a justificação, com a sua tendência suicida de se oferecer de bandeja aos seus muitos inimigos e com a sua irresponsabilidade infantil que o leva a cair em todas as ciladas que se abrem no seu caminho.
Os mesmos jornalistas que o acossam com microfones, censuram a sua arrogância e as birras, acusam-no de falar demais. Não deixam de ter razão; mas não é isso que não lhe perdoam; na verdade, não lhes agrada o que ele às vezes diz. Este fedelho repontão e exaltado tem o hábito de desferir golpes para cima. Em 1986 e em 1994, no México e nos Estados Unidos, denunciou a ditadura omnipotente da televisão, que obrigava os jogadores a derrear-se ao meio-dia, esturricando ao sol, e noutras milhentas ocasiões, ao longo de toda a sua acidentada carreira, Maradona disse coisas que agitaram as águas. Ele não foi o único jogador desobediente, mas foi a voz dele que deu ressonância universal às perguntas mais inconvenientes: Por que razão o futebol não é regido pelas leis universais do direito laboral? Havelange cala-se, ocupado com outros mesteres, e Joseph Blatter, burocrata da FIFA que nunca deu um pontapé numa bola mas que anda em limusinas de oito metros com motorista negro, limita-se a comentar:
-O último astro argentino foi Di Stéfano.
Quando Maradona foi, finalmente, expulso do Mundial de 1994, os campos de futebol perderam o seu rebelde mais clamoroso.. E perderam também um jogador fantástico. Maradona é incontrolável quando fala, mas muito mais quando joga: não há quem consiga prever as diabruras deste inventor de surpresas, que nunca se repete e que se diverte a desconcertar os computadores. Não é um jogador veloz, bezerro de pernas curtas, mas tem a bola corrida no pé e tem olhos no corpo todo. As suas artes malabares incendeiam o relvado. Ele pode decidir um jogo disparando um tiro fulminante de costas para a baliza ou servindo um passe impossível, de longe, cercado por milhares de pernas inimigas, e não há quem o pare quando se põe a fintar rivais.
No frígido futebol do fim de século, que exige vitórias e proíbe o prazer, este homem é um dos poucos que demonstram que a fantasia também pode ser eficaz.»

Eduardo Galeano, Futebol ao sol e à sombra (El fútebol a sol y sombra, 1995), trad. Helena Pitta, Antígona Editores Refractários, Lisboa, 2019, pp. 253-254. 

Amareleja, Rua da República 16-A

fotografia: filipe sousa | 25 junho 2014

 

















Hoje é dia de S. Martinho.
S. Martinho que rima com vinho (novo).
Vinho que condiz com petisco e Amareleja.
Que, por sua vez, combinam com companheirismo e cante alentejano.
E tudo isto conflui na figura de Joaquim Leandro Grosso, o mestre Minuto, amarelejense insigne, homem de cultura e uma referência do universo do cante.

Já que falamos de vinho, uma vez recitou-me estas quadras:


Eu gosto muito de vinho
Não o posso dispensar
Quando estou de bebedeira
O meu destino é cantar

Se queres que eu cante bem
Dá-me gotinhas de vinho
O vinho é coisa santa
Faz o cantar miudinho

És filho da cepa
Neto do velho cacho
Não me subas à cabeça
Desce por aqui abaixo.

Recitado por Joaquim Leandro Grosso (mestre Minuto).