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| fotografia: pedro sousa | 18 agosto 2020 |
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| fotografia: pedro sousa | 18 agosto 2020 |
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| fotografia: filipe sousa | 15 julho 2021 |
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| fotografia: filipe sousa | 13 julho 2021 |
| fotografia: filipe sousa | 7 julho 2021 |
| fotografia: filipe sousa | 6 julho 2021 |
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| fotografia: filipe sousa | 20 junho 2021 |
O VERÃO
| fotografia: filipe sousa | 8 março 2020 |
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| fotografia: filipe sousa | 12 junho 2021 |
| fotografia: filipe sousa | 7 janeiro 2020 |
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| fotografia: filipe sousa | outubro 2005 |
Para lá da espuma dos dias, fica a espuma essencial que nos mantém à tona, como a das águas turquesas de Palombaggia.
«Normalmente fala-se da espuma em termos gerais ou pedantes, a maioria das vezes a propósito das vagas e do vento. As analogias com a ligeireza ou a frivolidade, a facúndia ou a fecundidade, mais não são que comparações: não dizem o que é, de facto, a espuma. Raros são aqueles que pretendem saber o seu volume, a sua composição, se é salgada como o mar, porque é que este a rejeita com tanta obstinação para a praia, e em que quantidades. De resto, não se sabe bem se se pode falar de quantidades a propósito dela. Não esqueçamos também a diferença entre a espuma que flutua no mar e a que se depõe na praia: dificilmente se deixam dissociar, embora por vezes se excluam uma à outra. Ambas nos são familiares e cada uma tem o seu lugar. Não há espuma no mar Morto.»
Predrag Matvejevitch, Breviário Mediterrânico (1987), trad. do francês Pedro Tamen, Quetzal Editores, Lisboa, 2019, p. 44.
| fotografia: filipe sousa | 18 setembro 2020 |
Hoje celebra-se o Dia Internacional do Fascínio das Plantas. A condizer, fascinado me confesso pelas plantas resilientes da Ponta de São Lourenço e palavras sábias de Teofrasto.
As partes de uma planta
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| fotografia: filipe sousa | 24 agosto 2020 |
Temi o verão, o tempo. Aproximava-se.
| fotografia: filipe sousa | 27 abril 2020 |
São dessa Safo poetisa da paixão e da natureza, de que nos chegaram sobretudo registos mutilados, os três versos seguintes retirados do seu «O Pomar de Afrodite», bem à medida das fotografias, ou, pensando melhor, que as dispensam ou tornam acessórias, pois que «em nenhum autor grego encontramos uma alquimia tão milagrosa entre o som da poesia e a sugestão visual do respectivo significante» (Frederico Lourenço).
O pomar de Afrodite (fr.2 PLF)
(...)
| fotografia: filipe sousa | 25 janeiro 2020 |
É, por isso, a nossa escolha para assinalar o Dia Mundial da Terra.
«Nos nossos dias, é quase impossível encontrar um recanto da Terra onde a Natureza não tenha já sofrido com a presença do homem.
Muitos povos, transformando o coberto vegetal da biosfera, souberam criar paisagens de grande beleza onde se desenvolveram notáveis civilizações. Nessa paisagens mantêm-se a complexidade biológica indispensável à realização dos fenómenos e relações ecológicas que garantem a presença da Natureza. Uma gestão sábia dos recursos vivos assegura a manutenção da capacidade de regeneração dos mesmos e a fertilidade da terra, de que dependem a existência e o desenvolvimento das comunidades humanas.
Estão incluídos nestas paisagens os agro-sistemas tradicionais que, ainda hoje, ocupam grande parte do território português. Estes sistemas culturais, utilizando solos delgados, constituem uma herança valiosa que importa conservar e desenvolver. a sua estrutura ecológica e funcionamento equilibrado garantem o povoamento e a estabilidade do território bem como um quadro de significativa riqueza biológica.
O mundo moderno que considerou o universo como uma máquina sujeita, por isso, a uma ordem matemática e precisa, procurou dominar e reordenar a Natureza aplicando-lhe os princípios da mecânica. Nasceu, assim, a ideia de um progresso amoral e contínuo a que Darwin, sem o querer, reconhecendo a fatal sobrevivência dos mais fortes e aptos, veio dar alento com a sua teoria sobre a selecção natural.
Estava aberto o caminho para a concretização abusiva das ideias de Adam Smith: o mundo pertence aos mais aptos, isto é, àqueles e às gerações que melhor são capazes de proteger o seu interesse material.
Neste final do século XX, se olharmos para trás, podemos admirar as inúmeras conquistas da ciência, e o avanço da tecnologia, realizadas nos últimos séculos, em prol da humanidade. No entanto, não podemos deixar de verificar que, apesar do progresso, cresceram enormes barreiras, culturais, sociais e económicas, entre povos de diferentes regiões e camadas da população de um mesmo país. Milhões de seres humanos, pertencentes às sociedades consideradas desenvolvidas, têm uma eficaz assistência à saúde, é-lhes garantida uma certa segurança social, podem adquirir um elevado número de bens e enriquecerem-se culturalmente, enquanto muitos outros vegetam, sem dignidade, ao lado ou à distância da abundância, sem esperança de melhores dias, ou, mesmo, morrem de fome e subalimentação, como sucede, tragicamente, em tantas regiões da África, da América do Sul e da Índia.
Esta enorme desigualdade é, em grande parte, consequência da aplicação dum economicismo exacerbado, assente na rentabilização financeira, a curto prazo, dos investimentos.
A eliminação dos biótopos silvestres que permitem as mais variadas formas de vida, e que constituem a estrutura básica das paisagens tradicionais, diversificadas e equilibradas, também contribui para o processo de desertificação e despovoamento que se verifica em muitas regiões do globo terrestre.
A destruição sistemática da Natureza tanto se verifica nos chamados países desenvolvidos como nos de subdesenvolvimento crónico ou, ainda, nas regiões onde a espécie humana, devido a condicionalismos ecológicos, está sujeita a rigorosos limites demográficos. Neste caso, a devastação afecta muitos dos sistemas naturais indispensáveis ao equilíbrio ecológico do nosso planeta.
Os recursos naturais do Terceiro Mundo, facilmente exportáveis, são explorados até à exaustão, dando lugar a efémeras explorações extensivas, agrícolas ou de pecuária.
Em nome do progresso, assistimos na Europa à contaminação das paisagens tradicionais por produtos tóxicos industriais, que degradam a qualidade dos elementos essenciais à vida: o ar, a água e o solo vivo. Os sistemas agro-químicos de exploração da terra têm vindo, no Velho Continente, a provocar a destruição sistemática da variedade e do equilíbrio biológico e das estruturas ecológicas permanentes, que são factores indispensáveis à fertilidade e à riqueza genética do espaço rural.
O modelo de crescimento económico que tem sido seguido em Portugal necessita de um gasto excessivo de energia importada e promove a degradação da Natureza e a simplificação da paisagem.
O crescimento não se traduz, na maioria dos casos, por um desenvolvimento real da sociedade, mas sim pelo aumento do produto nacional bruto, o que só favorece alguns sectores privilegiados da economia e camadas minoritárias da população.
Na sequência do processo, o fundo de fertilidade dos melhores solos aráveis é destruído pelos sistemas agro-químicos, grandes consumidores de energia exterior. As terras menos férteis, onde foram instalados ecossistemas humanizados de significativa riqueza paisagística e biológica, tais como os «montados» e as «bouças», são sistematicamente ocupadas por extensos povoamentos industriais de eucalipto. Estes povoamentos, para além de degradação e provocarem a sua rápida mineralização e erosão, são a principal causa da desertificação e despovoamento do espaço rural, obrigando os camponeses a emigrarem dos campos para os subúrbios das cidades do litoral, onde os espera a marginalidade social e carências económicas e culturais de toda a ordem.
A simplificação das paisagens e a degradação da Natureza, fazendo crescer o afluxo da população rural aos grandes espaços urbanos, provoca o aumento das áreas «betonizadas», devido à construção de edifícios e de vias de circulação, e a «mineralização» dos solos suburbanos, devido à sua ocupação por barracas, resíduos e lixos ou por serem abandonados pela agricultura, em face da expectativa de valorização financeira que sempre atinge os terrenos situados na vizinhança dos centros urbanos. Neste último caso, a Natureza, antes mesmo de chegar o betão, degrada-se e morre porque a agricultura desapareceu.
O espaço urbano alarga-se, indiscriminadamente, à custa dos bens e do capital humano, produzidos e acumulados no sector rural e exportados para as grandes cidades.
As «barracas» miseráveis, alternando com os grandes blocos, «colmeias» de habitações exíguas, alastram por todo o lado como mancha de óleo vazada em tampo de vidro. As ribeiras, as matas e sebes vivas, as hortas são destruídas pelas construções e infra-estruturas. A agricultura e a Natureza são obrigadas a afastarem-se para áreas cada vez mais longínquas onde ainda se faça sentir a valorização especulativa dos terrenos urbanizáveis.
A «mineralização» dos solos das cidades, ainda libertos de construções, pelo excessivo calcamento e deposição de resíduos, e a dos solos agrícolas, devido à «eucaliptização» e agro-química, é um dos aspectos mais graves que afecta, em Portugal, a Natureza.
A imposição do betão no espaço rural, substituindo a pedra dos muros e das casas, a madeira e o granita dos esteios das vinhas, a margem natural das linhas de água, também concorre para a degradação da Natureza, e empobrecimento cultural dos povos. O regime hídrico é alterado com a retirada das areias dos rios para fabrico do betão, com graves prejuízos para os ecossistemas fluviais.
A poluição dos rios, provocada por uma industrialização selvagem, constitui em Portugal um problema ambiental de extrema gravidade, dada a sua repercussão nos sistemas fluviais e estuarinos das bacias hidrográficas e na própria costa.
O futuro dos nossos filhos obriga-nos a defender a paisagem e a procurar aumentar a sua capacidade para a vida em todo o território nacional. Só assim será possível criar as condições que permitem aumentar o bem-estar das populações, quer no espaço rural quer no urbano, e recriar uma paisagem onde a Natureza tenha os eu lugar primordial.
A paisagem do futuro deverá assentar: na produção de bens; na permanência da fertilidade; na preservação da variedade genética e da vida silvestre; na manutenção dos processos ecológicos essenciais à vida, que incluem a manutenção da capacidade de regeneração dos recursos vivos; na conservação da multiplicidade de formas da Natureza.
Esta paisagem deve possuir os atributos do Jardim do Paraíso concebido para o homem.
Na realidade, o Éden é, desde a mais remota Antiguidade, o protótipo ideal da felicidade e plena realização da humanidade. Lugar onde a Natureza, percorrida por águas livres e sussurrantes, adquire, por um lado, a máxima expressão de espiritualidade, beleza, equilíbrio e variedade de formas e, por outro, produz os bens materiais necessários à existência da espécie humana. Compete-nos realizá-lo.
O livro Salvemos a Terra é um valioso contributo para abrir o caminho do futuro, não só porque é um alerta, em face da catástrofe ecológica de que o mundo começa a ter consciência, como também é um instrumento eficaz de informação e de educação para que seja possível uma sociedade mais justa e uma terra onde a Natureza seja amada, respeitada e sabiamente gerida.
Lisboa, 9 de Abril de 1991
Gonçalo Ribeiro Telles
Arquitecto paisagista; engenheiro-agrónomo; professor catedrático da Universidade de Évora; presidente do conselho do Departamento de Planeamento Biofísico e Paisagístico da UE; professor coordenador da Secção Autónoma de Arquitectura Paisagista do Instituto Superior de Agronomia da UTL; ex-secretário de Estado do Ambiente, ex-ministro de Estado e da Qualidade de Vida.»
in Jonathon Porritt, Salvemos a Terra (Save The Earth, 1991), trad. Wanda Viegas, Maria Leonor Cecílio, Livraria Civilização Editora, 1992, pp. 10-13.
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| fotografia: filipe sousa | 6 junho 2019 |
Graham Greene, no seu Journey without maps, transporta-nos aos anos 30 do século passado, descrevendo uma aterragem no Tempelhof.
«O avião oscilava sobre Hanover, ainda empurrado por uns restos de temporal, afundou-se de repente uns cento e cinquenta metros em direcção da pequenina aerogare e elevou-se de novo para Leste. Atrás do aparelho o pôr-do-Sol alongava-se pelas nuvens, que tomavam cores pálidas em sulcos compridos. Por cima dos lagos o ar era plúmbeo, e a água parecia enterrada no chão, semelhante a rodelas de chumbo. Aqui e além as luzes das aldeias. Anoitecera muito antes de se chegar a Berlim: a cidade veio ao encontro do avião, através do negrume, como um archote, línguas de fogo saídas da noite pesada. As tabuletas luminosas eram do tamanho de estampilhas; podia-se ver todo o traçado da cidade, como nos mapas do metropolitano quando se carrega no botão para verificar o percurso. O enorme rectângulo de Tempelhof estava marcado a vermelho e amarelo. O aparelho inclinou-se sobre Berlim, deu uma volta e desceu; apagaram-se as luzes do interior, os faróis varreram a pista asfaltada, viram-se clarões atrás da asa parda do Lufta Hansa quando o trem de aterragem tocou o solo e deslizou. Rápida e feliz sensação! Na terra, porém, entre as cruzes suásticas, notava-se a dor a cada quilómetro percorrido.»
Graham Greene, Jornada sem mapas (Journey without maps, 1936), trad. Cabral do Nascimento, Editorial Minerva, Lisboa, 1964, p. 34.
| fotografia: filipe sousa | 11 março 2020 |
E as "dama" sozinhas de Angola (que não constam do cartaz!), com vidas destroçadas, habitantes dos limites da vida?
«Teresa Chilambo, 35 anos, o marido morreu na guerra, são quatro pessoas em casa, ganha a vida com a lenha;
Alice Vissopa, 49 anos, cria quatro órfãos cujas mães faleceram e cujos pais, um foi para a mata e outro morreu na mina; tem uma pequena lavra;
Joaquina Ngueve, 31 anos, teve dois maridos, um desapareceu há quinze anos, o outro está em Luanda há dois anos, tem sete filhos e vive de vender bebidas fermentadas;
Adélia Jepele, 35 anos, o marido faleceu por doença há três meses, tem seis filhos, vive vendendo fuba;
Jacinta Vondila, 45 anos, o marido faleceu há três anos por doença, cinco filhos, vive de lenha;
Firmina Susso, 40 anos, o marido faleceu na guerra há cinco anos, quatro filhos, vive de lenha;
Clementina Chova, 24 anos, o marido está preso há três anos em Luanda, dois filhos, vive de lenha;
Maria de Fátima, 27 anos, dois maridos, o primeiro faleceu em emboscada, o segundo está com outra senhora em Benguela, três filhos vive de lenha;
Margarida Jondo, 43 anos, o marido faleceu há três anos por doença, quatro filhos, vive da lenha;
Teresa Chicumbo, 24 anos, o marido foi para a tropa há quatro anos e não deu mais notícia, três filhos, vive da candonga;
Maria da Natividade, 30 anos, o marido morreu na guerra, cinco pessoas em casa, vive da candonga;
Flora Massanga, 32 anos, teve três maridos, o último está no Lobango com outra, cinco pessoas em casa, tem uma lavra;
Joaquina Chacuvala, 39 anos, teve dois maridos, um faleceu de doença, outro na guerra, sete pessoas em casa, vive da candonga;
Regina Negueve, 24 anos, teve um marido que foi para o Lubango há três anos, vive com outras cinco pessoas em casa, tem lavra;
Josefa Chissuva, 59 anos, o marido faleceu com doença, cria dois órfãos cujos pais faleceram na guerra, vive da lenha;
Madalena Salassa, 35 anos, o marido faleceu na mina, cinco pessoas em casa, vive da lenha;
Maria Nagueve, 50 anos, dois maridos, um está na UNITA, o segundo tem outra mulher, cria dois órfãos cuja mãe faleceu com doença e cujo pai foi para Luanda com outra, tem lavra;
Margarida Naombo, 60 anos, o marido é cego, cria três órfãos cuja mãe faleceu num ataque e cujo pai tem outra, vive da lenha;
Celestina Cuvanja, 69 anos, o marido faleceu com doença, cria três órfãos, a mãe foi com outro e o pai faleceu;
Evalina Dumala, 63 anos, o marido faleceu com doença, cria quatro órfãos cuja mãe faleceu com doença e cujo pai foi para a tropa, vive da lenha...
Em Setembro de 1992, o Centro de Saúde da periferia de Huambo convidou as «mães sozinhas» residentes na área a recensearem-se. Em duas semanas, acorreram 693. O Centro servia uma população de cerca de 70 mil pessoas, o que representaria cerca de 12 mil famílias. Cinco em cada cem, portanto, seriam «mães sozinhas». «Vieram das aldeias para a periferia das cidades, principalmente por razões de insegurança física. Vieram com os maridos ou juntaram-se já na cidade», explicou na sua edição de 11 desse mês o Jango, com a lista de nomes. «Depois os maridos desapareceram: uns morreram de doença, os mais pela guerra; outros emigraram de novo para outras cidades mas sem a família; alguns escolheram outras mulheres - e elas ficaram sozinhas, mais os filhos. Não sabem ler, não têm profissão, conhecem apenas como trabalhar as terras, mas não têm terras. Saíram das aldeias que foram queimadas, destruídas, perderam os laços sociais (familiares e comunitários) que as enquadravam, juntaram-se a outros homens, párias semelhantes. Agora eles foram e elas, só com os filhos, nada mais têm, nem mesmo existência legal.»»
Pedro Rosa Mendes, Baía dos Tigres, 3ª ed., Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, pp. 347-349.
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| fotografia: Filipe Sousa | 6 julho 2009 |
Cheguei a Siena, vindo de Roma, no final de uma tarde quente de Julho de 2009, depois de atravessar de comboio as belas paisagens da Toscânia. Entrei pela Porta Ovile, a tempo de ver a cidade com luz natural e captar, num desenho, a Piazza del Campo, aquela que Montaigne descreveu, no século XVI, como «la più bella che si vedda in nissuna altra città». Enquanto o desenho fluía, surgiram, em pano de fundo, as palavras inspiradas de Cecília Meireles, que também se perdeu de amores por Siena quando aqui esteve em 1953.
«…a Piazza del Campo – em forma de concha, cercada de soberbos palácios,
com muitas ruas desembocando por todo o lado e a solitária Torre del Mangia
varando o tempo (…), onde outrora, como os muezins, nas mesquitas, um homem
chamado Mangia vinha anunciar as horas… (…) Siena, a rival de Florença, não se
pode descrever facilmente. Florença é clara, quase linear e translúcida, -
comparada a esta cidade tão medieval, de uma ruiva tonalidade, que faz pensar
em ouro, sangue, ferrugem, e em cujas ladeiras e esquinas não se pode deixar de
ver o perfil das antiquíssimas guerras. (…) Com o meu panforte me vou por estas ruas de Siena, que sobem e descem, em
pedras, degraus, ladeiras, encruzilhadas, por entre palácios fechados, de
suntuosas fachadas. Ai, não fosse a vida esta urgência! Pudéssemos nós ir
sempre subindo e descendo estas ruas, estas escadas, sem fome, sem cansaço, sem
hora certa, puramente em alma!...»
Cecília Meireles, «Da ruiva Siena» in Crônicas de viagem 2 (1953), reimpr. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999, pp. 55-58.
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| fotografia: 30 novembro 2008 |
UM HOMEM NA CIDADE

fotografia: filipe sousa | 22 setembro 2020
«Com Elisabeth muito encostada a si, no extremo da amurada, afastados dos outros passageiros, Juvenal recordava a noite já longínqua, fim de ano alegre em que ele viera para a baía, não banido, como agora, mas curioso de ver quanto fogo-de-artifício se queimava em honra de S. Silvestre.
Era velho costume da ilha saudar o ano nascente e fazer ao morto coruscantes funerais com uma festa pirotécnica. Antes mesmo de cair a meia-noite sobre o último santo do calendário, portas e janelas da cidade, fossem de vivendas modernas, de antigos e austeros palácios ou de pobres casebres, começavam a esparrinhar fogo na grande encosta, enchendo a escuridade de lumaréus, fogachos rabiantes, rútilas serpentinas, jactos de luz que se cruzavam, derramando estrelas e lágrimas, flamas de vida errante e efémera, dando sempre lugar a outras, a muitas outras, que se entrançavam com todas as cores do arco-íris e se perdiam num espectáculo demoníaco, fantasmagórico e inesquecível. Tudo ardia, tudo fulgurava; já não existia a noite; já não existia a terra; vivia-se num outro mundo, um mundo de fogo crepitante, que arremessava estilhaços de constelações e de astros, por entre os quais vagueavam serpentes vermelhas e caíam, lentamente, lentamente flores extravagantes, pétalas rubras, como se se estivessem a desfolhar os inesgotáveis jardins do céu. A noite era uma apoteose aos génios do mar. (...)
O «Guiné» afastava-se da baía do Funchal e, agora, abrangia-se melhor a encosta povoada de focos luminosos e cada vez mais fantástica na noite atlântica.»
Ferreira de Castro, Eternidade (1933), 15ª ed., Cavalo de Ferro, Amadora, 2020, pp. 266, 270.
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| fotografia: filipe sousa | 9 novembro 2019 |
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| fotografia: filipe sousa | 25 junho 2014 |
Eu
gosto muito de vinho
Não
o posso dispensar
Quando
estou de bebedeira
O
meu destino é cantar
Se
queres que eu cante bem
Dá-me
gotinhas de vinho
O
vinho é coisa santa
Faz
o cantar miudinho
És
filho da cepa
Neto
do velho cacho
Não
me subas à cabeça
Desce
por aqui abaixo.
Recitado por Joaquim Leandro Grosso (mestre Minuto).