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| fotografia: filipe sousa | 23 maio 2025 |
Lawrence Durell, A Sombra Infinita de César (Caeser’s Vast Ghost, 1999), trad. Sérgio Gonçalves, Edições Saídas de Emergência, Porto Salvo, p. 24.
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| fotografia: filipe sousa | 23 maio 2025 |
| fotografia: filipe sousa | 20 abril 2025 |
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| fotografia: filipe sousa | 23 fevereiro 2025 |
| fotografia: filipe sousa | 23 fevereiro 2025 |
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| fotografia: filipe sousa | 22 fevereiro 2025 |
Ela, a miúda do cabelo louro. Com uma cana na mão toca ao de leve na superfície do lago, aspergindo o jardim em volta com breves jactos de água. Fica maravilhada com o efeito produzido. E repete, e repete, sem se fartar. Ele, o miúdo com o mesmo tom palha no cabelo. Alheio ao que se passa à sua volta, indaga o fundo do lago com olhos de falcão. Que sortilégios procurará ele na escuridão, entre as raízes dos nenúfares: um pimpão, um cágado, um tritão, um duende, um anão, um tesouro? Nada disso? O que será então? Esses dois tomados pelo deslumbramento, imagino-os irmãos, primos, amigos, nórdicos, descendentes do Cavaleiro da Dinamarca…. Palavra que quando os vi não pude deixar de lembrar-me de Sophia e Ruben A. e das suas memórias de infância. E de como foram felizes neste mesmo paraíso, num passado já distante, «quando os dias eram compridos e se podia cismar», com os “joelhos deitados abaixo” das inúmeras subidas às árvores, correrias e trambolhões. Um mundo inesgotável de descoberta e encantamento pessoal, que acabou por marcar as obras de ambos e todos os que as leram. Já agora, o que farão as duas crianças louras com o capital de experiência deste dia? Que memórias guardarão para serem revividas, desfrutadas mais à frente? Seguirão as pisadas dos primos Andresen? Escreverão também eles os seus livros, como reflexos e prolongamentos do seu ser, das suas vidas, do seu tempo? Para que outras crianças se possam inspirar com as suas histórias e «aprenderem a aventura / de quebrar horizontes esbarrados / e avançar sem mapas à procura / do corpo e do desenho da verdade»? Este apontamento, tão exacto e veemente, poderá parecer inventado. Mas nunca nada é inventado, como diria Sophia.
«Esta casa desmedida, cheia de gente mas também cheia de lugares vazios e quartos desabitados e fechados, cheia de vozes, silêncios ressonâncias, mistérios, medos e encantações e assombros, aparece, assim como o jardim, o parque, o pinhal e a quinta, em muitos dos poemas e contos que ao longo dos anos escrevi. É a casa de Hans do conto «Saga», o jardim do Rapaz de Bronze. E, múltipla, a casa é também «um dos palácios do Minotauro» de que falo num dos meus poemas. É igualmente esta a casa que o meu primo Ruben A. descreve no seu livro O Mundo à Minha Procura: uma óptima descrição, tão exacta e veemente que poderá parecer inventada. Mas nunca nada é inventado.»
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Memórias de Sophia - Inéditos", Revista Ler, Dezembro 2012, nº 119.
«A casa e a Quinta do Campo Alegre pertencem hoje ao Estado. Aí foi instalado o Museu de Ciências Naturais da cidade do Porto e o Jardim Botânico. Percorri a casa e andei pela Quinta. Agradeço ao seu conservador as facilidades prodigalizadas para que esse mundo fabuloso se vivesse com mais intensidade ao contactar os quartos onde dormi, as salas onde passei natais seguidos, as ruas da Quinta que me conheceram nos fins de tarde, os recantos onde vivi dores de um lirismo exacerbado. Voltar ao Campo Alegre foi para mim qualquer coisa de enorme na vida, mais importante do que ir à Lua, ou andar em órbita à volta da Terra. (…) A ideia da grandeza do Campo Alegre hoje em dia já é difícil de formar para quem não se lembre do que era aquele território no seu apogeu. A mata da Quinta, o souto de castanheiros, os altos muros de camélias, os milheirais em vários andares, os campos, tudo foi sacrificado aos novos urbanismos, à auto-estrada que entra no Porto pela ponte da Arrábida. Para quem viaja de Lisboa, o Campo Alegre é aquele parque imenso que se depara logo à saída da ponte, e de onde sobressai uma construção monumental cheia de alicerces e uma clarabóia que tanta luz me incutiu.»
Ruben A., O Mundo à Minha Procura, vol. I (1964), Assírio & Alvim, Lisboa, 2020, p. 22.
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| fotografia: filipe sousa | 22 fevereiro 2025 |
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| fotografia: filipe sousa | 22 fevereiro 2025 |
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| fotografia: filipe sousa | 21 fevereiro 2025 |
| fotografia: pedro sousa | 23 março 2024 |
| fotografia: filipe sousa | 8 janeiro 2020 |
— Ora a bicicleta resolveu o problema. Remedeia a nossa lentidão e suprime a fadiga. O homem tem agora à disposição todos os meios. O vapor e a electricidade não passam de progressos que serviam o seu bem‑estar. A bicicleta é um aperfeiçoamento do próprio corpo, quer dizer, o seu acabamento. É um par de pernas mais rápidas que lhe é oferecido. O homem e a máquina são um só. Não são dois seres diferentes como o homem e o cavalo, dois instintos em oposição. Não, é um só ser, um autómato feito de uma só peça. Não há um homem e uma máquina. Há só um homem mais rápido.
Maurice Leblanc, Voici des ailes!, 1897, in De Bicicleta, Antologia de textos, trad. José Cláudio, Júlia Ferreira, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2012, pp. 11-12.
| fotografia: filipe sousa | 23 dezembro 2024 |
| fotografia: filipe sousa | 9 dezembro 2024 |
| fotografia: pedro sousa | 1 dezembro 2024 |
«O que será amanhã, evita perguntar; e seja qual for, dos dias possíveis, aquele que a Sorte dará, regista-o como lucro (…)»
Quinto Horácio Flaco (65 a.C. – 8 a.C.), Poesia Completa, texto latino, estabelecido, traduzido e anotado por Frederico Lourenço, Odes, Livro I, frag. 1.9.13-15, Quetzal, Lisboa, 2023, pp. 45-47.
«(…) Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente (…)»
Ricardo Reis, Poesia I, Odes, 16-6-1914, Fernando Pessoa, Obra completa de Ricardo Reis, ed. de Jerónimo e Jorge Uribe, Tinta-da-China, Lisboa, 2024, p. 41.
| fotografia: filipe sousa | 30 novembro 2024 |
UM DIA
| fotografia: filipe sousa | 12 setembro 2023 |
| fotografia: filipe sousa | 4 outubro 2024 |
| fotografia: filipe sousa | 28 setembro 2024 |
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| fotografia: filipe sousa | 12 maio 2024 |
TROMPE L'OEIL
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| fotografia: filipe sousa | 23 julho 2024 |
«Halito do inferno, já duas vezes o suão, ou vento levante, passando o Estreito, todo abrasado da escandencia das areias africanas, veio sobre esses grandes vales argilosos do districto de Beja, lançar a morte; e o verão do paiz sem agua, o verão alemtejano, martyrizante, irradiante, começa a encher d'angustias a provincia, e prepara scenario á colheita cerealifera, que, est'anno foi, sempre lh'o digo, d'uma victoriosa e esplendida abundancia.
(....)
A ceifa, assêfa, como elles dizem, é o trabalho mais angustiado e estragador da gente alemtejana, por causa do sol, e por isso se paga, conforme os annos e a pressa, duplo ou triplo das outras operações anteriores da sementeira. Nada mais que observando, do caminho de ferro, crepitando, reverberando a luz por entre syncopes de sêde, em colinas sem arvores, ou com sobreiras e azinheiras cuja sombra metalica ainda parece mais asphyxica, em planicies sem fontes, onde nos meados de abril quasi que não ha ribeiros circulantes, para de longe se interpretar a agonia que seja viver hi enterrado, com a fouce na mão, os olhos cegos, a bocca em lama fétida, a pelle dos dedos gretada pelo bisel cortante das gavelas, respirando a moinha palustre que derrama no corpo uma brotoeja insupportavel, onde os insectos se abatem, para sugar o sangue dos irritados borbotões...»
Fialho de Almeida, Ceifeiros, separata ed. Livraria Clássica Editora, Empresa Industrial Gráfica do Porto, s.d., pp. 5-7.
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| fotografia: filipe sousa | 22 junho 2024 |
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| fotografia: filipe sousa | 14 junho 2024 |
Johann W. Goethe, Fausto (Faust, Eine Tragödie, 1808, 1832), trad. João Barrento, Relógio d'Água Editores, Lisboa, p. 84, vv. 1220-1237.
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| fotografia: filipe sousa | 13 junho 2024 |
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| fotografia: filipe sousa | 11 junho 2024 |
«Andávamos de bicicleta - porque é que isso dá prazer? Muda-se de paisagem mas é o fruto do nosso esforço, sentimo-nos compensados. E há o triunfo do equilíbrio na aresta das duas rodas, todo o nosso corpo subutilizado nesse mínimo de suporte. E há a ascensão de nós nesse movimento alado. E há a simplicidade, quase o esquematismo dessa máquina de andar.»
Vergílio Ferreira, Para sempre, 3ª ed., Livraria Bertrand, Lisboa, 1983, p. 226.
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| fotografia: filipe sousa | 12 junho 2024 |
«O Tony Visconti e eu fomos para os estúdios Hansa para terminar a produção do novo disco. Estávamos finalmente em Berlim. Nem o Jim, nem eu perdemos muito tempo a olhar para as listas de êxitos. Berlim chamava-nos, por isso mergulhámos nela como gatos vadios. Passávamos horas nos seus cafés e nos seus cabarés.
Contámos com uma cicerone fabulosa: a Romy Haag, que, num abrir e fechar de olhos, caiu na minha teia de sedução. Parecia saída da Berlim dos anos 1930. envolvemo-nos em tudo o que a cidade nos oferecia e fizemos as nossas farras, embora sem perder as estribeiras. Tinha de ter atenção para os traficantes de Berlim não se aproximarem demasiado do Jim e ele fazia o mesmo comigo. As coisas eram assim: tínhamos de cuidar um do outro.
O IGGY E EU TÍNHAMOS PROBLEMAS GRAVES COM AS DROGAS. PARA RESOLVÊ-LOS, MUDÁMO-NOS PARA BERLIM, CAPITAL MUNDIAL DA HEROÍNA.
O Jim andava todos os dias catorze quilómetros para se pôr em forma. Eu gostava de me perder pelos bairros dos operários estrangeiros e passar horas nas suas pequenas lojas sem que ninguém me reconhecesse. Depois juntávamo-nos e púnhamos as notícias em dia.
Os imigrantes, os cabarés e um muro de betão a dividir a cidade ao meio: tudo aquilo era Berlim. Não podia deixar de pensar num par de namorados a beijar-se em frente do Muro para desafiar aquela estrutura de arame farpado e desconfiança. Assim nasceu »Heroes», um hino que recordava que nada era mais transgressor do que o afecto entre duas pessoas.»
María Hesse, Fran Ruiz, Bowie, Uma biografia (Una biografia, 2018), trad. Lucília Filipe, Penguin Random House, Lisboa, 2019, p. 85.
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| fotografia: filipe sousa | 8 junho 2023 |
DESEJO DE SE TORNAR ÍNDIO
Oh, se fôssemos índios, já preparados e, em cima de um cavalo que corre, inclinados contra o vento, estremecêssemos repetidamente sobre o solo que treme até largarmos as esporas porque nunca houve esporas, até deitarmos fora as rédeas porque nunca houve rédeas e quase não víssemos a terra à nossa frente revelar um prado ceifado e liso, agora que o cavalo perdeu o pescoço e a cabeça.
Franz Kafka, «Observação» («Betrachtung», 1913), trad. José Maria Vieira Mendes, in Os Contos, 1º vol., Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, p. 46.
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| fotografia: filipe sousa | 8 junho 2024 |
«Ao chegar ao Monte Petřín, uma colina verdejante que se ergue no centro de Praga, percebeu com espanto que não estava lá ninguém. Era estranho porque habitualmente, e seja a que horas for, as suas áleas estão sempre cheias de gente que lá vai apanhar ar. Sentia-se extremamente angustiada, mas o monte estava tão silencioso e o silêncio era tão tranquilizante que se entregava confiadamente a ele. Subiu, parando de vez em quando para olhar para trás. A seus pés, descobria-se uma infinidade de torres e de pontes. Os santos, com os seus olhos petrificados e posto nas nuvens, erguiam ameaçadoramente os punhos. Era a cidade mais bonita do mundo.»
Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser (Nesnesitelná lehkost byti, 1983), trad. Joana Varela, 25ª ed., Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2002, p. 179.
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| fotografia: filipe sousa | 7 junho 2024 |
A JANELA PARA A RUA
Quem leve uma vida solitária e tenha de vez em quando a necessidade de algum tipo de contacto, que, atento às mudanças da hora do dia, mudanças de clima, das relações profissionais e afins, queira ter um simples braço, um qualquer a que se possa agarrar - uma pessoa destas não conseguirá aguentar muito tempo sem uma janela que dê para a rua. E se esta pessoa por acaso não estiver à procura de nada e apenas se aproximar do parapeito, como um homem cansado, para passear os olhos, para cima e para baixo, alternando entre o público e o céu, e não quiser olhar e incline a cabeça um pouco para trás, então, nesse caso, os cavalos lá em baixo arrastá-lo-ão consigo no seu cortejo de carruagens e barulho e assim finalmente em direcção à harmonia humana.
Franz Kafka, «Observação» («Betrachtung», 1913), trad. José Maria Vieira Mendes, in Os Contos, 1º vol., Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, p. 44.
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| fotografia: filipe sousa | 11 maio 2024 |
«Florença tem o tamanho exato das cidades para sempre amadas: tudo se pode conhecer num dia; e todos os dias haverá, dentro dela, coisas para ver - até o fim do mundo, que é mais do que o fim da vida.»
Cecília Meireles, «Voz em Florença» in Crônicas de viagem 2 (1953), reimpr. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999, p. 76.
«Florença por dois dias, duas semanas, dois meses? Florença pelo tempo de um suspiro? Mas esta cidade é vasta como um continente, inesgotável como o universo.»
José Saramago, Manual de Pintura e Caligrafia - Ensaio de romance, 1ª edição, Moraes Editores, Lisboa, p. 183.