| fotografia: filipe sousa | 17 outubro 2019 |
Lyon, Rue Saint Jean 6
TOMA TOMA TOMA
Ainda prefiro os bonecos de cachaporra,
contundentes, contundidos, esmocados,
com vozes de cana rachada e um toma toma toma
de quem não usa a moca para coçar os piolhos,
mas para rachar as cabeças.
O padreca, o diabo, a criadita,
o tarata, a velha alcoviteira, o galã
e, às vezes, um verdadeiro rato branco trapezista,
tramavam para nós a estafada estória
da nossa própria vida.
Mundo de pasta e de trapo
que armava barraca em qualquer canto
e sem contemplações pela moral de classe
nem as subtilezas de quem fica ileso
desancava os maus e beijocava os bons.
Ainda prefiro os bonecos de cachaporra.
Ainda hoje esbracejo e me esganiço como esses
matraquilhos da comédia humana.
Alexandre O'Neill, Poesias Completas (A Saca de Orelhas, 1979), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 349.
Ainda prefiro os bonecos de cachaporra,
contundentes, contundidos, esmocados,
com vozes de cana rachada e um toma toma toma
de quem não usa a moca para coçar os piolhos,
mas para rachar as cabeças.
O padreca, o diabo, a criadita,
o tarata, a velha alcoviteira, o galã
e, às vezes, um verdadeiro rato branco trapezista,
tramavam para nós a estafada estória
da nossa própria vida.
Mundo de pasta e de trapo
que armava barraca em qualquer canto
e sem contemplações pela moral de classe
nem as subtilezas de quem fica ileso
desancava os maus e beijocava os bons.
Ainda prefiro os bonecos de cachaporra.
Ainda hoje esbracejo e me esganiço como esses
matraquilhos da comédia humana.
Alexandre O'Neill, Poesias Completas (A Saca de Orelhas, 1979), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 349.
| fotografia: filipe sousa | 17 setembro 2019 |
Mértola, rio Guadiana
«São muitas as especies de peixe que habitam e frequentam o rio Guadiana, e a costa de Villa Real Santo Antonio, desde Cacella até à ponte de Santo Antonio, e d'aqui até Mertola. Algumas d'estas especies vivem constantemente no rio, e outras procuram-o nos mezes da primavera e verão, epocha em que desovam, saíndo depois para o mar, e deixando as crias no rio, desenvolvendo-se.
Segundo as informações que colhi, parece que havia antigamente maior abundancia de quasi todas as especies, porém actualmente, e de alguns annos a esta parte, tem havido diminuição, tendo mesmo desapparecido, quasi por completo, algumas classes.
Os pescadores d'este rio querem attribuir a falta ou diminuição do peixe às aguas saídas das minas de cobre existentes nas duas margens do rio, e as quaes são mina de S. Domingos na margem portuguesa, e as minas Lagunazo, Cabeza del Pasto, e Vuelta Falsa na margem hespanhola.
(...)
Quadro Indicativo das Differentes Especies de Peixe que habitam e frequentam o rio e a costa no districto maritimo de Villa Real de Santo Antonio
Bárbo - Existia em grande quantidade em todo o rio; porém, de alguns annos para hoje, tem diminuido sensivelmente, principalmente no inverno. É peixe só do rio. Encontra se ainda em Mertola e para o N. d'este ponto, e em mais abundancia no verão. Vive sempre no rio e nos pontos lodosos. Desova em abril e maio, proximo das margens de cascalho.
Bordállo - Havia grande abundancia d'este peixe. Tem diminuido bastante. Encontra-se mais no verão que no inverno, epocha em que quasi desapparece. Vive só no rio. Desova em abril e maio, procurando as margens de lodo, onde parece que vive.
(...)
Boga - Existe em grande quantidade em todo o rio, quer de verão, quer de inverno. Parece crear-se do lodo. Desova em janeiro, fevereiro e março, procurando os pontos em que a agua corre com mais violencia, e os menores fundos junto às margens.
(...)
Eiró - Existe em grande quantidade n'este rio, de Alcoutim para o N. do rio. É pescada mais de verao que de inverno, em que apparece menos.
(...)
Lampreia - Apparece em Mertola e suas immediações de março em diante, e em regular quantidade, ainda que hoje mais diminuta que antigamente. Depois de desovar desapparece, deixando a creação nos mesmos pontos em que desova.
(...)
Mugem - Existe grande abundancia d'este peixe dentro d'este rio e na costa, de onde entra no rio adiante dos temporaes, e nas phases da lua, lua nova e lua cheia. Vive do lodo. Desova em março, abril e maio, nos fundos de pedra e nos de lodo.
(...)
Picão - É em tudo similhante ao barbo, porém de menores dimensões. Existe, em grande quantidade em Mertola e suas imediações. É peixe do rio. Desova em abril e maio, nas margens de cascalho.
(...)
Peixe rei - Apparece algumas vezes dentro do rio e só próximo da foz. Desova no verão, junto às pedras da margem.
(...)
Savel - Entra no rio em março, abril, maio e junho, dirigindo-se para o norte do rio, proximidades de Mertola, onde desova, saíndo depois para o mar no começo das chuvas, e portanto quando as ribeiras desaguam no rio. Alimenta-se, enquanto no rio, de diversos resíduos. Apparece hoje menos que n'outros tempos. Desova de março a junho, junto ao cascalho na margem.
Sabóga - Entra no rio ao mesmo tempo que o savel. Depois de desovar e deixando as crias no rio, desenvolvendo-se, sai para o mar de julho em diante. Passa o inverno no mar. Desova ao mesmo tempo que o savel e nas margens de cascalho.
Sôlho - Ha annos em que apparece em grande quantidade em Mertola e para o norte d'este ponto. Desova nas cascalheiras em abril e maio. Entra no rio em abril e maio, desova e volta para o mar, deixando as crias no rio. Já se tem apanhado crias d'este peixe, regularmente desenvolvidas, em novembro e dezembro.
Saltão - É em tudo similhante ao mugem, e é assim chamado pelos saltos que dá fora de agua como a tainha. Depois de desovar nos mezes de primavera, e tão sómente de Alcoutim para o norte, sai para o mar do mez de julho em diante.
(...)
Taínha - É o mesmo que o mugem, sendo contudo de maiores dimensões. Apparece no rio em quantidade regular. Desova dentro do rio nos mezes quentes.»
Alfredo Ghira, Relatório sobre a pesca marítima e fluvial e industria de pesca no Districto Marítimo de Villa Real de Santo Antonio, Imprensa Nacional, Lisboa, 1889, pp. 3, 9, 12, 13, 14, 15, 16, 17.
Segundo as informações que colhi, parece que havia antigamente maior abundancia de quasi todas as especies, porém actualmente, e de alguns annos a esta parte, tem havido diminuição, tendo mesmo desapparecido, quasi por completo, algumas classes.
Os pescadores d'este rio querem attribuir a falta ou diminuição do peixe às aguas saídas das minas de cobre existentes nas duas margens do rio, e as quaes são mina de S. Domingos na margem portuguesa, e as minas Lagunazo, Cabeza del Pasto, e Vuelta Falsa na margem hespanhola.
(...)
Quadro Indicativo das Differentes Especies de Peixe que habitam e frequentam o rio e a costa no districto maritimo de Villa Real de Santo Antonio
Bárbo - Existia em grande quantidade em todo o rio; porém, de alguns annos para hoje, tem diminuido sensivelmente, principalmente no inverno. É peixe só do rio. Encontra se ainda em Mertola e para o N. d'este ponto, e em mais abundancia no verão. Vive sempre no rio e nos pontos lodosos. Desova em abril e maio, proximo das margens de cascalho.
Bordállo - Havia grande abundancia d'este peixe. Tem diminuido bastante. Encontra-se mais no verão que no inverno, epocha em que quasi desapparece. Vive só no rio. Desova em abril e maio, procurando as margens de lodo, onde parece que vive.
(...)
Boga - Existe em grande quantidade em todo o rio, quer de verão, quer de inverno. Parece crear-se do lodo. Desova em janeiro, fevereiro e março, procurando os pontos em que a agua corre com mais violencia, e os menores fundos junto às margens.
(...)
Eiró - Existe em grande quantidade n'este rio, de Alcoutim para o N. do rio. É pescada mais de verao que de inverno, em que apparece menos.
(...)
Lampreia - Apparece em Mertola e suas immediações de março em diante, e em regular quantidade, ainda que hoje mais diminuta que antigamente. Depois de desovar desapparece, deixando a creação nos mesmos pontos em que desova.
(...)
Mugem - Existe grande abundancia d'este peixe dentro d'este rio e na costa, de onde entra no rio adiante dos temporaes, e nas phases da lua, lua nova e lua cheia. Vive do lodo. Desova em março, abril e maio, nos fundos de pedra e nos de lodo.
(...)
Picão - É em tudo similhante ao barbo, porém de menores dimensões. Existe, em grande quantidade em Mertola e suas imediações. É peixe do rio. Desova em abril e maio, nas margens de cascalho.
(...)
Peixe rei - Apparece algumas vezes dentro do rio e só próximo da foz. Desova no verão, junto às pedras da margem.
(...)
Savel - Entra no rio em março, abril, maio e junho, dirigindo-se para o norte do rio, proximidades de Mertola, onde desova, saíndo depois para o mar no começo das chuvas, e portanto quando as ribeiras desaguam no rio. Alimenta-se, enquanto no rio, de diversos resíduos. Apparece hoje menos que n'outros tempos. Desova de março a junho, junto ao cascalho na margem.
Sabóga - Entra no rio ao mesmo tempo que o savel. Depois de desovar e deixando as crias no rio, desenvolvendo-se, sai para o mar de julho em diante. Passa o inverno no mar. Desova ao mesmo tempo que o savel e nas margens de cascalho.
Sôlho - Ha annos em que apparece em grande quantidade em Mertola e para o norte d'este ponto. Desova nas cascalheiras em abril e maio. Entra no rio em abril e maio, desova e volta para o mar, deixando as crias no rio. Já se tem apanhado crias d'este peixe, regularmente desenvolvidas, em novembro e dezembro.
Saltão - É em tudo similhante ao mugem, e é assim chamado pelos saltos que dá fora de agua como a tainha. Depois de desovar nos mezes de primavera, e tão sómente de Alcoutim para o norte, sai para o mar do mez de julho em diante.
(...)
Taínha - É o mesmo que o mugem, sendo contudo de maiores dimensões. Apparece no rio em quantidade regular. Desova dentro do rio nos mezes quentes.»
Alfredo Ghira, Relatório sobre a pesca marítima e fluvial e industria de pesca no Districto Marítimo de Villa Real de Santo Antonio, Imprensa Nacional, Lisboa, 1889, pp. 3, 9, 12, 13, 14, 15, 16, 17.
| fotografia: filipe sousa | abril 1990 |
Venezia / Veneza, Gran Canale, Ponte dell'Accademia
«A artéria central de Veneza é o Grande Canal, e desta incomparável via rápida brotam canais mais pequenos como veias, por onde flui todos os dias o sustento da cidade, como insulina no sistema de um diabético. Diz-se que há 177 canais, num total de 45 quilómetros. Seguem antigos cursos de água e serpenteiam em curvas imprevisíveis pela cidade, ora largos, belos e esplêndidos, ora de uma tortuosidade imprevisível. O Grande Canal tem três quilómetros de comprimento; 60 metros no ponto mais largo e 35 no mais apertado; tem uma profundidade média de dois metros e meio (quatro metros na Ponte do Rialto, segundo a Tabela do Almirantado); e anima-o um tráfego incessante. As outras vias aquáticas de Veneza são de uma importância infinitamente menor - têm uma largura média de três metros e meio e uma profundidade média que equivale à de uma banheira familiar de tamanho generoso.
(...)
Todos os dias, correm para os canais toneladas de porcaria que emprestam aos bairros decrépitos aquele fedor típico - meio de esgoto, meio da pedra em decomposição - que tanto repugna o turista mais enjoado, mas que proporciona ao amante de Veneza um prazer perverso e relutante.
(...)
Olhando de um terraço para os canais quando a maré está baixa, vê-se uma variedade extraordinária de entulho e escombros que a água esconde, brilhando como um falso mistério através do verde-água; e é horrível observar a moleza do leito do canal quando um bate-estacas inicia o seu trabalho.
Os venezianos nunca se deixaram intimidar por este substrato. No século XV, queimavam paus de incenso e enterravam perfumes e especiarias no solo para abafar o mau cheiro: mas ainda há pouco tempo até as famílias mais elegantes se banhavam com regularidade no Grande Canal, e diz-se que havia uma tabuleta junto à Ponte do Rialto avisando severamente os transeuntes de que era «Proibido Cuspir nos Banhistas».»
Jan Morris, Veneza (Venice, 1960), Edições Tinta-da-China, Lisboa, 2009, pp. 161,162,164,165.
(...)
Todos os dias, correm para os canais toneladas de porcaria que emprestam aos bairros decrépitos aquele fedor típico - meio de esgoto, meio da pedra em decomposição - que tanto repugna o turista mais enjoado, mas que proporciona ao amante de Veneza um prazer perverso e relutante.
(...)
Olhando de um terraço para os canais quando a maré está baixa, vê-se uma variedade extraordinária de entulho e escombros que a água esconde, brilhando como um falso mistério através do verde-água; e é horrível observar a moleza do leito do canal quando um bate-estacas inicia o seu trabalho.
Os venezianos nunca se deixaram intimidar por este substrato. No século XV, queimavam paus de incenso e enterravam perfumes e especiarias no solo para abafar o mau cheiro: mas ainda há pouco tempo até as famílias mais elegantes se banhavam com regularidade no Grande Canal, e diz-se que havia uma tabuleta junto à Ponte do Rialto avisando severamente os transeuntes de que era «Proibido Cuspir nos Banhistas».»
Jan Morris, Veneza (Venice, 1960), Edições Tinta-da-China, Lisboa, 2009, pp. 161,162,164,165.
| fotografia: filipe sousa | julho 2003 |
København / Copenhaga, Sankt Jakobs Gade 11
«Um nada fica a lembrar-se para sempre, nós alugávamos duas bicicletas, partíamos ao sol pela estrada fora. Já alguém falou do prazer de uma bicicleta? Mas tanta coisa dá prazer e não sabemos de quê. Andar, movimentar-nos, contemplarmos um horizonte marinho, como eu o via da Biblioteca. Ou sentarmo-nos à sombra num banco de jardim ou de esplanada. Ou tomar um duche quente ou frio. Ou mudar de roupa, sobretudo de lençóis. Ou cantarolar na banheira - há quem. Ou ver um espectáculo mas acompanhado. Ou. Andávamos de bicicleta - porque é que isso dá prazer? Muda-se de paisagem mas é o fruto do nosso esforço, sentimo-nos compensados. E há o triunfo do equilíbrio na aresta das duas rodas, todo o nosso corpo subtilizado nesse mínimo de suporte. E há a ascensão de nós nesse movimento alado. E há a simplicidade, quase o esquematismo dessa máquina de andar.»
Vergílio Ferreira, Para sempre, 3ª edição, Livraria Bertrand, Lisboa, 1983, p. 216.
Vergílio Ferreira, Para sempre, 3ª edição, Livraria Bertrand, Lisboa, 1983, p. 216.
| fotografia: filipe sousa | agosto 2001 |
Berlin / Berlim, Konrad-Adenauer-Straße 1
Cem anos do movimento Bauhaus, de Walter Gropius.
«O objectivo final de todas as artes é o edifício! Embelezar os edifícios já foi a mais nobre das funções da arte; elas eram as componentes indispensáveis da boa arquitectura. Hoje as artes existem isoladamente, de que só podem ser resgatadas através do esforço consciente e colaborativo de todos os artesãos. Arquitectos, pintores e escultores têm de reconhecer novamente e aprender a compreender o carácter compósito de um edifício, enquanto entidade, ou através das suas componentes individuais. Só então poderá o seu trabalho ser imbuído do espírito arquitectónico que perdeu enquanto "arte de salão".»
Walter Gropius, Bahaus Manifesto and Program (1919).
| fotografia: filipe sousa | 4 junho 2019 |
Moura, Rua 5 de Outubro 15 A
«Comecei e terminei uma viagem de quarenta e dois dias
à volta do meu quarto. As observações interessantes que fiz,
e o prazer contínuo que experimentei ao longo do caminho,
levaram‑me a desejar torná‑la pública; a certeza de ser útil fez
com que tomasse esta decisão. O meu coração sente um contentamento inexprimível quando penso no número infinito de
infelizes a quem ofereço um meio seguro contra o tédio e um
alívio para os males de que padecem. O prazer que se sente ao
viajar no próprio quarto está ao abrigo da inveja inquieta dos
homens; é independente da fortuna.
Terá uma pessoa de ser realmente assaz infeliz, assaz abandonada, para não ter um reduto onde possa recolher‑se e esconder‑se de toda a gente? Aqui estão todos os preparativos
da viagem.
(...)
O meu quarto situa‑se a quarenta e cinco graus de latitude, segundo as medições do padre Beccaria; está orientado no sentido nascente‑poente; forma um paralelogramo com trinta e seis passos de perímetro rasando a parede muito de perto. A minha viagem, no entanto, terá maior extensão, visto que irei atravessá‑lo amiúde de um lado ao outro, ou então na diagonal, sem seguir regra ou método. — Farei mesmo ziguezagues e todas as linhas possíveis em geometria se houver necessidade.»
Xavier de Maistre, Viagem à volta do meu quarto seguido de Expedição nocturna à volta do meu quarto (Voyage autour de ma chambre (1795) / Expédition nocturne autour de ma chambre (1825), trad. Carlos Sousa Almeida, Edições Tinta-da-China, Lisboa, 2015, pp, 15, 21.
(...)
O meu quarto situa‑se a quarenta e cinco graus de latitude, segundo as medições do padre Beccaria; está orientado no sentido nascente‑poente; forma um paralelogramo com trinta e seis passos de perímetro rasando a parede muito de perto. A minha viagem, no entanto, terá maior extensão, visto que irei atravessá‑lo amiúde de um lado ao outro, ou então na diagonal, sem seguir regra ou método. — Farei mesmo ziguezagues e todas as linhas possíveis em geometria se houver necessidade.»
Xavier de Maistre, Viagem à volta do meu quarto seguido de Expedição nocturna à volta do meu quarto (Voyage autour de ma chambre (1795) / Expédition nocturne autour de ma chambre (1825), trad. Carlos Sousa Almeida, Edições Tinta-da-China, Lisboa, 2015, pp, 15, 21.
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| fotografia: filipe sousa | 21 agosto 2011 |
Évora, Rua do Cardeal Rei 6
«Repetia-se no Liceu a Universidade de Coimbra como eu a ia guardando para sempre. Mas era como se o tempo habitasse os claustros de mais longe, talvez pelo silêncio dessa manhã despovoada, talvez pela imensidão da planície, que lhe dava um ar de ruína. Um empregado escuro olhou-me vagarosamente, longo bigode caído, olhos redondos de pasmo como os de um retrato egípcio. Adiantei a minha identidade, o homem atravessou uma sala para me anunciar ao reitor. Mas o reitor não estava. Pela porta entreaberta vi apenas um grande cão perdigueiro que adormecia o seu tédio sobre uma esteira. A presença do cão dava ao empregado a certeza de que o reitor já viera. Apareceria portanto dentro em pouco. E eu saí de novo para o claustro. Havia no centro um jardim tratado, em cujos canteiros verdes morriam as últimas rosas de Verão. Sobre um pequeno lago erguia-se uma taça de mármore onde vinham pombos beber. Até que, para o silêncio de uma porta à entrada, ouvi uma forte descarga de água e um homem alto apareceu. Segui-o com os olhos, convencido de que era enfim o reitor. E, com efeito, o homem alto e vagaroso abriu uma porta secreta e entrou no edifício. Fui de novo à secretaria e o empregado sem uma palavra, penetrou na reitoria para me anunciar. Mas eu já estava ali à porta à espera de um aviso.
-Que faça o favor de entrar - ouvi de dentro.
Entrei, cumprimentei, disse o meu nome:
-Alberto Soares.
-Doutor Alberto Soares. O novo professor do 1º grupo. Professor efectivo. Em que liceu esteve este ano? Mas sente-se. Tem aí essa cadeira.
Sentei-me. Tinha feito apenas o serviço de exames desse ano. Em Coimbra.
-É portanto o primeiro liceu em que ensino - acrescentei.»
Vergílio Ferreira, Aparição, Editorial Verbo, Lisboa, 1971, p. 20.
-Que faça o favor de entrar - ouvi de dentro.
Entrei, cumprimentei, disse o meu nome:
-Alberto Soares.
-Doutor Alberto Soares. O novo professor do 1º grupo. Professor efectivo. Em que liceu esteve este ano? Mas sente-se. Tem aí essa cadeira.
Sentei-me. Tinha feito apenas o serviço de exames desse ano. Em Coimbra.
-É portanto o primeiro liceu em que ensino - acrescentei.»
Vergílio Ferreira, Aparição, Editorial Verbo, Lisboa, 1971, p. 20.
| fotografia: filipe sousa | 10 setembro 2019 |
Évora, Rua Romão Ramalho 59
FOGO POSTO
I
Estou no centro do país, rodeado de incêndios.
Os pinheirais em fogo esbraseiam o ar.
Reguei o telhado e o quintal por que as velhas são muitas.
A vizinha cega, sem qualquer progresso, vai tocando o seu órgão Tornado 4.
A irmã apanha velhas, mostra-mas na mão,
apagadas ou parecendo ou quase,
e fala do carteiro - motorizada aqui,
saco acolá, sapato mais além -
que, presuntivo pirómano, a si mesmo se teria apagado nas águas do Tejo.
II
O aeroplano da lista vermelha é que semeia fogo.
Von Richthofen - passe-montanha, óculos «à aviador», dentes cerrados -
é que vem semear o fogo no reino do verde pino.
Abatido em 18, ressurgiu
com o estampido do guarda-chuva que se abre
e - pano, arame, madeira - ganha altura
para, numa vrille desaparafusada,
vir castigar-nos com sua espada de fogo.
Disse Deus: - Ó aviador, vai-me a essa gente remota
e avia-lhes uns fogos que se vejam!
Polegar para baixo, Von Richthofen
incendiou milhares de hectares em Portugal.
Sua lista vermelha (laranja? limão?)
é vista com frequência na zona centro do país.
Disse Deus: - Basta. Já sinto calor na cara.
Este, que foi um herói ao serviço do Kaiser
- Cruz da Águia Vermelha
Cruz da Águia Negra
Cruz de Ferro -,
descer, quando Deus quer, a incendiário de pinhais?
Credo, custa-me a crê-lo!
Alexandre O'Neill, Poesias Completas (As horas já de números vestidas,1981), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, pp. 470-471.
I
Estou no centro do país, rodeado de incêndios.
Os pinheirais em fogo esbraseiam o ar.
Reguei o telhado e o quintal por que as velhas são muitas.
A vizinha cega, sem qualquer progresso, vai tocando o seu órgão Tornado 4.
A irmã apanha velhas, mostra-mas na mão,
apagadas ou parecendo ou quase,
e fala do carteiro - motorizada aqui,
saco acolá, sapato mais além -
que, presuntivo pirómano, a si mesmo se teria apagado nas águas do Tejo.
II
O aeroplano da lista vermelha é que semeia fogo.
Von Richthofen - passe-montanha, óculos «à aviador», dentes cerrados -
é que vem semear o fogo no reino do verde pino.
Abatido em 18, ressurgiu
com o estampido do guarda-chuva que se abre
e - pano, arame, madeira - ganha altura
para, numa vrille desaparafusada,
vir castigar-nos com sua espada de fogo.
Disse Deus: - Ó aviador, vai-me a essa gente remota
e avia-lhes uns fogos que se vejam!
Polegar para baixo, Von Richthofen
incendiou milhares de hectares em Portugal.
Sua lista vermelha (laranja? limão?)
é vista com frequência na zona centro do país.
Disse Deus: - Basta. Já sinto calor na cara.
Este, que foi um herói ao serviço do Kaiser
- Cruz da Águia Vermelha
Cruz da Águia Negra
Cruz de Ferro -,
descer, quando Deus quer, a incendiário de pinhais?
Credo, custa-me a crê-lo!
Alexandre O'Neill, Poesias Completas (As horas já de números vestidas,1981), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, pp. 470-471.
| fotografia: filipe sousa | 7 agosto 2019 |
Ponta do Escalvado (posto de vigia da baleia), Várzea dos Açores
«1.
(...)
11 E eles disseram-lhe: «Que te faremos para que o mar desista de nós?» ˂Isto˃ porque o mar continuava a vir e fazia levantar uma ondulação ainda maior.
12 E Jonas disse-lhes: «Levantai-me e atirai-me ao mar, e o mar desistirá de vós. Pois eu pensei que é por causa de mim que esta ondulação enorme está sobre vós.»
13 E os homens esforçavam-se para regressar à terra, mas não conseguiam, porque o mar continuava a vir e a levantar-se mais contra eles.
14 E eles clamaram ao Senhor e disseram: «Não, Senhor! Que não pereçamos por causa da vida deste homem. E não ponhas sobre nós sangue justo, porque Tu, Senhor, procedeste como querias.»
15 E pegaram em Jonas e atiraram-no ao mar; e o mar parou a sua agitação. 16 E os homens temeram o Senhor com grande temor; e sacrificaram um sacrifício; e oraram orações.
2.
1 E o Senhor ordenou a um grande ser marinho que engolisse Jonas. E Jonas esteve nas entranhas do ser marinho durante três dias e três noites.
2 E Jonas rezou ao Senhor seu Deus a partir das entranhas do ser marinho; 3 e disse:
«Gritei em minha aflição ao Senhor meu Deus;
E Ele ouviu-me.
Das entranhas do Hades ouviste meu grito e minha voz.
4 Atiraste-me para ˂as˃ profundezas
Do coração do mar; e os rios me cercaram.
Todas as Tuas ondas e as Tuas vagas
Passaram por cima de mim.
5 E eu disse: "Fui afastado dos Teus olhos."
Será que eu olhe de novo
Para o Teu templo sagrado?
6 Derramou-se água à minha volta até à alma;
O abismo mais fundo me rodeou.
A minha cabeça decaiu
Para dentro das fendas das montanhas.
7 Desci à terra, cujas trancas me detêm, eternas;
E que suba a ruína da minha vida, ó Senhor meu Deus!
8 Quando a minha alma me abandonava,
Lembrei-me do Meu Senhor.
E que chegue a ti minha oração,
Ao Teu templo santo.
9 Os que dão importância a coisas vãs e falsas
Abandonaram a sua própria misericórdia.
10 Porém eu, com voz de louvor e de reconhecimento
Sacrificarei para Ti.
O que jurei ˂sacrificar˃
Pagar-Te-ei a Ti, Senhor, pela ˂minha˃ salvação.»
11 E foi ordenado ao ser marinho; e atirou Jonas para fora, para cima de ˂terra˃ seca. »
Bíblia - Antigo Testamento, Os Livros Proféticos, Livro de Jonas, trad. do texto grego Frederico Lourenço, Quetzal Editores, Lisboa, 2017, vol. III, pp. 180-183.
(...)
11 E eles disseram-lhe: «Que te faremos para que o mar desista de nós?» ˂Isto˃ porque o mar continuava a vir e fazia levantar uma ondulação ainda maior.
12 E Jonas disse-lhes: «Levantai-me e atirai-me ao mar, e o mar desistirá de vós. Pois eu pensei que é por causa de mim que esta ondulação enorme está sobre vós.»
13 E os homens esforçavam-se para regressar à terra, mas não conseguiam, porque o mar continuava a vir e a levantar-se mais contra eles.
14 E eles clamaram ao Senhor e disseram: «Não, Senhor! Que não pereçamos por causa da vida deste homem. E não ponhas sobre nós sangue justo, porque Tu, Senhor, procedeste como querias.»
15 E pegaram em Jonas e atiraram-no ao mar; e o mar parou a sua agitação. 16 E os homens temeram o Senhor com grande temor; e sacrificaram um sacrifício; e oraram orações.
2.
1 E o Senhor ordenou a um grande ser marinho que engolisse Jonas. E Jonas esteve nas entranhas do ser marinho durante três dias e três noites.
2 E Jonas rezou ao Senhor seu Deus a partir das entranhas do ser marinho; 3 e disse:
«Gritei em minha aflição ao Senhor meu Deus;
E Ele ouviu-me.
Das entranhas do Hades ouviste meu grito e minha voz.
4 Atiraste-me para ˂as˃ profundezas
Do coração do mar; e os rios me cercaram.
Todas as Tuas ondas e as Tuas vagas
Passaram por cima de mim.
5 E eu disse: "Fui afastado dos Teus olhos."
Será que eu olhe de novo
Para o Teu templo sagrado?
6 Derramou-se água à minha volta até à alma;
O abismo mais fundo me rodeou.
A minha cabeça decaiu
Para dentro das fendas das montanhas.
7 Desci à terra, cujas trancas me detêm, eternas;
E que suba a ruína da minha vida, ó Senhor meu Deus!
8 Quando a minha alma me abandonava,
Lembrei-me do Meu Senhor.
E que chegue a ti minha oração,
Ao Teu templo santo.
9 Os que dão importância a coisas vãs e falsas
Abandonaram a sua própria misericórdia.
10 Porém eu, com voz de louvor e de reconhecimento
Sacrificarei para Ti.
O que jurei ˂sacrificar˃
Pagar-Te-ei a Ti, Senhor, pela ˂minha˃ salvação.»
11 E foi ordenado ao ser marinho; e atirou Jonas para fora, para cima de ˂terra˃ seca. »
Bíblia - Antigo Testamento, Os Livros Proféticos, Livro de Jonas, trad. do texto grego Frederico Lourenço, Quetzal Editores, Lisboa, 2017, vol. III, pp. 180-183.
| fotografia: filipe sousa | 21 julho 2016 |
Cabroeira
«A pedra representa o êxtase absoluto, a serenidade absoluta, o estado morto e angélico das coisas.»
«Agir é construir, pedra a pedra, gota a gota de suor, e destruir com a rapidez das detonações espantosas.»
«Agir é construir, destruindo.»
Teixeira de Pascoaes, Aforismos, selecção e organização de Mário Cesariny, Assírio & Alvim, Lisboa, 1998, pp. 26, 32.
«Agir é construir, pedra a pedra, gota a gota de suor, e destruir com a rapidez das detonações espantosas.»
«Agir é construir, destruindo.»
Teixeira de Pascoaes, Aforismos, selecção e organização de Mário Cesariny, Assírio & Alvim, Lisboa, 1998, pp. 26, 32.
| fotografia: filipe sousa | 31 agosto 2019 |
Berlin / Berlim, Tempelhofer Feld
«Letreiro encontrado ao lado duma bota rota e abandonada:
Não a vendo nem a remendo. Dou-a a quem doer.»
Alexandre O'Neill, «Seixos» in Poesias Completas (As horas já de números vestidas, 1981), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 451.
«Não te ataques com os atacadores dos outros.
Deixa a cada sapato a sua marcha e a sua direcção.
O mesmo deves fazer com os açaimos.
E com os botões.»
Alexandre O'Neill, «Sentenças delirantes dum poeta para si próprio em tempo de cabeças pensantes» in Poesias Completas (A saca de orelhas, 1979), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 368.
Não a vendo nem a remendo. Dou-a a quem doer.»
Alexandre O'Neill, «Seixos» in Poesias Completas (As horas já de números vestidas, 1981), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 451.
«Não te ataques com os atacadores dos outros.
Deixa a cada sapato a sua marcha e a sua direcção.
O mesmo deves fazer com os açaimos.
E com os botões.»
Alexandre O'Neill, «Sentenças delirantes dum poeta para si próprio em tempo de cabeças pensantes» in Poesias Completas (A saca de orelhas, 1979), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 368.
| fotografia: filipe sousa | 5 junho 2019 |
EM 522
Alvenaria de pedra seca; Alvenaria insossa
«Um muro, em senso comum, é um conjunto de pedras em altura.
Os muros ao longo da História serviram para:
Defender | muralhas
Proteger | diques
Abrigar | abóbadas
Transportar | aquedutos
Conter | de suporte
Significar | pirâmides ou arcos do triunfo
Demarcar | vizinhança
Decorar | volutas
Suportar | Schinkel
Evocar | Mies
Ver por | casa da mãe do Corbusier
Serem vistos | Vila Adriana
Receber | esculturas do Parthenon
Subir descer | escadas
Ventilar | chaminés do Palladio
Passar | pontes
Os muros são quase toda a história da Arquitectura.
Hoje é impossível usá-los (desenhá-los) na sua plena função (estática). (...)
Os muros estão hoje a desaparecer, são uma espécie mineral em vias de extinção. Devemos estudá-los, classificá-los, tratá-los para os devolver de novo à sua geografia. (...)
Os muros não podem cair, nem ser demolidos (nem o de Berlim), pois são a nossa "casa".»
Eduardo Souto de Moura, Porto, 19 Setembro 2002.
«Um muro, em senso comum, é um conjunto de pedras em altura.
Os muros ao longo da História serviram para:
Defender | muralhas
Proteger | diques
Abrigar | abóbadas
Transportar | aquedutos
Conter | de suporte
Significar | pirâmides ou arcos do triunfo
Demarcar | vizinhança
Decorar | volutas
Suportar | Schinkel
Evocar | Mies
Ver por | casa da mãe do Corbusier
Serem vistos | Vila Adriana
Receber | esculturas do Parthenon
Subir descer | escadas
Ventilar | chaminés do Palladio
Passar | pontes
Os muros são quase toda a história da Arquitectura.
Hoje é impossível usá-los (desenhá-los) na sua plena função (estática). (...)
Os muros estão hoje a desaparecer, são uma espécie mineral em vias de extinção. Devemos estudá-los, classificá-los, tratá-los para os devolver de novo à sua geografia. (...)
Os muros não podem cair, nem ser demolidos (nem o de Berlim), pois são a nossa "casa".»
Eduardo Souto de Moura, Porto, 19 Setembro 2002.
| fotografia: filipe sousa | 29 agosto 2019 |
Azinhaga entre Porto da Espada e Odres
Perguntai ao muro
Muro, em que meditas,
ao longo da estrada, por estas quintas,
casas, ermos, entre paixões
de alma dos espectros
presentes e vindouros? E os vivos,
porque se escondem
por trás da tua fronte alta,
quieta, seca, que cobiça os astros,
sem saber que o teu corpo
de xisto corre, avança,
mas não pode soltar-se da Terra
e alcançar o Alto?
Fiama Hasse Pais Brandão, As Fábulas, Edições Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2002, p.18.
Muro, em que meditas,
ao longo da estrada, por estas quintas,
casas, ermos, entre paixões
de alma dos espectros
presentes e vindouros? E os vivos,
porque se escondem
por trás da tua fronte alta,
quieta, seca, que cobiça os astros,
sem saber que o teu corpo
de xisto corre, avança,
mas não pode soltar-se da Terra
e alcançar o Alto?
Fiama Hasse Pais Brandão, As Fábulas, Edições Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2002, p.18.
| fotografia: filipe sousa | 29 agosto 2019 |
Venezia / Veneza
LIDO DI VENEZIA, 28.08 - 7.09 2019
BIENNALE CINEMA 2019
76. MOSTRA INTERNAZIONALE D’ARTE CINEMATOGRAFICA
Mare Tranquillitatis
Desde 1969 que olho a lua através deste mapa, várias vezes por dia, numa das mais requisitadas divisões de minha casa. Publicado pela National Geographic, da autoria do artista cartográfico Tibor Tóth, é o primeiro mapa a apresentar as duas fases da superfície lunar numa só folha, a face que vemos à noite mas também a face oculta. A publicação do mapa é anterior a 20 de Julho: identifica os locais de alunagem das vinte e três sondas espaciais não tripuladas que pousaram na superfície lunar, mais o local previsível de alunagem da Apollo 11, no Mare Tranquillitatis.
Tinha cinco anos, mas recordo, como se fosse hoje, a emissão da RTP dedicada à chegada do homem à lua, conduzida pelo jornalista José Mensurado, e também uma vizinha de Benfica sair-se, no dia seguinte, com a certeza de que era tudo mentira, e que os astronautas, em vez da lua, tinham pisado o Algarve.
Tinha cinco anos, mas recordo, como se fosse hoje, a emissão da RTP dedicada à chegada do homem à lua, conduzida pelo jornalista José Mensurado, e também uma vizinha de Benfica sair-se, no dia seguinte, com a certeza de que era tudo mentira, e que os astronautas, em vez da lua, tinham pisado o Algarve.
| fotografia: filipe sousa | 20 julho 2019 |
Monsaraz
«Em torno das aldeias e da vila, numa zona compreendida entre estas e as grandes herdades, existem courelas, cujos proprietários trabalham na sua maioria nas grandes herdades como assalariados ou seareiros. (...)
A maior parte da população masculina activa ocupa-se na agricultura como trabalhadores ou seareiros. A maior parte deles não possui terras, mas cerca de duas dúzias são suficientemente abastados para que não tenham de trabalhar nas terras de outrem e possam dar trabalho a outros homens nas suas propriedades. Denominam-se proprietários os homens pertencentes a este grupo. As herdades são quase todas de pessoas residentes em Vila Nova. Estes abastados proprietários de herdades recebem o nome de lavradores ou latifundiários e, conquanto não vivam na freguesia, não são impessoais e absentistas recebedores de rendas. A distância que os separa da maior parte dos habitantes da freguesia é, no entanto, tão considerável como a diferença entre as dimensões das suas terras.»
João Cutileiro, Ricos e Pobres no Alentejo (Uma Sociedade Rural Portuguesa), (A Portuguese Rural Society, 1971), trad. J.L.Duarte Peixoto, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1977, pp. 6, 8-9.
A maior parte da população masculina activa ocupa-se na agricultura como trabalhadores ou seareiros. A maior parte deles não possui terras, mas cerca de duas dúzias são suficientemente abastados para que não tenham de trabalhar nas terras de outrem e possam dar trabalho a outros homens nas suas propriedades. Denominam-se proprietários os homens pertencentes a este grupo. As herdades são quase todas de pessoas residentes em Vila Nova. Estes abastados proprietários de herdades recebem o nome de lavradores ou latifundiários e, conquanto não vivam na freguesia, não são impessoais e absentistas recebedores de rendas. A distância que os separa da maior parte dos habitantes da freguesia é, no entanto, tão considerável como a diferença entre as dimensões das suas terras.»
João Cutileiro, Ricos e Pobres no Alentejo (Uma Sociedade Rural Portuguesa), (A Portuguese Rural Society, 1971), trad. J.L.Duarte Peixoto, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1977, pp. 6, 8-9.
| fotografia: filipe sousa | 12 julho 2019 |
Venezia / Veneza, Gran Canale
«(...) Numa estação de barcos, esperámos um barco vazio que finalmente apareceu. Era ao fim da tarde, quase já ao lusco-fusco. Subimos devagar o Gran Canale, rente ao tremular dos reflexos dos palácios na laguna. Depois metemos pelo labirinto verde-escuro, silencioso e um pouco assustador dos pequenos canais, até que, por trás de uma esquina à nossa frente, se ergueu o brado do gondoleiro, ressoando contra as paredes de pedra. E de súbito, lentamente, deslizou ao nosso encontro o Oriente misterioso e inefável. Era um casal, um homem e uma mulher. Os seus traços mostravam que vinham dos confins da Ásia, eram belos, grandes, hieráticos, sentados na gôndola como se estivessem no frontão de um templo. Imóveis, impassíveis, mesmo quando quase nos roçaram passando ao nosso lado, nem o menor pestanejar nem o menor gesto dizia que nos vissem. Mas a intensidade da sua presença tornava o tempo mais lento e os silêncio absoluto. E desapareceram devagar como se nunca tivessem aparecido.
No Café Florian, perguntando a mim própria se seria possível escrever sobre Veneza, lembrei-me de duas linhas do poeta Heleno Oliveira: "Dizer-te é dizer o já dito... Ópera vermelha, escura elegia?"
Mas mesmo antes de aqui ter chegado um dia, já muita vez tinha escrito sobre Veneza:
Há cidades acesas na distância
magnéticas e fundas como luas.»
Sophia de Mello Breyner Andresen, «Voltar a Veneza», Grande Reportagem, nº 79, Lisboa, Outubro 1997.
No Café Florian, perguntando a mim própria se seria possível escrever sobre Veneza, lembrei-me de duas linhas do poeta Heleno Oliveira: "Dizer-te é dizer o já dito... Ópera vermelha, escura elegia?"
Mas mesmo antes de aqui ter chegado um dia, já muita vez tinha escrito sobre Veneza:
Há cidades acesas na distância
magnéticas e fundas como luas.»
Sophia de Mello Breyner Andresen, «Voltar a Veneza», Grande Reportagem, nº 79, Lisboa, Outubro 1997.
| aguarela: filipe sousa | julho 2003 |
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