Mediterrâneo, Palombaggia

fotografia: filipe sousa | outubro 2005

 






















Para lá da espuma dos dias, fica a espuma essencial que nos mantém à tona, como a das águas turquesas de Palombaggia.

«Normalmente fala-se da espuma em termos gerais ou pedantes, a maioria das vezes a propósito das vagas e do vento. As analogias com a ligeireza ou a frivolidade, a facúndia ou a fecundidade, mais não são que comparações: não dizem o que é, de facto, a espuma. Raros são aqueles que pretendem saber o seu volume, a sua composição, se é salgada como o mar, porque é que este a rejeita com tanta obstinação para a praia, e em que quantidades. De resto, não se sabe bem se se pode falar de quantidades a propósito dela. Não esqueçamos também a diferença entre a espuma que flutua no mar e a que se depõe na praia: dificilmente se deixam dissociar, embora por vezes se excluam uma à outra. Ambas nos são familiares e cada uma tem o seu lugar. Não há espuma no mar Morto.» 

Predrag Matvejevitch, Breviário Mediterrânico (1987), trad. do francês Pedro Tamen, Quetzal Editores, Lisboa, 2019, p. 44. 

Ponta de São Lourenço

fotografia: filipe sousa | 18 setembro 2020

 























Hoje celebra-se o Dia Internacional do Fascínio das Plantas. A condizer, fascinado me confesso pelas plantas resilientes da Ponta de São Lourenço e palavras sábias de Teofrasto.

As partes de uma planta

«Depois de ter enumerado as suas partes, tentaremos falar acerca de cada uma. As primeiras, principais e comuns à maioria, são a raiz, caule, ramo e galho, que são como que os membros em em que a planta pode dividir-se, tal como os animais. Cada uma é distinta daas outras, e delas todas se forma o conjunto. Raiz é a parte pela qual é levado o alimento; o caule, aquela par onde é conduzido. Chamo caule à parte simples que surge acima da terra, que é comum igualmente às plantas anuais e perenes, e que nas árvores se chama tronco; ramos, às partes que se bifurcam a partir dele, e a que alguns chamam franças; e galhos aos rebentos que delas se originam, tais como têm sobretudo as plantas anuais, e que são especialmente próprios das árvores.
O caule, como se disse, é a parte mais comum. Mas, a este mesmo, nem todas o têm, como certas herbáceas. Algumas não têm sempre, mas só anualmente, como aquelas cujas raízes duram mais. De um modo geral, a planta é coisa múltipla, variada e difícil de definir no seu conjunto. Prova disso é que não podemos tomar nenhuma característica em comum, que exista em todas, como a boca e o ventre, nos animais.
Por analogia, umas partes são assim, outras de outro modo. Com efeito, nem todas as plantas têm raiz, ou caule, ramos, galhos, folhas, flores ou frutos, nem casca, medula, nervos ou veias, como o cogumelo e a túbera. Mas nestas e noutras assim a sua natureza existe. Todavia, é sobretudo nas árvores que, como dissemos, se encontram estas partes, e a elas que pertencem especificamente. É justo, pois que sejam o ponto de referência para as restantes plantas.»

Teofrasto (séc. IV-III a.C.), História das Plantas, I, 9-11 (trad. Maria Helena da Rocha Pereira, Hélade, Antologia da Cultura Grega (1959), 8ª ed. Edições Asa, Porto, 2003, p. 464.  

Marvão

fotografia: filipe sousa | 24 agosto 2020 














 


Não parece. Mas aproxima-se o Verão, a passos largos. Talvez se cumpra a promessa de Marvão, como em 2020. A fotografia desse instante, em que miradouro e paisagem se fundem na mesma combustão das pedras, só podia pedir este poema de Fiama Hasse Pais Brandão.

O Miradouro

Temi o verão, o tempo. Aproximava-se.

Vi-o transparecer do que é parado,
de bermas e de vistas.
As pedras de Marvão estavam ligadas,
no miradouro, às pedras
da paisagem. Em tudo era a passagem
da temperatura, o verão,
que começava - eu vi - entre muralhas, as aves,
as gralhas do alentejo trasmudavam-se 
tão quentes, como poderiam ser os fogos
da vila mais vorazes?
Esses fogos nas lajes, a mesma combustão
das pedras, a denegrida pele dessas lareiras
em redor.

O temor - era o poente - então reverberava
sobre as partes do horizonte, o monte só
da vila, logo a extensão das terras
baixas, brenhas, os tumultos
de um miradouro alto despenhado
sobre sopés, profusos
traços de uma estação de tempo
que me deteve,
tépida no miradouro, assim como
temendo a posição de ver,
temia a vez
da solidão.

Fiama Hasse Pais Brandão ((Este) Rosto, 1970), Obra Breve - Poesia Reunida, Assírio & Alvim, Lisboa, 2017, p. 87.

Moura, Rua Henrique José Pinto

fotografia: filipe sousa | 27 abril 2020
















Safo, primeira autora da literatura europeia (nasceu na ilha de Lesbos, na segunda metade do século VII a.C.), «quinta-essência do registo lírico na Grécia (…), representa a própria ideia da perfeição em verso» (Frederico Lourenço); «é nela que, pela primeira vez, se toma consciência do valor da poesia» (Maria Helena da Rocha Pereira); por isso «os gregos honram-na como a décima musa» (Platão).

São dessa Safo poetisa da paixão e da natureza, de que nos chegaram sobretudo registos mutilados, os três versos seguintes retirados do seu «O Pomar de Afrodite», bem à medida das fotografias, ou, pensando melhor, que as dispensam ou tornam acessórias, pois que «em nenhum autor grego encontramos uma alquimia tão milagrosa entre o som da poesia e a sugestão visual do respectivo significante» (Frederico Lourenço).

O pomar de Afrodite (fr.2 PLF)

(...)

       A pradaria onde pastam os cavalos está florida
10   de corolas primaveris; as brisas sopram
       suaves...

(...)

Safo in Poesia Grega, de Hesíodo a Teócrito, trad. (notas e comentários) Frederico Lourenço, ed. bilingue grego e português, Quetzal Editores, Lisboa, 2020, p. 79. 

Berlin / Berlim, Mühlenstrasse (East Side Gallery)

fotografia: filipe sousa | 25 janeiro 2020

 
















Trinta anos passaram sobre a sua publicação, como introdução à obra Salvemos a Terra (Save The Earth, 1991), e, no entanto, este texto de Gonçalo Ribeiro Telles surge imbuído de uma actualidade perturbadora, dando-nos a exacta dimensão do seu autor, sempre à frente do seu tempo.

É, por isso, a nossa escolha para assinalar o Dia Mundial da Terra.

«Nos nossos dias, é quase impossível encontrar um recanto da Terra onde a Natureza não tenha já sofrido com a presença do homem.

Muitos povos, transformando o coberto vegetal da biosfera, souberam criar paisagens de grande beleza onde se desenvolveram notáveis civilizações. Nessa paisagens mantêm-se a complexidade biológica indispensável à realização dos fenómenos e relações ecológicas que garantem a presença da Natureza. Uma gestão sábia dos recursos vivos assegura a manutenção da capacidade de regeneração dos mesmos e a fertilidade da terra, de que dependem a existência e o desenvolvimento das comunidades humanas.

Estão incluídos nestas paisagens os agro-sistemas tradicionais que, ainda hoje, ocupam grande parte do território português. Estes sistemas culturais, utilizando solos delgados, constituem uma herança valiosa que importa conservar e desenvolver. a sua estrutura ecológica e funcionamento equilibrado garantem o povoamento e a estabilidade do território bem como um quadro de significativa riqueza biológica. 

O mundo moderno que considerou o universo como uma máquina sujeita, por isso, a uma ordem matemática e precisa, procurou dominar e reordenar a Natureza aplicando-lhe os princípios da mecânica. Nasceu, assim, a ideia de um progresso amoral e contínuo  a que Darwin, sem o querer, reconhecendo a fatal sobrevivência dos mais fortes e aptos, veio dar alento com a sua teoria sobre a selecção natural.

Estava aberto o caminho para a concretização abusiva das ideias de Adam Smith: o mundo pertence aos mais aptos, isto é, àqueles e às gerações que melhor são capazes de proteger o seu interesse material.

Neste final do século XX, se olharmos para trás, podemos admirar as inúmeras conquistas da ciência, e o avanço da tecnologia, realizadas nos últimos séculos, em prol da humanidade. No entanto, não podemos deixar de verificar que, apesar do progresso, cresceram enormes barreiras, culturais, sociais e económicas, entre povos de diferentes regiões e camadas da população de um mesmo país. Milhões de seres humanos, pertencentes às sociedades consideradas desenvolvidas, têm uma eficaz assistência à saúde, é-lhes garantida uma certa segurança social, podem adquirir um elevado número de bens e enriquecerem-se culturalmente, enquanto muitos outros vegetam, sem dignidade, ao lado ou à distância da abundância, sem esperança de melhores dias, ou, mesmo, morrem de fome e subalimentação, como sucede, tragicamente, em tantas regiões da África, da América do Sul e da Índia.

Esta enorme desigualdade é, em grande parte, consequência da aplicação dum economicismo exacerbado, assente na rentabilização financeira, a curto prazo, dos investimentos.

A eliminação dos biótopos silvestres que permitem as mais variadas formas de vida, e que constituem a estrutura básica das paisagens tradicionais, diversificadas e equilibradas, também contribui para o processo de desertificação e despovoamento que se verifica em muitas regiões do globo terrestre.

A destruição sistemática da Natureza tanto se verifica nos chamados países desenvolvidos como nos de subdesenvolvimento crónico ou, ainda, nas regiões onde a espécie humana, devido a condicionalismos ecológicos, está sujeita a rigorosos limites demográficos. Neste caso, a devastação afecta muitos dos sistemas naturais indispensáveis ao equilíbrio ecológico do nosso planeta.

Os recursos naturais do Terceiro Mundo, facilmente exportáveis, são explorados até à exaustão, dando lugar a efémeras explorações extensivas, agrícolas ou de pecuária.

Em nome do progresso, assistimos na Europa à contaminação das paisagens tradicionais por produtos tóxicos industriais, que degradam a qualidade dos elementos essenciais à vida: o ar, a água e o solo vivo. Os sistemas agro-químicos de exploração da terra têm vindo, no Velho Continente, a provocar a destruição sistemática da variedade e do equilíbrio biológico e das estruturas ecológicas permanentes, que são factores indispensáveis à fertilidade e à riqueza genética do espaço rural.

O modelo de crescimento económico que tem sido seguido em Portugal necessita de um gasto excessivo de energia importada e promove a degradação da Natureza e a simplificação da paisagem.

O crescimento não se traduz, na maioria dos casos, por um desenvolvimento real da sociedade, mas sim pelo aumento do produto nacional bruto, o que só favorece alguns sectores privilegiados da economia e camadas minoritárias da população.

Na sequência do processo, o fundo de fertilidade dos melhores solos aráveis é destruído pelos sistemas agro-químicos, grandes consumidores de energia exterior. As terras menos férteis, onde foram instalados ecossistemas humanizados de significativa riqueza paisagística e biológica, tais como os «montados» e as «bouças», são sistematicamente ocupadas por extensos povoamentos industriais de eucalipto. Estes povoamentos, para além de degradação e provocarem  a sua rápida mineralização e erosão, são a principal causa da desertificação e despovoamento do espaço rural, obrigando os camponeses a emigrarem dos campos para os subúrbios das cidades do litoral, onde os espera a marginalidade social e carências económicas e culturais de toda a ordem.

A simplificação das paisagens e a degradação da Natureza, fazendo crescer o afluxo da população rural aos grandes espaços urbanos, provoca o aumento das áreas «betonizadas», devido à construção de edifícios e de vias de circulação, e a «mineralização» dos solos suburbanos, devido à sua ocupação por barracas, resíduos e lixos ou por serem abandonados pela agricultura, em face da expectativa de valorização financeira que sempre atinge os terrenos situados na vizinhança dos centros urbanos. Neste último caso, a Natureza, antes mesmo de chegar o betão, degrada-se e morre porque a agricultura desapareceu.

O espaço urbano alarga-se, indiscriminadamente, à custa dos bens e do capital humano, produzidos e acumulados no sector rural e exportados para as grandes cidades.

As «barracas» miseráveis, alternando com os grandes blocos, «colmeias» de habitações exíguas, alastram por todo o lado como mancha de óleo vazada em tampo de vidro. As ribeiras, as matas e sebes vivas, as hortas são destruídas pelas construções e infra-estruturas. A agricultura e a Natureza são obrigadas a afastarem-se para áreas cada vez mais longínquas onde ainda se faça sentir a valorização especulativa dos terrenos urbanizáveis.

A «mineralização» dos solos das cidades, ainda libertos de construções, pelo excessivo calcamento e deposição de resíduos, e a dos solos agrícolas, devido à «eucaliptização» e agro-química, é um dos aspectos mais graves que afecta, em Portugal, a Natureza.

A imposição do betão no espaço rural, substituindo a pedra dos muros e das casas, a madeira e o granita dos esteios das vinhas, a margem natural das linhas de água, também concorre para a degradação da Natureza, e empobrecimento cultural dos povos. O regime hídrico é alterado com a retirada das areias dos rios para fabrico do betão, com graves prejuízos para os ecossistemas fluviais.

A poluição dos rios, provocada por uma industrialização selvagem, constitui em Portugal um problema ambiental de extrema gravidade, dada a sua repercussão nos sistemas fluviais e estuarinos das bacias hidrográficas e na própria costa.

O futuro dos nossos filhos obriga-nos a defender a paisagem e a procurar aumentar a sua capacidade para a vida em todo o território nacional. Só assim será possível criar as condições que permitem aumentar o bem-estar das populações, quer no espaço rural quer no urbano, e recriar uma paisagem onde a Natureza tenha os eu lugar primordial.

A paisagem do futuro deverá assentar: na produção de bens; na permanência da fertilidade; na preservação da variedade genética e da vida silvestre; na manutenção dos processos ecológicos essenciais à vida, que incluem a manutenção da capacidade de regeneração dos recursos vivos; na conservação da multiplicidade de formas da Natureza.

Esta paisagem deve possuir os atributos do Jardim do Paraíso concebido para o homem.

Na realidade, o Éden é, desde a mais remota Antiguidade, o protótipo ideal da felicidade e plena realização da humanidade. Lugar onde a Natureza, percorrida por águas livres e sussurrantes, adquire, por um lado, a máxima expressão de espiritualidade, beleza, equilíbrio e variedade de formas e, por outro, produz os bens materiais necessários à existência da espécie humana. Compete-nos realizá-lo.

O livro Salvemos a Terra é um valioso contributo para abrir o caminho do futuro, não só porque é um alerta, em face da catástrofe ecológica de que o mundo começa a ter consciência, como também é um instrumento eficaz de informação e de educação para que seja possível uma sociedade mais justa e uma terra onde a Natureza seja amada, respeitada e sabiamente gerida.

Lisboa, 9 de Abril de 1991

Gonçalo Ribeiro Telles

Arquitecto paisagista; engenheiro-agrónomo; professor catedrático da Universidade de Évora; presidente do conselho do Departamento de Planeamento Biofísico e Paisagístico da UE; professor coordenador da Secção Autónoma de Arquitectura Paisagista do Instituto Superior de Agronomia da UTL; ex-secretário de Estado do Ambiente, ex-ministro de Estado e da Qualidade de Vida.»  

in Jonathon Porritt, Salvemos a Terra (Save The Earth, 1991), trad. Wanda Viegas, Maria Leonor Cecílio, Livraria Civilização Editora, 1992, pp. 10-13. 

Berlin / Berlim, Tempelhofer Feld

fotografia: filipe sousa | 6 junho 2019

 
















E POR FALAR EM AEROPORTO...
No dia 6 de Junho de 2019, em que Berlim foi a capital europeia mais quente, registando 33 graus Celsius à sombra, a Regina e o Markus, munido de geladeira com cervejas e salame de carne, deram-nos a conhecer, a mim e à Clara, o maior parque público da cidade. A sua criação data de 2010, depois do encerramento do aeroporto de Tempelhof, dois anos antes, e de os berlinenses terem sido chamados a pronunciar-se sobre o destino a dar às antigas instalações aeroportuárias, que incluem terminais de partida e chegada, hangares e oficinas, pistas de aviação e espaços envolventes.
Beneficiando deste envolvimento cívico e de algum investimento público, o aeroporto de Tempelhof transformou-se em poucos anos no principal local de lazer da cidade alemã, ou seja, no Tempelhofer Feld, um espaço de cerca de 400 hectares onde é possível a prática de bicicleta, skate, patins, segway ou kitesurf, mas também a realização de festivais de música, actividades de conservação da natureza e agricultura sustentável, de economia circular e colaborativa, assim como o desenvolvimento de processos participativos como os que dizem respeito a criação e gestão de hortas-jardins comunitários pelos cidadãos.
Há quem venha propositadamente do centro de Berlim, de comboio, como nós fizemos, para passar uns bons momentos no seu “paraíso” de 4 metros x 4 metros, entre canteiros de flores e legumes, com uma viola ou um livro nas mãos, apanhado ali perto, na pequena biblioteca instalada dentro de uma espécie de cabina telefónica. Há também aqueles que vivem nas redondezas e chegam a pé ou de bicicleta, em grupos de amigos ou famílias, para tomar apenas ar ou refastelar-se na relva a pretexto de um piquenique.
Construído nas décadas de 20 e 30 do século passado, o aeroporto de Tempelhof serviu também para manutenção de aeronaves e de base militar durante o regime nazi. Em 1945, foi ocupado pelo exército soviético e, nesse mesmo ano, entregue à administração americana. Tornou-se ainda um dos principais cenários de uma das mais graves crises da Guerra Fria. Durante o bloqueio terrestre de Berlim pelas forças soviéticas, entre Junho de 1948 e Maio de 1949, o abastecimento de Berlim Ocidental foi assegurado pelas Forças Aéreas dos EUA e Reino Unido através, precisamente, do aeroporto de Tempelhof. Só em 1993, a Força Aérea norte-americana devolveria o aeroporto à cidade.

Graham Greene, no seu Journey without maps, transporta-nos aos anos 30 do século passado, descrevendo uma aterragem no Tempelhof.

«O avião oscilava sobre Hanover, ainda empurrado por uns restos de temporal, afundou-se de repente uns cento e cinquenta metros em direcção da pequenina aerogare e elevou-se de novo para Leste. Atrás do aparelho o pôr-do-Sol alongava-se pelas nuvens, que tomavam cores pálidas em sulcos compridos. Por cima dos lagos o ar era plúmbeo, e a água parecia enterrada no chão, semelhante a rodelas de chumbo. Aqui e além as luzes das aldeias. Anoitecera muito antes de se chegar a Berlim: a cidade veio ao encontro do avião, através do negrume, como um archote, línguas de fogo saídas da noite pesada. As tabuletas luminosas eram do tamanho de estampilhas; podia-se ver todo o traçado da cidade, como nos mapas do metropolitano quando se carrega no botão para verificar o percurso. O enorme rectângulo de Tempelhof estava marcado a vermelho e amarelo. O aparelho inclinou-se sobre Berlim, deu uma volta e desceu; apagaram-se as luzes do interior, os faróis varreram a pista asfaltada, viram-se clarões atrás da asa parda do Lufta Hansa quando o trem de aterragem tocou o solo e deslizou. Rápida e feliz sensação! Na terra, porém, entre as cruzes suásticas, notava-se a dor a cada quilómetro percorrido.»

Graham Greene, Jornada sem mapas (Journey without maps, 1936), trad. Cabral do Nascimento, Editorial Minerva, Lisboa, 1964, p. 34. 

València / Valência, Plaça del Mercat

fotografia: filipe sousa | 11 março 2020























E as "dama" sozinhas de Angola (que não constam do cartaz!), com vidas destroçadas, habitantes dos limites da vida?

«Teresa Chilambo, 35 anos, o marido morreu na guerra, são quatro pessoas em casa, ganha a vida com a lenha;

Alice Vissopa, 49 anos, cria quatro órfãos cujas mães faleceram e cujos pais, um foi para a mata e outro morreu na mina; tem uma pequena lavra;

Joaquina Ngueve, 31 anos, teve dois maridos, um desapareceu há quinze anos, o outro está em Luanda há dois anos, tem sete filhos e vive de vender bebidas fermentadas;

Adélia Jepele, 35 anos, o marido faleceu por doença há três meses, tem seis filhos, vive vendendo fuba;

Jacinta Vondila, 45 anos, o marido faleceu há três anos por doença, cinco filhos, vive de lenha;

Firmina Susso, 40 anos, o marido faleceu na guerra há cinco anos, quatro filhos, vive de lenha;

Clementina Chova, 24 anos, o marido está preso há três anos em Luanda, dois filhos, vive de lenha;

Maria de Fátima, 27 anos, dois maridos, o primeiro faleceu em emboscada, o segundo está com outra senhora em Benguela, três filhos vive de lenha;

Margarida Jondo, 43 anos, o marido faleceu há três anos por doença, quatro filhos, vive da lenha;

Teresa Chicumbo, 24 anos, o marido foi para a tropa há quatro anos e não deu mais notícia, três filhos, vive da candonga;

Maria da Natividade, 30 anos, o marido morreu na guerra, cinco pessoas em casa, vive da candonga;

Flora Massanga, 32 anos, teve três maridos, o último está no Lobango com outra, cinco pessoas em casa, tem uma lavra;

Joaquina Chacuvala, 39 anos, teve dois maridos, um faleceu de doença, outro na guerra, sete pessoas em casa, vive da candonga;

Regina Negueve, 24 anos, teve um marido que foi para o Lubango há três anos, vive com outras cinco pessoas em casa, tem lavra;

Josefa Chissuva, 59 anos, o marido faleceu com doença, cria dois órfãos cujos pais faleceram na guerra, vive da lenha;

Madalena Salassa, 35 anos, o marido faleceu na mina, cinco pessoas em casa, vive da lenha;

Maria Nagueve, 50 anos, dois maridos, um está na UNITA, o segundo tem outra mulher, cria dois órfãos cuja mãe faleceu com doença e cujo pai foi para Luanda com outra, tem lavra;

Margarida Naombo, 60 anos, o marido é cego, cria três órfãos cuja mãe faleceu num ataque e cujo pai tem outra, vive da lenha;

Celestina Cuvanja, 69 anos, o marido faleceu com doença, cria três órfãos, a mãe foi com outro e o pai faleceu;

Evalina Dumala, 63 anos, o marido faleceu com doença, cria quatro órfãos cuja mãe faleceu com doença e cujo pai foi para a tropa, vive da lenha...

Em Setembro de 1992, o Centro de Saúde da periferia de Huambo convidou as «mães sozinhas» residentes na área a recensearem-se. Em duas semanas, acorreram 693. O Centro servia uma população de cerca de 70 mil pessoas, o que representaria cerca de 12 mil famílias. Cinco em cada cem, portanto, seriam «mães sozinhas». «Vieram das aldeias para a periferia das cidades, principalmente por razões de insegurança física. Vieram com os maridos ou juntaram-se já na cidade», explicou na sua edição de 11 desse mês o Jango, com a lista de nomes. «Depois os maridos desapareceram: uns morreram de doença, os mais pela guerra; outros emigraram de novo para outras cidades mas sem a família; alguns escolheram outras mulheres - e elas ficaram sozinhas, mais os filhos. Não sabem ler, não têm profissão, conhecem apenas como trabalhar as terras, mas não têm terras. Saíram das aldeias que foram queimadas, destruídas, perderam os laços sociais (familiares e comunitários) que as enquadravam, juntaram-se a outros homens, párias semelhantes. Agora eles foram e elas, só com os filhos, nada mais têm, nem mesmo existência legal.»»

Pedro Rosa Mendes, Baía dos Tigres, 3ª ed., Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, pp. 347-349.

Siena

fotografia: Filipe Sousa | 6 julho 2009

 























A minha primeira vez na ruiva Siena

Cheguei a Siena, vindo de Roma, no final de uma tarde quente de Julho de 2009, depois de atravessar de comboio as belas paisagens da Toscânia. Entrei pela Porta Ovile, a tempo de ver a cidade com luz natural e captar, num desenho, a Piazza del Campo, aquela que Montaigne descreveu, no século XVI, como «la più bella che si vedda in nissuna altra città». Enquanto o desenho fluía, surgiram, em pano de fundo, as palavras inspiradas de Cecília Meireles, que também se perdeu de amores por Siena quando aqui esteve em 1953.

«…a Piazza del Campo – em forma de concha, cercada de soberbos palácios, com muitas ruas desembocando por todo o lado e a solitária Torre del Mangia varando o tempo (…), onde outrora, como os muezins, nas mesquitas, um homem chamado Mangia vinha anunciar as horas… (…) Siena, a rival de Florença, não se pode descrever facilmente. Florença é clara, quase linear e translúcida, - comparada a esta cidade tão medieval, de uma ruiva tonalidade, que faz pensar em ouro, sangue, ferrugem, e em cujas ladeiras e esquinas não se pode deixar de ver o perfil das antiquíssimas guerras. (…) Com o meu panforte me vou por estas ruas de Siena, que sobem e descem, em pedras, degraus, ladeiras, encruzilhadas, por entre palácios fechados, de suntuosas fachadas. Ai, não fosse a vida esta urgência! Pudéssemos nós ir sempre subindo e descendo estas ruas, estas escadas, sem fome, sem cansaço, sem hora certa, puramente em alma!...»

Cecília Meireles, «Da ruiva Siena» in Crônicas de viagem 2 (1953), reimpr. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999, pp. 55-58.

Lisboa

fotografia: 30 novembro 2008

 



























 




O Homem na Cidade deixou-nos hoje, com o futuro no horizonte.

Carlos do Carmo (1939-2021).


UM HOMEM NA CIDADE

Agarro a madrugada
como se fosse uma criança
uma roseira entrelaçada
uma videira de esperança
tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem por força da vontade
de trabalhar nunca se cansa.

Vou pela rua
desta lua
que no meu Tejo acende o cio
vou por Lisboa maré nua
que desagua no Rossio.

Eu sou um homem na cidade
que manhã cedo acorda e canta
e por amar a liberdade
com a cidade se levanta.

Vou pela estrada
deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresça na vela da canoa.

Sou a gaivota 
que derrota
todo o mau tempo no mar alto
eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.

E quando agarro a madrugada
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada
um malmequer azul na cor.

O malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém
o malmequer desta cidade
que me quer bem que me quer bem!

Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis que me quer bem! 

José Carlos Ary dos Santos, 1977
cantado por Carlos do Carmo

Funchal

 
fotografia: filipe sousa | 22 setembro 2020


A meio da tarde, deixei-me teletransportar para a baixa do Funchal, com um pé na varanda do 7º andar do nº 75 da Avenida Arriaga e outro num catamarã fundeado ao largo da enseada, para assistir ao fogo-de-artifício em honra de S. Silvestre e saudar o novo ano.

O serviço incluiu o regresso ao Funchal dos anos 30 do século passado, e a entrada a bordo do «Guiné», acompanhando Juvenal e Elisabeth, que se despedem saudosos da cidade a caminho da ilha do Sal, em Cabo Verde.

«Com Elisabeth muito encostada a si, no extremo da amurada, afastados dos outros passageiros, Juvenal recordava a noite já longínqua, fim de ano alegre em que ele viera para a baía, não banido, como agora, mas curioso de ver quanto fogo-de-artifício se queimava em honra de S. Silvestre.

Era velho costume da ilha saudar o ano nascente e fazer ao morto coruscantes funerais com uma festa pirotécnica. Antes mesmo de cair a meia-noite sobre o último santo do calendário, portas e janelas da cidade, fossem de vivendas modernas, de antigos e austeros palácios ou de pobres casebres, começavam a esparrinhar fogo na grande encosta, enchendo a escuridade de lumaréus, fogachos rabiantes, rútilas serpentinas, jactos de luz que se cruzavam, derramando estrelas e lágrimas, flamas de vida errante e efémera, dando sempre lugar a outras, a muitas outras, que se entrançavam com todas as cores do arco-íris e se perdiam num espectáculo demoníaco, fantasmagórico e inesquecível. Tudo ardia, tudo fulgurava; já não existia a noite; já não existia a terra; vivia-se num outro mundo, um mundo de fogo crepitante, que arremessava estilhaços de constelações e de astros, por entre os quais vagueavam serpentes vermelhas e caíam, lentamente, lentamente flores extravagantes, pétalas rubras, como se se estivessem a desfolhar os inesgotáveis jardins do céu. A noite era uma apoteose aos génios do mar. (...)

O «Guiné» afastava-se da baía do Funchal e, agora, abrangia-se melhor a encosta povoada de focos luminosos e cada vez mais fantástica na noite atlântica.»

Ferreira de Castro, Eternidade (1933), 15ª ed., Cavalo de Ferro, Amadora, 2020, pp. 266, 270.

Bordeaux / Bordéus, Quai des Chartrons 35

fotografia: filipe sousa | 9 novembro 2019
















Futebol escreve-se com oito letras: Maradona!

«Mais tarde, em Buenos Aires, a televisão transmitiu o segundo ajuste de contas: a detenção em directo e ao vivo, como se fosse um jogo, para quem gostou de ver o espectáculo do rei nu que a polícia leva preso.
«É um doente», disseram. E disseram: «Está acabado.». O messias convocado para redimir a maldição histórica dos italianos do sul tinha sido, também, o vingador da derrota argentina na Guerra das Malvinas, através de um golo batoteiro e de outro golo fabuloso, que deixou os ingleses a girar como piões durante alguns anos; mas na hora da queda, o Pibe de Ouro passou a ser, apenas, um farsante agarrado ao pó e um putanheiro. Maradona tinha traído os miúdos e desonrado o desporto. Deram-no como morto.
Mas o cadáver levantou-se de um salto. Cumprida a penitência da cocaína, Maradona foi o bombeiro da selecção argentina que queimava as últimas possibilidades de chegar ao Mundial de 1994. Graças a Maradona chegou lá. E, nesse torneio, Maradona voltou a ser, novamente, como nos melhores tempos, o melhor de todos, quando rebentou o escândalo da efedrina.
A máquina do poder tomara-o de ponta. Ele não tinha papas na língua, isso tem o seu preço, esse preço paga-se com dinheiro à vista e sem descontos. E foi o próprio Maradona quem lhes deu a justificação, com a sua tendência suicida de se oferecer de bandeja aos seus muitos inimigos e com a sua irresponsabilidade infantil que o leva a cair em todas as ciladas que se abrem no seu caminho.
Os mesmos jornalistas que o acossam com microfones, censuram a sua arrogância e as birras, acusam-no de falar demais. Não deixam de ter razão; mas não é isso que não lhe perdoam; na verdade, não lhes agrada o que ele às vezes diz. Este fedelho repontão e exaltado tem o hábito de desferir golpes para cima. Em 1986 e em 1994, no México e nos Estados Unidos, denunciou a ditadura omnipotente da televisão, que obrigava os jogadores a derrear-se ao meio-dia, esturricando ao sol, e noutras milhentas ocasiões, ao longo de toda a sua acidentada carreira, Maradona disse coisas que agitaram as águas. Ele não foi o único jogador desobediente, mas foi a voz dele que deu ressonância universal às perguntas mais inconvenientes: Por que razão o futebol não é regido pelas leis universais do direito laboral? Havelange cala-se, ocupado com outros mesteres, e Joseph Blatter, burocrata da FIFA que nunca deu um pontapé numa bola mas que anda em limusinas de oito metros com motorista negro, limita-se a comentar:
-O último astro argentino foi Di Stéfano.
Quando Maradona foi, finalmente, expulso do Mundial de 1994, os campos de futebol perderam o seu rebelde mais clamoroso.. E perderam também um jogador fantástico. Maradona é incontrolável quando fala, mas muito mais quando joga: não há quem consiga prever as diabruras deste inventor de surpresas, que nunca se repete e que se diverte a desconcertar os computadores. Não é um jogador veloz, bezerro de pernas curtas, mas tem a bola corrida no pé e tem olhos no corpo todo. As suas artes malabares incendeiam o relvado. Ele pode decidir um jogo disparando um tiro fulminante de costas para a baliza ou servindo um passe impossível, de longe, cercado por milhares de pernas inimigas, e não há quem o pare quando se põe a fintar rivais.
No frígido futebol do fim de século, que exige vitórias e proíbe o prazer, este homem é um dos poucos que demonstram que a fantasia também pode ser eficaz.»

Eduardo Galeano, Futebol ao sol e à sombra (El fútebol a sol y sombra, 1995), trad. Helena Pitta, Antígona Editores Refractários, Lisboa, 2019, pp. 253-254. 

Amareleja, Rua da República 16-A

fotografia: filipe sousa | 25 junho 2014

 

















Hoje é dia de S. Martinho.
S. Martinho que rima com vinho (novo).
Vinho que condiz com petisco e Amareleja.
Que, por sua vez, combinam com companheirismo e cante alentejano.
E tudo isto conflui na figura de Joaquim Leandro Grosso, o mestre Minuto, amarelejense insigne, homem de cultura e uma referência do universo do cante.

Já que falamos de vinho, uma vez recitou-me estas quadras:


Eu gosto muito de vinho
Não o posso dispensar
Quando estou de bebedeira
O meu destino é cantar

Se queres que eu cante bem
Dá-me gotinhas de vinho
O vinho é coisa santa
Faz o cantar miudinho

És filho da cepa
Neto do velho cacho
Não me subas à cabeça
Desce por aqui abaixo.

Recitado por Joaquim Leandro Grosso (mestre Minuto).

Massou

fotografia: filipe sousa | dezembro 1993

 















Ontem, falei de burros. Hoje, falo de mulas, a propósito da cooperativa Mula. Que descobri há poucos dias, virtualmente.
A Mula apresenta-se como um projecto cooperativo, com epicentro no Barreiro, cujos princípios são a «autodeterminação e organização comunitária, para promover a participação local e social». Vale a pena espreitar a página no facebook (
https://www.facebook.com/coopmula
) para perceber o alcance da sua intervenção em prol de um mundo melhor: cantina solidária, bar, mercearia, horta, programas culturais…
Ademais, o nome é um achado; um trocadilho com a Mula da Cooperativa, do Max, a que deu um coice no telhado. Quem se lembra?
Não escondo que gosto particularmente de realidades híbridas, cruzadas, traçadas, mutantes, que dizem muito do que a mula é.
A fotografia foi tirada junto ao moinho de água que dista meia hora a pé da aldeia de Massou, em pleno Alto Atlas marroquino. O moleiro e o almocreve seguram uma mula pela arreata que transportou até ali os alforges cheios de cereal e que regressará com eles cheios de farinha. Nos finais de 1993, escasseando os transportes motorizados na região, era comum recorrer a muares para transporte de bens, mercadorias, pessoas e utilização na agricultura. Nós próprios alugámo-los em duas ocasiões para o acarreto das mochilas.

José Cardoso Pires completa o panegírico da mula.

««Chó, recruta, que fala o cabo. Mulas é preciso conhecê-las e saber levá-las aonde se quer. Há animal desses que se agarra a um arado que nem o boi mais valente. E para cavalgar no cascalho? E para acarretar esterco, lenha ou seja o que for?»                          Empinado sobre os companheiros, Três-Dezasseis conta que se não fossem as mulas nunca a gente de Álvaro poderia governar-se. «Sem as mulas, metade da minha terra andava com a outra metade às costas...Faço-me compreender?»                                            Os recrutas aceitam, compreendem. Pelo que lhes chegara ao conhecimento do passado do cabo, Álvaro ficava nas voltas do penhascos da raia onde só as bestas de carga conseguiam chegar. Burros e mulas - as mulas, sobretudo, que são animais castigados e servo do pobre, embora rancorosos. Mas pode haver pior sorte do que ser criado do pobre? Haverá? Daí o ódio das mulas - destas da tropa ou de qualquer outro dono. Lá andam por Álvaro, coitadas; lá as vamos achar abrindo lume na rocha com os cravos das ferraduras, mergulhando em valados de tojo ou batendo trilhos de contrabandistas. E são bichos úteis, valiosíssimos, ainda que, como sabemos, alimentados de rancor.»

José Cardoso Pires, O hóspede de Job (1963), 2ª ed., Editora Arcádia, Lisboa, 1964, pp. 27-28.

Berlin / Berlim, Genthiner Strasse 38

fotografia: filipe sousa | 25 janeiro 2020

















Na recta final da corrida presidencial norte-americana, os burros (democratas) levam vantagem sobre os elefantes (republicanos). Ainda Tudo-Pode-Acontecer, mas o mais provável é que os EUA passem de elefante para burro! Felizmente! Já tardava a mudança.

Pretexto para evocar todos os Plateros esquecidos deste mundo, e um em especial.

«Entretanto, D. Quixote solicitou a um lavrador seu vizinho, homem de bem - se é que este título pode ser dado a quem é pobre -, mas de pouco sal na moleirinha. Em resumo, tantas coisas lhe disse, tanto procurou convencê-lo e tais promessas lhe fez que o pobre aldeão decidiu ir com ele para lhe servir de escudeiro. Dizia-lhe, entre outras coisas, D. Quixote que ele acedesse a acompanhá-lo de boa vontade, porque nalguma ocasião lhe podia acontecer ser vencedor de uma aventura em que conquistasse, num abrir e fechar de olhos alguma ínsula e o nomeasse o governador dela. Com estas promessas e outras semelhantes, Sancho Pança, que assim se chamava esse lavrador, deixou a mulher e os filhos e comprometeu-se a servir como escudeiro o seu vizinho. Em seguida D. Quixote procurou arranjar dinheiro e, vendendo uma coisa e empenhando outra, e malbaratando todas, reuniu uma quantia considerável. Muniu-se também de uma rodela, que pediu emprestada a um amigo, e consertando o melhor que pôde a celada que se rompera, avisou o seu escudeiro Sancho Pança do dia e da hora em que tencionava pôr-se a caminho, para que ele se fornecesse do que considerasse mais necessário. Sobretudo, mandou-o levar alforges; e ele disse que os levaria e que também tencionava levar um burro que tinha, muito bom, porque não estava afeito a andar muito a pé. Quanto ao burro, D. Quixote meditou um pouco, para apurar se se lembrava de algum cavaleiro andante ter já trazido um escudeiro montado asnalmente; mas não lhe veio nenhum à memória; porém, apesar disto, resolveu que Sancho o levasse, com o propósito de o dotar de mais honrada cavalaria quando houvesse oportunidade para isso, tirando o cavalo ao primeiro cavaleiro não cumpridor dos preceitos de cavaleiro que viesse a encontrar.»

Miguel de Cervantes, O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha (El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha, 1605), trad. José Bento, Relógio d'Água Editores, 2005, parte I, cap. VII, p. 72. 

Argamassilla de Alba

fotografia: filipe Sousa | 12 março 2020

 















«Normalidade são armas e a América normal que realmente quer ser novamente grande. Depois há outra normalidade se a pele da pessoa é da cor errada e outra se tem instrução e outra ainda se acha que a instrução é lavagem ao cérebro e há uma América que acredita nas vacinas para as crianças e outra que diz que é uma vigarice e tudo aquilo em que uma normalidade é mentira para outra normalidade e todas elas estão na televisão conforme o sítio para onde se olha, de maneira que sim, é confuso. Estou a tentar a sério perceber qual dos istos é agora a América. Zap zap zap. Um homem com a cabeça num saco a ser morto por um homem de camisa despida. Um homem gordo de chapéu vermelho a berrar a homens e mulheres também gordos e também com chapéus vermelhos sobre a vitória, Temos pouca instrução e comemos de mais. Estamos cheio de orgulho por sabe-se lá que porra seja. Vamos às urgências de carro e mandamos a nossa Avozinha ir buscar as nossas armas e cigarros. Não precisamos da merda de aliados porque somos estúpidos e podem chupar nesta. Somos Beavis e Butt-Head sob esteroides. Bebemos Roundup pela lata. O nosso presidente parece um presunto de Natal e fala como Chucky. Somos a América, cabrão. Zap. Imigrantes a violarem todos os dias as nossas mulheres. Precisamos da Força Espacial por causa do Estado Islâmico Espacial. Zap. A normalidade é a Terra de Pernas para o Ar. (...)

Talvez, segundo a minha ínsula, seja assim que as coisas são nesta altura na América: que para alguns de nós o mundo tenha deixado de fazer sentido. Tudo pode acontecer. O aqui pode ser além, o então pode ser agora, o cimo pode ser o fundo e a verdade pode ser mentira. Está tudo a deslaçar e não há nada a que nos possamos agarrar. Rebentou tudo pelas costuras. Para alguns de nós, que começaram a ver aquilo que os outros são demasiado cegos para ver. Ou estão demasiado apostados em não ver. Para eles, é deixar andar, tudo como dantes, a Terra ainda é plana e ainda não há alterações climáticas. Lá em baixo na rua, há carros cheios de deixa-andares a circular, os peões deixa-andar vão para o trabalho, o fantasma de Woody Guthrie caminha pela sua fita de autoestrada a cantar esta terra foi feita para ti e para mim. Nem Woody ouviu as notícias do fim-do-mundo.» 

Salman Rushdie, Quichotte, trad. J. Teixeira de Aguilar, Publicações Dom Quixote, Alfragide, 2019, pp. 177-178, 184-185. 

Moura, Rua das Hortas

fotografia: filipe sousa | outubro 2012

 

















Num tempo de Outono-quase-Verão, a horta exibe sinais que nos transportam à Primavera. Numa alusão às romãzeiras em flor que, por esta altura, nos brindam com o fulgor dos seus frutos.

Da Ilha dos Amores, das ninfas e dos lusos argonautas, do clássico-moderno Luís de Camões, às ilhas dos desamores da lagoa da Gafeira, de Palma Bravo e Maria das Mercês, do moderno-clássico José Cardoso Pires, três passagens com as romãzeiras em primeiro plano.

«Abre a romã, mostrando a rubicunda

Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes;

Entre os braços do ulmeiro está a jucunda

Vide, c’uns cachos roxos e outros verdes;

E vós, se na vossa árvore fecunda,

Peras piramidais, viver quiserdes,

Entregai-vos o dano que cos bicos

Em vós fazem os pássaros inicos.»

Luís de Camões, Os Lusíadas, canto IX, LIX, (1572), introdução, notas e vocabulário de António José Saraiva, 2ª ed., Livraria Figueirinhas, Porto, 1999, p. 380.                                                                 

«A romãzeira está brava, assaltada por legiões de formigas. Apesar disso, cabe-lhe a homenagem, porque, nesta época do ano e nesta desolada terra, é a única exclamação da Natureza. Árvore bravia, de sombra rendilhada, que já foi sumo e que hoje fica na flor: à volta não vejo senão pedras e formigas, restos de comida e cães à espera dos donos. E no meio, ela. Ela, enchendo a página, com um herbário escolar, com a folhagem tatuada de injúrias (do Velho), caprichos de interrogações nas flores, pontinhos a formigar. É um cântico de vermelho exposto ao sol outonal, esta árvore, e sustenta nos braços cor de cobre toda uma abóbada de chagas em alegria. Tem, para finalizar, a inestimável utilidade da beleza - coisa importantíssima.» 

«Estou nas traseiras da pensão e este é o quintal da romãzeira selvagem com os exércitos de formigas que a cobrem e com toda a poesia das suas chagas em flor.»

José Cardoso Pires, O Delfim (1968), 2ª edição booket, Publicações Dom Quixote, 2008, pp. 106, 161.

Funchal

fotografia: filipe sousa | 22 setembro 2020

 















«Antes da guerra (o porto do Funchal) via entrar, em média, 1419 navios por ano, correspondendo a 10.261.000 toneladas. O pavilhão inglês vinha em primeiro lugar com 558 navios e 5.730.000 toneladas, ou seja 56 p. 100 do movimento total. A Alemanha ocupava o segundo lugar com 19 p. 100, Portugal o terceiro com 9 p. 100. (…) Funchal era o segundo porto português com 35 p. 100 da tonelagem do conjunto dos portos do continente e das ilhas, Madeira e Açores. Detinha três quartos da tonelagem dos dois arquipélagos. 

A guerra naturalmente veio provocar uma crise profunda. Em 1946, o porto do Funchal apenas foi visitado por 327 navios correspondendo a 1.466.000 toneladas, o que significa que o movimento caiu a 23 por 100 quanto ao número de navios e a 13 p. 100 quanto à tonelagem em relação ao período antes da guerra. (...)

Com a guerra, a economia da Madeira sofreu muito devido ao encerramento de vários mercados de consumo dos seus melhores produtos, tanto mais que esses mercados não se reabrem senão muito lentamente. A exportação de vinhos e bordados não atinge o nível de antes da guerra. Para outros produtos, como as bananas, Portugal tornou-se o único comprador. (...) A produção de certos produtos agrícolas (primores, cebolas) escoa-se para os mercados tradicionais da América e os bordados são vendidos nos Estados Unidos e no Brasil. Todavia, a crise subsiste para o comércio dos vinhos. No mundo conturbado do após-guerra, estes produtos de qualidade já não têm o mesmo lugar que tinham.»

Orlando Ribeiro, A Ilha da Madeira até meados do século XX - estudo geográfico (1949), 2ª ed., Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, 1985, pp. 128-129. 

 

«Chovia na Madeira. Às dez da manhã os corretores enxameavam a conhecida e acanhada cidade. Tomava-se vinho generoso no Golden Gate, a chuva escorria dos barretes fálicos pendurados à porta das lojas. Os cicerones usavam chapéu de palha e fita azul, e perseguiam a gente através de todo o Funchal; não desanimavam um segundo pelo facto de estar a chover. Falavam de luxe, de sex, e de qualquer coisa relativa a dancing girls. Como a do senhor Beverly Nichols, a sua indústria estribava-se na procura de paraísos artificiais. Depressa, depressa, o desembarque é só por meia hora, o vigor da mocidade não dura sempre, arranje outra rapariga antes que seja tarde: não foi feliz com a que escolheu, experimente mais uma. As floristas vendiam violetas, açucenas e rosas, debaixo de chuva, as carapuças fálicas pingavam, os cicerones não compreendiam que se não quisesse uma mulher logo depois do primeiro almoço, em dia pluvioso. Havia outras formas de matar o tempo: tomar vinho no Golden Gate, voltar para bordo e ler Lady Eleanor Smith e o senhor Beverly Nichols.

Entraram no navio mais dois passageiros, que tinham comprado bilhetes sem direito a acomodação: um moço artista e sua mulher, ambos alemães. Autorizaram-nos a dormir na enfermaria. Ele era forte e sardento e vestia casaco de bombazina; conhecera D. H. Lawrence em Taos e Mabel Dodge Luhan, o que lhe não fazia diferença nenhuma, pois não tencionava escrever a este respeito. Na enfermaria dispôs as suas telas, paisagens toscas, realistas, e caras tisnadas de mexicanos. Escurecia. Bebeu-se mau vinho da Madeira e o artista discorreu sobre desporto e beleza corporal; a mulher, pequenina, cheia de curvas, condescendente e simpática, estava enjoada e não abria a boca. O homem acreditava em Hitler e no Nacionalismo, apreciava o amor e a natação, assim como as pinturas de Orpen e De Laszlo, porém as de Munke já não o satisfaziam, não tinham alma, declarou, eram materialistas – mas não que ele descresse do Corpo, da Beleza corporal e do Amor físico. Agradava-lhe a ideia de ir também a África e ilustrar o livro que eu escrevesse. Um artista estava à vontade em toda a parte. Todavia, depois do jantar, mudou de opinião; e a sua companheira, suave e condescendente, que declarara «não se importar de ir a África», mudou também de parecer em seguida ao jantar. Era mau pintor, mas sem falsidade. Vivia de quase nada; cria em si e nas suas confusas ideias teutónicas.»

Graham Greene, Jornada sem mapas (Journey without maps, 1936), trad. Cabral do Nascimento, Editorial Minerva, Lisboa, 1964, pp. 22-24.

Bastia

fotografia: filipe sousa | outubro 2005 

















«Os faróis são também um legado mediterrânico, que é preciso evitar entregar exclusivamente às autoridades administrativas, costeiras ou marítimas. São em geral classificados de acordo com a sua idade e a sua grandeza, com a maneira como são construídos e com os locais em que se situam: molhes, ilhéus, cabos, promontórios. Há também a considerar o modo como o mar os cerca, até que ponto estão isolados, quais as suas ligações com os portos mais próximos, se aspiram a tornar-se portos eles mesmos e, finalmente, para quem, na rota de que navio, lançam os seus feixes luminosos (diz-se, também, num registo sentimental, que a sua luz é pálida, intermitente, nostálgica, etc). Nem pensar em dissertar sobre as razões que levaram certos faroleiros a optar por viver na solidão, iluminando o mar. Aos faróis cabe um lugar respeitável nas cartas marítimas de grande formato, e também os náufragos os não omitem nas suas memórias: os mediterrâneos não brilham pela sua extrema gratidão, embora tanto prometam, e mais ainda quando exprimem os seus agradecimentos (note-se em sua defesa que eles mesmos acreditam em tais promessas no momento em que as fazem). Os faroleiros, que mais se aparentam a monges de antigos mosteiros que a marítimos, não esperam de parte alguma espécie de agradecimento. Às vezes é a eles que se dedica um quadro nas casas dos que perderam um parente próximo no mar: o ex-voto é uma fé popular e pagã, com santuários espalhados pelo Mediterrâneo.»

Predrag Matvejevitch, Breviário Mediterrânico (1987), trad. do francês Pedro Tamen, Quetzal Editores, Lisboa, 2019, p. 52.   

Rabaçal

fotografia: filipe sousa | 19 setembro 2020

«A dissimetria entre as duas encostas da ilha comanda também a organização da rega. Para regar a encosta sul vai-se buscar água à encosta norte, que recebe precipitações mais abundantes e cujo solo está menos ocupado pelo homem. (…) Não há barragens nem albufeiras de qualquer espécie. As nascentes são colectadas frequentemente a altitudes consideráveis (1600 metros nas montanhas ocidentais, 1500 no planalto do Paúl da Serra): um rego onde circula um pequeno fio de água incorpora progressivamente outras nascentes que aumentam o seu caudal. (…) Certas levadas destinam-se a regar terrenos da encosta setentrional da ilha. Outras, geralmente as mais curvas e mais antigas, colectam as águas dos cumes e dos barrancos da encosta meridional. As mais compridas destinam-se a trazer as águas da encosta norte para as regiões mais povoadas e mais cultivadas do Sul da ilha. Estas levadas são o resultado de trabalhos de grande envergadura. As duas levadas do Rabaçal, que permitem regar todo o Sudoeste da Madeira com as águas da bacia de recepção da Ribeira da Janela, foram construídas de 1835 a 1890; a maior tem uns 24 km de comprimento.»

Orlando Ribeiro, A Ilha da Madeira até meados do século XX - estudo geográfico (1949), 2ª ed., Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, 1985, pp. 63-66.