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| fotografia: filipe sousa | 18 junho 2023 |
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| fotografia: filipe sousa | 18 junho 2023 |
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| fotografia: filipe sousa | 18 junho 2023 |
Kerkira
Com esse cheiro a linho
que só os ombros acariciados têm
a terra é branca
e nua.
Em Corfu os asfódelos devem estar
em flor, quando
o vento os inclina no deserto
dos lábios rompe a água.
Turismo em Corfu
Onde Ulisses avistou Nausica
com o verão brincando nas areias
espreita agora a nádega indecisa
e vagabunda de qualquer sereia
se não for de algum anjo sodomita.
Eugénio de Andrade, Escrita da Terra e outros epitáfios (1974), 5ª ed., Inova, Porto, 1983, p.18.
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| fotografia: filipe sousa | 18 junho 2023 |
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| fotografia: filipe sousa | 18 junho 2023 |
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| fotografia: filipe sousa | 17 junho 2023 |
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| fotografia: filipe sousa | 17 junho 2023 |
SOBRE O DESEJO
Hei-de levar este esplendor para um poema, dizia eu, sempre que me estendia à sombra branca e miúda de uma oliveira. Mas fosse onde fosse, em terras de Corfu ou de Maiorca, nos campos de Siena ou no chão da minha infância, sempre adormeci sobre o desejo.
Hoje, que a violência do estio me levou a escarvar a própria pedra, queria apenas uma dessas árvores de bruma, por mais exígua, e adormecer à sua sombra.
Eugénio de Andrade, «Memória Doutro Rio» (1976-1977), in Poesia e Prosa (1940-1980), 2ª ed., Limiar, Porto, s.d., pp. 252-253.
OLIVES
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| fotografia: filipe sousa | 17 junho 2023 |
«Caminhei lentamente com a multidão em direcção à cidade que ficava na colina, com os olhos postos na fabulosa cidadela veneziana elevando-se do mar num amontoado rochoso à minha direita. E sobre o topo das suas muralhas, proclamando a morte e ressurreição de Jesus aos infiéis na Albânia para lá do estreito, erguia-se a cruz mais ostensiva e monstruosa da cristandade. (...)
Não há nada de grego na cidade de Corfu. De facto, essa é provavelmente a razão por que muitos estrangeiros a acham tão atraente. É uma cidade veneziana, um labirinto de ruas estreitas pavimentadas por paralelepípedos entre duas sólidas fortalezas venezianas. Ao fim e ao cabo os Venezianos estiveram aqui mais de quatrocentos anos. Ao longo do cume dos penhascos, entre o Forte Velho, sobressaindo em direcção ao mar com a cruz ao topo, e a elegância das colunatas da velha cidade, há uma faixa de parque, resplandecente de árvores-da-Judeia violáceas na altura da Páscoa, onde os Corfiotas gostam de passear em grupos barulhentos e de vez em quando jogar críquete. (...)
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| fotografia: filipe sousa | 16 junho 2023 |
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| fotografia : filipe sousa | 16 Junho 2023 |
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| fotografia: filipe sousa | 15 junho 2023 |
«Parco de haveres, nascido em terras onde a luz à noite era de azeite e o pão tinha a cor das pedras, todo o excesso me parece uma falta de gosto, todo o luxo uma falta de generosidade. Dito isto, não poderá estranhar-se que me sinta tão religado ao solo pobre e arcaico da Grécia e à fecunda harmonia da sua cultura: o mar de Homero entre as colunas de Súnion, as ruas de Salónica com os muros acabados de caiar, a sombra luminosa dos degraus de Epidauro, onde ressoam ainda os versos supremos de Esquilo, têm para mim um prestígio que nenhum parque de Londres, ou praça de Paris, ou avenida de Nova York poderão alcançar a meus olhos.»
Eugénio de Andrade, À Sombra da Memória, Fundação Eugénio de Andrade, Porto, 1993, p. 130.
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| fotografia: filipe sousa | 14 junho 2023 |
«11 de Setembro de 1963
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| fotografia: filipe sousa | 13 junho 2023 |
«O tempo deixou de existir, só eu existia, levado pela corrente num barco lento, disposto a conhecer quem aparecesse e a aceitar o que acontecesse. (...) Vais gostar da Grécia… aquela ficou-me gravada na cabeça. «Meu Deus, é mesmo verdade, eu gosto da Grécia», dizia para mim mesmo vezes sem conta, encostado à amurada, enquanto absorvia o movimento e o rebuliço. Inclinei-me para trás e olhei para o céu. Nunca tinha visto um céu como aquele. Era magnífico. Senti-me completamente separado da Europa. Tinha entrado num novo reino como um homem livre – tudo se conjugara para tornar a experiência única e fecunda.»
Henry Miller, O Colosso de Maroussi (The Colossus of Maroussi, 1941), trad. Raquel Mouta, Tinta-da-China, Lisboa, 2021, pp. 25, 27.
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| fotografia: filipe sousa | 6 Junho 2019 |
David Byrne, Diário da Bicicleta (Bicycle Diaries, 2009), trad. Vasco Teles de Menezes, Quetzal Editores, Lisboa, 2010, p. 64.
Nota: David Byrne (esse mesmo, o fundador dos Talking Heads!) usa a bicicleta, desde o princípio dos anos 1980, como principal meio de transporte em Nova Iorque.
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| fotografia: filipe sousa | 9 maio 2023 |
«Fomos assim até mais abaixo de Lisboa, onde atravessámos o rio até aqui, a Almada, onde tenho uma pousada muito bonita, ainda que pequena. De todas as janelas vê-se o rio e Lisboa e as naus e, muitas vezes, galeras. Num quarto alto, onde escrevo, vê-se, de uma janela, Lisboa inteira (…)»
Excerto de carta do rei Filipe I às suas filhas.
Almada, 26 de Junho de 1581.
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| fotografia: filipe sousa | 6 agosto 2021 |
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| fotografia. filipe sousa | 23 novembro 2022 |
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| fotografia: filipe sousa | 2 fevereiro 2023 |
(1) Abú Aláçane Ali ibn Bassame Assantarini (1058?-1147?), natural de Santarém.
«Marraquexe é considerada uma das grandes cidades do mundo e uma das mais ilustres de África. (...) A sua medina é extensa, inclui (durante o reinado de Hali) cerca de cem mil fogos (...), tem vinte e quatro portões e está rodeada por fortes muros, cuja alvenaria é de cal viva e areia.»
Leão o Africano (1496?-1548)
«Agora devemos infiltrar-nos pelas brechas da muralha, as aberturas esquecidas; devemos andar na ponta dos pés e apurar o ouvido, não durante o dia, mas sim durante a noite, quando a lua dá sombra à nossa história, quando as estrelas se juntam a um canto do céu e observam o mundo que fica mais suave.»
Tahar Ben Jelloun, A Criança de Areia (L'Enfant de Sable, 1985), Editorial Estampa, Lisboa, 1989, p. 63.
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| fotografia: filipe sousa | 1 fevereiro 2023 |
«A Djemâa el Fna é provavelmente a praça ao ar livre mais fascinante do mundo. Todas as tardes Marraquexe inteira vem aqui como se fosse a uma feira. Numa tarde qualquer podem ver-se alguns destros sudaneses dançando junto a uma trupe de Gnaoua, uma trupe de acrobatas, os jilabas bebendo água a ferver, os aissaouas encantando cobras e víboras, macacos treinados, e uma actuação surrealista por dois haddaouas sentados sobre tapetes e rodeados por flores de plástico e pombos vivos.»
Paul Bowles, «O que há de tão diferente em Maraquexe?» (1971), Viagens - Compilação de Escritos, 1950-1993 (Travels - Collected Writings, 1950-1993), trad. Jorge Pereirinha Pires, Quetzal Editores, Lisboa, 2013, p. 438.
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| fotografia: filipe sousa | 1 fevereiro 2023 |
«Marraquexe é uma cidade de grandes distâncias, plana como uma tábua. Quando sopra o vento, o pó rosado das planícies estende-se para o céu, obscurecendo o Sol, e toda a cidade, pintada com uma demão da terra rosada sobre a qual assenta, reluz em vermelho sob a luz cataclísmica. À noite, da janela de um carro, não parece diferente de uma das nossas cidades ocidentais: longos quilómetros de candeeiros de rua estendendo-se em linha reta sobre a planície. Somente durante o dia se vê que muitas dessas luzes iluminam apenas extensões vazias de palmeirais e deserto. Ao longo dos anos, as franjas exteriores da medina passaram a permitir a circulação de automóveis e das carruagens puxadas por cavalos, das quais ainda existem muitas, mas é necessário um homem destemido para conduzir o seu carro no labirinto de vielas em serpentina cheias de moços de fretes, bicicletas, carroças, burros e vulgares pedestres. Além disso, a única maneira de se ver alguma coisa na medina é caminhando. Para se estar realmente presente, é preciso ter-se os pés sobre a poeira, ou ter-se a consciência do odor quente e poirento dos muros de argila junto ao nosso rosto.»
Paul Bowles, «A Rota para Tassemsit» (1963), Viagens - Compilação de Escritos, 1950-1993 (Travels - Collected Writings, 1950-1993), trad. Jorge Pereirinha Pires, Quetzal Editores, Lisboa, 2013, p. 348.