Firenze / Florença

fotografia: filipe sousa | 11 maio 2024
















«Florença tem o tamanho exato das cidades para sempre amadas: tudo se pode conhecer num dia; e todos os dias haverá, dentro dela, coisas para ver - até o fim do mundo, que é mais do que o fim da vida.»

Cecília Meireles, «Voz em Florença» in Crônicas de viagem 2 (1953), reimpr. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999, p. 76.


«Florença por dois dias, duas semanas, dois meses? Florença pelo tempo de um suspiro? Mas esta cidade é vasta como um continente, inesgotável como o universo.»

José Saramago, Manual de Pintura e Caligrafia - Ensaio de romance, 1ª edição, Moraes Editores, Lisboa, p. 183.

Firenze / Florença, Oltrarno, San Miniato al Monte

fotografia: filipe sousa | 11 maio 2024























«As oliveiras são plantas estranhas; parecem-se com salgueiros, também ficam ocas, a casca estala e salta. Mas têm um aspecto mais sólido. Vê-se que a madeira cresce lentamente e a sua estrutura é extremamente fina. A folha é do tipo da do salgueiro, mas com menos folhas por ramo. Nos montes à volta de Florença só se vêem oliveiras e vinhas, e entre elas ocupa-se a terra com cereais.»

J.W.Goethe, Viagem a Itália (Italienische Reise, 1786-1787), trad. João Barrento, Relógio d'Água Editores, Lisboa, pp. 140-141.

Firenze / Florença, via Dante Alighieri

fotografia: filipe sousa | 11 maio 2024

 






















«Fiorenza dentro dalla cerchia antica,
onde ella togle ancora a terza e nona,
si stava in pace sobria e pudica.»

«Florença dentro lá da cerca antiga 
aonde a terça e a nona inda ressoa, 
pudica e sóbria estava em paz amiga.»

Dante Alighieri, A Divina Comédia (La Divina Commedia, sec. XIV)Parte III - Paraíso, Canto XV, versos 97-99trad. Vasco Graça Moura, 6ª ed, Bertrand Editora, Chiado, 2002, p. 275. 

Firenze / Florença, Piazza Santa Croce

fotografia: filipe sousa | 11 maio 2024

 


















«Tinha atingido aquele ponto emocional em que as sensações celestiais das belas-artes e os sentimentos apaixonados se encontram. Ao sair de Santa Croce, o meu coração batia forte, a vida esvaziava-se de mim e eu caminhava com medo de cair.» (tradução livre).
Stendhal, Rome, Naples et Florence (1817), éd. Delaunay, Paris,1826, tome II, p. 102.

Rimini

fotografia: filipe sousa | 8 maio 2024


 
















«…nasci em Itália, em Rimini, a 15 de Junho de 1927.

- Porque nasceu em Rimini?

-Porque os meus pais se encontravam lá a banhos, em casa da minha tia Eglantine, irmã de meu pai. Ela casara com um jockey célebre, originário de Urbino. Nasci perto da praia de Lido di Ravenna – entre Ravena e Rimini -, num casebre, não na praia propriamente dita.

-Não há nesse casebre uma placa que assinale o seu nascimento?

-Ouça lá, eu não sou Garibalbi – a mulher dele, Anita, morreu bem perto desse local. Dez dias depois os meus pais regressaram comigo a Veneza.»

Hugo Pratt, O Desejo de Ser Inútil, Memórias e Reflexões (Le Désir D'Être Inutile - Souvenirs et Refléxions, 1991), trad. António Sabler, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2005, pp. 17, 21.
 

«Em direcção a Rimini, Agosto
(…)
Agora começam as praias da minha infância e da minha adolescência: já não se trata de descobertas, mas de constatações.
A Riccione ia veranear quando estava no secundário. Chego: não reconheço quase nada. A nouvelle vague dos banhistas e dos industriais conferiu à praia uma nova violência, um novo sentido no qual triunfam os jovens de hoje, que de novo tudo sabem.
A alameda central, com as duas filas de árvores muito verdes, a sua angústia proto-novecentista, os seus bares cheios como exércitos em formatura, continua mais ou menos igual, Sento-me a uma mesa e, após tantos anos sem o fazer, como um gelado.
Antes, quando com uma alegria interior, comia um gelado todos os dias, tudo aqui era mais absoluto e mais eterno. Os dias eram longuíssimos, eram entidades dotadas de verdadeiro valor e verdadeira duração: o período de férias era um período de vida.»

Pier Paolo Pasolini, A longa Estrada de Areia (La Lunga Strada di Sabbia, 1959), trad. João Coles, Edições do Saguão, Lisboa, 2023, p. 82.

Bologna / Bolonha, Piazza di Porta Ravegnana

fotografia: filipe sousa | 7 maio 2024

 























«Tal como se afigura a Garisenda,
quando passa uma nuvem, inclinada,
de modo tal que ao seu encontro penda, (...)»

Dante Alighieri, A Divina Comédia (La Divina Commedia, sec. XIV)Parte I - Inferno, Canto XXXI, verso 136trad. Vasco Graça Moura, 6ª ed, Bertrand Editora, Chiado, 2002, p. 283. 

«A torre inclinada é uma vista detestável, e no entanto é muito provável que se tenham esmerado por construí-la assim. Encontro a seguinte explicação para este disparate: nos tempos da grande instabilidade urbana todo o grande edifício era uma fortaleza, na qual as famílias poderosas erguiam uma torre. Com o tempo, isto transformou-se numa questão de capricho e prestígio, cada uma queria mostrar a melhor torre, e quando as torres direitas começaram a ficar cada vez mais corriqueiras, alguém mandou construir uma inclinada. E o arquitecto e o proprietário conseguiram o que queriam, porque as pessoas passam pelas muitas torres direitas à procura da inclinada. Subi depois ao cimo desta. As camadas de tijolo são horizontais. Com uma boa massa e esteios de ferro podem fazer-se coisas espantosas.» 

J.W.Goethe, Viagem a Itália (Italienische Reise, 1786-1787), trad. João Barrento, Relógio d'Água Editores, Lisboa, p. 129.

Bologna / Bolonha, Piazza Cavour

fotografia: filipe sousa | 7 maio 2024

 




































«Ao cair do dia livrei-me finalmente desta velha, digna e sábia cidade, das multidões que passeiam, protegidas do sol e do mau tempo por caramanchões abobadados que estenderam por quase todas as ruas, por onde vão olhando, fazendo compras e os seus negócios.»

J.W.Goethe, Viagem a Itália (Italienische Reise, 1786-1787), trad. João Barrento, Relógio d'Água Editores, Lisboa, p. 128.

Cabo Espichel

fotografia: filipe sousa | 4 janeiro 2024

 


«Quando o homem desceu para o oceano por um carreiro talhado na falésia, a amiga dele abeirou-se do precipício e teve medo. Mar para um lado e para o outro, mar e mais mar. Mar à altura dos olhos – no horizonte; mar por baixo dos pés. E ao alto, fechando o mar, um céu fosco arrepiado pela berraria das gaivotas. Tudo ermo. Em relação à terra, campo raso e um pinhalzito antes de se chegar à estrada; em relação ao oceano, o que se sabe. 

(…)

«Apetecia-me ir por aí», disse ela a dada altura (…) 

(…)

A seguir foi sentar-se entre a porta do carro e correu a vista pelo mar, procurando desviar a memória.

(...)

O descampado arrefecia, agora que o sol se afogava na última dobra do mar. Arrefecia o tempo e ia escurecendo a terra, alumiada pobremente por uns farrapos de nuvens afogueadas.

(...)

«Já reparou como se fez noite?»

«É verdade. Pela minha parte tive uma tarde adorável.»

(…)

«Apetecia-me vadiar até se fazer dia…»

(…)

No automóvel, a caminho de Lisboa:

«Que faz você amanhã?»

«Não sei. E você?»

O carro mordia a estrada, aos uivos nas curvas.»

José Cardoso Pires, O Anjo Ancorado (1958), 5ª ed., Moraes Editores, Lisboa, 1977, pp. 35, 62, 68, 142-143, 148.

Ιόνιο Πέλαγος / Mar Jónico - estreito de Corfu

fotografia: filipe sousa | 16 junho 2023

 

















Ítaca fica a 200 km, para sul, do estreito de Corfu. A minha Ítaca a muitos mais, para oeste. Embalado pelo mar Jónio, ao sabor da brisa e da poesia.


MAR JÓNIO

Há sempre na vigia uma ilha que oscila
Entre a gola do Mar e o turbante do céu

Mas de todas somente a que se chama Ítaca
Há sempre uma rapariga à espera de eu ser eu

David Mourão-Ferreira, Antologia Poética (Do Tempo ao Coração, 1966), Assírio & Alvim, 2022, p. 301.



ÍTACA

Quando saíres a caminho da ida para Ítaca,
faz votos para que seja longo o caminho,
cheio de aventuras, cheio de conhecimentos.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o zangado Poséidon não temas,
coisas assim no teu caminho não acharás nunca,
se o teu pensamento permanecer elevado, se emoção
requintada o teu espírito e o teu corpo tocar.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o selvagem Poséidon não encontrarás,
se com eles não carregares na tua alma,
se a tua alma não os colocar à tua frente.

Faz votos para que seja longo o caminho.
Para que sejam muitas as manhãs de verão
nas quais com que contentamento, com que alegria
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
para que pares em feitorias fenícias,
e para que adquiras as boas compras
coisas de nácar e coral, de âmbar e de ébano,
e essências de prazer de qualquer espécie,
quanto mais abundantes puderes essências de prazer
para que vás a muitas cidades egípcias,
para que aprendas e aprendas com os letrados.

Deves ter sempre Ítaca na tua mente.
A chegada ali é o teu destino.
Mas não apresses em nada a tua viagem.
É melhor durar muitos anos;
e já velho fundeares na ilha,
rico do que ganhaste no caminho.
sem esperares que te dê Ítaca riquezas.

Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem Ítaca não terias saído ao caminho.
Mas já não tem para te dar.

E se um tanto pobre a encontrares, Ítaca não te enganou.
Sábio como te tornaste, com tanta experiência,
já hás de compreender o que significam ítacas.

Konstandinos Kavafis, Os Poemas (ΤΑ ΠΟΙΗΜΑΤΑ1905-1915), trad. Joaquim Manuel Magalhães, Nikos Prastinis, 2ª. ed., Relógio d'Água Editores, Lisboa, pp. 65-66. 

София / Sófia, бул. княгиня Мария Луиза / Boulevard Knyaginya Maria Luiza

fotografia: filipe sousa | 22 junho 2022






















«É assim, vem um gajo, numa boa, todo manselinho, o dia tá porreiro, lá a ver os meus velhotes, e zá e zá, que isto é só ternura, pá, com lágrimas que eu não mostro porque eu choro pra dentro e mijo pra fora, ó para esta cara mais querida, aqui na minha frente, mamã, mamã, ó para este pai, esta figura, esta firmeza facial e marcial, se faz favor, que até parece um senador ou o caraças, não me sacudas a mão, pai, que eu ia só fazer uma festa amigável, é assim: podias ao menos dar-me um abraço, eu não tenho pulgas, um gajo lá por usar rabo de cavalo e não ter tempo pra cortes de cabelo e essas macaquices, não obriga a andar carregado de vermes e carraças e fiocos de palha e essas merdas, quero dizer, desculpe lá, essas trampas, vá lá, pai, seja tolerante, que eu falo à moderna, linguagem viva, do povo mesmo, percebes? É assim: trato por tu porque é o que eu costumo com toda a gente e por maioria de razão com o meu pai que me é mais chegado, mas se não quer, por mim, tudo bem, isto cada um, pá, é como cada qual, e amigo não empata amigo. É assim: eu é que não fossilizei no tempo, essa é que é essa, eu sou desenrascado, abertura prò mundo que está a mudar, escutem os sinais, vejam os sinais, meus, agora vocês, eu compreendo, já há artrose, escoliose, ancilose, salvo seja, e mesmo que quisessem não percebiam, é assim: não podem perceber, vão à janela e vejam-me esses muros, as portas dos prédios, os candeeiros e o camandro, pá, lá está o meu tag, eu tou a deixar a minha marca nas paredes, e há uns gajos que sabem que sou eu, o Lencastre, o filho do coronel que riscou aquilo e que impediu a burguesia de ter ideias incolores contra os muros brancos, muro liso não tem expressão, os tags, atenção, atenção, não os grafitti, são vida e libertação, o grafitte amocha, faz o jeito ao burguês, tem harmonia, cores, armado ao artístico, o tag não!, é pra desconstruir, para emporqueirar e dar sobressaltos. A volúpia do perigo, pá, nunca ouviu falar?, assim mesmo, pás, mas porque é que o pai há-de ter esse feitio?, não ouve, só sabe mandar, escute, quando passo por um muro e deixo o meu rasto, o tag secreto e o tag exógeno, pá, é como aqueles gajos que libertam continentes inteiros, sei lá, o Simão Bolívar, o Fidel Castro e essa malta toda, fixe, mas que é que tem o facto de eu ter quarenta e dois anos? É assim: eu tenho a culpa? Está aqui o vosso filho, na frente, em carne e osso, e pensam é no BI, a burocracia já chegou à família, catano? Os piercings não faz mal, é prata, não infecta, é tudo do simbólico, o pai não usava galões? Chegue pra lá a mão, chegue pra lá a mãozinha, são símbolos, pá, um gajo constrói o mundo que quer, depois desconstrói, passa as mensagens que quer, eu até posso ganhar bem, que é que tem?, é assim: um gajo é três vezes mestre de palco em três concertos e tá safo prò resto do ano, orienta-se com umas gajas, com umas ganzas, isto é vida, a nova cultura, o hip-hop, só cá é que é esta merda tradicionalista, pequeno-burguesa, tudo certinho, tudo direitinho e o caraças, o que eu gostava, percebe, deixe lá o «de», mãe, quem é que liga a isso da gramática, dos acentos e coisa e tal, era o dia mais feliz da minha vida era dar umas sprayadas na merda dos painéis de São Vicente e encher aquela bodega toda com o meu tag e repintar aquilo tudo que é um convite ao imobilismo e ao passadismo, pai, pai, não vale a pena perder a cabeça, um pai, onde é que já se viu, a bater num filho adulto só por não ser capaz de ouvir umas verdades, obrigado mamã, sempre me protegeu, fez o que pôde, olhe pai, não me bata, eu sou mais alto que o pai, porra, já me rompeu a polpa do beiço eu não mereço isto, ó, ó para os meus braços, lisinhos, aqui nunca furou agulha, charros não digo que não, mas é assim: os maiores especialistas do mundo garantem - tá escrito, tá escrito! - que faz bem ò sistema, e passam atestados e tudo, ali, estou limpo ou não, mãe?, há razão prò pai me bater? Mamã, agora a sério, mamã é um aperto, houve um mal-entendido, são só cinquenta euros, eu devolvo já amanhã, sempre fui sério de contas, ó pai não se meta, caraças, se não tem respeito pelo seu filho, tenha dó da sua mulher. Caraças, pai, porra, vou-me já embora desta puta de casa. Vê, vê? É assim: tenho o sobrolho a sangrar, tá a ver? Mamã? Vou telefonar pràs televisões, vou escrever em todas as paredes que o coronel Amílcar Lencastre é todo antigo regime, pá, tem maus bofes e dá porrada no filho, e aquilo é só por ódio à modernidade e à humanidade...»

Mário de Carvalho, Fantasia para dois coronéis e uma piscina, 3ª ed. Editorial Caminho, Lisboa, 2003, pp. 73-75.

Lisboa, Pátio do Tronco

fotografia: filipe sousa | 25 janeiro 2024





















Canção X

(…)
agora, peregrino vago e errante,
vendo nações, linguagens e costumes,
Céus vários, qualidades diferentes,
só por seguir com passos diligentes
a ti Fortuna injusta, que consumes
as idades, levando-lhe diante
ũa esperança em vista de diamante,
mas quando das mãos cai se conhece
que é frágil vidro aquilo que aparece. 
(...)

Luís de Camões, “Canção X” in Rimas (org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595), texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Livraria Almedina, Coimbra, 1994, p. 227.

Moura, Quinta da Esperança

fotografia: filipe sousa  1 agosto 2018

 















«O Mediterrâneo inteiro –esculturas, palmeiras, joias de ouro, heróis barbudos, vinho, ideias, navios, luar, górgonas aladas, figuras de bronze, filósofos -, todo ele, parece despontar no gosto áspero e acre da azeitona preta entre os nossos dentes. Esse gosto é mais antigo que o da carne e o do vinho tinto. Antigo como a água fresca.» 

Lawrence Durrell, Paisagem com oliveiras (Landscape with olive trees), 1976.

Praia da Princesa

fotografia: filipe sousa | 25 dezembro 2023

 

















«Reparo no céu...Como num quadro inverosímil de Turner as névoas esgarçadas embebem-se em reflexos vermelhos  - cores delicadas de nácar, interiores de conchas, tons róseos bebidos pelas gotas de humidade. (...) mas é no céu que se representa a verdadeira tragédia: os tons violetas da agonia carregam-se e condensam-se; as nuvens ensopam-se de tinta mais escura e um grande véu lilás interpõe-se pouco e pouco entre mim e a paisagem. Todas as cambiantes vão reflectir-se nas águas onde bóia ainda o doirado do poente. Sinto que a tinta que envolve a paisagem morre a muito custo, e que toda esta humidade se quer fartar de luz, transformando-se como numa mágica em explosões e cores desgrenhadas pelos ares e em cenários irreais na terra cheia de mistério, até que um único risco de oiro ao cimo de água, oscila, serpenteia e acaba por desaparecer num último arabesco...(...) Só aqui se compreende bem o que a luz lhe custa morrer...»

Raul Brandão, Os Pescadores (1923), Estante Editora, Aveiro, 1989, pp. 79-80, 82.

Fonte da Telha

fotografia: filipe sousa | 24 dezembro 2022

 






















MADE IN PORTUGAL

Peixe tão definido
na praia,
não relâmpago de prata:
folha de navalha

tirada da pança do mar,
do recesso que a alimentava,
lâmina boquiaberta,
áscua tresmalhada.

Peixe sem solução,
máquina a parar,
circular e vítrea aflição
a olhar.

Alexandre O'Neill, Poesias Completas (Feira Cabisbaixa, 1965), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 237.

Arles à Bouc

fotografia: filipe sousa | 22 setembro 2023

 



««Agora estamos banidos e este barco é a nossa terra... e o rio o nosso refúgio.»»

Joseph Conrad, «A Laguna» in Histórias Inquietas (Tales of Unrest, 1898), trad. Carlos Leite, 2ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa 2002, p. 224.  

Arles, canal de Arles à Bouc

fotografia: filipe sousa | 22 setembro 2023

 


Ponte de Langlois em Les Lavandières
"No que diz respeito à obra, trouxe hoje um quadro de 15, é uma ponte levadiça sobre a qual passa uma pequena carruagem, silhueta contra um céu azul - o rio também azul, margens alaranjadas com vegetação, um grupo de lavadeiras de cabelos encaracolados e toucas coloridas...".

Carta de Vincent van Gogh ao seu irmão Théo, Março 1888, in Lettres de Vincent van Gogh à son frère Théo, Paris, 1986.

Venezia / Veneza, Riva del Partigiani

fotografia: filipe sousa | 23 junho 2023

 

















«Dez dias depois (de nascer perto de Rimini) os meus pais regressaram comigo a Veneza. Eles viviam em casa dos meus avós Genero, em La Bragora, no distrito - o Sestiere - di Castello. Nessa casa com muitos aposentos moravam, além dos meus pais e dos meus avós, os meus tios e tias. Esse estilo de vida era já excepcional na época, mas em Veneza toda a gente se conhecia. Os venezianos deambulavam de manhã à noite, pelas ruelas ou de barco, na laguna. Encontravam-se em festas - como a festa do Redentor -, na tômbola, ou, pelas noites de Verão, na praça de São Marcos à fresca. Os habitantes de Veneza tinham o sentimento de pertencer todos à mesma família, talvez por os seus antepassados serem todos oriundos de horizontes diferentes.»

Hugo Pratt, O Desejo de Ser Inútil, Memórias e Reflexões (Le Désir D'Être Inutile - Souvenirs et Refléxions, 1991), trad. António Sabler, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2005, pp. 21-22.

Odres

fotografia: filipe sousa | 30 agosto 2023

 

















Não posso acreditar. Moras no Alentejo. Trabalhas no Alentejo. E ainda passas férias no Alentejo? E na mesma piscina e paisagem de há quinze anos? Porra, e não te fartas? Se isso não é obsessão, é o quê? No mínimo, uma tremenda falta de imaginação. Ah, e por falar em piscina, livra-te de vires outra vez com essa Fantasia para dois coronéis e uma piscina, do Mário……….esqueci-me do apelido. Era só o que faltava. Não podes variar um bocadinho? Que fixação! Que panca a tua!

«O que mais importava é que a piscina era uma caixa quadrilátera cheia de líquido, que obrigava a múltiplas tarefas, de mão, de química e de motor. Cumprir todos os conformes, ph nos 7,5, cloro a 0,6 g por metro cúbico, algicida q.s., abrilhantador, vigiar a renovação de água, aspiração, filtragem, remoção de folhas, insectos, sementes e pequenos animais afogados, sempre era mais interessante do que andar para ali a encharcar-se, a cansar-se e a fazer figuras. Lencastre andava habitualmente de calções de banho, sem mais nada. Visto de longe, o porte daria uns ares a Pablo Picasso em Mougins, se não tivesse a pele tão escura, o cabelo tão abundante e bigodes brancos voluteados. Também Lencastre considerava o banho de piscina um tremendíssimo frete. Para ele, banhos só de mar e até aos vinte e oito anos. Daí para diante eram partes gagas. Mas gostava de ajudar. Apontava com o dedo o chapinhar duma sardanisca suicida, ou a campanha de escaravelhos que decidira tomar banho e morrer, balanceando-se de gozo nas mansas ondas. Às vezes dizia, com a mão na orelha, «não ouço o filtro, tens a certeza de que o disjuntor não disparou?»».

Mário de Carvalho, Fantasia para dois coronéis e uma piscina, 3ª ed. Editorial Caminho, Lisboa, 2003, pp. 149-150.

Venezia / Veneza, Fondamenta S. Giuseppe

fotografia: filipe sousa | 22 junho 2023

 


Dia 10 - Veneza (sestiere di Castello)
Como previsto, o vaporetto fica praticamente vazio após tocar o cais da praça de S. Marcos. Como habitual, repleta de turistas. À procura de uma outra Veneza, prosseguimos viagem na laguna. Uma Veneza menos concorrida e menos sujeita à pressão turística. Uma Veneza onde vivem ainda venezianos em bairros típicos, cultivando as tradições.
Para trás ficou a travessia do Grande Canal, a rua mais bonita do mundo, por entre um desfile de palácios e embarcações. É impressionante como o tráfego flui por mais denso que seja. Para não falar da perícia com que os gondoleiros enfrentam a ondulação causada pela passagem de lanchas a toda a brida.
Entretanto, começa a manobra de atracação do vaporetto no cais de Giardini Publicci, na parte oriental da cidade. Uma Veneza menos monumental mas mais verde e intimista, a apenas duas paragens da praça de São Marcos. À nossa espera está o locatário do alojamento onde passaremos os próximos dias. Recebe-nos em chinelos e camisola de manga cava, a exibir os bíceps desenvolvidos. É veneziano de gema e o seu ar entroncado tanto sugere um pescador da laguna, como um operário do Arsenal ou então um estivador da cidade-satélite de Mestre. Afinal, nem uma coisa nem outra: é emigrante em Inglaterra! Expansivo e prestável, ajuda-nos a transportar as malas até à moradia, no bairro (sestiere) do Castelo, entre os Jardins Públicos, onde tem lugar a Bienal de Arquitectura, e o Arsenal, o mais antigo estaleiro naval do mundo. Durante o caminho, não desperdiça uma oportunidade para nos inquirir sobre a qualidade do seu inglês. Quando entramos em Rio Terrà Forner, tudo se torna ainda mais familiar. Há vizinhos que conversam à soleira da porta sob roupa estendida a toda a largura da rua. Depois de um oratório de feição popular, mantido pelos residentes e em que não falta a imagem de Santo António, a via afunila ainda mais, o que justifica a toponímia: Calle Stretta de Ca’Sarasina. Pouco depois, chegamos ao nosso destino, bem perto de Bragora, onde nasceu Antonio Vivaldi. Coincidência, sugestão ou sonho de uma noite de Verão, em breve somos embalados pelo segundo andamento do concerto “O Verão”, d’ As Quatro Estações, a ecoar no bairro adormecido.

PS. As Quatro Estações foram compostas há precisamente 300 anos pelo veneziano Antonio Vivaldi.

«-Já te aconteceu ver uma cidade que se pareça com esta? - perguntou Kublai a Marco Polo estendendo a mão repleta de anéis para fora do baldaquim da seda do bucentauro imperial, a indicar as pontes em arco sobre os canais, os palácios principescos cujos portais de mármore imergem nas águas, o vaivém das barcas ligeiras que volteiam em ziguezague impelidas por longos remos, as chatas que descarregam cestas de hortaliças nas praças dos mercados, as varandas, os miradouros, as cúpulas, os campanários, os jardins das ilhas que verdejam no pardacento da laguna.» 

Italo Calvino, As Cidades Invisíveis (Le città invisibili, 1990), trad. José Colaço Barreiros, Editorial Teorema, Lisboa, 2002, p. 89.

Moura, Rua 5 de Outubro 17

fotografia: filipe sousa | 17 agosto 2023

 

















Que se cuidem os mosquitos do meu quintal quando ela está por perto. Colada à vidraça da porta, de cabeça para baixo, desafiando a gravidade, a minha pequena deusa nocturna não pára de me surpreender com o seu repertório de técnicas de caça. Simplesmente admirável! É como se retribuísse pela luz artificial que inunda a sala onde escrevo este texto, a mesma que atrai as suas presas de encontro à superfície plana do vidro, facilitando-lhe a caçada.
PS. As osgas não são venenosas nem causam doenças dermatológicas. Pelo contrário, são totalmente inofensivas para o ser humano, além de suas aliadas no controlo das populações de insectos e aranhas. É tempo, portanto, de nos deixarmos de mitos e superstições. E de as deixarmos entrar em nossas casas para uma limpeza de fundo. Porque não?

«Nasci nesta casa e criei-me nela. Nunca saí. Ao entardecer encosto o corpo contra o cristal das janelas e contemplo o céu. Gosto de ver as labaredas altas, as nuvens a galope, e sobre elas os anjos, legiões deles, sacudindo as fagulhas dos cabelos, agitando as largas asas em chamas. É um espetáculo sempre idêntico. Todas as tardes, porém, venho até aqui e divirto-me e comovo-me como se o visse pela primeira vez.
(...)
Eu vejo tudo. Dentro desta casa sou como um pequeno deus noturno. Durante o dia, durmo.(...)
A casa vive. Respira. Ouço-a toda a noite a suspirar. As largas paredes de adobe e madeira estão sempre frescas, mesmo quando, em pleno meio-dia, o sol silencia os pássaros, açoita as árvores, derrete o asfalto. Deslizo ao longo delas como um ácaro na pele do hospedeiro. Sinto, se as abraço, um coração a pulsar. Será o meu. Será o da casa. Pouco importa. Faz-me bem. Transmite-me segurança.
(...)
Ao entardecer, já o disse, fico na sala de visitas, colado às vidraças, vendo morrer o Sol. Depois que a noite cai vagueio pelas diferentes divisões.»

José Eduardo Agualusa, O Vendedor de Passados, Quetzal Editores, Lisboa, 2017, pp. 11, 14, 15.

Venezia / Veneza, Fondamenta Santa Lucia

fotografia: filipe sousa | 20 junho 2023

 

















Dias 9/10 – Lucera, Foggia, Nápoles, Roma, Veneza
Regressamos a Foggia de comboio. Onde nos espera o autocarro para Nápoles. Duas horas e quarenta minutos de viagem, com paragens em Lacedonia, Benevento e Avelino, já na Campânia. Ao fim da tarde, entramos na cidade do Vesúvio, onde é notório um ambiente de festa. Não há lugar que não ostente as cores do clube da terra pela recente conquista do Calcio, quebrando um jejum de trinta e três anos! São bons prenúncios para o que nos faltar viver desta jornada. É sabido, no entanto, que viajar é lidar com o imprevisto. E quando pensávamos que Nápoles, Pompeia e a Costa Amalfitana seriam as derradeiras etapas do nosso périplo, iniciado há dez dias em Tessalónica, eis que o concerto dos Coldplay, agendado para logo à noite no estádio Diego Armando Maradona, vem deitar por terra os nossos planos. Os preços dos quartos disponíveis nesta altura tornaram-se proibitivos para a nossa bolsa. Como não fizemos reserva antecipada, pouco há a fazer. Ou melhor: só nos resta resignar e reconciliar com o destino, que nos desvia de Nápoles e empurra para outras paragens, mais a Norte. Que destino é esse, afinal? Para já, temos encontro marcado com Roma, que dista uma hora e meia de comboio.
No dia seguinte, acordamos num hotel da cadeia Meininger, cuja decoração é dedicada à sétima arte italiana e aos filmes inspirados na cidade eterna. Proposta tentadora, mas para aproveitar noutra altura. O destino está há muito traçado. Corremos para Roma Termini. À nossa espera está o TGV da Italo com destino a Veneza, o destino dos destinos!
Chegarmos a Veneza de comboio não é apenas a experiência dessa realidade, que se vive nos instantes em que acontece, é também a representação dessa chegada através da arte, da literatura, que transportamos connosco e acaba por influenciar a nossa percepção.
A título de exemplo:

«O comboio para Veneza segue por um dique com uma superfície aquática a perder de vista, apenas interrompida por postes e outras construções do dique. Havia que sair depressa para apanhar o vaporetto. Simon e Katz já estão a caminho, eu fico para trás porque tenho de comprar liras, o barco sai e de pouco servem os movimentos agitados dos braços, não consigo ouvir o que dizem.»

Walter Benjamim, «A minha viagem a Itália (Pentecostes, 1912)» in Diários de Viagem (Gesammelte Schriften), ed. e trad. João Barrento, Assírio & Alvim, Porto, 2022, p.58.


«Em Veneza, a água começa logo que se deixa o trem. O gondoleiro solícito equilibra montes de malas na sua gôndola, com assombrosa segurança.»

Cecília Meireles, «Cidade líquida» in Crônicas de viagem 2 (1953), reimpr. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999, pp. 79-80. 


«Levantei  a minha bagagem, fui para a gare e apanhei o primeiro comboio que apareceu - para Veneza. 
(...)
A aproximação por via férrea é mais prosaica, para dizer o mínimo, mas até atravessar a laguna no comboio em direção a Veneza me encheu de uma espécie de agradável excitação, uma calma exuberância que não senti em mais parte alguma.  
(...)
É tão fácil acreditar em magia, aqui em Veneza. Quando se avista a cidade pela primeira vez, de comboio, é como uma miragem, como uma visão de louco esplendor que um qualquer feiticeiro tivesse conjurado lá longe no mar.»

Robert Dessaix, Cartas de Veneza (Night Letters, 1996), trad. Mário Dias Correia, Gótica, Lisboa, 2002, pp. 61, 208-209.


«Antes de chegarmos a Veneza, e quando o comboio já tinha passado (em branco no manuscrito), Maman lia-me a descrição deslumbrante que Ruskin faz da cidade, comparando-a sucessivamente aos recifes de coral dos mares da Índia e a uma opala. Naturalmente que, no momento em que a gôndola nos colocou diante dela, a cidade não podia encontrar aos nossos olhos a mesma beleza que tivera por um instante perante a minha imaginação, já que não podemos ver simultaneamente as coisas com o espírito e com os sentidos.»

Marcel Proust, Contre Sainte-BeuveFolio-Gallimard, Paris,1998, p. 112 (trecho traduzido por António Mega Ferreira, Crónicas Italianas, Sextante Editora, Porto, p. 217).

Lucera, Piazza del Duomo

fotografia: filipe sousa | 19 junho 2023

 

















Dias 7/8/9 – Sul de Itália (Lucera, Troia, Bovino)
Na estação ferroviária de Lucera, quatro miúdos, acabados de sair da escola, sentam-se à minha frente e começam a fumar. Chamo-lhes à atenção de que é proibido naquele local. E aponto para o aviso na parede. Em resposta, expelem o fumo na minha direcção. E perguntam sobre o que estamos, eu e os que me acompanham, a fazer em Lucera, se não há nada para visitar. Ao dizer-lhes que não viemos em turismo mas em trabalho, largam uma risada. Que trabalho é esse que chama pessoas de fora a Lucera? Incomodado e a perder a paciência, insisto para que não fumem ali. Fitando-me, decidem levar os cigarros até ao fim. Saio para a gare antes disso, a tentar encontrar uma explicação para tanta insolência. Dou-me conta de que estou no sul de Itália, mas tento resistir a generalizações e lugares-comuns, apesar de me perseguirem, naquele instante, algumas cenas d’ O Leopardo, de Tomasi di Lampedusa, com a Sicília em pano de fundo. De regresso a Foggia, revejo o que foram estes últimos dias nesta região do Mezzogiorno.
A janela do meu quarto no Palazzo Cavalli, dos séculos XVII-XIX, abre-se para a Piazza del Duomo, em Lucera, uma das mais belas de Itália, onde pontifica a Basílica Catedral de Santa Maria Assunta, construída no início do século XIV no local antes ocupado por uma mesquita. O palácio será a nossa base para explorar a região das Montanhas de Dauni, no Norte da Apúlia, um território de ocupação antiga por onde passaram gregos, dáunios, romanos, cartagineses, cristãos, lombardos, bizantinos, francos, normandos, suábios, sarracenos, angevinos, aragoneses, bourbons. E que se mantem a salvo, felizmente!, das hordas de turistas que invadem Roma, Milão, Nápoles, Veneza, Florença…, as mecas do turismo transalpino, para não dizer mundial.
Além de Lucera (a Luceria dos romanos, a sentinela da Apúlia, a antiga capital da Capitanata), visito Troia e Bovino, ambas a sul. Troia (a Aecae romana), situada na encruzilhada de rotas que ligavam Roma ao Oriente (via Francigena) e Roma a Brindisi (Via Apia), com a sua catedral românica do século XI, que ostenta na fachada uma rosácea rendilhada e duas portas em bronze assinadas e datadas (1127) por um tal Oderisio da Benavento: a da Prosperidade e a da Liberdade. Bovino (a Vibinum romana, considerada uma das mais belas aldeias italianas), dominando os vales envolventes com o seu castelo que recebeu rainhas e poetas, é hoje anfitriã do Festival do Porco, organizado por associações locais e pelo movimento Slow Food, e do Festival Independente de Curtas Metragens.
Nesta região, a paisagem é feita de planícies ondulantes de cereais, vinho e azeite, a lembrarem o Alentejo, e de montanhas arborizadas, com cumes pouco acima dos mil metros, onde ainda existem lobos!, que explicam parte do nome da região: Monti Dauni.
A não perder, para além dos atractivos da paisagem, os sabores da gastronomia. Aqui, come-se muito e bem, e confraterniza-se melhor! Sobretudo no Verão, ao fim da tarde e durante a noite, depois das horas de maior calor, em que as praças se enchem de gente ávida de convívio e mândria (o dolce fare niente). Tal e qual como no Alentejo e em Moura, ou não fôssemos todos filhos da mesma civilização mediterrânica.

«Fala-se em termos mais gerais dos italianos que dos outros povos: temperamento meridional ou natureza tumultuosa, facilidade de passar da jovialidade à angústia, da brincadeira à cólera e vice-versa. Nenhum povo reúne todas as características mediterrânicas: elas estão espalhadas de uma ponta à outra do Mediterrâneo. Os discursos literários sobre as belezas da Itália levaram muita gente a ver antes de mais nada aquilo que lhe diziam para ver, antes de considerar o que tinha diante dos olhos, levaram-na a deixar de distinguir o passado ou presente das suas imagens, a descobrir em cada parcela da península o Inferno, o Purgatório ou o Paraíso, os conflitos de Roma e das províncias, a rivalidade entre Veneza e Génova, Nápoles ou Palermo, Florença e Siena, e a encontrar em cada cidade as querelas dos guelfos e dos gibelinos, atrás de cada porta os Montéquios e os Capuletos, a procurar em cada negócio a máfia ou a camorra, em cada cidadela os Médicis ou os Bórgias, em todas as capelas os mesmos prelados e os mesmos santos. «Não nos venha dizer o que é o Mediterrâneo», diz-se em certas cidades costeiras aos que repisam o que toda a gente sabe.»

Predrag Matvejevitch, Breviário Mediterrânico (1987), trad. do francês Pedro Tamen, Quetzal Editores, Lisboa, 2019, p. 112. 

Moura, Terceira Rua da Mouraria / Rua do Cordovil

fotografia: filipe sousa | outubro 1992

 






















Esta fotografia tem mais de 30 anos.
De que falam elas, as vizinhas, na esquina da Terceira Rua da Mouraria com a Rua do Cordovil, em Moura?
Teócrito, que viveu entre 310 a.C. e 250 a.C., pode ter a solução.
Um clássico intemporal.

As Siracusanas (Idílio XV)

(...)
GORGO
Ai desta vida desgraçada! A custo me salvei até vós,
Proxínoa, de tanta multidão, de tantas quadrigas!
Por toda a parte calçado militar, por toda a parte homens de capa.
Mas que caminho interminável. Tu vives sempre cada vez mais longe.

PRAXÍNOA
Isso é aquele louco. Veio para o fim do mundo e comprou
um covil - pois isto não é uma casa - para que não fôssemos vizinhas
uma da outra, por despeito, mau e invejoso: sempre o mesmo.

GORGO
Não fales assim do teu marido, querida, do Dínon (...)

PRAXÍNOA
Pois esse (...) há dias ((...) eu digo-lhe:
«(...) vai à loja comprar nitrato e tinta vermelha»)
trouxe-me sal, esse homem de treze côvados.

GORGO
O meu é a mesma coisa. Dioclides é a ruína do dinheiro.
Sete dracmas de pelos de cão, restos de alforges velhos,
cinco peles comprou ele ontem, tudo uma porcaria, trabalho sobre
trabalho.
Mas vai, põe o vestido e a tua capa.
Vamos para o palácio do afortunado rei Ptolomeu,
para vermos o Adónis. Ouço dizer que algo de belo
a rainha preparou.

PRAXÍNOA
Em casa de rico tudo é rico.

GORGO
As coisas que vires, poderás contá-las a quem não viu.
Está na hora de irmos.

Teócrito (310 a.C.-250 a.C), As Siracusanas (Idílio XV), frag. 4-26, trad. do grego por Frederico Lourenço, Poesia Grega, Quetzal, Lisboa, 2020, pp. 327-331.

Corfu, Αφιώνας / Afionas

fotografia: filipe sousa | 18 junho 2023

 






















Dia 6 - Ilha de Corfu (Afionas)
A Grécia em geral e a ilha de Corfu em particular estão, como todos sabemos, cheias de estrangeiros que iam a caminho de casa vindos de um sítio qualquer e ali ficaram. Outros chegaram e zarparam porque era mais forte o desejo de alcançarem a sua Ítaca. Diante deste final de tarde em Afionas, a olhar o horizonte, o meu dilema é esse mesmo: ficar ou partir? Não tenho outro remédio senão seguir o destino de Ulisses. Mas a viagem está longe de terminar, de regresso à minha Ítaca.

«(...)E Nausícaa, dotada da beleza dos deuses,
encostou-se a uma coluna perto da ombreira da sala:
olhou maravilhada para Ulisses, mirando-o com os olhos.
E falando dirigiu-lhe as palavras apetrechadas de asas:

"De ti me despeço, ó estrangeiro. Quando chegares à tua terra pátria,
lembra-te de mim: deves-me em primeiro lugar o preço da tua vida."»

Homero, Odisseiacanto VIII, vs. 457-462, trad. Frederico Lourenço, Livros Cotovia, Lisboa, 2003, p. 140.

Corfu, Πόρτο Τιμόνι / Porto Timoni

fotografia: filipe sousa | 18 junho 2023

 

















Dia 6 - Ilha de Corfu (Kassiopi, Afionas, Porto Timoni)
Kassiopi é uma vila de pescadores na costa nordeste de Corfu, a escassos dois quilómetros da costa albanesa. Os romanos estiveram aqui há dois mil anos para pensar, ler e conversar com os deuses. Cícero foi um deles. Muitos anos depois, chegou Miguel de Cervantes, sobrevivente da batalha de Lepanto, para se restabelecer de ferimentos graves num braço. Do outro lado da ilha ficam os paraísos de Afionas e Porto Timoni, por onde deve ter andado, em tempos mais recentes, Eugénio de Andrade, ao que parece o único dos nossos “helenistas” a pisar Corfu.

Kerkira

Com esse cheiro a linho
que só os ombros acariciados têm
a terra é branca
e nua.

Liliáceas em Corfu

Em Corfu os asfódelos devem estar
em flor, quando
o vento os inclina no deserto
dos lábios rompe a água. 

Turismo em Corfu

Onde Ulisses avistou Nausica
com o verão brincando nas areias
espreita agora a nádega indecisa
e vagabunda de qualquer sereia
se não for de algum anjo sodomita. 

Eugénio de Andrade, Escrita da Terra e outros epitáfios (1974), 5ª ed., Inova, Porto, 1983, p.18.