| fotografia: filipe sousa | 28 setembro 2024 |
Lisboa, Rua Marquês de Fronteira 2
Estação Aeroporto (Metropolitano de Lisboa)
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| fotografia: filipe sousa | 12 maio 2024 |
TROMPE L'OEIL
que comemos em Viana do Castelo?
Amareleja
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| fotografia: filipe sousa | 23 julho 2024 |
«Halito do inferno, já duas vezes o suão, ou vento levante, passando o Estreito, todo abrasado da escandencia das areias africanas, veio sobre esses grandes vales argilosos do districto de Beja, lançar a morte; e o verão do paiz sem agua, o verão alemtejano, martyrizante, irradiante, começa a encher d'angustias a provincia, e prepara scenario á colheita cerealifera, que, est'anno foi, sempre lh'o digo, d'uma victoriosa e esplendida abundancia.
(....)
A ceifa, assêfa, como elles dizem, é o trabalho mais angustiado e estragador da gente alemtejana, por causa do sol, e por isso se paga, conforme os annos e a pressa, duplo ou triplo das outras operações anteriores da sementeira. Nada mais que observando, do caminho de ferro, crepitando, reverberando a luz por entre syncopes de sêde, em colinas sem arvores, ou com sobreiras e azinheiras cuja sombra metalica ainda parece mais asphyxica, em planicies sem fontes, onde nos meados de abril quasi que não ha ribeiros circulantes, para de longe se interpretar a agonia que seja viver hi enterrado, com a fouce na mão, os olhos cegos, a bocca em lama fétida, a pelle dos dedos gretada pelo bisel cortante das gavelas, respirando a moinha palustre que derrama no corpo uma brotoeja insupportavel, onde os insectos se abatem, para sugar o sangue dos irritados borbotões...»
Fialho de Almeida, Ceifeiros, separata ed. Livraria Clássica Editora, Empresa Industrial Gráfica do Porto, s.d., pp. 5-7.
Moura, rua 5 de Outubro 17
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| fotografia: filipe sousa | 22 junho 2024 |
Frankfurt am Main, Großer Hirschgraben 21
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| fotografia: filipe sousa | 14 junho 2024 |
Abrir o arquitexto é uma tentação,
Para, com sentir puro e leal,
Johann W. Goethe, Fausto (Faust, Eine Tragödie, 1808, 1832), trad. João Barrento, Relógio d'Água Editores, Lisboa, p. 84, vv. 1220-1237.
Berlin / Berlim, Tiergarten
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| fotografia: filipe sousa | 13 junho 2024 |
Dresden, Großer Garten
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| fotografia: filipe sousa | 11 junho 2024 |
«Andávamos de bicicleta - porque é que isso dá prazer? Muda-se de paisagem mas é o fruto do nosso esforço, sentimo-nos compensados. E há o triunfo do equilíbrio na aresta das duas rodas, todo o nosso corpo subutilizado nesse mínimo de suporte. E há a ascensão de nós nesse movimento alado. E há a simplicidade, quase o esquematismo dessa máquina de andar.»
Vergílio Ferreira, Para sempre, 3ª ed., Livraria Bertrand, Lisboa, 1983, p. 226.
Berlin / Berlim, Hauptstrasse 155
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| fotografia: filipe sousa | 12 junho 2024 |
«O Tony Visconti e eu fomos para os estúdios Hansa para terminar a produção do novo disco. Estávamos finalmente em Berlim. Nem o Jim, nem eu perdemos muito tempo a olhar para as listas de êxitos. Berlim chamava-nos, por isso mergulhámos nela como gatos vadios. Passávamos horas nos seus cafés e nos seus cabarés.
Contámos com uma cicerone fabulosa: a Romy Haag, que, num abrir e fechar de olhos, caiu na minha teia de sedução. Parecia saída da Berlim dos anos 1930. envolvemo-nos em tudo o que a cidade nos oferecia e fizemos as nossas farras, embora sem perder as estribeiras. Tinha de ter atenção para os traficantes de Berlim não se aproximarem demasiado do Jim e ele fazia o mesmo comigo. As coisas eram assim: tínhamos de cuidar um do outro.
O IGGY E EU TÍNHAMOS PROBLEMAS GRAVES COM AS DROGAS. PARA RESOLVÊ-LOS, MUDÁMO-NOS PARA BERLIM, CAPITAL MUNDIAL DA HEROÍNA.
O Jim andava todos os dias catorze quilómetros para se pôr em forma. Eu gostava de me perder pelos bairros dos operários estrangeiros e passar horas nas suas pequenas lojas sem que ninguém me reconhecesse. Depois juntávamo-nos e púnhamos as notícias em dia.
Os imigrantes, os cabarés e um muro de betão a dividir a cidade ao meio: tudo aquilo era Berlim. Não podia deixar de pensar num par de namorados a beijar-se em frente do Muro para desafiar aquela estrutura de arame farpado e desconfiança. Assim nasceu »Heroes», um hino que recordava que nada era mais transgressor do que o afecto entre duas pessoas.»
María Hesse, Fran Ruiz, Bowie, Uma biografia (Una biografia, 2018), trad. Lucília Filipe, Penguin Random House, Lisboa, 2019, p. 85.
Praha / Praga, Vězeňská 1
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| fotografia: filipe sousa | 8 junho 2023 |
DESEJO DE SE TORNAR ÍNDIO
Oh, se fôssemos índios, já preparados e, em cima de um cavalo que corre, inclinados contra o vento, estremecêssemos repetidamente sobre o solo que treme até largarmos as esporas porque nunca houve esporas, até deitarmos fora as rédeas porque nunca houve rédeas e quase não víssemos a terra à nossa frente revelar um prado ceifado e liso, agora que o cavalo perdeu o pescoço e a cabeça.
Franz Kafka, «Observação» («Betrachtung», 1913), trad. José Maria Vieira Mendes, in Os Contos, 1º vol., Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, p. 46.
Praha / Praga, Petřín
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| fotografia: filipe sousa | 8 junho 2024 |
«Ao chegar ao Monte Petřín, uma colina verdejante que se ergue no centro de Praga, percebeu com espanto que não estava lá ninguém. Era estranho porque habitualmente, e seja a que horas for, as suas áleas estão sempre cheias de gente que lá vai apanhar ar. Sentia-se extremamente angustiada, mas o monte estava tão silencioso e o silêncio era tão tranquilizante que se entregava confiadamente a ele. Subiu, parando de vez em quando para olhar para trás. A seus pés, descobria-se uma infinidade de torres e de pontes. Os santos, com os seus olhos petrificados e posto nas nuvens, erguiam ameaçadoramente os punhos. Era a cidade mais bonita do mundo.»
Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser (Nesnesitelná lehkost byti, 1983), trad. Joana Varela, 25ª ed., Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2002, p. 179.
Praha / Praga, Karlův Most / Ponte Carlos
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| fotografia: filipe sousa | 7 junho 2024 |
A JANELA PARA A RUA
Quem leve uma vida solitária e tenha de vez em quando a necessidade de algum tipo de contacto, que, atento às mudanças da hora do dia, mudanças de clima, das relações profissionais e afins, queira ter um simples braço, um qualquer a que se possa agarrar - uma pessoa destas não conseguirá aguentar muito tempo sem uma janela que dê para a rua. E se esta pessoa por acaso não estiver à procura de nada e apenas se aproximar do parapeito, como um homem cansado, para passear os olhos, para cima e para baixo, alternando entre o público e o céu, e não quiser olhar e incline a cabeça um pouco para trás, então, nesse caso, os cavalos lá em baixo arrastá-lo-ão consigo no seu cortejo de carruagens e barulho e assim finalmente em direcção à harmonia humana.
Franz Kafka, «Observação» («Betrachtung», 1913), trad. José Maria Vieira Mendes, in Os Contos, 1º vol., Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, p. 44.
Firenze / Florença
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| fotografia: filipe sousa | 11 maio 2024 |
«Florença tem o tamanho exato das cidades para sempre amadas: tudo se pode conhecer num dia; e todos os dias haverá, dentro dela, coisas para ver - até o fim do mundo, que é mais do que o fim da vida.»
Cecília Meireles, «Voz em Florença» in Crônicas de viagem 2 (1953), reimpr. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999, p. 76.
«Florença por dois dias, duas semanas, dois meses? Florença pelo tempo de um suspiro? Mas esta cidade é vasta como um continente, inesgotável como o universo.»
José Saramago, Manual de Pintura e Caligrafia - Ensaio de romance, 1ª edição, Moraes Editores, Lisboa, p. 183.
Firenze / Florença, Oltrarno, San Miniato al Monte
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| fotografia: filipe sousa | 11 maio 2024 |
J.W.Goethe, Viagem a Itália (Italienische Reise, 1786-1787), trad. João Barrento, Relógio d'Água Editores, Lisboa, pp. 140-141.
Firenze / Florença, via Dante Alighieri
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| fotografia: filipe sousa | 11 maio 2024 |
aonde a terça e a nona inda ressoa,
pudica e sóbria estava em paz amiga.»
Firenze / Florença, Piazza Santa Croce
Rimini
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| fotografia: filipe sousa | 8 maio 2024 |
- Porque nasceu em Rimini?
-Porque os meus pais se encontravam lá a banhos, em casa da minha tia Eglantine, irmã de meu pai. Ela casara com um jockey célebre, originário de Urbino. Nasci perto da praia de Lido di Ravenna – entre Ravena e Rimini -, num casebre, não na praia propriamente dita.
(…)
Agora começam as praias da minha infância e da minha adolescência: já não se trata de descobertas, mas de constatações.
A Riccione ia veranear quando estava no secundário. Chego: não reconheço quase nada. A nouvelle vague dos banhistas e dos industriais conferiu à praia uma nova violência, um novo sentido no qual triunfam os jovens de hoje, que de novo tudo sabem.
A alameda central, com as duas filas de árvores muito verdes, a sua angústia proto-novecentista, os seus bares cheios como exércitos em formatura, continua mais ou menos igual, Sento-me a uma mesa e, após tantos anos sem o fazer, como um gelado.
Antes, quando com uma alegria interior, comia um gelado todos os dias, tudo aqui era mais absoluto e mais eterno. Os dias eram longuíssimos, eram entidades dotadas de verdadeiro valor e verdadeira duração: o período de férias era um período de vida.»
Pier Paolo Pasolini, A longa Estrada de Areia (La Lunga Strada di Sabbia, 1959), trad. João Coles, Edições do Saguão, Lisboa, 2023, p. 82.
Bologna / Bolonha, Piazza di Porta Ravegnana
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| fotografia: filipe sousa | 7 maio 2024 |
quando passa uma nuvem, inclinada,
de modo tal que ao seu encontro penda, (...)»
«A torre inclinada é uma vista detestável, e no entanto é muito provável que se tenham esmerado por construí-la assim. Encontro a seguinte explicação para este disparate: nos tempos da grande instabilidade urbana todo o grande edifício era uma fortaleza, na qual as famílias poderosas erguiam uma torre. Com o tempo, isto transformou-se numa questão de capricho e prestígio, cada uma queria mostrar a melhor torre, e quando as torres direitas começaram a ficar cada vez mais corriqueiras, alguém mandou construir uma inclinada. E o arquitecto e o proprietário conseguiram o que queriam, porque as pessoas passam pelas muitas torres direitas à procura da inclinada. Subi depois ao cimo desta. As camadas de tijolo são horizontais. Com uma boa massa e esteios de ferro podem fazer-se coisas espantosas.»
J.W.Goethe, Viagem a Itália (Italienische Reise, 1786-1787), trad. João Barrento, Relógio d'Água Editores, Lisboa, p. 129.
Bologna / Bolonha, Piazza Cavour
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| fotografia: filipe sousa | 7 maio 2024 |
J.W.Goethe, Viagem a Itália (Italienische Reise, 1786-1787), trad. João Barrento, Relógio d'Água Editores, Lisboa, p. 128.
Cabo Espichel
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| fotografia: filipe sousa | 4 janeiro 2024 |
«Quando o homem
desceu para o oceano por um carreiro talhado na falésia, a amiga dele
abeirou-se do precipício e teve medo. Mar para um lado e para o outro, mar e
mais mar. Mar à altura dos olhos – no horizonte; mar por baixo dos pés. E ao
alto, fechando o mar, um céu fosco arrepiado pela berraria das gaivotas. Tudo
ermo. Em relação à terra, campo raso e um pinhalzito antes de se chegar à
estrada; em relação ao oceano, o que se sabe.
(…)
«Apetecia-me
ir por aí», disse ela a dada altura (…)
(…)
A seguir foi sentar-se entre a porta do carro e correu a vista pelo mar, procurando desviar a memória.
(...)
O descampado arrefecia, agora que o sol se afogava na última dobra do mar. Arrefecia o tempo e ia escurecendo a terra, alumiada pobremente por uns farrapos de nuvens afogueadas.
(...)
«Já reparou
como se fez noite?»
«É verdade.
Pela minha parte tive uma tarde adorável.»
(…)
«Apetecia-me
vadiar até se fazer dia…»
(…)
No automóvel, a caminho de Lisboa:
«Que faz
você amanhã?»
«Não sei. E
você?»
O carro
mordia a estrada, aos uivos nas curvas.»
José Cardoso Pires, O Anjo Ancorado (1958), 5ª ed., Moraes Editores, Lisboa, 1977, pp. 35, 62, 68, 142-143, 148.
Ιόνιο Πέλαγος / Mar Jónico - estreito de Corfu
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| fotografia: filipe sousa | 16 junho 2023 |
Ítaca fica a 200 km, para sul, do estreito de Corfu. A minha Ítaca a muitos mais, para oeste. Embalado pelo mar Jónio, ao sabor da brisa e da poesia.
Quando saíres a caminho da ida para Ítaca,
faz votos para que seja longo o caminho,
София / Sófia, бул. княгиня Мария Луиза / Boulevard Knyaginya Maria Luiza
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| fotografia: filipe sousa | 22 junho 2022 |
«É assim, vem um gajo, numa boa, todo manselinho, o dia tá porreiro, lá a ver os meus velhotes, e zá e zá, que isto é só ternura, pá, com lágrimas que eu não mostro porque eu choro pra dentro e mijo pra fora, ó para esta cara mais querida, aqui na minha frente, mamã, mamã, ó para este pai, esta figura, esta firmeza facial e marcial, se faz favor, que até parece um senador ou o caraças, não me sacudas a mão, pai, que eu ia só fazer uma festa amigável, é assim: podias ao menos dar-me um abraço, eu não tenho pulgas, um gajo lá por usar rabo de cavalo e não ter tempo pra cortes de cabelo e essas macaquices, não obriga a andar carregado de vermes e carraças e fiocos de palha e essas merdas, quero dizer, desculpe lá, essas trampas, vá lá, pai, seja tolerante, que eu falo à moderna, linguagem viva, do povo mesmo, percebes? É assim: trato por tu porque é o que eu costumo com toda a gente e por maioria de razão com o meu pai que me é mais chegado, mas se não quer, por mim, tudo bem, isto cada um, pá, é como cada qual, e amigo não empata amigo. É assim: eu é que não fossilizei no tempo, essa é que é essa, eu sou desenrascado, abertura prò mundo que está a mudar, escutem os sinais, vejam os sinais, meus, agora vocês, eu compreendo, já há artrose, escoliose, ancilose, salvo seja, e mesmo que quisessem não percebiam, é assim: não podem perceber, vão à janela e vejam-me esses muros, as portas dos prédios, os candeeiros e o camandro, pá, lá está o meu tag, eu tou a deixar a minha marca nas paredes, e há uns gajos que sabem que sou eu, o Lencastre, o filho do coronel que riscou aquilo e que impediu a burguesia de ter ideias incolores contra os muros brancos, muro liso não tem expressão, os tags, atenção, atenção, não os grafitti, são vida e libertação, o grafitte amocha, faz o jeito ao burguês, tem harmonia, cores, armado ao artístico, o tag não!, é pra desconstruir, para emporqueirar e dar sobressaltos. A volúpia do perigo, pá, nunca ouviu falar?, assim mesmo, pás, mas porque é que o pai há-de ter esse feitio?, não ouve, só sabe mandar, escute, quando passo por um muro e deixo o meu rasto, o tag secreto e o tag exógeno, pá, é como aqueles gajos que libertam continentes inteiros, sei lá, o Simão Bolívar, o Fidel Castro e essa malta toda, fixe, mas que é que tem o facto de eu ter quarenta e dois anos? É assim: eu tenho a culpa? Está aqui o vosso filho, na frente, em carne e osso, e pensam é no BI, a burocracia já chegou à família, catano? Os piercings não faz mal, é prata, não infecta, é tudo do simbólico, o pai não usava galões? Chegue pra lá a mão, chegue pra lá a mãozinha, são símbolos, pá, um gajo constrói o mundo que quer, depois desconstrói, passa as mensagens que quer, eu até posso ganhar bem, que é que tem?, é assim: um gajo é três vezes mestre de palco em três concertos e tá safo prò resto do ano, orienta-se com umas gajas, com umas ganzas, isto é vida, a nova cultura, o hip-hop, só cá é que é esta merda tradicionalista, pequeno-burguesa, tudo certinho, tudo direitinho e o caraças, o que eu gostava, percebe, deixe lá o «de», mãe, quem é que liga a isso da gramática, dos acentos e coisa e tal, era o dia mais feliz da minha vida era dar umas sprayadas na merda dos painéis de São Vicente e encher aquela bodega toda com o meu tag e repintar aquilo tudo que é um convite ao imobilismo e ao passadismo, pai, pai, não vale a pena perder a cabeça, um pai, onde é que já se viu, a bater num filho adulto só por não ser capaz de ouvir umas verdades, obrigado mamã, sempre me protegeu, fez o que pôde, olhe pai, não me bata, eu sou mais alto que o pai, porra, já me rompeu a polpa do beiço eu não mereço isto, ó, ó para os meus braços, lisinhos, aqui nunca furou agulha, charros não digo que não, mas é assim: os maiores especialistas do mundo garantem - tá escrito, tá escrito! - que faz bem ò sistema, e passam atestados e tudo, ali, estou limpo ou não, mãe?, há razão prò pai me bater? Mamã, agora a sério, mamã é um aperto, houve um mal-entendido, são só cinquenta euros, eu devolvo já amanhã, sempre fui sério de contas, ó pai não se meta, caraças, se não tem respeito pelo seu filho, tenha dó da sua mulher. Caraças, pai, porra, vou-me já embora desta puta de casa. Vê, vê? É assim: tenho o sobrolho a sangrar, tá a ver? Mamã? Vou telefonar pràs televisões, vou escrever em todas as paredes que o coronel Amílcar Lencastre é todo antigo regime, pá, tem maus bofes e dá porrada no filho, e aquilo é só por ódio à modernidade e à humanidade...»
Mário de Carvalho, Fantasia para dois coronéis e uma piscina, 3ª ed. Editorial Caminho, Lisboa, 2003, pp. 73-75.
Lisboa, Pátio do Tronco
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| fotografia: filipe sousa | 25 janeiro 2024 |
(…)
Luís de Camões, “Canção X” in Rimas (org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595), texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Livraria Almedina, Coimbra, 1994, p. 227.
Moura, Quinta da Esperança
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| fotografia: filipe sousa 1 agosto 2018 |
«O Mediterrâneo inteiro –esculturas, palmeiras, joias de ouro, heróis barbudos, vinho, ideias, navios, luar, górgonas aladas, figuras de bronze, filósofos -, todo ele, parece despontar no gosto áspero e acre da azeitona preta entre os nossos dentes. Esse gosto é mais antigo que o da carne e o do vinho tinto. Antigo como a água fresca.»
Lawrence Durrell, Paisagem com oliveiras (Landscape with olive trees), 1976.
Praia da Princesa
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| fotografia: filipe sousa | 25 dezembro 2023 |
«Reparo no céu...Como num quadro inverosímil de Turner as névoas esgarçadas embebem-se em reflexos vermelhos - cores delicadas de nácar, interiores de conchas, tons róseos bebidos pelas gotas de humidade. (...) mas é no céu que se representa a verdadeira tragédia: os tons violetas da agonia carregam-se e condensam-se; as nuvens ensopam-se de tinta mais escura e um grande véu lilás interpõe-se pouco e pouco entre mim e a paisagem. Todas as cambiantes vão reflectir-se nas águas onde bóia ainda o doirado do poente. Sinto que a tinta que envolve a paisagem morre a muito custo, e que toda esta humidade se quer fartar de luz, transformando-se como numa mágica em explosões e cores desgrenhadas pelos ares e em cenários irreais na terra cheia de mistério, até que um único risco de oiro ao cimo de água, oscila, serpenteia e acaba por desaparecer num último arabesco...(...) Só aqui se compreende bem o que a luz lhe custa morrer...»
Raul Brandão, Os Pescadores (1923), Estante Editora, Aveiro, 1989, pp. 79-80, 82.
Fonte da Telha
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| fotografia: filipe sousa | 24 dezembro 2022 |
Peixe tão definido
na praia,
Arles à Bouc
Arles, canal de Arles à Bouc
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| fotografia: filipe sousa | 22 setembro 2023 |
"No que diz respeito à obra, trouxe hoje um quadro de 15, é uma ponte levadiça sobre a qual passa uma pequena carruagem, silhueta contra um céu azul - o rio também azul, margens alaranjadas com vegetação, um grupo de lavadeiras de cabelos encaracolados e toucas coloridas...".
Carta de Vincent van Gogh ao seu irmão Théo, Março 1888, in Lettres de Vincent van Gogh à son frère Théo, Paris, 1986.
Venezia / Veneza, Riva del Partigiani
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| fotografia: filipe sousa | 23 junho 2023 |
«Dez dias depois (de nascer perto de Rimini) os meus pais regressaram comigo a Veneza. Eles viviam em casa dos meus avós Genero, em La Bragora, no distrito - o Sestiere - di Castello. Nessa casa com muitos aposentos moravam, além dos meus pais e dos meus avós, os meus tios e tias. Esse estilo de vida era já excepcional na época, mas em Veneza toda a gente se conhecia. Os venezianos deambulavam de manhã à noite, pelas ruelas ou de barco, na laguna. Encontravam-se em festas - como a festa do Redentor -, na tômbola, ou, pelas noites de Verão, na praça de São Marcos à fresca. Os habitantes de Veneza tinham o sentimento de pertencer todos à mesma família, talvez por os seus antepassados serem todos oriundos de horizontes diferentes.»
Hugo Pratt, O Desejo de Ser Inútil, Memórias e Reflexões (Le Désir D'Être Inutile - Souvenirs et Refléxions, 1991), trad. António Sabler, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2005, pp. 21-22.
Odres
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| fotografia: filipe sousa | 30 agosto 2023 |
Não posso acreditar. Moras no Alentejo. Trabalhas no Alentejo. E ainda passas férias no Alentejo? E na mesma piscina e paisagem de há quinze anos? Porra, e não te fartas? Se isso não é obsessão, é o quê? No mínimo, uma tremenda falta de imaginação. Ah, e por falar em piscina, livra-te de vires outra vez com essa Fantasia para dois coronéis e uma piscina, do Mário……….esqueci-me do apelido. Era só o que faltava. Não podes variar um bocadinho? Que fixação! Que panca a tua!
«O que mais importava é que a piscina era uma caixa quadrilátera cheia de líquido, que obrigava a múltiplas tarefas, de mão, de química e de motor. Cumprir todos os conformes, ph nos 7,5, cloro a 0,6 g por metro cúbico, algicida q.s., abrilhantador, vigiar a renovação de água, aspiração, filtragem, remoção de folhas, insectos, sementes e pequenos animais afogados, sempre era mais interessante do que andar para ali a encharcar-se, a cansar-se e a fazer figuras. Lencastre andava habitualmente de calções de banho, sem mais nada. Visto de longe, o porte daria uns ares a Pablo Picasso em Mougins, se não tivesse a pele tão escura, o cabelo tão abundante e bigodes brancos voluteados. Também Lencastre considerava o banho de piscina um tremendíssimo frete. Para ele, banhos só de mar e até aos vinte e oito anos. Daí para diante eram partes gagas. Mas gostava de ajudar. Apontava com o dedo o chapinhar duma sardanisca suicida, ou a campanha de escaravelhos que decidira tomar banho e morrer, balanceando-se de gozo nas mansas ondas. Às vezes dizia, com a mão na orelha, «não ouço o filtro, tens a certeza de que o disjuntor não disparou?»».
Mário de Carvalho, Fantasia para dois coronéis e uma piscina, 3ª ed. Editorial Caminho, Lisboa, 2003, pp. 149-150.
Venezia / Veneza, Fondamenta S. Giuseppe
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| fotografia: filipe sousa | 22 junho 2023 |
PS. As Quatro Estações foram compostas há precisamente 300 anos pelo veneziano Antonio Vivaldi.
«-Já te aconteceu ver uma cidade que se pareça com esta? - perguntou Kublai a Marco Polo estendendo a mão repleta de anéis para fora do baldaquim da seda do bucentauro imperial, a indicar as pontes em arco sobre os canais, os palácios principescos cujos portais de mármore imergem nas águas, o vaivém das barcas ligeiras que volteiam em ziguezague impelidas por longos remos, as chatas que descarregam cestas de hortaliças nas praças dos mercados, as varandas, os miradouros, as cúpulas, os campanários, os jardins das ilhas que verdejam no pardacento da laguna.»
Italo Calvino, As Cidades Invisíveis (Le città invisibili, 1990), trad. José Colaço Barreiros, Editorial Teorema, Lisboa, 2002, p. 89.













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