| fotografia: filipe sousa | 20 setembro 2019 |
Évora, Rua do Cardeal Rei 6
«Repetia-se no Liceu a Universidade de Coimbra como eu a ia guardando para sempre. Mas era como se o tempo habitasse os claustros de mais longe, talvez pelo silêncio dessa manhã despovoada, talvez pela imensidão da planície, que lhe dava um ar de ruína. Um empregado escuro olhou-me vagarosamente, longo bigode caído, olhos redondos de pasmo como os de um retrato egípcio. Adiantei a minha identidade, o homem atravessou uma sala para me anunciar ao reitor. Mas o reitor não estava. Pela porta entreaberta vi apenas um grande cão perdigueiro que adormecia o seu tédio sobre uma esteira. A presença do cão dava ao empregado a certeza de que o reitor já viera. Apareceria portanto dentro em pouco. E eu saí de novo para o claustro. Havia no centro um jardim tratado, em cujos canteiros verdes morriam as últimas rosas de Verão. Sobre um pequeno lago erguia-se uma taça de mármore onde vinham pombos beber. Até que, para o silêncio de uma porta à entrada, ouvi uma forte descarga de água e um homem alto apareceu. Segui-o com os olhos, convencido de que era enfim o reitor. E, com efeito, o homem alto e vagaroso abriu uma porta secreta e entrou no edifício. Fui de novo à secretaria e o empregado sem uma palavra, penetrou na reitoria para me anunciar. Mas eu já estava ali à porta à espera de um aviso.
-Que faça o favor de entrar - ouvi de dentro.
Entrei, cumprimentei, disse o meu nome:
-Alberto Soares.
-Doutor Alberto Soares. O novo professor do 1º grupo. Professor efectivo. Em que liceu esteve este ano? Mas sente-se. Tem aí essa cadeira.
Sentei-me. Tinha feito apenas o serviço de exames desse ano. Em Coimbra.
-É portanto o primeiro liceu em que ensino - acrescentei.»
Vergílio Ferreira, Aparição, Editorial Verbo, Lisboa, 1971, p. 20.
-Que faça o favor de entrar - ouvi de dentro.
Entrei, cumprimentei, disse o meu nome:
-Alberto Soares.
-Doutor Alberto Soares. O novo professor do 1º grupo. Professor efectivo. Em que liceu esteve este ano? Mas sente-se. Tem aí essa cadeira.
Sentei-me. Tinha feito apenas o serviço de exames desse ano. Em Coimbra.
-É portanto o primeiro liceu em que ensino - acrescentei.»
Vergílio Ferreira, Aparição, Editorial Verbo, Lisboa, 1971, p. 20.
| fotografia: filipe sousa | 10 setembro 2019 |
Évora, Rua Romão Ramalho 59
FOGO POSTO
I
Estou no centro do país, rodeado de incêndios.
Os pinheirais em fogo esbraseiam o ar.
Reguei o telhado e o quintal por que as velhas são muitas.
A vizinha cega, sem qualquer progresso, vai tocando o seu órgão Tornado 4.
A irmã apanha velhas, mostra-mas na mão,
apagadas ou parecendo ou quase,
e fala do carteiro - motorizada aqui,
saco acolá, sapato mais além -
que, presuntivo pirómano, a si mesmo se teria apagado nas águas do Tejo.
II
O aeroplano da lista vermelha é que semeia fogo.
Von Richthofen - passe-montanha, óculos «à aviador», dentes cerrados -
é que vem semear o fogo no reino do verde pino.
Abatido em 18, ressurgiu
com o estampido do guarda-chuva que se abre
e - pano, arame, madeira - ganha altura
para, numa vrille desaparafusada,
vir castigar-nos com sua espada de fogo.
Disse Deus: - Ó aviador, vai-me a essa gente remota
e avia-lhes uns fogos que se vejam!
Polegar para baixo, Von Richthofen
incendiou milhares de hectares em Portugal.
Sua lista vermelha (laranja? limão?)
é vista com frequência na zona centro do país.
Disse Deus: - Basta. Já sinto calor na cara.
Este, que foi um herói ao serviço do Kaiser
- Cruz da Águia Vermelha
Cruz da Águia Negra
Cruz de Ferro -,
descer, quando Deus quer, a incendiário de pinhais?
Credo, custa-me a crê-lo!
Alexandre O'Neill, Poesias Completas (As horas já de números vestidas,1981), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, pp. 470-471.
I
Estou no centro do país, rodeado de incêndios.
Os pinheirais em fogo esbraseiam o ar.
Reguei o telhado e o quintal por que as velhas são muitas.
A vizinha cega, sem qualquer progresso, vai tocando o seu órgão Tornado 4.
A irmã apanha velhas, mostra-mas na mão,
apagadas ou parecendo ou quase,
e fala do carteiro - motorizada aqui,
saco acolá, sapato mais além -
que, presuntivo pirómano, a si mesmo se teria apagado nas águas do Tejo.
II
O aeroplano da lista vermelha é que semeia fogo.
Von Richthofen - passe-montanha, óculos «à aviador», dentes cerrados -
é que vem semear o fogo no reino do verde pino.
Abatido em 18, ressurgiu
com o estampido do guarda-chuva que se abre
e - pano, arame, madeira - ganha altura
para, numa vrille desaparafusada,
vir castigar-nos com sua espada de fogo.
Disse Deus: - Ó aviador, vai-me a essa gente remota
e avia-lhes uns fogos que se vejam!
Polegar para baixo, Von Richthofen
incendiou milhares de hectares em Portugal.
Sua lista vermelha (laranja? limão?)
é vista com frequência na zona centro do país.
Disse Deus: - Basta. Já sinto calor na cara.
Este, que foi um herói ao serviço do Kaiser
- Cruz da Águia Vermelha
Cruz da Águia Negra
Cruz de Ferro -,
descer, quando Deus quer, a incendiário de pinhais?
Credo, custa-me a crê-lo!
Alexandre O'Neill, Poesias Completas (As horas já de números vestidas,1981), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, pp. 470-471.
| fotografia: filipe sousa | 7 agosto 2019 |
Ponta do Escalvado (posto de vigia da baleia), Várzea dos Açores
«1.
(...)
11 E eles disseram-lhe: «Que te faremos para que o mar desista de nós?» ˂Isto˃ porque o mar continuava a vir e fazia levantar uma ondulação ainda maior.
12 E Jonas disse-lhes: «Levantai-me e atirai-me ao mar, e o mar desistirá de vós. Pois eu pensei que é por causa de mim que esta ondulação enorme está sobre vós.»
13 E os homens esforçavam-se para regressar à terra, mas não conseguiam, porque o mar continuava a vir e a levantar-se mais contra eles.
14 E eles clamaram ao Senhor e disseram: «Não, Senhor! Que não pereçamos por causa da vida deste homem. E não ponhas sobre nós sangue justo, porque Tu, Senhor, procedeste como querias.»
15 E pegaram em Jonas e atiraram-no ao mar; e o mar parou a sua agitação. 16 E os homens temeram o Senhor com grande temor; e sacrificaram um sacrifício; e oraram orações.
2.
1 E o Senhor ordenou a um grande ser marinho que engolisse Jonas. E Jonas esteve nas entranhas do ser marinho durante três dias e três noites.
2 E Jonas rezou ao Senhor seu Deus a partir das entranhas do ser marinho; 3 e disse:
«Gritei em minha aflição ao Senhor meu Deus;
E Ele ouviu-me.
Das entranhas do Hades ouviste meu grito e minha voz.
4 Atiraste-me para ˂as˃ profundezas
Do coração do mar; e os rios me cercaram.
Todas as Tuas ondas e as Tuas vagas
Passaram por cima de mim.
5 E eu disse: "Fui afastado dos Teus olhos."
Será que eu olhe de novo
Para o Teu templo sagrado?
6 Derramou-se água à minha volta até à alma;
O abismo mais fundo me rodeou.
A minha cabeça decaiu
Para dentro das fendas das montanhas.
7 Desci à terra, cujas trancas me detêm, eternas;
E que suba a ruína da minha vida, ó Senhor meu Deus!
8 Quando a minha alma me abandonava,
Lembrei-me do Meu Senhor.
E que chegue a ti minha oração,
Ao Teu templo santo.
9 Os que dão importância a coisas vãs e falsas
Abandonaram a sua própria misericórdia.
10 Porém eu, com voz de louvor e de reconhecimento
Sacrificarei para Ti.
O que jurei ˂sacrificar˃
Pagar-Te-ei a Ti, Senhor, pela ˂minha˃ salvação.»
11 E foi ordenado ao ser marinho; e atirou Jonas para fora, para cima de ˂terra˃ seca. »
Bíblia - Antigo Testamento, Os Livros Proféticos, Livro de Jonas, trad. do texto grego Frederico Lourenço, Quetzal Editores, Lisboa, 2017, vol. III, pp. 180-183.
(...)
11 E eles disseram-lhe: «Que te faremos para que o mar desista de nós?» ˂Isto˃ porque o mar continuava a vir e fazia levantar uma ondulação ainda maior.
12 E Jonas disse-lhes: «Levantai-me e atirai-me ao mar, e o mar desistirá de vós. Pois eu pensei que é por causa de mim que esta ondulação enorme está sobre vós.»
13 E os homens esforçavam-se para regressar à terra, mas não conseguiam, porque o mar continuava a vir e a levantar-se mais contra eles.
14 E eles clamaram ao Senhor e disseram: «Não, Senhor! Que não pereçamos por causa da vida deste homem. E não ponhas sobre nós sangue justo, porque Tu, Senhor, procedeste como querias.»
15 E pegaram em Jonas e atiraram-no ao mar; e o mar parou a sua agitação. 16 E os homens temeram o Senhor com grande temor; e sacrificaram um sacrifício; e oraram orações.
2.
1 E o Senhor ordenou a um grande ser marinho que engolisse Jonas. E Jonas esteve nas entranhas do ser marinho durante três dias e três noites.
2 E Jonas rezou ao Senhor seu Deus a partir das entranhas do ser marinho; 3 e disse:
«Gritei em minha aflição ao Senhor meu Deus;
E Ele ouviu-me.
Das entranhas do Hades ouviste meu grito e minha voz.
4 Atiraste-me para ˂as˃ profundezas
Do coração do mar; e os rios me cercaram.
Todas as Tuas ondas e as Tuas vagas
Passaram por cima de mim.
5 E eu disse: "Fui afastado dos Teus olhos."
Será que eu olhe de novo
Para o Teu templo sagrado?
6 Derramou-se água à minha volta até à alma;
O abismo mais fundo me rodeou.
A minha cabeça decaiu
Para dentro das fendas das montanhas.
7 Desci à terra, cujas trancas me detêm, eternas;
E que suba a ruína da minha vida, ó Senhor meu Deus!
8 Quando a minha alma me abandonava,
Lembrei-me do Meu Senhor.
E que chegue a ti minha oração,
Ao Teu templo santo.
9 Os que dão importância a coisas vãs e falsas
Abandonaram a sua própria misericórdia.
10 Porém eu, com voz de louvor e de reconhecimento
Sacrificarei para Ti.
O que jurei ˂sacrificar˃
Pagar-Te-ei a Ti, Senhor, pela ˂minha˃ salvação.»
11 E foi ordenado ao ser marinho; e atirou Jonas para fora, para cima de ˂terra˃ seca. »
Bíblia - Antigo Testamento, Os Livros Proféticos, Livro de Jonas, trad. do texto grego Frederico Lourenço, Quetzal Editores, Lisboa, 2017, vol. III, pp. 180-183.
| fotografia: filipe sousa | 21 julho 2016 |
Cabroeira
«A pedra representa o êxtase absoluto, a serenidade absoluta, o estado morto e angélico das coisas.»
«Agir é construir, pedra a pedra, gota a gota de suor, e destruir com a rapidez das detonações espantosas.»
«Agir é construir, destruindo.»
Teixeira de Pascoaes, Aforismos, selecção e organização de Mário Cesariny, Assírio & Alvim, Lisboa, 1998, pp. 26, 32.
«Agir é construir, pedra a pedra, gota a gota de suor, e destruir com a rapidez das detonações espantosas.»
«Agir é construir, destruindo.»
Teixeira de Pascoaes, Aforismos, selecção e organização de Mário Cesariny, Assírio & Alvim, Lisboa, 1998, pp. 26, 32.
| fotografia: filipe sousa | 31 agosto 2019 |
Berlin / Berlim, Tempelhofer Feld
«Letreiro encontrado ao lado duma bota rota e abandonada:
Não a vendo nem a remendo. Dou-a a quem doer.»
Alexandre O'Neill, «Seixos» in Poesias Completas (As horas já de números vestidas, 1981), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 451.
«Não te ataques com os atacadores dos outros.
Deixa a cada sapato a sua marcha e a sua direcção.
O mesmo deves fazer com os açaimos.
E com os botões.»
Alexandre O'Neill, «Sentenças delirantes dum poeta para si próprio em tempo de cabeças pensantes» in Poesias Completas (A saca de orelhas, 1979), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 368.
Não a vendo nem a remendo. Dou-a a quem doer.»
Alexandre O'Neill, «Seixos» in Poesias Completas (As horas já de números vestidas, 1981), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 451.
«Não te ataques com os atacadores dos outros.
Deixa a cada sapato a sua marcha e a sua direcção.
O mesmo deves fazer com os açaimos.
E com os botões.»
Alexandre O'Neill, «Sentenças delirantes dum poeta para si próprio em tempo de cabeças pensantes» in Poesias Completas (A saca de orelhas, 1979), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 368.
| fotografia: filipe sousa | 5 junho 2019 |
EM 522
Alvenaria de pedra seca; Alvenaria insossa
«Um muro, em senso comum, é um conjunto de pedras em altura.
Os muros ao longo da História serviram para:
Defender | muralhas
Proteger | diques
Abrigar | abóbadas
Transportar | aquedutos
Conter | de suporte
Significar | pirâmides ou arcos do triunfo
Demarcar | vizinhança
Decorar | volutas
Suportar | Schinkel
Evocar | Mies
Ver por | casa da mãe do Corbusier
Serem vistos | Vila Adriana
Receber | esculturas do Parthenon
Subir descer | escadas
Ventilar | chaminés do Palladio
Passar | pontes
Os muros são quase toda a história da Arquitectura.
Hoje é impossível usá-los (desenhá-los) na sua plena função (estática). (...)
Os muros estão hoje a desaparecer, são uma espécie mineral em vias de extinção. Devemos estudá-los, classificá-los, tratá-los para os devolver de novo à sua geografia. (...)
Os muros não podem cair, nem ser demolidos (nem o de Berlim), pois são a nossa "casa".»
Eduardo Souto de Moura, Porto, 19 Setembro 2002.
«Um muro, em senso comum, é um conjunto de pedras em altura.
Os muros ao longo da História serviram para:
Defender | muralhas
Proteger | diques
Abrigar | abóbadas
Transportar | aquedutos
Conter | de suporte
Significar | pirâmides ou arcos do triunfo
Demarcar | vizinhança
Decorar | volutas
Suportar | Schinkel
Evocar | Mies
Ver por | casa da mãe do Corbusier
Serem vistos | Vila Adriana
Receber | esculturas do Parthenon
Subir descer | escadas
Ventilar | chaminés do Palladio
Passar | pontes
Os muros são quase toda a história da Arquitectura.
Hoje é impossível usá-los (desenhá-los) na sua plena função (estática). (...)
Os muros estão hoje a desaparecer, são uma espécie mineral em vias de extinção. Devemos estudá-los, classificá-los, tratá-los para os devolver de novo à sua geografia. (...)
Os muros não podem cair, nem ser demolidos (nem o de Berlim), pois são a nossa "casa".»
Eduardo Souto de Moura, Porto, 19 Setembro 2002.
| fotografia: filipe sousa | 29 agosto 2019 |
Azinhaga entre Porto da Espada e Odres
Perguntai ao muro
Muro, em que meditas,
ao longo da estrada, por estas quintas,
casas, ermos, entre paixões
de alma dos espectros
presentes e vindouros? E os vivos,
porque se escondem
por trás da tua fronte alta,
quieta, seca, que cobiça os astros,
sem saber que o teu corpo
de xisto corre, avança,
mas não pode soltar-se da Terra
e alcançar o Alto?
Fiama Hasse Pais Brandão, As Fábulas, Edições Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2002, p.18.
Muro, em que meditas,
ao longo da estrada, por estas quintas,
casas, ermos, entre paixões
de alma dos espectros
presentes e vindouros? E os vivos,
porque se escondem
por trás da tua fronte alta,
quieta, seca, que cobiça os astros,
sem saber que o teu corpo
de xisto corre, avança,
mas não pode soltar-se da Terra
e alcançar o Alto?
Fiama Hasse Pais Brandão, As Fábulas, Edições Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2002, p.18.
| fotografia: filipe sousa | 29 agosto 2019 |
Venezia / Veneza
LIDO DI VENEZIA, 28.08 - 7.09 2019
BIENNALE CINEMA 2019
76. MOSTRA INTERNAZIONALE D’ARTE CINEMATOGRAFICA
Mare Tranquillitatis
Desde 1969 que olho a lua através deste mapa, várias vezes por dia, numa das mais requisitadas divisões de minha casa. Publicado pela National Geographic, da autoria do artista cartográfico Tibor Tóth, é o primeiro mapa a apresentar as duas fases da superfície lunar numa só folha, a face que vemos à noite mas também a face oculta. A publicação do mapa é anterior a 20 de Julho: identifica os locais de alunagem das vinte e três sondas espaciais não tripuladas que pousaram na superfície lunar, mais o local previsível de alunagem da Apollo 11, no Mare Tranquillitatis.
Tinha cinco anos, mas recordo, como se fosse hoje, a emissão da RTP dedicada à chegada do homem à lua, conduzida pelo jornalista José Mensurado, e também uma vizinha de Benfica sair-se, no dia seguinte, com a certeza de que era tudo mentira, e que os astronautas, em vez da lua, tinham pisado o Algarve.
Tinha cinco anos, mas recordo, como se fosse hoje, a emissão da RTP dedicada à chegada do homem à lua, conduzida pelo jornalista José Mensurado, e também uma vizinha de Benfica sair-se, no dia seguinte, com a certeza de que era tudo mentira, e que os astronautas, em vez da lua, tinham pisado o Algarve.
| fotografia: filipe sousa | 20 julho 2019 |
Monsaraz
«Em torno das aldeias e da vila, numa zona compreendida entre estas e as grandes herdades, existem courelas, cujos proprietários trabalham na sua maioria nas grandes herdades como assalariados ou seareiros. (...)
A maior parte da população masculina activa ocupa-se na agricultura como trabalhadores ou seareiros. A maior parte deles não possui terras, mas cerca de duas dúzias são suficientemente abastados para que não tenham de trabalhar nas terras de outrem e possam dar trabalho a outros homens nas suas propriedades. Denominam-se proprietários os homens pertencentes a este grupo. As herdades são quase todas de pessoas residentes em Vila Nova. Estes abastados proprietários de herdades recebem o nome de lavradores ou latifundiários e, conquanto não vivam na freguesia, não são impessoais e absentistas recebedores de rendas. A distância que os separa da maior parte dos habitantes da freguesia é, no entanto, tão considerável como a diferença entre as dimensões das suas terras.»
João Cutileiro, Ricos e Pobres no Alentejo (Uma Sociedade Rural Portuguesa), (A Portuguese Rural Society, 1971), trad. J.L.Duarte Peixoto, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1977, pp. 6, 8-9.
A maior parte da população masculina activa ocupa-se na agricultura como trabalhadores ou seareiros. A maior parte deles não possui terras, mas cerca de duas dúzias são suficientemente abastados para que não tenham de trabalhar nas terras de outrem e possam dar trabalho a outros homens nas suas propriedades. Denominam-se proprietários os homens pertencentes a este grupo. As herdades são quase todas de pessoas residentes em Vila Nova. Estes abastados proprietários de herdades recebem o nome de lavradores ou latifundiários e, conquanto não vivam na freguesia, não são impessoais e absentistas recebedores de rendas. A distância que os separa da maior parte dos habitantes da freguesia é, no entanto, tão considerável como a diferença entre as dimensões das suas terras.»
João Cutileiro, Ricos e Pobres no Alentejo (Uma Sociedade Rural Portuguesa), (A Portuguese Rural Society, 1971), trad. J.L.Duarte Peixoto, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1977, pp. 6, 8-9.
| fotografia: filipe sousa | 12 julho 2019 |
Venezia / Veneza, Gran Canale
«(...) Numa estação de barcos, esperámos um barco vazio que finalmente apareceu. Era ao fim da tarde, quase já ao lusco-fusco. Subimos devagar o Gran Canale, rente ao tremular dos reflexos dos palácios na laguna. Depois metemos pelo labirinto verde-escuro, silencioso e um pouco assustador dos pequenos canais, até que, por trás de uma esquina à nossa frente, se ergueu o brado do gondoleiro, ressoando contra as paredes de pedra. E de súbito, lentamente, deslizou ao nosso encontro o Oriente misterioso e inefável. Era um casal, um homem e uma mulher. Os seus traços mostravam que vinham dos confins da Ásia, eram belos, grandes, hieráticos, sentados na gôndola como se estivessem no frontão de um templo. Imóveis, impassíveis, mesmo quando quase nos roçaram passando ao nosso lado, nem o menor pestanejar nem o menor gesto dizia que nos vissem. Mas a intensidade da sua presença tornava o tempo mais lento e os silêncio absoluto. E desapareceram devagar como se nunca tivessem aparecido.
No Café Florian, perguntando a mim própria se seria possível escrever sobre Veneza, lembrei-me de duas linhas do poeta Heleno Oliveira: "Dizer-te é dizer o já dito... Ópera vermelha, escura elegia?"
Mas mesmo antes de aqui ter chegado um dia, já muita vez tinha escrito sobre Veneza:
Há cidades acesas na distância
magnéticas e fundas como luas.»
Sophia de Mello Breyner Andresen, «Voltar a Veneza», Grande Reportagem, nº 79, Lisboa, Outubro 1997.
No Café Florian, perguntando a mim própria se seria possível escrever sobre Veneza, lembrei-me de duas linhas do poeta Heleno Oliveira: "Dizer-te é dizer o já dito... Ópera vermelha, escura elegia?"
Mas mesmo antes de aqui ter chegado um dia, já muita vez tinha escrito sobre Veneza:
Há cidades acesas na distância
magnéticas e fundas como luas.»
Sophia de Mello Breyner Andresen, «Voltar a Veneza», Grande Reportagem, nº 79, Lisboa, Outubro 1997.
| aguarela: filipe sousa | julho 2003 |
Ilhéu de Vila Franca do Campo
«Eram seis quilómetros, que se faziam bem a pé, a toda a volta desta nossa ilha, começando lá no alto, por entre o tojo e os abrunheiros, de onde se viam as rochas escarpadas no mar circundante, e descendo para as pequenas clareiras ponteadas de prímulas. Indo a direito, atravessava-se duas colinasitas, continuava-se ao comprimento da ilha pelos campos rochosos, onde as vacas ruminavam deitadas, prosseguia-se por entre a aveia escassa, até chegar, outra vez, ao tojo; e, depois, descia-se até à beira das escarpas mais baixas - não eram precisos mais do que vinte minutos. E, ao chegar à beira, via-se em frente outra ilha maior. Mas, no meio, havia o mar. E, quando se voltava para trás pela turfa onde baloiçavam primaveras baixinhas, próximas da terra, via-se, para leste, outra ilha - essa minúscula, como se fosse o vitelo da vaca. A ilha minúscula pertencia, também, ao nosso ilhéu.
Assim, parece que até as ilhas gostam da companhia umas das outras.»
D.H.Lawrence, «O homem que amava ilhas» («The man who loved islands», 1928) in Amor no feno e outros contos (Love among the haystacks and other stories, 1930), trad. Maria Teresa Guerreiro, Assírio & Alvim, Lisboa, 1988, pp. 101-102.
Assim, parece que até as ilhas gostam da companhia umas das outras.»
D.H.Lawrence, «O homem que amava ilhas» («The man who loved islands», 1928) in Amor no feno e outros contos (Love among the haystacks and other stories, 1930), trad. Maria Teresa Guerreiro, Assírio & Alvim, Lisboa, 1988, pp. 101-102.
| fotografia: filipe sousa | 24 julho 2016 |
Quintos
SONETO MENOR À CHEGADA DO VERÃO
Eis como o verão
chega de súbito,
com seus potros fulvos,
seus dentes miúdos,
seus múltiplos, longos
corredores de cal,
as paredes nuas,
a luz de metal,
seu dardo mais puro
cravado na terra,
cobras que despertam
no silêncio duro -
eis como o verão
entra no poema.
Eugénio de Andrade, «Ostinato Rigore» (1963-1965), in Poesia e Prosa (1940-1980), 2ª ed., Limiar, Porto, s.d., p. 115.
Eis como o verão
chega de súbito,
com seus potros fulvos,
seus dentes miúdos,
seus múltiplos, longos
corredores de cal,
as paredes nuas,
a luz de metal,
seu dardo mais puro
cravado na terra,
cobras que despertam
no silêncio duro -
eis como o verão
entra no poema.
Eugénio de Andrade, «Ostinato Rigore» (1963-1965), in Poesia e Prosa (1940-1980), 2ª ed., Limiar, Porto, s.d., p. 115.
| fotografia: filipe sousa | 25 julho 2017 |
Forcalquier, Artemisia Museum
Também conhecido por losna, o absinto (artemisia absinthium) entra na composição da bebida com o mesmo nome, musa inspiradora de escritores, pintores e outros criadores, de Van Gogh e Baudelaire a Rimbaud e Picasso, sem esquecer o nosso Fernando Pessoa.
Mito ou realidade, devam muito, pouco ou nada a literatura, a pintura e as outras artes aos poderes alucinogénios da planta, uma coisa parece evidente: o tema do absinto foi profusamente glosado ao longo dos últimos três séculos e por isso pretexto para criações como as que se seguem, em que as virtudes da fada verde, como era conhecida a bebida pela sua cor marcante, competem com as do ópio, tabaco e vinho tinto.
Mas a ser verdade que Baudelaire, Pessoa e O'Neill estavam com um grãozinho na asa quando escreveram estes poemas, então é caso para dizer: bendito absinto!
| fotografa: filipe sousa | 21 maio 2019 |
LE POISON
Le vin sait revêtir le plus sordide bouge
D'un luxe miraculeux,
Et fait surgir plus d'un portique fabuleux
Dans l'or de sa vapeur rouge,
Comme un soleil couchant dans un ciel nébuleux.
L'opium agrandit ce qui n'a pas de bornes,
Allonge l'illimité,
Approfondit le temps, creuse la volupté,
Et de plaisirs noirs et mornes
Remplit l'âme au delà de sa capacité.
Tout cela ne vaut pas le poison qui découle
De tes yeux, de tes yeux verts,
Lacs où mon âme trembe et se voit à l'envers...
Mes songes viennent en foule
Pour se désaltérer à ces gouffres amers.
Tout cela ne vaut pas le terrible prodige
De ta salive qui mord,
Qui plonge dans l'oubli mon âme sans remords,
Et charriant le vertige,
La roule défaillante aux rives de la mort.
Charles Baudelaire, Les fleurs du mal, 1857.
A PASSAGEM DAS HORAS (a José de Almada Negreiros)
(...) Eu, o fumador de cigarros por profissão adequada,
O indivíduo que fuma ópio, que toma absinto, mas que, enfim,
Prefere pensar em fumar ópio a fumá-lo
E acha mais seu olhar para o absinto a beber que bebê-lo... (...)
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), 1916
BILHETE-POSTAL A ALEXANDRE PINHEIRO TORRES
Absinto-me cansado
na outonalma.
De absinto, no outono,
encharco a alma...
Muito deve a literatura
ao absinto.
Em qualidade, muito mais
que ao tinto...
Ó Alexandre, manda-me absinto
na volta do correio,
que eu já sinto, com tanto tinto,
estancar-se-me o veio...
Alexandre O'Neill, Poemas com endereço, 1962
Berlin / Berlim, Alt-Moabit 89
Onde era, em 1934, a Secretaria da Infância e da Juventude da subprefeitura de Tiergarten, em Berlim, encontramos hoje, no 94 de Alt-Moabit, um moderno condomínio fechado, com vistas para o Spree. No edifício mais próximo, cuja construção data de 1892-1893 e que resistiu aos bombardeamentos aliados, funciona hoje o hotel Tiergarten, além de acolher uns quantos apartamentos, onde reside alguém com o familiar apelido «Filho».
Mas o que tem a ver o 94 de Alt-Moabit com a história de Francisco Buarque de Holanda (Chico Buarque), que hoje completa 75 anos?
«Berlim NW 21, Alt-Moabit 94
O subprefeito
da Administração Regional de Tiergarten, Berlim
Cidade de Berlim/Subprefeitura de Tiergarten
Secretaria da Infância e da Juventude. Tutela Pública
Ao Senhor
Sergio de Hollander
Rio de Janeiro
Rua Maria Angélica, 39
América do Sul
24.9.1934
Prezado Senhor de Hollander!
Já anos atrás tentei entrar em contato com o senhor por intermédio da legação da Alemanha no Rio de Janeiro, a fim de obter do senhor pensão alimentícia para meu pupilo Sergio Ernst, do qual o senhor é pai natural. Infelizmente, minha tentativa resultou vã. Se hoje, portanto, torno a contatá-lo, eu o faço na suposição de que é também seu desejo que a criança gerada pelo senhor tenha um lar bom e duradouro e uma educação correta.
Há um bom tempo, Sergio Ernst, nascido em 21 de dezembro de 1930, encontra-se sob os cuidados da casal Gunther, NO 50, Grefswalder Strasse 212/13, pátio 2. O casal se afeiçoou ao menino e pensa adotá-lo. O contrato de adoção foi firmado, a guarda foi autorizada judicialmente, e o documento se encontra no momento no Tribunal Regional de Berlim, para concessão de dispensa de idade mínima de cinquenta anos completos e para legitimação.
A corte de legitimação solicita agora comprovação da origem ariana. Esta pode ser demonstrada pelo lado materno. Mas o menino precisa ter ascendência ariana também por parte do pai, Tenho, assim, de pedir ao senhor que me envie sua certidão de nascimento, as de seus pais e as de seus avós maternos e paternos. Dessas certidões deve ser possível depreender a religião de seus antepassados.
Acreditando que, no interesse do menino, o senhor não há de se recusar a atender minha solicitação, espero ter notícias suas e aguardo a chegada das certidões.
Com o cumprimento alemão,
Heil Hitler!
p/
Tutor Municipal»
«Sergio Gunther, filho de Sergio Buarque de Holanda e Anne Ernst (ou Anne Margrit Ernst, ou Annemarie Ernst), nasceu em Berlim, em 21 de dezembro de 1930. Em 1931 ou 1932, foi entregue pela mãe à Secretaria da Infância e da Juventude do distrito de Tiergarten, Berlim. Em 193?, Arthur Erich Willy Gunther e sua mulher, Pauline Anna, adotaram o menino Sergio Ernst, que seria criado com o nome de Horst Gunther. Por volta dos 22 anos, Horst veio a saber da identidade de seus pais naturais, optando por retomar o prenome Sergio. Entrou para o exército da RDA em 194? e no fim dos anos 50 foi admitido na televisão do Estado, onde desenvolveu múltiplas atividades. Gravou um número incerto de discos, hoje fora de circulação. Morreu de câncer em 12 de setembro de 1981.
Tomei conhecimento do destino do meu irmão Sergio Gunther graças ao empenho do historiador João Klug e do museólogo Dieter Lange. Seus trabalhos de pesquisa em Berlim basearam-se nos documentos constantes neste livro, preservados por minha mãe, Maria Amelia Buarque de Holanda. O contato com Klug e Lange se deu por intermédio do editor Luiz Schwarcz e do historiador Sidney Chalhoub.
Em maio de 2013 estive em Berlim com minha filha Silvia Buarque, cuja contribuição foi fundamental para as entrevistas com a filha de Sergio, Kerstin Prugel, a neta, Josepha Prugel, a ex-mulher, Monika Knebel, e os amigos Werner Reinhardt e Manfred Schmitz.
Chico Buarque »
Chico Buarque, O Irmão Alemão (2014), Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2015, pp. 163-164, 183-184.
Mas o que tem a ver o 94 de Alt-Moabit com a história de Francisco Buarque de Holanda (Chico Buarque), que hoje completa 75 anos?
«Berlim NW 21, Alt-Moabit 94
O subprefeito
da Administração Regional de Tiergarten, Berlim
Cidade de Berlim/Subprefeitura de Tiergarten
Secretaria da Infância e da Juventude. Tutela Pública
Ao Senhor
Sergio de Hollander
Rio de Janeiro
Rua Maria Angélica, 39
América do Sul
24.9.1934
Prezado Senhor de Hollander!
Já anos atrás tentei entrar em contato com o senhor por intermédio da legação da Alemanha no Rio de Janeiro, a fim de obter do senhor pensão alimentícia para meu pupilo Sergio Ernst, do qual o senhor é pai natural. Infelizmente, minha tentativa resultou vã. Se hoje, portanto, torno a contatá-lo, eu o faço na suposição de que é também seu desejo que a criança gerada pelo senhor tenha um lar bom e duradouro e uma educação correta.
Há um bom tempo, Sergio Ernst, nascido em 21 de dezembro de 1930, encontra-se sob os cuidados da casal Gunther, NO 50, Grefswalder Strasse 212/13, pátio 2. O casal se afeiçoou ao menino e pensa adotá-lo. O contrato de adoção foi firmado, a guarda foi autorizada judicialmente, e o documento se encontra no momento no Tribunal Regional de Berlim, para concessão de dispensa de idade mínima de cinquenta anos completos e para legitimação.
A corte de legitimação solicita agora comprovação da origem ariana. Esta pode ser demonstrada pelo lado materno. Mas o menino precisa ter ascendência ariana também por parte do pai, Tenho, assim, de pedir ao senhor que me envie sua certidão de nascimento, as de seus pais e as de seus avós maternos e paternos. Dessas certidões deve ser possível depreender a religião de seus antepassados.
Acreditando que, no interesse do menino, o senhor não há de se recusar a atender minha solicitação, espero ter notícias suas e aguardo a chegada das certidões.
Com o cumprimento alemão,
Heil Hitler!
p/
Tutor Municipal»
| fotografia: filipe sousa | 5 junho 2019 |
«Sergio Gunther, filho de Sergio Buarque de Holanda e Anne Ernst (ou Anne Margrit Ernst, ou Annemarie Ernst), nasceu em Berlim, em 21 de dezembro de 1930. Em 1931 ou 1932, foi entregue pela mãe à Secretaria da Infância e da Juventude do distrito de Tiergarten, Berlim. Em 193?, Arthur Erich Willy Gunther e sua mulher, Pauline Anna, adotaram o menino Sergio Ernst, que seria criado com o nome de Horst Gunther. Por volta dos 22 anos, Horst veio a saber da identidade de seus pais naturais, optando por retomar o prenome Sergio. Entrou para o exército da RDA em 194? e no fim dos anos 50 foi admitido na televisão do Estado, onde desenvolveu múltiplas atividades. Gravou um número incerto de discos, hoje fora de circulação. Morreu de câncer em 12 de setembro de 1981.
Tomei conhecimento do destino do meu irmão Sergio Gunther graças ao empenho do historiador João Klug e do museólogo Dieter Lange. Seus trabalhos de pesquisa em Berlim basearam-se nos documentos constantes neste livro, preservados por minha mãe, Maria Amelia Buarque de Holanda. O contato com Klug e Lange se deu por intermédio do editor Luiz Schwarcz e do historiador Sidney Chalhoub.
Em maio de 2013 estive em Berlim com minha filha Silvia Buarque, cuja contribuição foi fundamental para as entrevistas com a filha de Sergio, Kerstin Prugel, a neta, Josepha Prugel, a ex-mulher, Monika Knebel, e os amigos Werner Reinhardt e Manfred Schmitz.
Chico Buarque »
Chico Buarque, O Irmão Alemão (2014), Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2015, pp. 163-164, 183-184.
Moura, Monte da Esperança
SOBRE O DESEJO
Hei-de levar este esplendor para um poema, dizia eu, sempre que me estendia à sombra branca e miúda de uma oliveira. Mas fosse onde fosse, em terras de Corfu ou de Maiorca, nos campos de Siena ou no chão da minha infância, sempre adormeci sobre o desejo.
Hoje, que a violência do estio me levou a escarvar a própria pedra, queria apenas uma dessas árvores de bruma, por mais exígua, e adormecer à sua sombra.
Eugénio de Andrade, «Memória Doutro Rio» (1976-1977), in Poesia e Prosa (1940-1980), 2ª ed., Limiar, Porto, s.d., pp. 252-253.
Hei-de levar este esplendor para um poema, dizia eu, sempre que me estendia à sombra branca e miúda de uma oliveira. Mas fosse onde fosse, em terras de Corfu ou de Maiorca, nos campos de Siena ou no chão da minha infância, sempre adormeci sobre o desejo.
Hoje, que a violência do estio me levou a escarvar a própria pedra, queria apenas uma dessas árvores de bruma, por mais exígua, e adormecer à sua sombra.
Eugénio de Andrade, «Memória Doutro Rio» (1976-1977), in Poesia e Prosa (1940-1980), 2ª ed., Limiar, Porto, s.d., pp. 252-253.
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| fotografia: filipe sousa | 1 agosto 2018 |
Torino / Turim, Via Emanuele Artom
«Voltei à praia, gotejante, e atirei-me sobre a areia. Tinha os olhos fechados.
Quando os reabri e me sentei, lancei um olhar de desânimo para a costa. Sobre a palidez desesperada das plantas carnosas e das casas mais próximas, cor-de-rosa, continuava a bater aquele sol. O meu fato formava uma mancha escura junto do barco.
-Também está aqui desterrado? - gritou, do outro lado, o rapaz.
-Aqui todos o somos, pouco mais ou menos, - disse eu, em voz alta. - O único recurso é metermo-nos dentro de água.
-E de Inverno, que recurso há?
-De Inverno pensa-se na nossa terra.
-Eu penso mesmo de Verão.
Veio para junto de mim e sentou-se na areia. Tinha tirado o casaco e trazia uma camisa escura, sem mangas.
-Em que terra acha que pensará esta gente daqui? - perguntou.
-Pensam no norte da Itália ainda mais do que nós.
-Sim, mas esta é a terra deles. A eles não lhes falta nada.
Através da via férrea, entre a praia e as primeiras casas, desenconchadas da fracção marinha, passava um grupo de mulheres. Iam para o seu recanto entre os escolhos, pela costa acima, tomar banho. Eram velhas, vestidas de castanho, e baixas, e entre elas ia uma rapariga de branco.
Disse qualquer coisa. - Claro que no Pó se nada melhor. Há menos sol e mais comodidade.
-Onde é que mora, em Turim?
Disse-lho.
-Mas que faz aqui nesta terra?
-Estou a trabalhar na estrada provincial. Sou o engenheiro.
O desterrado esfregou o nariz com o dorso da mão. - Eu era mecânico, - disse, fitando-me. - Recebe correspondência de Turim?
-De vez em quando?
-Eu também recebi outro dia, - e tirou da algibeira um postal ilustrado com a vista da estação. - Conhece este sítio?
Olhei, com um sorriso, para a ilustração e restituí-lha, embaraçado.
-Traz saudades de uma rapariga. Se me manda saudades quer dizer que me prega os cornos. Eu conheço-as.
A presunção desagradou-me. Acendi um cigarro sem responder: aguardava o resto. Mas ele calou-se. Daí a bocado restitui-me o jornal, com um agradecimento brusco, e foi-se embora, tropeçando na areia.»
Cesare Pavese, «Terra de Exílio» (1936), in Noites de Festa (Notte di Festa, 1956), trad. Rosália Braancamp, Editorial Minerva, Lisboa, 1964, pp. 13-15.
Quando os reabri e me sentei, lancei um olhar de desânimo para a costa. Sobre a palidez desesperada das plantas carnosas e das casas mais próximas, cor-de-rosa, continuava a bater aquele sol. O meu fato formava uma mancha escura junto do barco.
-Também está aqui desterrado? - gritou, do outro lado, o rapaz.
-Aqui todos o somos, pouco mais ou menos, - disse eu, em voz alta. - O único recurso é metermo-nos dentro de água.
-E de Inverno, que recurso há?
-De Inverno pensa-se na nossa terra.
-Eu penso mesmo de Verão.
Veio para junto de mim e sentou-se na areia. Tinha tirado o casaco e trazia uma camisa escura, sem mangas.
-Em que terra acha que pensará esta gente daqui? - perguntou.
-Pensam no norte da Itália ainda mais do que nós.
-Sim, mas esta é a terra deles. A eles não lhes falta nada.
Através da via férrea, entre a praia e as primeiras casas, desenconchadas da fracção marinha, passava um grupo de mulheres. Iam para o seu recanto entre os escolhos, pela costa acima, tomar banho. Eram velhas, vestidas de castanho, e baixas, e entre elas ia uma rapariga de branco.
Disse qualquer coisa. - Claro que no Pó se nada melhor. Há menos sol e mais comodidade.
-Onde é que mora, em Turim?
Disse-lho.
-Mas que faz aqui nesta terra?
-Estou a trabalhar na estrada provincial. Sou o engenheiro.
O desterrado esfregou o nariz com o dorso da mão. - Eu era mecânico, - disse, fitando-me. - Recebe correspondência de Turim?
-De vez em quando?
-Eu também recebi outro dia, - e tirou da algibeira um postal ilustrado com a vista da estação. - Conhece este sítio?
Olhei, com um sorriso, para a ilustração e restituí-lha, embaraçado.
-Traz saudades de uma rapariga. Se me manda saudades quer dizer que me prega os cornos. Eu conheço-as.
A presunção desagradou-me. Acendi um cigarro sem responder: aguardava o resto. Mas ele calou-se. Daí a bocado restitui-me o jornal, com um agradecimento brusco, e foi-se embora, tropeçando na areia.»
Cesare Pavese, «Terra de Exílio» (1936), in Noites de Festa (Notte di Festa, 1956), trad. Rosália Braancamp, Editorial Minerva, Lisboa, 1964, pp. 13-15.
| fotografia: filipe sousa | 12 abril 2018 |
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