Moura, rua 5 de Outubro

fotografia; filipe sousa | 23 setembro 2025

 






















Imagino que ser-se dono de uma casa antiga, de taipa, se assemelhe a ser-se dono de um automóvel histórico, de colecção. Em ambos os casos, a conservação é pesada e tem que se lhe diga. Eu que o diga, dono de uma dessas casas. Falando do carro, é preciso restaurar peças que já não se fabricam ou adquirir réplicas das peças originais; falando da casa de taipa, é preciso ir à procura de materiais compatíveis com a construção de terra, como a cal, enquanto tinta e base de argamassas, ou o óleo de linhaça para proteger o pavimento de terracota, as madeiras das coberturas, portas e janelas ou para hidratar a própria cal, no momento da sua extinção, conferindo às argamassas maior resistência, durabilidade e plasticidade.
Mas tão ou mais difícil do que arranjar as ditas peças ou os ditos materiais é encontrar um mecânico que dê garantias e faça bem o serviço ou um pedreiro digno desse nome, que não cometa o sacrilégio de rebocar paredes de taipa com cimento, com resultados desastrosos. À falta destes peritos, não me resta senão, referindo-me à casa, deitar mãos à obra, gretando-as do manuseio da cal, e seguir os mandamentos dessa bíblia a que volto sempre – Diálogos de edificação – técnicas tradicionais de construção* -, com concessões à criatividade e liberdade para fazer experiências q.b.
Depois do trabalho duro e paciente, sento-me finalmente, em paz comigo próprio, para desfrutar do prazer de habitar “a” casa, pelo tempo fora; um prazer tão sublime, calculo eu, como o de conduzir “o” automóvel, pela estrada fora.
É este o momento propício para citar Hassan Fathy e Jack Kerouac:

«Todas as construções eram bonitas de se ver. Fosse para homens, para burros ou para servir de armazéns, todas tinham o ritmo de curvas desejado que parecia surgir de si próprio quando se desenhava as abóbadas, mas que linhas direitas e tectos planos quase nunca reproduzem. (…) Dentro dos limites da resistência do material - a terra - e das leis da estática, o arquitecto encontra-se, de súbito, livre para modular o espaço com a sua construção, para inventar novos volumes e para devolver a esse espaço a ordem e o significado à escala humana, de tal forma que a sua casa já não terá necessidade de decorações adicionais. Os próprios elementos estruturais proporcionam um interesse visual infinito. A abóbada, a cúpula, as trompas e os pendentes, os arcos e as paredes proporcionam ao arquitecto um campo ilimitado de emaranhados racionais de linhas curvas vindas de todas as direcções, com passagens harmoniosas de uma para outra.»
Hassan Fathy, Arquitectura para os Pobres - uma experiência no Egipto rural (Arquitecture for the Poor, an experiment in rural Egypt, 1969), trad. Joana Pedroso Correia, Argumentum/Dinalivro, Lisboa, 2009, p. 25.

«Caía uma chuva miudinha e o ar estava misterioso, no início da nossa viagem. Pressentia que ia ser tudo uma grande saga de névoa.
-Uau! – gritou Dean – cá vamos nós!
E inclinou-se sobre o volante e acelerou bruscamente; estava outra vez no seu elemento, era visível para toda a gente. Sentíamo-nos todos nas nuvens, todos nos apercebemos de que deixávamos para trás a confusão e o absurdo e desempenhávamos a nossa única e nobre função do tempo: pôr-nos em movimento. E como nós nos deslocávamos!
(…)
Que sentimento é esse que temos quando vamos de carro e nos afastamos das pessoas e elas vão diminuindo de tamanho na planície até vermos as suas manchas dispersar? É o mundo demasiado grande a pesar-nos, é o adeus. Contudo, curvamo-nos avançando para a próxima louca aventura debaixo do céu.»
Jack Kerouac, Pela estrada fora (On the road, 1957), trad. Armanda Rodrigues e Margarida Vale de Gato, Relógio d’Água, Lisboa, 2011, pp. 145, 170.

Manaus

fotografia: rebeca souza | 13 julho 2025

 






















Escolho quatro frases lapidares de quatro escritores universais para legendar duas mãos cheias de fotografias que me foram enviadas da Amazónia. São palavras que ajudam a descrever o turbilhão de emoções que assaltam o rapaz embrenhado na selva. Conforta-me pensar que possam ser também guias de sobrevivência para o ajudar a enfrentar a vastidão, a solidão, a maravilha mas também o inóspito da maior floresta, eu ia dizer labirinto, do mundo. Porque toda a grande literatura digna desse nome é sempre reparadora, protectora, redentora*.

*Apraz-me saber que na mochila do rapaz viaja, para lá de necessidades prosaicas, da garrafa de água ao repelente de mosquitos, um desses amuletos: A Selva, de Ferreira de Castro, pois claro!«O que faço eu aqui?», a questão que Rimbaud se colocou na Etiópia.

«Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo», a constatação de Flaubert acerca da fragilidade do viajante.

«Realmente, a Amazónia é a última página, ainda a escrever-se, do Génesis», ou como Euclides da Cunha sintetiza a natureza dinâmica e em constante transformação da Amazónia.

«Tudo selva, selva por toda a parte, fechando o horizonte na primeira curva do monstro líquido.», ou o assombro da vastidão, do incomensurável, que pesa e esmaga, nas palavras de Ferreira de Castro.

Berlin / Berlim, Hauptstrasse 157

fotografia: filipe sousa | 15 junho 2024

 

















Coroai-me de rosas
Coroai-me em verdade
De rosas.

Quero ter a hora
Nas mãos pagãmente
E leve,

Mal sentir a vida,
Mal sentir o sol
Sob ramos.

Coroai-me de rosas
E de folhas de hera
E basta.

Ricardo Reis, Poesia I, Odes, 12-6-1914, Fernando Pessoa, Obra completa de Ricardo Reis, ed. de Jerónimo e Jorge Uribe, Tinta-da-China, Lisboa, 2024, p. 45.

Les Mées, rue Clovis Picon

fotografia: filipe sousa | 23 maio 2025

 

















Não longe do sítio onde me encontro, Vicent van Gogh (1853-1890) deixou-se fascinar pelas oliveiras da Provença, a ponto de as imortalizar em quadros como "Oliveiras com Céu Amarelo e Sol" e "Olival com Céu Laranja", ambos de 1889. Estou na pequena aldeia de Lurs, construída sobre um afloramento rochoso a 621 metros de altitude, de onde se avista um vasto território da Alta-Provença, incluindo o vale do rio Durance, que se estende a meus pés.
É lá em baixo, sobretudo entre Lurs et Les Mées, que prospera a maior mancha de olival provençal, num total de cerca de cem mil árvores, muitas delas centenárias, embora também se encontrem à volta de Lurs e até dentro dela! Por aqui não há lugar a produtos químicos e as árvores, de troncos imponentes e retorcidos, são veneradas por olivicultores apaixonados pela sua terra, comprometidos com a defesa da paisagem, da cultura e da biodiversidade, como um pastor que cuida zelosamente das suas ovelhas e lhes conhece os nomes e os humores. O que faz com que passear por entre estas árvores com identidade seja um prazer indescritível e o azeite delas obtido, em lagares antigos, de uma grande pureza, atestada pelo selo AOP Bio Haute-Provence. Podemos saboreá-lo e adquiri-lo das mãos dos próprios produtores, nas explorações agrícolas ou nos mercados locais que se realizam regularmente na região, como o que visitei em Forcalquier.
Por aqui, o carácter estético, pedagógico e livre destas árvores reflecte a paixão do seu cuidador. A oliveira sente-se em casa na Provença. Ela faz parte da paisagem. Ela é a paisagem. E uma paisagem bela, como a que se avista a partir de Lurs, precisará sempre da mão generosa do homem.
A palavra a Jean Giono (1895-1970), o escritor provençal que cantou o amor às oliveiras e à cultura do azeite como mais nenhum:

«Nesta época de azeitonas. Não consigo pensar em nada mais épico.
Do ramo de aço cinzento ao pote de barro, a azeitona escorrega nas mãos, desce como uma torrente, acumula a sua água negra e pesada nos sótãos, e as velhas vigas gemem sob o seu peso durante a noite. Nas margens deste grande rio de frutos que corre, o nosso mundo inteiro canta.
É o tempo da colheita, o tempo em que se ordenha a árvore como se ordenha uma cabra, a mão agarrada ao ramo, o polegar no ar, e depois a pressão para baixo. Mas em vez de leite, é o azeite que corre.» (tradução livre)
Jean Giono, Poème de l’olive (1958), Éditions Gallimard, 1986, pp. 95-96.

Aix-en-Provence

fotografia: filipe sousa | 18 maio 2025

 






















Escala em Aix-en-Provence, porta de entrada para a luz provençal, que seduziu o mais dilecto dos seus filhos, Paul Cézanne (1839-1906). Aproveitámos a manhã para reviver os passos do pintor impressionista na capital da Provence e acabámos quase engolidos pelo mar de gente de todo o mundo que veio para participar e assistir à corrida Ironman 70.3. Um ambiente de verdadeira loucura, que tomou conta de Aix por umas boas horas.
Abalámos para Forcalquier ainda a prova não havia terminado.

«Mas nada consegue fazer jus à luz – nem câmara, nem pincel. (…) Estes céus – o azul ferido especial que por vezes encontramos nos céus de Mantegna – são exclusivos de Provença, pois não são gregos nem romanos.»

Lawrence Durell, A Sombra Infinita de César (Caeser’s Vast Ghost, 1999), trad. Sérgio Gonçalves, Edições Saídas de Emergência, Porto Salvo, p. 33.

«Quando estava em Aix, pensei que estaria melhor noutro lugar, mas agora que estou aqui, tenho saudades de Aix. Quando se nasce em Aix, tudo acaba, já nada significa para nós.»
Paul Cezanne

Arriba Fóssil da Costa de Caparica

fotografia: pedro sousa | 24 dezembro 2025















«Areia e céu, mar e céu. (...) E luz? E o prodígio da luz?... A gente está tão afeita à luz que não repara nela e trata como uma coisa conhecida e velha este azul que nos envolve e penetra e que desaba em torrentes sobre as águas verdes desmaiadas e sobre as terras amarelas e vermelhas até ao cabo Espichel...»

Raul Brandão, Os Pescadores (1923), Estante Editora, Aveiro, 1989, p. 165.


MAR SONORO

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do Mar (1947), Poemas escolhidos, Círculo de Leitores, Lisboa, 1981, p. 8.

Verona

fotografia: filipe sousa | 10 maio 2025























Do que fizeste a dor não te possua:
rosas têm picos, fontes de prata lama,
nuvens e eclipses turvam sol e lua,
no mais doce botão vil verme acama.
Os homens todos erram e eu segui-os
abonando-te a falta com perdão;
corrompo-me remindo os meus desvios,
mais erro é desculpá-los do que o são.
Se à falta dos sentidos dou sentido,
a parte a ti adversa é o defensor
e contra mim o pleito é dirigido,
eis em guerra civil meu ódio e amor
e tal que a ser um cúmplice me impele
de quem me é ladrão doce e cruel.

William Shakespeare, Os Sonetos, trad. Vasco Graça Moura, Bertrand Editora, Lisboa, 2002, p. 81.

Rimini, Piazza Cavour

fotografia: filipe sousa | 9 maio 2025

 





















Sete poemas

A mulher colhe rosas. De repente
toca o membro vivo dele, botão
cheio. Assusta-a a diferença, e num instante
esvaem-se nela os jardins [de Verão]

Reiner Maria Rilke, Momentos de Paixão, com desenhos de Auguste Rodin (1905?), trad. Isabel Castro Silva, João Barrento, José Miranda Justo, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2004, p.15.

Rio Amazonas

fotografia: pedro sousa | 18 julho 2025

 






















As fotografias e os vídeos da Amazónia continuam a chegar a conta-gotas, via WhatsApp, enviados da selva pelo rapaz aventureiro, que viaja por sua conta e risco.
Imagino que assistir ao nascer do sol no Amazonas seja uma daquelas experiências para a vida, sublimada pela beleza da luz e da paisagem, pela variedade de matizes que combinam cores frias e quentes espelhadas no céu e no rio, pelo «silêncio sinfónico» da natureza, de que nos fala Ferreira de Castro, n’A Selva. Assim, nos quatro dias e três noites que dura a viagem de 1.300 quilómetros entre Manaus e Macapá, na linha do Equador, o privilégio só pode ser a triplicar! Primeiro a bordo de um ferry, depois navegando num gaiola, após transbordo em Santarém, na foz do Tapajós; o que não muda mesmo é a rede espreguiçadeira suspensa no convés, que funciona como casa, quarto e cama de dormir, num espaço compartilhado com dezenas de outros passageiros. Ao longo do trajecto sucedem-se terras com nomes de vilas e cidades portuguesas: além de Santarém, passa-se por Silves, Óbidos, Nazaré, Alenquer, Almeirim…, entre topónimos de raíz indígena: Amatari, Itacoatiara, Jurupari, Arapucu, Parintins, Juruti… Quando não existem condições para acostagem nestas localidades ou para não atrasar a viagem já de si demorada, pessoas e mercadorias são baldeadas do ferry ou do gaiola em andamento para uma rabeta que surge do nada, espécie de canoa com motor à popa. De todos estes sortilégios é feita a magia do Amazonas.
E o que se seguirá ao desembarque em Macapá, capital do estado de Amapá? – pergunta-se. Ao que parece, nova incursão aos confins da selva, agora subindo o rio Amapari de canoa, em busca da chamada Terra das Onças, perto da fronteira com a Guiana francesa, um ponto perdido num mapa vegetal onde a capacidade de sobrevivência é posta à prova a todo o instante. Aqui, viajar é resistir!

Quem disse que a selva amazónica «obriga a alma a dobrar-se sobre si mesma» não podia estar mais certo.

«…adormecer embalado numa rede, sob a brisa tépida das noites amazonenses, devia ser regalo de truz, inesquecível por muito que se vivesse.»

Ferreira de Castro, A Selva (1930), 33ª edição, Guimarães & Companhia Editores, Lisboa, 1981, pp. 41-42.

Lurs

fotografia: filipe sousa | 21 maio 2025





























«Nesta época de azeitonas. Não consigo pensar em nada mais épico.
Do ramo de aço cinzento ao pote de barro, a azeitona escorrega nas mãos, desce como uma torrente, acumula a sua água negra e pesada nos sótãos, e as velhas vigas gemem sob o seu peso durante a noite. Nas margens deste grande rio de frutos que corre, o nosso mundo inteiro canta.
É o tempo da colheita, o tempo em que se ordenha a árvore como se ordenha uma cabra, a mão agarrada ao ramo, o polegar no ar, e depois a pressão para baixo. Mas em vez de leite, é o azeite que corre.» (tradução livre)
Jean Giono, Poème de l’olive (1958), Éditions Gallimard, 1986, pp. 95-96.

Forcalquier, Avenue du Professeur René Cassin

fotografia: filipe sousa | 23 maio 2025

 






















As “boules”, que incluem o jogo da petanca, são uma "instituição" muito francesa, e contam com um lídimo representante na Provença: a Association Bouliste Forcalquier. No outro dia, passei pelo terreiro de Cour des Artisans, durante e depois de partidas que se realizam habitualmente ao fim da tarde e atraem boulistes exímios da cidade, à procura dessa atmosfera especial tão bem captada pela arte de Lawrence Durrell (1912-1990) e Marcel Pagnol (1895-1974):

«O anisete (pastis) por toda a parte declara-se como o acompanhamento ideal para as meditações nocturnas dos jogadores de boules; não havia praça de aldeia no verão sem o tinido das pequenas bolas de aço, nenhuma aldeia sombria sem os seus boulistes embrenhados na austeridade socrática do silêncio entre lançamentos. O silêncio sagrado do bouliste está prenhe de futuridade, as suas convulsões e contorções quando as coisas correm mal são puro cinema primitivo; a imortalidade de Pagnol baseia-se num cuidadoso estudo dos originais gráficos, para ele disponíveis numa longa vida de participação em torneios de vilas e aldeolas.»

Lawrence Durell, A Sombra Infinita de César (Caeser’s Vast Ghost, 1999), trad. Sérgio Gonçalves, Edições Saídas de Emergência, Porto Salvo, p. 24.

Lisboa

fotografia: filipe sousa | 20 abril 2025

 






















O povo saiu à rua num dia assim.
25 de Abril, sempre!

«Uma bela partida. Ouvia-o dizer, enquanto no piso de cima os convidados riam, e eu própria senti vontade de rir, sobretudo em que o antigo embaixador quis lembrar-se do nome das flores que os portugueses em 1974 enfiavam no cano das espingardas e não lhe ocorria. Nós três, como se os nossos cérebros estivessem programados para o esquecimento simultâneo, empancámos na designação. Eu própria simulei estar esquecida. O anfitrião ficou suspenso. Perguntou – “Pois como se chamavam as flores?”
Sim, aquelas flores vermelhas?
Nenhum de nós se lembrava. Era inacreditável que os três soubéssemos que as páginas da pétala dessas flores eram dentadas, uma unha longa em pecíolo forte, que tinham sido oferecidas pelas floristas logo pela manhã do próprio dia 25, quando os insurrectos galgavam a Baixa, até o Bob sabia do caso, sabia que começara por ser a oferta de uma vendedeira quando a coluna sublevada fazia a volta em torno de uma praça, até ele sabia, e, no entanto, nenhum de nós se lembrava do nome da flor. Como é que você não sabe? Inquieto, o anfitrião confessava estar surpreendido por que a palavra não estivesse colada na minha cabeça, mas ele conhecia o processo, sabia que a distância geográfica e a mistura dos idiomas criam por vezes buracos inimagináveis na memória linguística da pessoa que migra. Uma questão de sinapses que se alucinam no aparelho cerebral quando se muda de língua. Sendo assim, pois que nome tinha aquela flor. O seu rosto estava corado. Era indecente. Como nos lembrávamos que se tratava de carnations? Red carnations? Disse em inglês.
Também o antigo embaixador sentia uma espécie de vexame.
Cravos, claro que eram cravos. How awful, it’s carnations, of course, dear Bob! Pois como não lhe tinha vindo o nome dessa planta à memória? Como não? E nesse instante, rodou a sua cadeira na minha direcção – “Sabe, Miss Machado, se regressar a Lisboa e procurar entre as pedras da calçada miudinha que lá existe por toda a parte, vai ver que ainda encontra os restos dessas flores, a única metralha de que se socorreu o seu povo para derrubar os velhos tipos, e também para se entenderem entre si.»
Lídia Jorge, Os Memoráveis (2014), Leya, Alfragide, 2018, pp. 21-22.

Porto

fotografia: filipe sousa | 23 fevereiro 2025

 





















«Quem percorrer o velho centro do Porto, ao lado do labirinto do antigo burgo medieval, espraiado aqui e além em belas ruas quinhentistas, e seguir depois, para lá desse primitivo núcleo, pelas antiquadas ruas irradiantes, seis, sete e oitocentistas – que representam o povoamento das estradas de acesso às portas da cidade, e o desenvolvimento do seu transbordar inicial além-muralhas -, é de entrada surpreendido apenas pela completa falta de uniformidade das casas que aí se encontram: casas de todos os feitios e tamanhos, cada qual de sua altura e cor, contíguas umas às outras, numa total confusão de formas, que parece condenar a fracasso qualquer tentativa de seriação.
Atentando-se porém um pouco melhor, logo algumas ideias gerais se vão definindo, que introduzem uma certa ordem nesse polimorfismo caprichoso, para lá da aparente diversidade, descobrem-se semelhanças essenciais…(…) vêem-se casas que, embora com um número variável de andares – na sua maioria com três ou quatro, fora os acréscimos, e não raro com cinco e mais, e com duas ou três janelas ou portas de frente, raramente com mais e às vezes só com uma – são todas elas uniformemente esguias, estreitas e altas, desenvolvendo-se, numa palavra, em solução vertical, e mostram um estilo comum de motivos, que afirma o seu parentesco (…)».
Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Gallhano, Arquitectura Tradicional Portuguesa (1992), 5ª ed., Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp. 310-311.

Porto

fotografia: filipe sousa | 23 fevereiro 2025
 

















«Álvaro Siza Vieira – Aqui estamos a ver a outra ponte, a D. Luís, interessantíssima! Esta sim, participa da vida urbana intensamente, não é só uma passagem, tem os dois tabuleiros e fixa, numa imagem, o que foi a grande transformação do Porto, nos finais do século XIX. Transformação que corresponde a uma série de factos: criação de infraestruturas novas e movimentos muito diferentes na cidade.»
Manuel Graça Dias, Ao Volante pela Cidade (dez entrevistas de arquitectura), Relógio d’Água Editores, Lisboa, 1999, p. 230.

Porto, Campo Alegre

fotografia: filipe sousa | 22 fevereiro 2025

 

















Quinta do Campo Alegre (Casa Andresen)
Jardim Botânico / Galeria da Biodiversidade
Porto
22.02.2025

Ela, a miúda do cabelo louro. Com uma cana na mão toca ao de leve na superfície do lago, aspergindo o jardim em volta com breves jactos de água. Fica maravilhada com o efeito produzido. E repete, e repete, sem se fartar. Ele, o miúdo com o mesmo tom palha no cabelo. Alheio ao que se passa à sua volta, indaga o fundo do lago com olhos de falcão. Que sortilégios procurará ele na escuridão, entre as raízes dos nenúfares: um pimpão, um cágado, um tritão, um duende, um anão, um tesouro? Nada disso? O que será então? Esses dois tomados pelo deslumbramento, imagino-os irmãos, primos, amigos, nórdicos, descendentes do Cavaleiro da Dinamarca…. Palavra que quando os vi não pude deixar de lembrar-me de Sophia e Ruben A. e das suas memórias de infância. E de como foram felizes neste mesmo paraíso, num passado já distante, «quando os dias eram compridos e se podia cismar», com os “joelhos deitados abaixo” das inúmeras subidas às árvores, correrias e trambolhões. Um mundo inesgotável de descoberta e encantamento pessoal, que acabou por marcar as obras de ambos e todos os que as leram. Já agora, o que farão as duas crianças louras com o capital de experiência deste dia? Que memórias guardarão para serem revividas, desfrutadas mais à frente? Seguirão as pisadas dos primos Andresen? Escreverão também eles os seus livros, como reflexos e prolongamentos do seu ser, das suas vidas, do seu tempo? Para que outras crianças se possam inspirar com as suas histórias e «aprenderem a aventura / de quebrar horizontes esbarrados / e avançar sem mapas à procura / do corpo e do desenho da verdade»? Este apontamento, tão exacto e veemente, poderá parecer inventado. Mas nunca nada é inventado, como diria Sophia.

«Esta casa desmedida, cheia de gente mas também cheia de lugares vazios e quartos desabitados e fechados, cheia de vozes, silêncios ressonâncias, mistérios, medos e encantações e assombros, aparece, assim como o jardim, o parque, o pinhal e a quinta, em muitos dos poemas e contos que ao longo dos anos escrevi. É a casa de Hans do conto «Saga», o jardim do Rapaz de Bronze. E, múltipla, a casa é também «um dos palácios do Minotauro» de que falo num dos meus poemas. É igualmente esta a casa que o meu primo Ruben A. descreve no seu livro O Mundo à Minha Procura: uma óptima descrição, tão exacta e veemente que poderá parecer inventada. Mas nunca nada é inventado.»

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Memórias de Sophia - Inéditos", Revista Ler, Dezembro 2012, nº 119.

«A casa e a Quinta do Campo Alegre pertencem hoje ao Estado. Aí foi instalado o Museu de Ciências Naturais da cidade do Porto e o Jardim Botânico. Percorri a casa e andei pela Quinta. Agradeço ao seu conservador as facilidades prodigalizadas para que esse mundo fabuloso se vivesse com mais intensidade ao contactar os quartos onde dormi, as salas onde passei natais seguidos, as ruas da Quinta que me conheceram nos fins de tarde, os recantos onde vivi dores de um lirismo exacerbado. Voltar ao Campo Alegre foi para mim qualquer coisa de enorme na vida, mais importante do que ir à Lua, ou andar em órbita à volta da Terra. (…) A ideia da grandeza do Campo Alegre hoje em dia já é difícil de formar para quem não se lembre do que era aquele território no seu apogeu. A mata da Quinta, o souto de castanheiros, os altos muros de camélias, os milheirais em vários andares, os campos, tudo foi sacrificado aos novos urbanismos, à auto-estrada que entra no Porto pela ponte da Arrábida. Para quem viaja de Lisboa, o Campo Alegre é aquele parque imenso que se depara logo à saída da ponte, e de onde sobressai uma construção monumental cheia de alicerces e uma clarabóia que tanta luz me incutiu.»

Ruben A., O Mundo à Minha Procura, vol. I (1964), Assírio & Alvim, Lisboa, 2020, p. 22.

Porto, Serralves

fotografia: filipe sousa | 22 fevereiro 2025

 

















«Álvaro Siza Vieira - Estamos aqui, em frente ao portão da Casa de Serralves, uma casa construída no final dos anos 40, mandada construir por um industrial iluminado, um industrial culto! É uma magnífica residência art déco, com um parque que engloba um jardim clássico, uma mata, instalações agrícolas; isto, em boa hora, foi comprado pelo Governo e aqui vai-se construir, num terreno anexo, o Museu de Arte Contemporânea. Foi uma grande sorte ter-se salvo este parque no meio da cidade; estava, em determinada altura, condenado a ser, parcialmente, loteado. Manteve-se a unidade, o conjunto da quinta, e é também um núcleo de actividade cultural de grande importância.»
Manuel Graça Dias, Ao Volante pela Cidade (dez entrevistas de arquitectura), Relógio d’Água Editores, Lisboa, 1999, pp. 242-243.
«Aqui encontrei o meu porto de abrigo.»
Álvaro Siza Vieira sobre Serralves (revista Visão, 28.10.2023).

Porto, Foz do Douro

fotografia: filipe sousa | 22 fevereiro 2025

 

















«A Foz é para mim a Corguinha, o castelo e o Monte com o rio da Vila a atravessá-lo, e a Rua da Cerca até ao farol. O que está para lá não existe… Só me interessa a vila de pescadores e marítimos que cresceu naturalmente como um ser, adaptando-se pouco a pouco à vida do mar largo. (…)
As casas, limpas como o convés de um navio, espreitavam para o mar, umas por cima das outras. Todas tinham um grande óculo de engonços, para ver o iate ou a barca que partia, ou para procurar ansiosamente, lá no fundo, o navio que trazia a bordo o marido ou o filho ausente, e um mastro no quintal para lhes acenar pela derradeira vez. Meu avô materno partiu um dia no seu lugre; minha avó Margarida esperou-o desde os vinte anos até à morte, desde os cabelos loiros que lhe chegavam aos pés, até aos cabelos brancos com que foi para o túmulo. Quando os rolos de espuma rebramiam no Cabedelo, apertavam-se os corações no peito, e à luz da candeia rezavam horas esquecidas «pelos que andam sobre as águas do mar».»
Raul Brandão*, Os Pescadores (1923), Estante Editora, Aveiro, 1989, pp. 27-28.
*(1867-1930) nasceu na Foz do Douro, onde passou a sua infância e juventude.
«Muita gente vinha do Porto, de madrugada, tomava banho e regressava à cidade. Este serviço era em grande parte feito pelos carroções, um dos mais extraordinários inventos do espírito portuense, aplicado à locomoção. (…)
Além das famílias que iam à Foz de carroção, havia as pessoas que iam em burros. Ao pé de Sobreiras parava tudo para desaguar o gado e para os homens comerem.
Ninguém fazia o trajecto de ida e volta à Foz em menos de seis a oito horas, compreendido o tempo do banho.»
Ramalho Ortigão*, As praias de Portugal – Guia do banhista e do viajante (1876), Frenesi, Lisboa, pp. 33, 37.
*(1836-1915) nascido em Santo Ildefonso, era frequentador assíduo da Foz do Douro.

Vila do Conde, Caxinas

fotografia: filipe sousa | 21 fevereiro 2025

 
















«Começam a vir os nevoeiros compactos, que se metem pelas narinas e cheiram a mar e a fumo. Há-os que têm léguas de espessura e levam dias a passar, coortes desordenadas de fantasmas enchendo todo o horizonte. (...) Cerração cada vez mais mole e espessa... Só a voz se ouve, e o lamento parece vir de mais longe e de mais fundo.»
Raul Brandão, Os Pescadores (1923), Estante Editora, Aveiro, 1989, p. 60.

Porto, Ribeira

fotografia: filipe sousa | 20 fevereiro 2025

 
















(...)
«Ali, o cais da Ribeira, os rostos, as vozes, os gritos, os gestos. Uma beleza funda, grave, rude e rouca. Escadas, arcadas, ruelas abrindo um rosto emergindo do fundo do mar da vida.» (...)
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Nasci no Porto, Memórias de Sophia - Inéditos", Revista Ler, Dezembro 2012, nº 119.

Herdade da Contenda

fotografia: pedro sousa | 23 março 2024

 






















Dispam-se de medos, aversões, superstições ou falsas percepções, como agora se diz, e atentem na beleza deste animal. É um exemplar de víbora-cornuda encontrado no concelho de Moura, com o característico “corno” na extremidade da cabeça e os inconfundíveis “olhos de gato”. Há mais de trinta anos que não havia notícia do seu avistamento na Contenda. Até que o biólogo Pedro Sousa a fotografou no ano passado, no âmbito da sua tese de mestrado*. Convém dizer que, embora possa representar algum perigo por inocular veneno, a probabilidade de encontrarmos uma víbora é muito reduzida e, quando acontece, o mais frequente é o animal fugir, a menos que seja ameaçado. Ainda assim não se livra da perseguição humana, movida por mitos e crenças, que, juntamente com a perda e degradação do habitat, está na origem do seu declínio nas últimas décadas. O seu reaparecimento na Contenda é visto, por isso, como um sinal de esperança nos esforços aí em curso de conservação da biodiversidade. A sua perda, pelo contrário, poderá levar ao declínio de mais espécies ou ao aumento descontrolado de outras, causando efeitos dominó, com impactos no equilíbrio dos ecossistemas.
Aqui chegados, hoje tem início o novo ano chinês, o ano da Serpente, símbolo da sabedoria, intuição, mistério e transformação. Como os chineses, os hindus ainda hoje respeitam as cobras. Algumas tribos africanas têm-nas por deuses, como no Antigo Egipto. Por cá, a realidade é bem diferente, infelizmente para esses seres rastejantes. Entre nós, os répteis e também os anfíbios figuram entre os animais mais odiados do reino animal. Para esta falta de estima contribui certamente a tradição judaico-cristã e a sua influência na cultura popular e no nosso imaginário, apesar dos esforços feitos, nos últimos anos, na área da educação ambiental.
É sobre este terror que as cobras infundem e, curiosamente, sobre as inesperadas semelhanças entre elas e nós que fala Nuno Júdice, falecido no ano passado, num dos seus contos menos conhecidos:

(…)
A cobra escapa a todas estas previsões, fazendo com que nos seja impossível adivinhar o seu percurso - o que, para os que vivem no terror do arquétipo, conduz a imaginar que ela irá aparecer por entre os pés, e enrolar-se no corpo, puxando-nos para o instante fundador da vida, mas desta vez no sentido oposto, como se a fusão com a cobra representasse a absorção da consciência pelo barro animado de que nascemos, até à última perda da nossa diferença. No entanto, se há ser de que sejamos próximos, é ela: e de cada vez que nos encontramos em grupo, falando uns com os outros, nessa comunidade própria da natureza humana, um observador mais atento poderá adivinhar um serpentear de gestos e pensamentos que nasce de cada um, mesmo que ele não se aperceba disso, procurando enlear os outros, fundir-se com eles, ou pelo contrário esperando a melhor oportunidade para os picar, derramando na sua aparência descuidada o veneno que logo sombreia o rosto, provoca uma súbita palidez, muda a direcção das conversas.
Compreendo que a cobra tenha fugido para o interior das dunas, levando com ela estes pensamentos. Admiro-a pela sua capacidade dialéctica, contorcendo-se até ao limite nesse movimento que a relaciona connosco e, quando isso deixa de ser possível, mudando de pele, e começando um novo ciclo, como se partisse do zero, o que nos obriga a reformular todas as crenças, convicções e ideias. O nosso espírito, então, surge-nos como essa areia onde ela se enterrou, e sabemos que um dia voltará a emergir daí, no mesmo movimento inesperado, provocando o sobressalto de quem nos rodeia, até tudo passar, e os hábitos imporem a sua lei. Mas será sempre difícil que nos olhem como dantes, quando o espírito se revelou na sua essência primitiva. O veneno faz parte da sua própria matéria; e não são muitos os que dispõem do antídoto para sobreviverem, intactos na sua fé, às mudanças de pele. (...)

Nuno Júdice, «Manhã», A Ideia do Amor e Outros Contos, 1ª ed., Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp. 163-164.

Bourdeaux / Bordéus, Place de Quinconces

fotografia: filipe sousa | 8 janeiro 2020

 















— Ora a bicicleta resolveu o problema. Remedeia a nossa lentidão e suprime a fadiga. O homem tem agora à disposição todos os meios. O vapor e a electricidade não passam de progressos que serviam o seu bem‑estar. A bicicleta é um aperfeiçoamento do próprio corpo, quer dizer, o seu acabamento. É um par de pernas mais rápidas que lhe é oferecido. O homem e a máquina são um só. Não são dois seres diferentes como o homem e o cavalo, dois instintos em oposição. Não, é um só ser, um autómato feito de uma só peça. Não há um homem e uma máquina. Há só um homem mais rápido.

Maurice Leblanc, Voici des ailes!, 1897, in De Bicicleta, Antologia de textos, trad. José Cláudio, Júlia Ferreira, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2012, pp. 11-12. 

Lagoa da Albufeira

fotografia: filipe sousa | 23 dezembro 2024

 






















«EPIDAURO

O cardo floresce na claridade do dia. Na doçura do dia se abre o figo. Eis o país do exterior onde cada coisa é
trazida à luz
trazida à liberdade da luz
trazida ao espanto da luz (…)»
Sophia de Mello Breyner Andersen, Poemas escolhidos (Geografia, 1967), Círculo de Leitores, 1981, p. 98.

Bourdeaux / Bordéus

fotografia: filipe sousa | 9 dezembro 2024

 

















Soneto do vinho

Em que reino, em que século, sob que silenciosa
Conjugação astral, em que secreto dia
Que o mármore não salvou, surgiu a valorosa
Ideia singular de inventar a alegria?
Com outonos dourados a inventaram. O vinho
Vai fluindo vermelho pelas gerações
Como o rio do tempo e no árduo caminho
Oferece-nos a música, o fogo, os leões.
Na noite jubilosa ou na jornada adversa
Ele exalta a alegria ou suaviza o espanto
E o ditirambo novo que agora lhe canto
Outrora lhe cantaram o árabe e o persa.
Vinho, ensina-me a arte de ver minha história
Como se ela já fosse cinza na memória.
Jorge Luís Borges, O Outro, o Mesmo (1964), Poesia completa, trad. Fernando Pinto do Amaral, Quetzal, Lisboa, 2022, p. 228.

Reserva Botânica da Mata dos Medos

fotografia: pedro sousa | 1 dezembro 2024

 






















«O que será amanhã, evita perguntar; e seja qual for, dos dias possíveis, aquele que a Sorte dará, regista-o como lucro (…)»

Quinto Horácio Flaco (65 a.C. – 8 a.C.), Poesia Completa, texto latino, estabelecido, traduzido e anotado por Frederico Lourenço, Odes, Livro I, frag. 1.9.13-15, Quetzal, Lisboa, 2023, pp. 45-47.

«(…) Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente (…)»

Ricardo Reis, Poesia I, Odes, 16-6-1914, Fernando Pessoa, Obra completa de Ricardo Reis, ed. de Jerónimo e Jorge Uribe, Tinta-da-China, Lisboa, 2024, p. 41.

Mata dos Medos, Arriba Fóssil da Costa de Caparica

fotografia: filipe sousa | 30 novembro 2024

 






















UM DIA

Um dia mortos, gastos voltaremos 
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados, irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais, na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Sophia de Mello Breyner Andersen, Poemas escolhidos (Dia do Mar, 1947), Círculo de Leitores, 1981, p. 19.

Monte da Esperança, Moura

fotografia: filipe sousa | 12 setembro 2023 


















(...)
E também Pisa me incita, donde vêm 
para os homens os cantos outorgados pelos deuses,
quando ao vencedor, cumprindo as ordens antigas de Héracles,
o severo arbítrio etólio coloca, sobre as frontes,
à volta dos cabelos,
o adereço de cor glauca da oliveira, que outrora
de junto das nascentes sombrias do Istro
trouxe o filho de Anfitrião,
como belíssima recordação dos jogos em Olímpia, (,,,)

Píndaro (518 a.C.- 438 a.C), Ode Olímpica III a Terão de Agrigento, vencedor na corrida de cavalos (476 a.C.), frag. 9-15, trad. do grego por Frederico Lourenço, Poesia Grega, Quetzal, Lisboa, 2020, pp. 183-185.