![]() |
| fotografia: filipe sousa | 24 agosto 2020 |
Temi o verão, o tempo. Aproximava-se.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 24 agosto 2020 |
Temi o verão, o tempo. Aproximava-se.
| fotografia: filipe sousa | 27 abril 2020 |
São dessa Safo poetisa da paixão e da natureza, de que nos chegaram sobretudo registos mutilados, os três versos seguintes retirados do seu «O Pomar de Afrodite», bem à medida das fotografias, ou, pensando melhor, que as dispensam ou tornam acessórias, pois que «em nenhum autor grego encontramos uma alquimia tão milagrosa entre o som da poesia e a sugestão visual do respectivo significante» (Frederico Lourenço).
O pomar de Afrodite (fr.2 PLF)
(...)
| fotografia: filipe sousa | 25 janeiro 2020 |
É, por isso, a nossa escolha para assinalar o Dia Mundial da Terra.
«Nos nossos dias, é quase impossível encontrar um recanto da Terra onde a Natureza não tenha já sofrido com a presença do homem.
Muitos povos, transformando o coberto vegetal da biosfera, souberam criar paisagens de grande beleza onde se desenvolveram notáveis civilizações. Nessa paisagens mantêm-se a complexidade biológica indispensável à realização dos fenómenos e relações ecológicas que garantem a presença da Natureza. Uma gestão sábia dos recursos vivos assegura a manutenção da capacidade de regeneração dos mesmos e a fertilidade da terra, de que dependem a existência e o desenvolvimento das comunidades humanas.
Estão incluídos nestas paisagens os agro-sistemas tradicionais que, ainda hoje, ocupam grande parte do território português. Estes sistemas culturais, utilizando solos delgados, constituem uma herança valiosa que importa conservar e desenvolver. a sua estrutura ecológica e funcionamento equilibrado garantem o povoamento e a estabilidade do território bem como um quadro de significativa riqueza biológica.
O mundo moderno que considerou o universo como uma máquina sujeita, por isso, a uma ordem matemática e precisa, procurou dominar e reordenar a Natureza aplicando-lhe os princípios da mecânica. Nasceu, assim, a ideia de um progresso amoral e contínuo a que Darwin, sem o querer, reconhecendo a fatal sobrevivência dos mais fortes e aptos, veio dar alento com a sua teoria sobre a selecção natural.
Estava aberto o caminho para a concretização abusiva das ideias de Adam Smith: o mundo pertence aos mais aptos, isto é, àqueles e às gerações que melhor são capazes de proteger o seu interesse material.
Neste final do século XX, se olharmos para trás, podemos admirar as inúmeras conquistas da ciência, e o avanço da tecnologia, realizadas nos últimos séculos, em prol da humanidade. No entanto, não podemos deixar de verificar que, apesar do progresso, cresceram enormes barreiras, culturais, sociais e económicas, entre povos de diferentes regiões e camadas da população de um mesmo país. Milhões de seres humanos, pertencentes às sociedades consideradas desenvolvidas, têm uma eficaz assistência à saúde, é-lhes garantida uma certa segurança social, podem adquirir um elevado número de bens e enriquecerem-se culturalmente, enquanto muitos outros vegetam, sem dignidade, ao lado ou à distância da abundância, sem esperança de melhores dias, ou, mesmo, morrem de fome e subalimentação, como sucede, tragicamente, em tantas regiões da África, da América do Sul e da Índia.
Esta enorme desigualdade é, em grande parte, consequência da aplicação dum economicismo exacerbado, assente na rentabilização financeira, a curto prazo, dos investimentos.
A eliminação dos biótopos silvestres que permitem as mais variadas formas de vida, e que constituem a estrutura básica das paisagens tradicionais, diversificadas e equilibradas, também contribui para o processo de desertificação e despovoamento que se verifica em muitas regiões do globo terrestre.
A destruição sistemática da Natureza tanto se verifica nos chamados países desenvolvidos como nos de subdesenvolvimento crónico ou, ainda, nas regiões onde a espécie humana, devido a condicionalismos ecológicos, está sujeita a rigorosos limites demográficos. Neste caso, a devastação afecta muitos dos sistemas naturais indispensáveis ao equilíbrio ecológico do nosso planeta.
Os recursos naturais do Terceiro Mundo, facilmente exportáveis, são explorados até à exaustão, dando lugar a efémeras explorações extensivas, agrícolas ou de pecuária.
Em nome do progresso, assistimos na Europa à contaminação das paisagens tradicionais por produtos tóxicos industriais, que degradam a qualidade dos elementos essenciais à vida: o ar, a água e o solo vivo. Os sistemas agro-químicos de exploração da terra têm vindo, no Velho Continente, a provocar a destruição sistemática da variedade e do equilíbrio biológico e das estruturas ecológicas permanentes, que são factores indispensáveis à fertilidade e à riqueza genética do espaço rural.
O modelo de crescimento económico que tem sido seguido em Portugal necessita de um gasto excessivo de energia importada e promove a degradação da Natureza e a simplificação da paisagem.
O crescimento não se traduz, na maioria dos casos, por um desenvolvimento real da sociedade, mas sim pelo aumento do produto nacional bruto, o que só favorece alguns sectores privilegiados da economia e camadas minoritárias da população.
Na sequência do processo, o fundo de fertilidade dos melhores solos aráveis é destruído pelos sistemas agro-químicos, grandes consumidores de energia exterior. As terras menos férteis, onde foram instalados ecossistemas humanizados de significativa riqueza paisagística e biológica, tais como os «montados» e as «bouças», são sistematicamente ocupadas por extensos povoamentos industriais de eucalipto. Estes povoamentos, para além de degradação e provocarem a sua rápida mineralização e erosão, são a principal causa da desertificação e despovoamento do espaço rural, obrigando os camponeses a emigrarem dos campos para os subúrbios das cidades do litoral, onde os espera a marginalidade social e carências económicas e culturais de toda a ordem.
A simplificação das paisagens e a degradação da Natureza, fazendo crescer o afluxo da população rural aos grandes espaços urbanos, provoca o aumento das áreas «betonizadas», devido à construção de edifícios e de vias de circulação, e a «mineralização» dos solos suburbanos, devido à sua ocupação por barracas, resíduos e lixos ou por serem abandonados pela agricultura, em face da expectativa de valorização financeira que sempre atinge os terrenos situados na vizinhança dos centros urbanos. Neste último caso, a Natureza, antes mesmo de chegar o betão, degrada-se e morre porque a agricultura desapareceu.
O espaço urbano alarga-se, indiscriminadamente, à custa dos bens e do capital humano, produzidos e acumulados no sector rural e exportados para as grandes cidades.
As «barracas» miseráveis, alternando com os grandes blocos, «colmeias» de habitações exíguas, alastram por todo o lado como mancha de óleo vazada em tampo de vidro. As ribeiras, as matas e sebes vivas, as hortas são destruídas pelas construções e infra-estruturas. A agricultura e a Natureza são obrigadas a afastarem-se para áreas cada vez mais longínquas onde ainda se faça sentir a valorização especulativa dos terrenos urbanizáveis.
A «mineralização» dos solos das cidades, ainda libertos de construções, pelo excessivo calcamento e deposição de resíduos, e a dos solos agrícolas, devido à «eucaliptização» e agro-química, é um dos aspectos mais graves que afecta, em Portugal, a Natureza.
A imposição do betão no espaço rural, substituindo a pedra dos muros e das casas, a madeira e o granita dos esteios das vinhas, a margem natural das linhas de água, também concorre para a degradação da Natureza, e empobrecimento cultural dos povos. O regime hídrico é alterado com a retirada das areias dos rios para fabrico do betão, com graves prejuízos para os ecossistemas fluviais.
A poluição dos rios, provocada por uma industrialização selvagem, constitui em Portugal um problema ambiental de extrema gravidade, dada a sua repercussão nos sistemas fluviais e estuarinos das bacias hidrográficas e na própria costa.
O futuro dos nossos filhos obriga-nos a defender a paisagem e a procurar aumentar a sua capacidade para a vida em todo o território nacional. Só assim será possível criar as condições que permitem aumentar o bem-estar das populações, quer no espaço rural quer no urbano, e recriar uma paisagem onde a Natureza tenha os eu lugar primordial.
A paisagem do futuro deverá assentar: na produção de bens; na permanência da fertilidade; na preservação da variedade genética e da vida silvestre; na manutenção dos processos ecológicos essenciais à vida, que incluem a manutenção da capacidade de regeneração dos recursos vivos; na conservação da multiplicidade de formas da Natureza.
Esta paisagem deve possuir os atributos do Jardim do Paraíso concebido para o homem.
Na realidade, o Éden é, desde a mais remota Antiguidade, o protótipo ideal da felicidade e plena realização da humanidade. Lugar onde a Natureza, percorrida por águas livres e sussurrantes, adquire, por um lado, a máxima expressão de espiritualidade, beleza, equilíbrio e variedade de formas e, por outro, produz os bens materiais necessários à existência da espécie humana. Compete-nos realizá-lo.
O livro Salvemos a Terra é um valioso contributo para abrir o caminho do futuro, não só porque é um alerta, em face da catástrofe ecológica de que o mundo começa a ter consciência, como também é um instrumento eficaz de informação e de educação para que seja possível uma sociedade mais justa e uma terra onde a Natureza seja amada, respeitada e sabiamente gerida.
Lisboa, 9 de Abril de 1991
Gonçalo Ribeiro Telles
Arquitecto paisagista; engenheiro-agrónomo; professor catedrático da Universidade de Évora; presidente do conselho do Departamento de Planeamento Biofísico e Paisagístico da UE; professor coordenador da Secção Autónoma de Arquitectura Paisagista do Instituto Superior de Agronomia da UTL; ex-secretário de Estado do Ambiente, ex-ministro de Estado e da Qualidade de Vida.»
in Jonathon Porritt, Salvemos a Terra (Save The Earth, 1991), trad. Wanda Viegas, Maria Leonor Cecílio, Livraria Civilização Editora, 1992, pp. 10-13.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 6 junho 2019 |
Graham Greene, no seu Journey without maps, transporta-nos aos anos 30 do século passado, descrevendo uma aterragem no Tempelhof.
«O avião oscilava sobre Hanover, ainda empurrado por uns restos de temporal, afundou-se de repente uns cento e cinquenta metros em direcção da pequenina aerogare e elevou-se de novo para Leste. Atrás do aparelho o pôr-do-Sol alongava-se pelas nuvens, que tomavam cores pálidas em sulcos compridos. Por cima dos lagos o ar era plúmbeo, e a água parecia enterrada no chão, semelhante a rodelas de chumbo. Aqui e além as luzes das aldeias. Anoitecera muito antes de se chegar a Berlim: a cidade veio ao encontro do avião, através do negrume, como um archote, línguas de fogo saídas da noite pesada. As tabuletas luminosas eram do tamanho de estampilhas; podia-se ver todo o traçado da cidade, como nos mapas do metropolitano quando se carrega no botão para verificar o percurso. O enorme rectângulo de Tempelhof estava marcado a vermelho e amarelo. O aparelho inclinou-se sobre Berlim, deu uma volta e desceu; apagaram-se as luzes do interior, os faróis varreram a pista asfaltada, viram-se clarões atrás da asa parda do Lufta Hansa quando o trem de aterragem tocou o solo e deslizou. Rápida e feliz sensação! Na terra, porém, entre as cruzes suásticas, notava-se a dor a cada quilómetro percorrido.»
Graham Greene, Jornada sem mapas (Journey without maps, 1936), trad. Cabral do Nascimento, Editorial Minerva, Lisboa, 1964, p. 34.
| fotografia: filipe sousa | 11 março 2020 |
E as "dama" sozinhas de Angola (que não constam do cartaz!), com vidas destroçadas, habitantes dos limites da vida?
«Teresa Chilambo, 35 anos, o marido morreu na guerra, são quatro pessoas em casa, ganha a vida com a lenha;
Alice Vissopa, 49 anos, cria quatro órfãos cujas mães faleceram e cujos pais, um foi para a mata e outro morreu na mina; tem uma pequena lavra;
Joaquina Ngueve, 31 anos, teve dois maridos, um desapareceu há quinze anos, o outro está em Luanda há dois anos, tem sete filhos e vive de vender bebidas fermentadas;
Adélia Jepele, 35 anos, o marido faleceu por doença há três meses, tem seis filhos, vive vendendo fuba;
Jacinta Vondila, 45 anos, o marido faleceu há três anos por doença, cinco filhos, vive de lenha;
Firmina Susso, 40 anos, o marido faleceu na guerra há cinco anos, quatro filhos, vive de lenha;
Clementina Chova, 24 anos, o marido está preso há três anos em Luanda, dois filhos, vive de lenha;
Maria de Fátima, 27 anos, dois maridos, o primeiro faleceu em emboscada, o segundo está com outra senhora em Benguela, três filhos vive de lenha;
Margarida Jondo, 43 anos, o marido faleceu há três anos por doença, quatro filhos, vive da lenha;
Teresa Chicumbo, 24 anos, o marido foi para a tropa há quatro anos e não deu mais notícia, três filhos, vive da candonga;
Maria da Natividade, 30 anos, o marido morreu na guerra, cinco pessoas em casa, vive da candonga;
Flora Massanga, 32 anos, teve três maridos, o último está no Lobango com outra, cinco pessoas em casa, tem uma lavra;
Joaquina Chacuvala, 39 anos, teve dois maridos, um faleceu de doença, outro na guerra, sete pessoas em casa, vive da candonga;
Regina Negueve, 24 anos, teve um marido que foi para o Lubango há três anos, vive com outras cinco pessoas em casa, tem lavra;
Josefa Chissuva, 59 anos, o marido faleceu com doença, cria dois órfãos cujos pais faleceram na guerra, vive da lenha;
Madalena Salassa, 35 anos, o marido faleceu na mina, cinco pessoas em casa, vive da lenha;
Maria Nagueve, 50 anos, dois maridos, um está na UNITA, o segundo tem outra mulher, cria dois órfãos cuja mãe faleceu com doença e cujo pai foi para Luanda com outra, tem lavra;
Margarida Naombo, 60 anos, o marido é cego, cria três órfãos cuja mãe faleceu num ataque e cujo pai tem outra, vive da lenha;
Celestina Cuvanja, 69 anos, o marido faleceu com doença, cria três órfãos, a mãe foi com outro e o pai faleceu;
Evalina Dumala, 63 anos, o marido faleceu com doença, cria quatro órfãos cuja mãe faleceu com doença e cujo pai foi para a tropa, vive da lenha...
Em Setembro de 1992, o Centro de Saúde da periferia de Huambo convidou as «mães sozinhas» residentes na área a recensearem-se. Em duas semanas, acorreram 693. O Centro servia uma população de cerca de 70 mil pessoas, o que representaria cerca de 12 mil famílias. Cinco em cada cem, portanto, seriam «mães sozinhas». «Vieram das aldeias para a periferia das cidades, principalmente por razões de insegurança física. Vieram com os maridos ou juntaram-se já na cidade», explicou na sua edição de 11 desse mês o Jango, com a lista de nomes. «Depois os maridos desapareceram: uns morreram de doença, os mais pela guerra; outros emigraram de novo para outras cidades mas sem a família; alguns escolheram outras mulheres - e elas ficaram sozinhas, mais os filhos. Não sabem ler, não têm profissão, conhecem apenas como trabalhar as terras, mas não têm terras. Saíram das aldeias que foram queimadas, destruídas, perderam os laços sociais (familiares e comunitários) que as enquadravam, juntaram-se a outros homens, párias semelhantes. Agora eles foram e elas, só com os filhos, nada mais têm, nem mesmo existência legal.»»
Pedro Rosa Mendes, Baía dos Tigres, 3ª ed., Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, pp. 347-349.
![]() |
| fotografia: Filipe Sousa | 6 julho 2009 |
Cheguei a Siena, vindo de Roma, no final de uma tarde quente de Julho de 2009, depois de atravessar de comboio as belas paisagens da Toscânia. Entrei pela Porta Ovile, a tempo de ver a cidade com luz natural e captar, num desenho, a Piazza del Campo, aquela que Montaigne descreveu, no século XVI, como «la più bella che si vedda in nissuna altra città». Enquanto o desenho fluía, surgiram, em pano de fundo, as palavras inspiradas de Cecília Meireles, que também se perdeu de amores por Siena quando aqui esteve em 1953.
«…a Piazza del Campo – em forma de concha, cercada de soberbos palácios,
com muitas ruas desembocando por todo o lado e a solitária Torre del Mangia
varando o tempo (…), onde outrora, como os muezins, nas mesquitas, um homem
chamado Mangia vinha anunciar as horas… (…) Siena, a rival de Florença, não se
pode descrever facilmente. Florença é clara, quase linear e translúcida, -
comparada a esta cidade tão medieval, de uma ruiva tonalidade, que faz pensar
em ouro, sangue, ferrugem, e em cujas ladeiras e esquinas não se pode deixar de
ver o perfil das antiquíssimas guerras. (…) Com o meu panforte me vou por estas ruas de Siena, que sobem e descem, em
pedras, degraus, ladeiras, encruzilhadas, por entre palácios fechados, de
suntuosas fachadas. Ai, não fosse a vida esta urgência! Pudéssemos nós ir
sempre subindo e descendo estas ruas, estas escadas, sem fome, sem cansaço, sem
hora certa, puramente em alma!...»
Cecília Meireles, «Da ruiva Siena» in Crônicas de viagem 2 (1953), reimpr. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999, pp. 55-58.
![]() |
| fotografia: 30 novembro 2008 |
UM HOMEM NA CIDADE

fotografia: filipe sousa | 22 setembro 2020
«Com Elisabeth muito encostada a si, no extremo da amurada, afastados dos outros passageiros, Juvenal recordava a noite já longínqua, fim de ano alegre em que ele viera para a baía, não banido, como agora, mas curioso de ver quanto fogo-de-artifício se queimava em honra de S. Silvestre.
Era velho costume da ilha saudar o ano nascente e fazer ao morto coruscantes funerais com uma festa pirotécnica. Antes mesmo de cair a meia-noite sobre o último santo do calendário, portas e janelas da cidade, fossem de vivendas modernas, de antigos e austeros palácios ou de pobres casebres, começavam a esparrinhar fogo na grande encosta, enchendo a escuridade de lumaréus, fogachos rabiantes, rútilas serpentinas, jactos de luz que se cruzavam, derramando estrelas e lágrimas, flamas de vida errante e efémera, dando sempre lugar a outras, a muitas outras, que se entrançavam com todas as cores do arco-íris e se perdiam num espectáculo demoníaco, fantasmagórico e inesquecível. Tudo ardia, tudo fulgurava; já não existia a noite; já não existia a terra; vivia-se num outro mundo, um mundo de fogo crepitante, que arremessava estilhaços de constelações e de astros, por entre os quais vagueavam serpentes vermelhas e caíam, lentamente, lentamente flores extravagantes, pétalas rubras, como se se estivessem a desfolhar os inesgotáveis jardins do céu. A noite era uma apoteose aos génios do mar. (...)
O «Guiné» afastava-se da baía do Funchal e, agora, abrangia-se melhor a encosta povoada de focos luminosos e cada vez mais fantástica na noite atlântica.»
Ferreira de Castro, Eternidade (1933), 15ª ed., Cavalo de Ferro, Amadora, 2020, pp. 266, 270.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 9 novembro 2019 |
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 25 junho 2014 |
Eu
gosto muito de vinho
Não
o posso dispensar
Quando
estou de bebedeira
O
meu destino é cantar
Se
queres que eu cante bem
Dá-me
gotinhas de vinho
O
vinho é coisa santa
Faz
o cantar miudinho
És
filho da cepa
Neto
do velho cacho
Não
me subas à cabeça
Desce
por aqui abaixo.
Recitado por Joaquim Leandro Grosso (mestre Minuto).
![]() |
| fotografia: filipe sousa | dezembro 1993 |
««Chó, recruta, que fala o cabo. Mulas é preciso conhecê-las e saber levá-las aonde se quer. Há animal desses que se agarra a um arado que nem o boi mais valente. E para cavalgar no cascalho? E para acarretar esterco, lenha ou seja o que for?» Empinado sobre os companheiros, Três-Dezasseis conta que se não fossem as mulas nunca a gente de Álvaro poderia governar-se. «Sem as mulas, metade da minha terra andava com a outra metade às costas...Faço-me compreender?» Os recrutas aceitam, compreendem. Pelo que lhes chegara ao conhecimento do passado do cabo, Álvaro ficava nas voltas do penhascos da raia onde só as bestas de carga conseguiam chegar. Burros e mulas - as mulas, sobretudo, que são animais castigados e servo do pobre, embora rancorosos. Mas pode haver pior sorte do que ser criado do pobre? Haverá? Daí o ódio das mulas - destas da tropa ou de qualquer outro dono. Lá andam por Álvaro, coitadas; lá as vamos achar abrindo lume na rocha com os cravos das ferraduras, mergulhando em valados de tojo ou batendo trilhos de contrabandistas. E são bichos úteis, valiosíssimos, ainda que, como sabemos, alimentados de rancor.»
José Cardoso Pires, O hóspede de Job (1963), 2ª ed., Editora Arcádia, Lisboa, 1964, pp. 27-28.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 25 janeiro 2020 |
«Entretanto, D. Quixote solicitou a um lavrador seu vizinho, homem de bem - se é que este título pode ser dado a quem é pobre -, mas de pouco sal na moleirinha. Em resumo, tantas coisas lhe disse, tanto procurou convencê-lo e tais promessas lhe fez que o pobre aldeão decidiu ir com ele para lhe servir de escudeiro. Dizia-lhe, entre outras coisas, D. Quixote que ele acedesse a acompanhá-lo de boa vontade, porque nalguma ocasião lhe podia acontecer ser vencedor de uma aventura em que conquistasse, num abrir e fechar de olhos alguma ínsula e o nomeasse o governador dela. Com estas promessas e outras semelhantes, Sancho Pança, que assim se chamava esse lavrador, deixou a mulher e os filhos e comprometeu-se a servir como escudeiro o seu vizinho. Em seguida D. Quixote procurou arranjar dinheiro e, vendendo uma coisa e empenhando outra, e malbaratando todas, reuniu uma quantia considerável. Muniu-se também de uma rodela, que pediu emprestada a um amigo, e consertando o melhor que pôde a celada que se rompera, avisou o seu escudeiro Sancho Pança do dia e da hora em que tencionava pôr-se a caminho, para que ele se fornecesse do que considerasse mais necessário. Sobretudo, mandou-o levar alforges; e ele disse que os levaria e que também tencionava levar um burro que tinha, muito bom, porque não estava afeito a andar muito a pé. Quanto ao burro, D. Quixote meditou um pouco, para apurar se se lembrava de algum cavaleiro andante ter já trazido um escudeiro montado asnalmente; mas não lhe veio nenhum à memória; porém, apesar disto, resolveu que Sancho o levasse, com o propósito de o dotar de mais honrada cavalaria quando houvesse oportunidade para isso, tirando o cavalo ao primeiro cavaleiro não cumpridor dos preceitos de cavaleiro que viesse a encontrar.»
Miguel de Cervantes, O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha (El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha, 1605), trad. José Bento, Relógio d'Água Editores, 2005, parte I, cap. VII, p. 72.
![]() |
| fotografia: filipe Sousa | 12 março 2020 |
«Normalidade são armas e a América normal que realmente quer ser novamente grande. Depois há outra normalidade se a pele da pessoa é da cor errada e outra se tem instrução e outra ainda se acha que a instrução é lavagem ao cérebro e há uma América que acredita nas vacinas para as crianças e outra que diz que é uma vigarice e tudo aquilo em que uma normalidade é mentira para outra normalidade e todas elas estão na televisão conforme o sítio para onde se olha, de maneira que sim, é confuso. Estou a tentar a sério perceber qual dos istos é agora a América. Zap zap zap. Um homem com a cabeça num saco a ser morto por um homem de camisa despida. Um homem gordo de chapéu vermelho a berrar a homens e mulheres também gordos e também com chapéus vermelhos sobre a vitória, Temos pouca instrução e comemos de mais. Estamos cheio de orgulho por sabe-se lá que porra seja. Vamos às urgências de carro e mandamos a nossa Avozinha ir buscar as nossas armas e cigarros. Não precisamos da merda de aliados porque somos estúpidos e podem chupar nesta. Somos Beavis e Butt-Head sob esteroides. Bebemos Roundup pela lata. O nosso presidente parece um presunto de Natal e fala como Chucky. Somos a América, cabrão. Zap. Imigrantes a violarem todos os dias as nossas mulheres. Precisamos da Força Espacial por causa do Estado Islâmico Espacial. Zap. A normalidade é a Terra de Pernas para o Ar. (...)
Talvez, segundo a minha ínsula, seja assim que as coisas são nesta altura na América: que para alguns de nós o mundo tenha deixado de fazer sentido. Tudo pode acontecer. O aqui pode ser além, o então pode ser agora, o cimo pode ser o fundo e a verdade pode ser mentira. Está tudo a deslaçar e não há nada a que nos possamos agarrar. Rebentou tudo pelas costuras. Para alguns de nós, que começaram a ver aquilo que os outros são demasiado cegos para ver. Ou estão demasiado apostados em não ver. Para eles, é deixar andar, tudo como dantes, a Terra ainda é plana e ainda não há alterações climáticas. Lá em baixo na rua, há carros cheios de deixa-andares a circular, os peões deixa-andar vão para o trabalho, o fantasma de Woody Guthrie caminha pela sua fita de autoestrada a cantar esta terra foi feita para ti e para mim. Nem Woody ouviu as notícias do fim-do-mundo.»
Salman Rushdie, Quichotte, trad. J. Teixeira de Aguilar, Publicações Dom Quixote, Alfragide, 2019, pp. 177-178, 184-185.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | outubro 2012 |
«Abre a romã, mostrando a rubicunda
Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes;
Entre os braços do ulmeiro está a jucunda
Vide, c’uns cachos roxos e outros verdes;
E vós, se na vossa árvore fecunda,
Peras piramidais, viver quiserdes,
Entregai-vos o dano que cos bicos
Em vós fazem os pássaros inicos.»
Luís de Camões, Os Lusíadas,
canto IX, LIX, (1572), introdução, notas e vocabulário de António José Saraiva,
2ª ed., Livraria Figueirinhas, Porto, 1999, p. 380.
«A romãzeira está brava, assaltada por
legiões de formigas. Apesar disso, cabe-lhe a homenagem, porque, nesta
época do ano e nesta desolada terra, é a única exclamação da Natureza. Árvore
bravia, de sombra rendilhada, que já foi sumo e que hoje fica na flor: à volta
não vejo senão pedras e formigas, restos de comida e cães à espera dos donos. E
no meio, ela. Ela, enchendo a página, com um herbário escolar, com a folhagem
tatuada de injúrias (do Velho), caprichos de interrogações nas flores,
pontinhos a formigar. É um cântico de vermelho exposto ao sol outonal, esta
árvore, e sustenta nos braços cor de cobre toda uma abóbada de chagas em
alegria. Tem, para finalizar, a inestimável utilidade da beleza - coisa
importantíssima.»
«Estou nas traseiras da pensão e este é o quintal da
romãzeira selvagem com os exércitos de formigas que a cobrem e com toda a
poesia das suas chagas em flor.»
José Cardoso Pires, O Delfim (1968), 2ª edição booket, Publicações Dom Quixote, 2008, pp. 106, 161.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 22 setembro 2020 |
«Antes da guerra (o porto do
Funchal) via entrar, em média, 1419 navios por ano, correspondendo a 10.261.000
toneladas. O pavilhão inglês vinha em primeiro lugar com 558 navios e 5.730.000
toneladas, ou seja 56 p. 100 do movimento total. A Alemanha ocupava o segundo
lugar com 19 p. 100, Portugal o terceiro com 9 p. 100. (…) Funchal era o
segundo porto português com 35 p. 100 da tonelagem do conjunto dos portos do
continente e das ilhas, Madeira e Açores. Detinha três quartos da tonelagem dos
dois arquipélagos.
A guerra naturalmente veio
provocar uma crise profunda. Em 1946, o porto do Funchal apenas foi visitado
por 327 navios correspondendo a 1.466.000 toneladas, o que significa que o
movimento caiu a 23 por 100 quanto ao número de navios e a 13 p. 100 quanto à
tonelagem em relação ao período antes da guerra. (...)
Com a guerra, a economia da
Madeira sofreu muito devido ao encerramento de vários mercados de consumo dos
seus melhores produtos, tanto mais que esses mercados não se reabrem senão
muito lentamente. A exportação de vinhos e bordados não atinge o nível de antes
da guerra. Para outros produtos, como as bananas, Portugal tornou-se o único
comprador. (...) A produção de certos produtos agrícolas (primores, cebolas)
escoa-se para os mercados tradicionais da América e os bordados são vendidos
nos Estados Unidos e no Brasil. Todavia, a crise subsiste para o comércio dos
vinhos. No mundo conturbado do após-guerra, estes produtos de qualidade já não
têm o mesmo lugar que tinham.»
Orlando Ribeiro, A Ilha da Madeira até
meados do século XX - estudo geográfico (1949), 2ª ed., Instituto de
Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, 1985, pp. 128-129.
«Chovia
na Madeira. Às dez da manhã os corretores enxameavam a conhecida e acanhada
cidade. Tomava-se vinho generoso no Golden Gate, a chuva escorria dos barretes
fálicos pendurados à porta das lojas. Os cicerones usavam chapéu de palha e
fita azul, e perseguiam a gente através de todo o Funchal; não desanimavam um
segundo pelo facto de estar a chover. Falavam de luxe, de sex,
e de qualquer coisa relativa a dancing girls. Como a do senhor
Beverly Nichols, a sua indústria estribava-se na procura de paraísos
artificiais. Depressa, depressa, o desembarque é só por meia hora, o vigor da
mocidade não dura sempre, arranje outra rapariga antes que seja tarde: não foi
feliz com a que escolheu, experimente mais uma. As floristas vendiam violetas,
açucenas e rosas, debaixo de chuva, as carapuças fálicas pingavam, os cicerones
não compreendiam que se não quisesse uma mulher logo depois do primeiro almoço,
em dia pluvioso. Havia outras formas de matar o tempo: tomar vinho no Golden
Gate, voltar para bordo e ler Lady Eleanor Smith e o senhor
Beverly Nichols.
Entraram no navio mais dois passageiros, que tinham comprado bilhetes sem direito a acomodação: um moço artista e sua mulher, ambos alemães. Autorizaram-nos a dormir na enfermaria. Ele era forte e sardento e vestia casaco de bombazina; conhecera D. H. Lawrence em Taos e Mabel Dodge Luhan, o que lhe não fazia diferença nenhuma, pois não tencionava escrever a este respeito. Na enfermaria dispôs as suas telas, paisagens toscas, realistas, e caras tisnadas de mexicanos. Escurecia. Bebeu-se mau vinho da Madeira e o artista discorreu sobre desporto e beleza corporal; a mulher, pequenina, cheia de curvas, condescendente e simpática, estava enjoada e não abria a boca. O homem acreditava em Hitler e no Nacionalismo, apreciava o amor e a natação, assim como as pinturas de Orpen e De Laszlo, porém as de Munke já não o satisfaziam, não tinham alma, declarou, eram materialistas – mas não que ele descresse do Corpo, da Beleza corporal e do Amor físico. Agradava-lhe a ideia de ir também a África e ilustrar o livro que eu escrevesse. Um artista estava à vontade em toda a parte. Todavia, depois do jantar, mudou de opinião; e a sua companheira, suave e condescendente, que declarara «não se importar de ir a África», mudou também de parecer em seguida ao jantar. Era mau pintor, mas sem falsidade. Vivia de quase nada; cria em si e nas suas confusas ideias teutónicas.»
Graham Greene, Jornada sem mapas (Journey without maps, 1936), trad. Cabral do Nascimento, Editorial Minerva, Lisboa, 1964, pp. 22-24.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | outubro 2005 |
«Os faróis são também um legado mediterrânico, que é preciso evitar entregar exclusivamente às autoridades administrativas, costeiras ou marítimas. São em geral classificados de acordo com a sua idade e a sua grandeza, com a maneira como são construídos e com os locais em que se situam: molhes, ilhéus, cabos, promontórios. Há também a considerar o modo como o mar os cerca, até que ponto estão isolados, quais as suas ligações com os portos mais próximos, se aspiram a tornar-se portos eles mesmos e, finalmente, para quem, na rota de que navio, lançam os seus feixes luminosos (diz-se, também, num registo sentimental, que a sua luz é pálida, intermitente, nostálgica, etc). Nem pensar em dissertar sobre as razões que levaram certos faroleiros a optar por viver na solidão, iluminando o mar. Aos faróis cabe um lugar respeitável nas cartas marítimas de grande formato, e também os náufragos os não omitem nas suas memórias: os mediterrâneos não brilham pela sua extrema gratidão, embora tanto prometam, e mais ainda quando exprimem os seus agradecimentos (note-se em sua defesa que eles mesmos acreditam em tais promessas no momento em que as fazem). Os faroleiros, que mais se aparentam a monges de antigos mosteiros que a marítimos, não esperam de parte alguma espécie de agradecimento. Às vezes é a eles que se dedica um quadro nas casas dos que perderam um parente próximo no mar: o ex-voto é uma fé popular e pagã, com santuários espalhados pelo Mediterrâneo.»
Predrag Matvejevitch, Breviário Mediterrânico (1987), trad. do francês Pedro Tamen, Quetzal Editores, Lisboa, 2019, p. 52.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 19 setembro 2020 |
Orlando Ribeiro, A Ilha da Madeira até meados do século XX - estudo geográfico (1949), 2ª ed., Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, 1985, pp. 63-66.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 18 setembro 2020 |
«As concreções calcárias da Ponta de S. Lourenço mostram que existiu uma drenagem de certa importância em direcção ao Sul; porém, as cabeças dos barrancos foram decapitadas pela abrasão da costa setentrional. Observam-se ali arribas absolutamente verticais e até mesmo desaprumadas. Durante as tempestades, as vagas quebram-se com fragor contra esta muralha rochosa. (…) A aridez aparente da Ponta de S. Lourenço (…) deve-se menos à sua situação oriental do que ao seu fraco relevo. (...) Os exploradores abordaram a ilha pelo Leste, depois de terem dobrado a Ponta de S. Lourenço.»
Orlando Ribeiro, A Ilha da Madeira até meados do século XX - estudo geográfico (1949), 2ª ed., Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, 1985, pp. 24, 46.
![]() |
| fotografia: filipe sousa | 15 setembro 2020 |