Κέρκυρα / Kérkyra / Corfu

fotografia: filipe sousa | 17 junho 2023

 

















Dia 5 - Ilha de Corfu (cidade de Corfu)
Acordo com o apito de um navio de cruzeiro a ecoar na cabeça, que me faz saltar da cama para a marginal de Corfu. Por muito grande e atenta que seja a deambulação exploratória, como é a minha, em vão se procuram traços gregos na arquitectura da cidade de Corfu. Em vez do habitual casario térreo cubista desalinhado e padrão cromático azul e branco característico de muitas das ilhas helénicas, aqui vigora o estilo veneziano, fruto da presença da Sereníssima na ilha durante mais de quatrocentos anos (de 1386 a 1797), bem visível nas suas casas altas apalaçadas, de fachadas com molduras e combinações harmoniosas de ocre e rosa. Para não falar das antigas fortalezas, também elas de feitura veneziana, decisivas para proteger a cidade dos frequentes ataques turcos no passado, e que possibilitam hoje excelentes vistas sobre a cidade, a baía de Garitsas e as montanhas da Albânia, do outro lado do estreito. Isto para quem quiser dar-se ao trabalho de subir o morro até ao farol ou ao topo onde se ergue uma enorme cruz de ferro, bem entendido. Há ainda redutos em que são notórias influências francesas, como os edifícios com galerias junto à Esplanada central ou o bonito largo onde se encontra a principal Igreja da cidade, consagrada a Santo Espiridão. Acabo de chegar ao largo, a tempo de assistir a uma missa segundo o rito bizantino.
Mas se a arquitectura é, no essencial, veneziana, o ambiente que se vive em Corfu prima por ser cosmopolita. Foi assim no passado; é assim no presente. Por exemplo, nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, convergia para aqui uma fauna de refractários, excêntricos e abonados do mundo inteiro à procura do seu Paraíso, o que quer que isso fosse. Muitos vieram por pouco tempo; e muitos acabaram por ficar uma vida ou grande parte dela. Como aconteceu com os Durrell (para quem viu a série ou para quem é leitor de Lawrence Durrell, o autor do Quarteto de Alexandria, sabe do que estou a falar).
Hoje em dia, as esplanadas enchem-se sobretudo de nórdicos e ingleses que chegam para viver, por breves horas que seja, os prazeres da cidade, sobretudo passageiros em trânsito dos navios de cruzeiro. Há também uma elite de jovens abastados - indicam-no a roupa de marca que vestem e os perfumes caros que emanam -, que aqui encontra bons motivos de diversão. Basta percorrer a baixa da cidade numa sexta-feira ou sábado à noite para confirmar que Corfu se transformou numa Meca para uma certa juventude de latitudes mais a norte, ávida de céu e mar azul, que aqui pode dar largas ao seu desejo de viver a vida fora de casa, mas não tão longe assim que a faça temer pela sua segurança. Privilégio de quem nasceu deste lado do mundo.
Enquanto peço um café na Esplanada e constato que há poucos jovens na rua – com certeza estarão ainda a dormir depois de uma noite de folia -, não duvido que um Durrell tenha estado exactamente onde estou agora, recolhendo impressões para a sua escrita.
Abro o livro que trago comigo, titulado Corfu, e a descrição de Robert Dessaix ganha subitamente uma dimensão real:

«Caminhei lentamente com a multidão em direcção à cidade que ficava na colina, com os olhos postos na fabulosa cidadela veneziana elevando-se do mar num amontoado rochoso à minha direita. E sobre o topo das suas muralhas, proclamando a morte e ressurreição de Jesus aos infiéis na Albânia para lá do estreito, erguia-se a cruz mais ostensiva e monstruosa da cristandade. (...)

Não há nada de grego na cidade de Corfu. De facto, essa é provavelmente a razão por que muitos estrangeiros a acham tão atraente. É uma cidade veneziana, um labirinto de ruas estreitas pavimentadas por paralelepípedos entre duas sólidas fortalezas venezianas. Ao fim e ao cabo os Venezianos estiveram aqui mais de quatrocentos anos. Ao longo do cume dos penhascos, entre o Forte Velho, sobressaindo em direcção ao mar com a cruz ao topo, e a elegância das colunatas da velha cidade, há uma faixa de parque, resplandecente de árvores-da-Judeia violáceas na altura da Páscoa, onde os Corfiotas gostam de passear em grupos barulhentos e de vez em quando jogar críquete. (...)

...fiz o que as pessoas com tempo para gastar fazem em lugares estranhos: sentei-me a uma mesa debaixo dos arcos de frente para o parque (mais Paris do que Veneza, na verdade, esta faixa de cafés, construídos pelos Franceses para se lembrarem da rue de Rivoli), pedi um café e comecei a escrever um postal. Era aqui que, no tempo de Durrell antes da Segunda Guerra Mundial, todos se juntavam (todos bem vestidos, ou seja, todos com dinheiro no bolso para se escandalizarem uns aos outros com bocados de bisbilhotices sumarentas. Talvez o façam ainda em momentos mais tranquilos, mas nesse dia as mesas estavam atravancadas com Atenienses exageradamente vestidos, para não referir as hordas de Dinamarqueses e Holandeses imponentes.»

Robert Dessaix, Corfu (Corfu, 2001), trad. Ana Teresa Castro, rev. lit. Maria da Piedade Ferreira, editora Gótica, Algés, 2004, pp. 41-42.     

Ιόνιο Πέλαγος / Mar Jónico

fotografia: filipe sousa | 16 junho 2023

 

















Dia 4: Igoumenitsa-Ilha de Corfu
O ferry zarpa do porto de Igoumenitsa com a proa apontada à ilha de Corfu. São dezoito milhas náuticas entre um ponto e outro, no mar Jónico, que se vencem em uma hora e meia de tranquila navegação. Uma viagem de sonho, por que esperei a vida inteira.
À medida que os contornos das ilhas de Paxos e Antípaxos, à esquerda, se vão esfumando na distância, a costa leste de Corfu e as montanhas albanesas começam a desenhar-se no horizonte, num crescendo de nitidez. Mais a sul, fica o penhasco da ilha de Lefkada, de onde Safo saltou para a eternidade. E mais a sul ainda, adivinha-se Ítaca, com a sua aura de lenda homérica.
Entretanto, o tempo dá sinais de querer mudar de novo. Céu e mar fundem-se na mesma cor de chumbo e a chuva é uma inevitabilidade à entrada da cidade de Corfu. Tornando os ocres e os rosas dos edifícios venezianos ainda mais brilhantes, como numa pintura renascentista.
A partir do momento em que piso a ilha, sei que tenho dois dias bem contados para pôr o meu plano em prática: visitar o Achilleon, o palácio de Elisabeth, imperatriz da Áustria, mais conhecida por Sissi, deambular pela cidade de Corfu, na peugada dos Durrell, visitar a Casa Branca onde viveram e também Paleocastrizzia e Kassiopi, conhecer algumas praias paradisíacas, banhar-me nas suas águas transparentes, cor de safira, e abraçar as oliveiras colossais da ilha, convocando Edward Lear e as suas aguarelas. Como alguém disse: estar em Corfu ultrapassa o estado de felicidade; é a ventura absoluta! A descrição de Lawrence Durrell não podia ser mais apropriada à ocasião:

«(...) à frente do navio está a terra e à direita a corcova duma ilha. A ilha é fácil de identificar - aquelas montanhas imponentes, polidas como peças de fruta numa loja, são albanesas. São grandes e calvas, com as cores quentes que o sol lhes dá ao elevar-se com esforço por cima dos ombros delas para brilhar sobre o mar. Corfu jaz como uma foice pousada junto aos flancos do litoral continental e forma uma baía grande e tranquila que se estreita em ambas as extremidades, de modo que as marés espremem-se e acalmam-se ao entrarem nela. (...) gradualmente o canal principal torna-se visível, e com ele o antigo farol veneziano que indica os baixios. Agora o navio vira abruptamente, com se rodasse nos calcanhares, e aponta a sul, deixando a Albânia à sua esquerda. À direita é o canal, tão estreito que as primeiras aldeias estão, ou parecem estar, apenas a umas centenas de metros de distância. De facto, no seu ponto mais estreito, o extremo norte de Corfu está separado da Albânia apenas por dois quilómetros de mar.»

Lawrence Durrell, As Ilhas Gregas (The Greek Islands, 1978), trad. Carlos Leite, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2016, pp. 21-22.     

Ηγουμενίτσα / Igoumenitsa

fotografia : filipe sousa | 16 Junho 2023

 

















Dia 4: Tessalónica - Igoumenitsa
Quatro horas e meia, o equivalente a trezentos e vinte quilómetros, foi quanto o autocarro demorou para ligar o mar Egeu ao mar Jónico, o mesmo é dizer Tessalónica a Igoumenitsa, cruzando as regiões de Macedónia e Epiro. Um percurso montanhoso, ora atravessando túneis ora sobre as nuvens, com a morada dos deuses à esquerda (Olimpo) e a dos ursos-pardos à direita, a julgar pelo número invulgar de sinais de trânsito que nos alertam para a sua presença ao longo de florestas a perder de vista.
Sob chuva tocada a vento, às vezes copiosa, vi-me grego para chegar ao destino, perto da fronteira entre a Grécia e a Albânia. Só descansei na descida para Igoumenitsa, com a aparição das primeiras oliveiras e dos primeiros raios de sol.
Nada comparável com a tormenta que Ulisses enfrentou, instigada pelo irascível Poseidon, e o fez naufragar não longe daqui, junto à ilha dos Feácios.
É para lá que me dirijo agora, a bordo do ferry Corfu Spirit.

«Durante dezassete dias naveguei sobre o mar;
no décimo oitavo dia apareceram as montanhas sombrias
da vossa terra: alegrou-se à sua vista o coração deste homem
malfadado: pois na verdade eu estavas prestes a sofrer algo
de terrível que contra mim mandara Posídon, Sacudidor da Terra.
Agitou os ventos, assim atando o meu percurso; encrespou
o mar de modo indizível, a ponto de as ondas não deixarem
que eu fosse levado, gemendo sem cessar, pela jangada,
que seria despedaçada pela tempestade. Mas eu atravessei
a nado o grande abismo do mar, até que atingisse
a vossa terra, levado pelo vento e pelo mar.
Mas ao tentar sair da água, as ondas atiravam-me contra a costa,
contra os grandes rochedos, sítio que nada tinha de aprazível.
Recuei e pus-me de novo a nadar, até que cheguei a um rio, que me pareceu o melhor sítio:
livre de rochas; abrigado do vento.»

Homero, Odisseiacanto VII, vs. 267-282, trad. Frederico Lourenço, Livros Cotovia, Lisboa, 2003, pp. 123-124.

Θεσσαλονίκη / Tessalónica, Άνω Πόλη / Ano Poli

fotografia: filipe sousa | 15 junho 2023

 

















Dia 3 - Tessalónica
Debaixo de viadutos ou entre prédios modernos, as ruínas do passado despontam como cogumelos em Tessalónica, marcando a fisionomia da cidade. Umas mais preservadas do que outras, mas todas importantes para a história do lugar, revelam o que foram torres, muralhas, arcos, anfiteatros, igrejas, oratórios… Dos períodos micénico, helenístico, romano, bizantino e otomano, mas também de tempos recentes como as casas devolutas, dos séculos XIX-XX, da cidadela de Ano Poli, onde Tessalónica teve início. É este o local ideal, a partir do mirante do convento bizantino de Vlatadon, para descobrir a beleza oculta da cidade, feita de amálgamas e vicissitudes, de construções e reconstruções, de antigo e moderno, de ordem e desleixo, de mundos tão diversos que, longe de destoarem, lhe conferem uma aura especial. Como já notara Lawrence Durrell, um incondicional amante do mundo helénico, «a Grécia é um jardim selvagem onde tudo cai em ruínas, violenta, vertical e blasfema…mas não domada».
Algo a que também foi sensível o nosso Eugénio de Andrade quando por aqui passou.

«Parco de haveres, nascido em terras onde a luz à noite era de azeite e o pão tinha a cor das pedras, todo o excesso me parece uma falta de gosto, todo o luxo uma falta de generosidade. Dito isto, não poderá estranhar-se que me sinta tão religado ao solo pobre e arcaico da Grécia e à fecunda harmonia da sua cultura: o mar de Homero entre as colunas de Súnion, as ruas de Salónica com os muros acabados de caiar, a sombra luminosa dos degraus de Epidauro, onde ressoam ainda os versos supremos de Esquilo, têm para mim um prestígio que nenhum parque de Londres, ou praça de Paris, ou avenida de Nova York poderão alcançar a meus olhos.»

Eugénio de Andrade, À Sombra da Memória, Fundação Eugénio de Andrade, Porto, 1993, p. 130.

Αιγαίο Πέλαγος, Θερμαϊκός Κόλπος / Mar Egeu, Golfo Termaico

fotografia: filipe sousa | 14 junho 2023

 

















Dia 2 - Mar Egeu, ao largo do golfo Termaico
O meu baptismo nos mares da Grécia aconteceu quando Poseidon me convenceu a subir a bordo de um trirreme fundeado no porto de Tessalónica, comandado pelo próprio deus dos mares. Com a promessa de cerveja gelada na amurada, mar azul, céu luminoso e uma Ítaca perdida no horizonte. Já ao largo do golfo Termaico, brindámos à minha iniciação, ao concretizar de um sonho antigo, Ele empunhando o seu tridente e eu a minha cerveja bem alto. Foi então que Ele me falou de alguém do meu país, uma tal de Sophia, que amava a Grécia como poucos mortais e conhecia a linguagem dos deuses. E com a omnisciência que O caracteriza, traduziu-me assim a felicidade da poetisa quando também ela sulcou os Seus mares pela primeira vez, há precisamente sessenta anos, uma vírgula de tempo para um Deus:

«11 de Setembro de 1963

Manhã maravilhosa. Acordo antes das 8 e às 9 já estou no deck. Vejo aparecer a ilha de Leukos. Vou para a proa e sento-me num monte de cabos. Manhã deslumbrante. O mar azul, o céu azul, a ilha azul. Azul escuro do mar, azul claro do céu, azul enovoado da ilha. A água coberta de brilhos. Passam golfinhos rente ao navio. Na água, em contra-luz, aparece um arco-íris.
Sem ti deslizo no brilho do mar grego
Sem ti vejo metade do que vejo
Sem ti o sono é breve e o dia mutilado
Como as colunas do templo
Belo mas dos deuses separado.»

Sophia de Mello Breyner Andersen, Fragmentos do diário manuscrito na primeira viagem à Grécia em 1963.

Θεσσαλονίκη / Tessalónica, Av. Leoforos Nikis

fotografia: filipe sousa | 13 junho 2023

 
















Dia 1 - Tessalónica
A viagem começa aqui, com o Mediterrâneo em pano de fundo. Por estes dias, o Destino, a que os gregos chamam Moira, reserva-me outros destinos com que sempre sonhei, do Egeu, Jónico, Adriático e Tirreno. Felizmente que a Moira é dada a ideias fixas e inamovível; e nem os próprios deuses homéricos podem alterá-la. Assim começa a minha pequena odisseia. Na Macedónia grega, à beira do Egeu. Em Tessalónica.

«O tempo deixou de existir, só eu existia, levado pela corrente num barco lento, disposto a conhecer quem aparecesse e a aceitar o que acontecesse. (...) Vais gostar da Grécia… aquela ficou-me gravada na cabeça. «Meu Deus, é mesmo verdade, eu gosto da Grécia», dizia para mim mesmo vezes sem conta, encostado à amurada, enquanto absorvia o movimento e o rebuliço. Inclinei-me para trás e olhei para o céu. Nunca tinha visto um céu como aquele. Era magnífico. Senti-me completamente separado da Europa. Tinha entrado num novo reino como um homem livre – tudo se conjugara para tornar a experiência única e fecunda.»

Henry Miller, O Colosso de Maroussi  (The Colossus of Maroussi, 1941), trad. Raquel Mouta, Tinta-da-China, Lisboa, 2021, pp. 25, 27.

Berlin / Berlim, Tempelhofer Feld

fotografia: filipe sousa | 6 Junho 2019

 

















Ontem, celebrou-se/celebrámos mais um Dia Mundial da Bicicleta, e, no entanto, não há meio de deixarmos de ser o país que menos investe na mobilidade em bicicleta em toda a Europa.
Entretanto, noutras paragens:

«Aqui em Berlim, sigo de bicicleta pelas ciclovias e parece-me tudo muito civilizado, agradável e instruído. Não há carros estacionados ou a andar nas ciclovias, e os ciclistas também não andam nas ruas nem nos passeios. Há umas luzinhas de stop só para os ciclistas e até sinais para virar (os ciclistas têm direito a virar uns segundos antes do resto do trânsito, para permitir que saiam do caminho)! Escusado será dizer que, aqui, a maioria dos ciclistas pára mesmo quando vê estas luzes. E os peões também não se enfiam nas ciclovias! Estou um bocadinho em choque - funciona tudo tão bem. Porque é que não pode ser assim onde eu vivo?»

David Byrne, Diário da Bicicleta (Bicycle Diaries, 2009),  trad. Vasco Teles de Menezes, Quetzal Editores, Lisboa, 2010, p. 64.

Nota: David Byrne (esse mesmo, o fundador dos Talking Heads!) usa a bicicleta, desde o princípio dos anos 1980, como principal meio de transporte em Nova Iorque.

Almada, Rua da Cerca

fotografia: filipe sousa  | 9 maio 2023






















A Casa da Cerca, em Almada, está a celebrar trinta anos. Refiro-me, bem entendido, ao Centro de Arte Contemporânea, pois enquanto palácio e quinta de recreio conta cerca de cinco séculos.
Uma exposição a não perder, inaugurada no mês passado e que ficará patente até Fevereiro de 2024, leva-nos ao passado longínquo e recente desse conjunto construído de interesse histórico, arquitectónico e patrimonial, situado na margem sul do Tejo, num morro fronteiro a Lisboa. Uma viagem desde os vestígios quinhentistas à sua utilização como enfermaria pelo Hospital de Almada, em 1975, em pleno PREC, passando pelas muitas histórias dos diversos proprietários, de João Lobo, fidalgo almadense que, em Junho de 1581, cede o espaço a Filipe I para aposento real, a Barahona Cruz Silva, residente ao tempo da Revolução de Abril de 74.
Da fase que marca a passagem da Casa da Cerca para o domínio público, destacam-se dois momentos. Em Junho de 1988, quando a Câmara Municipal de Almada adquire o imóvel à família Barahona Cruz Silva por 50 milhões de escudos (cerca de 226 mil euros) para o transformar num equipamento cultural ao dispor da comunidade, depois de rejeitadas as propostas para construção de um templo religioso e dois empreendimentos turísticos. E em 1993 (21 de Novembro), quando se inicia o projecto do Centro de Arte Contemporânea, com o contributo decisivo de Rogério Ribeiro (1930-2008).
Daí para cá, três décadas de inestimável serviço público sob o signo da Arte Contemporânea, com especial foco no Desenho, através dos seguintes eixos de intervenção: Exposições e Residências Artísticas, Acervo, Galeria, Centro de Documentação e Investigação, Serviço Educativo, Jardim Botânico-Chão das Artes, Eventos, Parcerias e Acessibilidades. Diferentes valências que tornam a Casa da Cerca num lugar privilegiado de inspiração, criação e conhecimento.
E tudo isto acompanhado de uma das melhores vistas panorâmicas de Lisboa, que o diga Filipe I:

«Fomos assim até mais abaixo de Lisboa, onde atravessámos o rio até aqui, a Almada, onde tenho uma pousada muito bonita, ainda que pequena. De todas as janelas vê-se o rio e Lisboa e as naus e, muitas vezes, galeras. Num quarto alto, onde escrevo, vê-se, de uma janela, Lisboa inteira (…)»

Excerto de carta do rei Filipe I às suas filhas.

Almada, 26 de Junho de 1581.   

Lisboa, Rua da Escola Politécnica 225

fotografia: filipe sousa | 6 agosto 2021


Lugares de passagem.
Lisboa, Rua da Escola Politécnica 225.

«Não é assim tão fácil escrever sobre coisa nenhuma.
Consigo ouvir o som da voz indolente, lenta e firme do cowboy. Rabisco a sua frase no meu guardanapo. Como é que um tipo me pode irritar num sonho e depois teimar em não querer sair dele? Sinto necessidade de o contradizer, não apenas com uma objeção rápida, mas pela ação. Olho para as minhas mãos. Tenho a certeza de que consigo escrever interminavelmente sobre coisa nenhuma. Desde que tenha algo a dizer sobre coisa nenhuma.»

Patti Smith, M Train (M Train, 2015), trad. Helder Moura Pereira, Quetzal Editores, Lisboa, 2023, p. 17. 

Hólar

fotografia. filipe sousa | 23 novembro 2022

 

















«Desde o dia do seu nascimento até morrer, o poeta norueguês Olav H. Hauge viveu numa quinta em Ulvik, na região dos fiordes de Hardanger. A quinta situa-se na parte mais profunda do fiorde e está ladeada por montanhas de cortar a respiração. Cada caminhada que fizermos pelo terreno íngreme à roda de Ulvik começa por um longo trilho que sobe pela montanha. As estantes de Hauge estavam repletas de literatura de todo o mundo, e o poeta frequentemente caminhava sozinho pelas redondezas, enquanto a sua mente discorria sobre livros que lera e sobre os seus autores, sem deixar de observar como o mundo mudava, como se lê no seu poema «O teu caminho» («Din veg»):

«Este é o teu caminho.
Só tu vais percorrê-lo,
E não se pode voltar para trás.»

É verdade! Há um só caminho. É o nosso, que criamos à medida que caminhamos, mesmo quando caminhamos pelos mesmos trilhos. Porém, não acredito que não se possa voltar para trás. Podemos sempre inverter o caminho a qualquer instante do dia. O caminho de regresso, no entanto, será diferente.
O poeta espanhol Antonio Machado dizia uma coisa semelhante quando caminhava pela paisagem de planícies batidas pelo vento, entre os carvalhos e colinas à roda de Castela «onde as rochas parecem sonhar». No seu poema «Caminante no hay camino», escreveu quase as mesmas linhas que Hauge:

«O caminho faz-se caminhando,
E quando olhas para trás
Vês o trilho que os teus pés
Nunca mais hão de percorrer.»

Depois de ler Machado, Hauge escreveu o seguinte no seu diário: «Até que enfim alguém concorda comigo!»

Erling Kage, A Arte de Caminhar. Um Passo de Cada Vez (Å Gå. Ett Skitt av Gangen, 2018), Quetzal Editores, Lisboa, 2022, pp. 100-101.

مراكش / Marraquexe

fotografia: filipe sousa | 2 fevereiro 2023

 






















Marraquexe, a cidade amuralhada dos vinte e quatro portões. Das centenas de portais de arco de ferradura, com alfizes mais ou menos elaborados, que comunicam com o interior de derbs. Das mil e uma portas de cedro cravejadas de pregos de latão, ora fechadas, ora entreabertas, que conduzem a remansos em mesquitas, madraças, fondouqs, hammans, dars, riads.
Portões, portais e portas que permitem ou vedam a passagem entre o deserto e a medina, o arrabalde e a cidade intramuros, o público e o íntimo, o profano e o sagrado, o aqui e o além, a vida e a morte.
Transpomos Bab Ksiba com a firme ideia de subir ao terraço do palácio El Badiî. Mais tarde, diante do Atlas coberto de neve e com a medina aos nossos pés, perguntas assim:
-Sabes quem construiu este palácio, por sinal o mais grandioso do seu tempo, e porquê?
-Não faço a mínima.
-O sultão Ahmed al-Mansour, no final do século XVI, para comemorar a vitória sobre os portugueses em Alcácer Quibir.
-A sério!?
-E tudo o que vês foi financiado pelo avultado resgate dos nossos cativos. Enterrámos aqui as riquezas da Índia, e ficámos ainda mais nas lonas.
-O costume. É a nossa sina.
-Lembro-me de que o Eduardo Lourenço explica bem essa sina no seu "Labirinto da Saudade".
-É o que dá embarcar em aventuras de quintos impérios, ilusões de sermos o centro do mundo e outras manias de grandeza. O pior é que não aprendemos nada.
-Se não fossem essas, seriam outras aventuras. Sem elas, deixaríamos de ser quem somos. Está-nos na massa do sangue. É o nosso ADN. Afinal, desfez-se o império, e, apesar de vivermos agora o sonho europeu, Portugal continua por cumprir, como diria o Fernando Pessoa.
-A moeda tem sempre duas faces: o esplendor de uns é a desgraça de outros tantos. Não tinha que ser assim. Vê o custo de tudo isto para nós, o sacrifício que representa cada um destes azulejos. E para quê?
-Estás a dramatizar. A olhar para o copo meio vazio. Prefiro vê-lo meio cheio. Essa conversa não te leva a lado nenhum. Sem a insana cruzada de D. Sebastião, provavelmente não haveria este palácio, não teríamos hoje projectos académicos dedicados ao seu estudo, envolvendo especialistas portugueses e marroquinos, e não estaríamos agora a contemplar tudo isto e a ter esta conversa. A história está cheia de incongruências, meu caro.
-Chamo a isso uma visão egoísta e insensível?
-Que seja! Mas não consigo ter outra neste momento, diante deste palácio, desta medina e destas montanhas banhadas pelo pôr-do-sol. Deixa-te de estados de alma e aproveita este momento irrepetível. É como se fosse um cometa. Não passa duas vezes na nossa vida.
-Poupa-me à tua ironia.
-Não é ironia. Chamo-lhe apenas tirar partido do momento, do que a vida tem de melhor.
-Chama-lhe o que quiseres.
-A conversa está interessante, mas é melhor ficarmos por aqui. Lembrei-me agora mesmo dum poema que guardei para ti, para to dizer em Marraquexe.
-Mas não aqui, já agora…
-Como queiras.
-Agradeço-te.
-Tenho um plano.
-Que plano?
-Vês aquela açoteia acolá, ao lado daquela palmeira? Deve pertencer a um riad. E se fôssemos até lá para desfrutar da noite que se aproxima e dizer-te o poema?
-E como queres tu encontrar a casa daquele terraço? No meio deste labirinto, é como achar uma agulha no palheiro.
-Lá estás tu, a ver o copo meio vazio! E porque não partimos à aventura? Haveremos de encontrar essa porta e a açoteia, confia em mim.
-Sempre teimosa! Pelo sim, pelo não, vou tirar uma fotografia.
Acabo por ceder, aceitando tudo o que o destino me/nos reserva. Tentativas e erros. Avanços e recuos. Pistas que acabam por dar em nada. Certezas que não se confirmam. Mais de uma hora perdidos no labirinto e a paciência a esgotar-se.
Até que, ao percorrermos uma rua bem estreita, que juraria passada a pente fino, encontramos a porta, deixada entreaberta (por descuido?), que um transeunte assegura conduzir à açoteia da fotografia. A porta ostenta uma mão de Fátima como aldraba e, por cima, a inscrição: «Em nome de Alá». Bem protegida, é com certeza uma casa muçulmana! Não há janelas para a rua, só a imensa parede de taipa a isolar o casulo do mundo exterior. Descalçados os ténis, entramos devagar para habituar os olhos à penumbra. Aos poucos, vão-se revelando encantos em cada um dos aposentos, através de véus de seda que pendem sobre os vãos. Tacteio a suavidade do tadlakt cor de jade e a rugosidade dos zelliges azul-turquesa que revestem as paredes. Aprecio os tectos abobadados e o pavimento coberto de mosaicos antigos. Ao fundo do corredor abre-se o pátio, com a fonte no centro, onde me demoro a ouvir o som da água a correr. E, finalmente, o jardim, um pequeno oásis invadido por jasmins e buganvílias. Tudo aqui é harmonia e quietude. Um bálsamo para a alma. Nem a mente mais prodigiosa poderia adivinhar, do limiar da porta, a beleza interior que se esconde neste El Badiî em miniatura. De súbito, sinto uma voz a chamar dentro de mim:
-«Anda, apressa-te! Não há mais nada além do estipulado:
a taça e a minha bela lua cheia.
Não sejas preguiçoso, anda ver
a névoa que cobre o jardim e o vinho:
é que o jardim está oculto até que venhas
e só então ficará a descoberto.» (1)
Reparo agora que estou sozinho. Há quanto tempo? Não sei avaliar. Se calhar, demorei-me uma eternidade. Sigo um fio de luz que vem de cima. Desemboco na açoteia e encontro-te sentada, de taça na mão, a saborear um vinho antigo e a lua içada no céu.
-Desculpa, estás aqui há muito tempo?
-Quase há uma eternidade. Que te aconteceu?
-Acho que, por momentos, perdi a noção do tempo e deste lugar. Ainda não estou em mim. E o poema, vais dizê-lo agora?
-Já o disse. Como nunca mais chegavas, e a lua estava a despontar…
-Mas não podes dizê-lo outra vez? Gostaria muito.
-Lamento. Perdeu-se a oportunidade, como aquele cometa que só passa uma vez nas nossas vidas. Lembras-te?
-Quem te disse que não passa uma segunda vez? Podemos tentar.
-Como assim?
-Ficando aqui para sempre neste terraço, a olhar esta noite mágica sobre Marraquexe. Que me dizes? Agora és tu que estás a ver o copo meio vazio. Apanhei-te!
Ris-te. Rimo-nos. Enches a minha taça de vinho. Brindamos ao momento. As nossas gargalhadas não param de ecoar na cidade adormecida.

(1) Abú Aláçane Ali ibn Bassame Assantarini (1058?-1147?), natural de Santarém.

«Marraquexe é considerada uma das grandes cidades do mundo e uma das mais ilustres de África. (...) A sua medina é extensa, inclui (durante o reinado de Hali) cerca de cem mil fogos (...), tem vinte e quatro portões e está rodeada por fortes muros, cuja alvenaria é de cal viva e areia.»

Leão o Africano (1496?-1548) 

«Agora devemos infiltrar-nos pelas brechas da muralha, as aberturas esquecidas; devemos andar na ponta dos pés e apurar o ouvido, não durante o dia, mas sim durante a noite, quando a lua dá sombra à nossa história, quando as estrelas se juntam a um canto do céu e observam o mundo que fica mais suave.»

Tahar Ben Jelloun, A Criança de Areia (L'Enfant de Sable, 1985), Editorial Estampa, Lisboa, 1989, p. 63.

ساحة جامع الفناء / Sāḥat Jāmiʾ al-Fanāʾ / Djemâa el-Fna

fotografia: filipe sousa | 1 fevereiro 2023

 

















Dia 10, mês de Rajab, ano de 1444 da Hégira. 1 de Fevereiro de 2023 da era cristã. Final de tarde em Marraquexe.
Marcamos encontro em Djemâa el Fna, à hora mágica em que a praça se transforma no centro do mundo. Provavelmente, a praça mais fascinante do mundo, como diria Paul Bowles, o escritor nova-iorquino que encontrou em Marrocos o seu lugar de eleição. Há uma espécie de íman que nos atrai para aqui e obrigará a ficar pela noite dentro. Há uma multidão à nossa volta que experimenta o mesmo apelo.
Acabaste de chegar. Prepara-te, preparemo-nos para a aventura, que as próximas horas serão únicas na tua, na nossa vida. Vamos aproveitar o tempo como se fosse a última vez que visitamos este lugar. Tens, temos um papel a cumprir nesta história. Lembra-te que Marraquexe é terra de emboscadas. Em campo aberto, somos uma presa fácil. É uma questão de tempo até sermos notados, alcançados. Não adianta quereres passar despercebido ou esconder-te, evitares ou recusares, que irão dar contigo e aliciar-te até à exaustão. Encantadores de serpentes, amestradores de macacos, contadores de histórias, escrivães, tatuadoras de henna, acrobatas, místicos, vendedores ambulantes de quinquilharias e babuchas, de tagines e cactos, de albornozes e cuscuz fumegante servido em pequenos potes de barro, e tantos outros figurantes que fazem parte deste teatro de sonho. Todos com o mesmo propósito: fazerem-se pagar pelos seus produtos e serviços, utilizando todo o tipo de manhas e estratagemas. Por aqui, sempre vigorou a lei da sobrevivência. Hoje, não será diferente. Dessa experiência, levaremos muitas histórias para contar, que são, afinal, o melhor que podemos levar da vida. De como não escapámos a víboras do deserto penduradas ao pescoço, de como fomos convencidos a dar colo a macacos da Berbéria, ou de como acabámos a comprar duas djellabas para nos disfarçarmos. (De nada adiantou. Fomos descobertos!).
Quando a noite chegar, subiremos ao terraço do Chegrouni para beber um, dois, três copos de chá de menta e daí abarcar, arrebatados, a imensidão da praça com as suas tendas de comida e o seu mar de gente. Pediremos ainda uma tagine de galinha, com legumes e azeitonas, e um cuscuz de borrego, que saberão pela vida. E não partiremos sem ouvir o almuadem da mesquita em frente chamar para a última oração do dia: Allah u Akbar, Allah u Akbar, Allah u Akbar!
Com a noite adiantada, a praça será tomada pelos ritmos electrizantes da música berbere. Os responsáveis são grupos de virtuosos do alaúde, rebabe (guitarra de duas cordas), bendir (espécie de pandeiro) e qraqeb (espécie de castanholas de metal), que abancarão em círculo com os seus acompanhantes, na expectativa de que mais e mais entusiastas se juntem à festa. Para experiência completa, seremos parte desses ajuntamentos que celebram a vida à luz de lamparinas. Lembro-te de que, por aqui, a música e a dança não estão proscritas. Não será, por isso, surpresa se encontrarmos homens e mulheres dançando juntos, experienciando uma espécie de transe colectivo. Acredita que é impossível ficar indiferente ao efeito hipnótico da atmosfera criada. A exaustão e o êxtase vivem aqui de mãos dadas. Quando chegar o momento, embarcaremos também nessa vertigem, com estas frases de Kafka a ecoarem dentro de nós: «A partir de um certo ponto já não há regresso. É esse o ponto que deve ser alcançado.»

«A Djemâa el Fna é provavelmente a praça ao ar livre mais fascinante do mundo. Todas as tardes Marraquexe inteira vem aqui como se fosse a uma feira. Numa tarde qualquer podem ver-se alguns destros sudaneses dançando junto a uma trupe de Gnaoua, uma trupe de acrobatas, os jilabas bebendo água a ferver, os aissaouas encantando cobras e víboras, macacos treinados, e uma actuação surrealista por dois haddaouas sentados sobre tapetes e rodeados por flores de plástico e pombos vivos.»

Paul Bowles, «O que há de tão diferente em Maraquexe?» (1971), Viagens - Compilação de Escritos, 1950-1993 (Travels - Collected Writings, 1950-1993), trad. Jorge Pereirinha Pires, Quetzal Editores, Lisboa, 2013, p. 438. 

مراكش / Marraquexe

fotografia: filipe sousa | 1 fevereiro 2023

 

















Dia 9, mês de Rajab, ano1444 da Hégira. 31 de Janeiro de 2023 da era cristã. Zona ocidental de Marraquexe, a do antigo Protectorado francês. Do alto das almádenas, os muezins chamam à primeira oração do dia. Os vários chamamentos vindos das mesquitas próximas convergem num único cântico, sobrepondo-se, por breves instantes, ao rumor do trânsito de El Gueliz.
No terraço do edifício vizinho daquele onde me encontro, Mohamed prostra-se sobre um tapete, em profunda meditação, voltado para os picos nevados do Alto-Atlas, que distam uns bons cinquenta quilómetros e de cujas aldeias berberes, encavalitadas nas encostas, são originários muitos dos comerciantes e artesãos que encontrarei mais tarde na medina. O ritual da oração a que se entrega Mohamed cinco vezes por dia é em tudo semelhante à manifestação de crença em Alá de Yusuf ibn Tashfin, chefe almorávida e co-fundador de Marraquexe, no ano de 1062 (454 da Hégira), que daqui partiu para glorificar o nome do Profeta na Península Ibérica.
Entretanto, o sol começa a aclarar a oriente, iluminando o percurso, de três quilómetros, que daí a pouco farei a pé até ao coração secular da cidade.
Duas horas depois, deixo as avenidas largas e rasgadas de El Gueliz para me perder no labirinto intrincado da medina.
Sucedem-se, como tentáculos, vielas apertadas e sinuosas onde sou parte ínfima de uma multidão compacta que, à mistura com motoretas, bicicletas e carroças, se desloca, miraculosamente, sem se atropelar e ser atropelada.
Aventuro-me, de olhos e espírito abertos, nas zonas mais recônditas dos souks, onde os caminhos levam a túneis por baixo de casas, onde os cheiros a especiarias, comida feita e urina impregnam o ar.
Esgueiro-me à justa por entre famílias amesendadas, no meio da rua, alheias ao que se passa à sua volta. Tento esquivar-me às investidas de engraxadores, mendigos e vendedores de tudo e mais alguma coisa que surgem dos sítios mais inesperados. Tento não ser notado enquanto observo os que martelam latão e cobre, cardam, fiam e tecem tapetes, batem sola ou costuram albornozes no fundo das suas lojas.
Com destino incerto, sigo os passos misteriosos de mulheres mais ou menos veladas e de homens, com ar de sábios, embiocados nas suas djellabas.
De súbito, o caminho bifurca-se. Vou perdendo o rasto aos que seguem na dianteira. Até que, sozinho, entro num beco de paredes de terra rosada, com a beleza atrás de mim. O cerco fecha-se. Estou definitivamente perdido. Capturado. Não há como evitá-lo.

«Marraquexe é uma cidade de grandes distâncias, plana como uma tábua. Quando sopra o vento, o pó rosado das planícies estende-se para o céu, obscurecendo o Sol, e toda a cidade, pintada com uma demão da terra rosada sobre a qual assenta, reluz em vermelho sob a luz cataclísmica. À noite, da janela de um carro, não parece diferente de uma das nossas cidades ocidentais: longos quilómetros de candeeiros de rua estendendo-se em linha reta sobre a planície. Somente durante o dia se vê que muitas dessas luzes iluminam apenas extensões vazias de palmeirais e deserto. Ao longo dos anos, as franjas exteriores da medina passaram a permitir a circulação de automóveis e das carruagens puxadas por cavalos, das quais ainda existem muitas, mas é necessário um homem destemido para conduzir o seu carro no labirinto de vielas em serpentina cheias de moços de fretes, bicicletas, carroças, burros e vulgares pedestres. Além disso, a única maneira de se ver alguma coisa na medina é caminhando. Para se estar realmente presente, é preciso ter-se os pés sobre a poeira, ou ter-se a consciência do odor quente e poirento dos muros de argila junto ao nosso rosto.»

Paul Bowles, «A Rota para Tassemsit» (1963), Viagens - Compilação de Escritos, 1950-1993 (Travels - Collected Writings, 1950-1993), trad. Jorge Pereirinha Pires, Quetzal Editores, Lisboa, 2013, p. 348. 

Cabroeira

fotografia: filipe sousa | 31 agosto 2019

 
















Cem anos do nascimento de Eugénio de Andrade! (19 Janeiro 1923).

Metamorfoses da Casa

Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.

A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.

Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.

Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.

Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.

Eugénio de Andrade, «Ostinato Rigore» (1963-1965), in Poesia e Prosa (1940-1980), 2ª ed. Limiar, Porto, s.d., pp. 123-124.

Berlin / Berlim

fotografia: clara lourenço | 21 setembro 2013

 

















"Where are you now?" é certamente um dos temas mais pessoais e autobiográficos de David Bowie, que reflecte a sua estada em Berlim entre 1976 e 1978. Não faltam, nessa também homenagem à cidade, referências a KaDeWe, Potsdamer Platz, Dschungel em Nürnberger Straße e ponte Bösebrücke entre Wedding e Prenzlauer Berg.
David Bowie partiu há sete anos (8.1.1947 / 10.1.2016); o seu legado continua bem vivo!
«Look up here, I'm in heaven»

«We can be heroes, just for one day.» Where are you now?

Had to get the train
From Potsdamer Platz
You never knew that
That I could do that
Just walking the dead

Sitting in the Dschungel
On Nürnberger Straße
A man lost in time
Near KaDeWe
Just walking the dead

Where are we now?
Where are we now?
The moment you know
You know, you know

Twenty thousand people
Cross Bösebrücke
Fingers are crossed
Just in case
Walking the dead

Where are we now?
Where are we now?
The moment you know
You know, you know

As long as there's sun
As long as there's sun
As long as there's rain
As long as there's rain
As long as there's fire
As long as there's fire
As long as there's me
As long as there's you

David Bowie, "Where Are You Now?" in The Next Day, 2013.

Olhos de Água

fotografia: filipe sousa | 23 dezembro 2022

 


















Mar camaleónico.

«O mar às vezes parece um véu diáfano, outras pó verde. Às vezes é dum azul transparente, outras cobalto. Ou não tem consistência e é céu, ou é confusão e cólera. De manhã desvanece-se, de tarde sonha. E há dias de nevoeiro em que ele é extraordinário, quando a névoa espessa pouco e pouco se adelgaça, e surge atrás da última cortina vaporosa, todo verde, dum verde que apetece respirar. Diferentes verdes bóiam na água, esbranquiçados, transparentes, escuros, quase negros, misturados com restos de onda que se desfaz e redemoinha até ao longe. E ainda outros azulados, com a cor das podridões. Tudo isso graduado e dependendo do céu, da hora e das marés. Há momentos em que me julgo metido dentro duma esmeralda, e, depois, numa jóia esplêndida, dum azul único que se incendeia. Mas a luz morre, e a luz agonizando exala-se como um perfume. É uma grande flor que desfalece. O doirado não é simplesmente doirado, nem o verde simplesmente verde: possuem uma alma delicada e extática.»

Raul Brandão, Os Pescadores (1923), Estante Editora, Aveiro, 1989, p. 115.

Ilhas Desertas (no horizonte)

fotografia: filipe sousa | 18 setembro 2022

 















Se há livro de António Mega Ferreira capaz de nos dar ao mesmo tempo a dimensão do seu pensamento, da sua obra, dos seus gostos e interesses, do seu espírito cultivado, e a que volto sempre, esse livro é “Uma Caligrafia de Prazeres” – com desenhos de Fernanda Fragateiro.
Nesse roteiro afectivo e íntimo convivem prazeres superlativos que vão da boa mesa aos melhores hotéis, das cidades marcantes, com Veneza à cabeça, ao urbanismo mais visionário, da alma do sapato à defesa da gravata!, passando por teatro, pintura, ópera, música e, claro, os livros, a sua grande paixão!
António Mega Ferreira partiu ontem, deixando um vasto legado ao futuro.

«Um só livro

Admitamos, por cedência ao lugar-comum literário, que as ilhas desertas ainda existem. E que, pressionado por um jornalista persistente, me cabia nomear um livro, um só livro, para levar comigo quando, por obscura razão, fosse obrigado a partir para a tal ilha deserta. Esse livro seria Ficções, de Jorge Luís Borges.
É claro que a leitura de Ficções não dispensa Cervantes, Sterne, Flaubert, Joyce, Nabokov. Mas, perante o desafio (a ameaça?) da ilha deserta, cabe aliviar a bagagem e levar apenas o essencial. Acresce que o exercício é um absoluto relativo, uma espécie de suplício intolerável que se impõe a um leitor: um livro? Só um livro? Convém escolher o que melhor engane a fome de outras leituras, recordando-se todas e em todas buscando a memória de uma outra vida. (...)
Numa ilha deserta, Ficções serve de bíblia a qualquer leitor compulsivo: é um livro interminável e, precisamente porque não é extenso, é a relativa escassez do seu texto que alimenta a elaboração incessante. Ficções é o guião virtual de todos os livros possíveis, a verificação hipotética da sua existência e a possibilidade da sua ainda não existência. Uma coisa e a outra são verosímeis dentro do universo mágico de Ficções

António Mega Ferreira, Uma Caligrafia de Prazeres, Texto Editores, Lisboa, 2003, pp. 16-17. 

Lagoa de Albufeira

fotografia: filipe sousa | 23 dezembro 2022

 

















A certa altura, deixa de haver pegadas no areal. À minha frente, quilómetros de praia selvagem sem vivalma. A caminho da Lagoa de Albufeira* estende-se o paraíso.

*Conhecida também por Lagoa d’el-Rei, por ser o retiro predilecto de D. Pedro V, onde vinha pescar e caçar coelhos, maçaricos e patos. Ramalho Ortigão dá disso nota nas Praias de Portugal, assim como o episódio de ter fisgado um polvo na Lagoa com uma navalha americana oferecida pelo amigo Eça de Queiroz.

«Um belo passeio de cerca de três léguas pela charneca até à Lagoa de El-Rei, o retiro predilecto de D. Pedro V. O pequeno e modesto prédio da casa real, de um só pavimento ao rés-do-chão, fica à beira do lago, na solidão da charneca. A paisagem é de uma grande melancolia simpática, de um encanto profundamente penetrante. A água tranquila da grande lagoa, o áspero aspecto da charneca, a grande solidão, a planície, o profundo silêncio, infundem uma pacificação e um sentimento de serenidade inefável. A lagoa é muito povoada, mas a pesca é proibida sem licença expressa do indivíduo que a arremata em cada ano. Não obstante, o autor destas linhas na última vez que ali foi apoderou-se de um polvo, fisgando-o contra uma rocha com uma navalha americana que o seu amigo Eça de Queiroz lhe mandou de presente das margens do Niagara. Fundámos o nosso direito a este polvo na circunstância de que a rocha não é água mas sim terra firme. Em todo o caso aproveitamos esta ocasião para desencarregarmos a consciência pedindo humildemente perdão a sua excelência o arrematante da lagoa e a sua majestade o proprietário dela. Estamos prontos a dar outro polvo, se a coroa assim o exigir. Os contornos do lago são habitados por óptimos coelhos, magros, mas de um especial sabor salgado e bravio. O sr. D. Pedro V matava-os na carreira, à bala, com notável perícia. A caça não tem arrematante e é permitida ao público. Além dos coelhos, que são abundantes, há maçaricos, patos e outras aves marinhas.»

Ramalho Ortigão, As praias de Portugal - guia do banhista e do viajante (1ª ed. 1876), Frenesi, Lisboa, 2001, pp. 151-152.

Avignon / Avinhão, Rue du Limas 49

fotografia: filipe sousa | 19 outubro 2022

 


Um clássico intemporal.
No melhor pano cai a folha.

Feira Desmanchada

Num frouxo de riso, desmonto o barraco;
vida é outra loiça, que não este caco.

Rio como pode rir um português
ao ouvir ocioso: -Será para outra vez...

-Aqui há talento! Dizem-me os vedores.
Seja para alívio das nossas dores!

Mas que remédio senão ser talentoso
quando tudo anda tão nervoso

e não há licença de porte dessa arma
que é a palavra não desfigurada!

Talento manejado a meu talante,
sê modesto, já que és, afinal, o circunstante,

e eu, o teu dono, se tivesse lazer,
sem disparos verbais andava era aos pardais,

por esses trigais e milharais
que lhes dão de comer...

Alexandre O'Neill, Poesias Completas (Feira Cabisbaixa, 1965), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 251.

Sligeach / Sligo

fotografia: filipe sousa | 2 dezembro 2022

 


















De Sligo a Dublin. A Irlanda de costa a costa. Na companhia de W. B. Yeats (1865-1939), um dos mais importantes poetas irlandeses, que viveu nas duas cidades. E como não há ilhas sem mares, nem mares sem sereias...

The Mermaid

A mermaid found a swimming lad,
Picked him for her own,
Pressed her body to his body,
Laughed; and plunging down
Forgot in cruel happiness
That even lovers drown.

W. B. Yeats, "A Man Young And Old: III. The Mermaid.", The Tower. New York, Macmillan, 1928.

Cora Droma Rúisk / Carrick-on-Shannon

fotografia: filipe sousa | 2 dezembro 2022

 

















Carrick-on-Shannon (gaélico Cora Droma Rúisk).
Norte da República da Irlanda.

Carrick
 
I will not walk these roads of pain
I will turn back to youth again,
Tis fun  sunlight, though passed
the noon,
 
The night will not come very soon,
And if we haste we may lie down,
Before sunset in Carrick town.
 
 
No bigger than a bulrush,
I beside the rushy Shannon cry.
There are no children on the store,
The singing voices sing no more,
The sea draws all the rivers down,
And love has sailed from
Carrick town.
 
Susan Langstaff Mitchell
Poet, satirist, journalist, mystic, nationalist and agri campaigner of the Irish Renaissance
Born in Carrick-on-Shannon 1866
Died in Dublin 1926

Cruachan / Tulsk

fotografia: filipe sousa | 1 dezembro 2022









Ainda sob o signo da insularidade. Depois da Ilha de Gelo e Fogo, o regresso à Ilha Esmeralda.

«-O que procuras na Irlanda? - Seamas O'Hogain.
-...o pote de ouro do duende! - Corto Maltese.
-Como o irás encontrar? - Seamas O'Hogain.
-Encontrá-lo-ei no dia em que encontrar uma rapariga a chorar à beira do rio... Sinn Fein... Sozinhos os dois... - Corto Maltese.
-Sinn Fein... Sozinhos os dois. Bem-vindo à Irlanda, Corto Maltese. - Seamas O'Hogain.»

Hugo Pratt, «Concerto em O menor para Harpa e Nitroglicerina» in Corto Maltese - As Célticas (Les Celtiques, 1970), trad. Jorge Colaço, Edição Geomais, Estoril, 2019, p. 71.