مراكش / Marraquexe

fotografia: filipe sousa | 2 fevereiro 2023

 






















Marraquexe, a cidade amuralhada dos vinte e quatro portões. Das centenas de portais de arco de ferradura, com alfizes mais ou menos elaborados, que comunicam com o interior de derbs. Das mil e uma portas de cedro cravejadas de pregos de latão, ora fechadas, ora entreabertas, que conduzem a remansos em mesquitas, madraças, fondouqs, hammans, dars, riads.
Portões, portais e portas que permitem ou vedam a passagem entre o deserto e a medina, o arrabalde e a cidade intramuros, o público e o íntimo, o profano e o sagrado, o aqui e o além, a vida e a morte.
Transpomos Bab Ksiba com a firme ideia de subir ao terraço do palácio El Badiî. Mais tarde, diante do Atlas coberto de neve e com a medina aos nossos pés, perguntas assim:
-Sabes quem construiu este palácio, por sinal o mais grandioso do seu tempo, e porquê?
-Não faço a mínima.
-O sultão Ahmed al-Mansour, no final do século XVI, para comemorar a vitória sobre os portugueses em Alcácer Quibir.
-A sério!?
-E tudo o que vês foi financiado pelo avultado resgate dos nossos cativos. Enterrámos aqui as riquezas da Índia, e ficámos ainda mais nas lonas.
-O costume. É a nossa sina.
-Lembro-me de que o Eduardo Lourenço explica bem essa sina no seu "Labirinto da Saudade".
-É o que dá embarcar em aventuras de quintos impérios, ilusões de sermos o centro do mundo e outras manias de grandeza. O pior é que não aprendemos nada.
-Se não fossem essas, seriam outras aventuras. Sem elas, deixaríamos de ser quem somos. Está-nos na massa do sangue. É o nosso ADN. Afinal, desfez-se o império, e, apesar de vivermos agora o sonho europeu, Portugal continua por cumprir, como diria o Fernando Pessoa.
-A moeda tem sempre duas faces: o esplendor de uns é a desgraça de outros tantos. Não tinha que ser assim. Vê o custo de tudo isto para nós, o sacrifício que representa cada um destes azulejos. E para quê?
-Estás a dramatizar. A olhar para o copo meio vazio. Prefiro vê-lo meio cheio. Essa conversa não te leva a lado nenhum. Sem a insana cruzada de D. Sebastião, provavelmente não haveria este palácio, não teríamos hoje projectos académicos dedicados ao seu estudo, envolvendo especialistas portugueses e marroquinos, e não estaríamos agora a contemplar tudo isto e a ter esta conversa. A história está cheia de incongruências, meu caro.
-Chamo a isso uma visão egoísta e insensível?
-Que seja! Mas não consigo ter outra neste momento, diante deste palácio, desta medina e destas montanhas banhadas pelo pôr-do-sol. Deixa-te de estados de alma e aproveita este momento irrepetível. É como se fosse um cometa. Não passa duas vezes na nossa vida.
-Poupa-me à tua ironia.
-Não é ironia. Chamo-lhe apenas tirar partido do momento, do que a vida tem de melhor.
-Chama-lhe o que quiseres.
-A conversa está interessante, mas é melhor ficarmos por aqui. Lembrei-me agora mesmo dum poema que guardei para ti, para to dizer em Marraquexe.
-Mas não aqui, já agora…
-Como queiras.
-Agradeço-te.
-Tenho um plano.
-Que plano?
-Vês aquela açoteia acolá, ao lado daquela palmeira? Deve pertencer a um riad. E se fôssemos até lá para desfrutar da noite que se aproxima e dizer-te o poema?
-E como queres tu encontrar a casa daquele terraço? No meio deste labirinto, é como achar uma agulha no palheiro.
-Lá estás tu, a ver o copo meio vazio! E porque não partimos à aventura? Haveremos de encontrar essa porta e a açoteia, confia em mim.
-Sempre teimosa! Pelo sim, pelo não, vou tirar uma fotografia.
Acabo por ceder, aceitando tudo o que o destino me/nos reserva. Tentativas e erros. Avanços e recuos. Pistas que acabam por dar em nada. Certezas que não se confirmam. Mais de uma hora perdidos no labirinto e a paciência a esgotar-se.
Até que, ao percorrermos uma rua bem estreita, que juraria passada a pente fino, encontramos a porta, deixada entreaberta (por descuido?), que um transeunte assegura conduzir à açoteia da fotografia. A porta ostenta uma mão de Fátima como aldraba e, por cima, a inscrição: «Em nome de Alá». Bem protegida, é com certeza uma casa muçulmana! Não há janelas para a rua, só a imensa parede de taipa a isolar o casulo do mundo exterior. Descalçados os ténis, entramos devagar para habituar os olhos à penumbra. Aos poucos, vão-se revelando encantos em cada um dos aposentos, através de véus de seda que pendem sobre os vãos. Tacteio a suavidade do tadlakt cor de jade e a rugosidade dos zelliges azul-turquesa que revestem as paredes. Aprecio os tectos abobadados e o pavimento coberto de mosaicos antigos. Ao fundo do corredor abre-se o pátio, com a fonte no centro, onde me demoro a ouvir o som da água a correr. E, finalmente, o jardim, um pequeno oásis invadido por jasmins e buganvílias. Tudo aqui é harmonia e quietude. Um bálsamo para a alma. Nem a mente mais prodigiosa poderia adivinhar, do limiar da porta, a beleza interior que se esconde neste El Badiî em miniatura. De súbito, sinto uma voz a chamar dentro de mim:
-«Anda, apressa-te! Não há mais nada além do estipulado:
a taça e a minha bela lua cheia.
Não sejas preguiçoso, anda ver
a névoa que cobre o jardim e o vinho:
é que o jardim está oculto até que venhas
e só então ficará a descoberto.» (1)
Reparo agora que estou sozinho. Há quanto tempo? Não sei avaliar. Se calhar, demorei-me uma eternidade. Sigo um fio de luz que vem de cima. Desemboco na açoteia e encontro-te sentada, de taça na mão, a saborear um vinho antigo e a lua içada no céu.
-Desculpa, estás aqui há muito tempo?
-Quase há uma eternidade. Que te aconteceu?
-Acho que, por momentos, perdi a noção do tempo e deste lugar. Ainda não estou em mim. E o poema, vais dizê-lo agora?
-Já o disse. Como nunca mais chegavas, e a lua estava a despontar…
-Mas não podes dizê-lo outra vez? Gostaria muito.
-Lamento. Perdeu-se a oportunidade, como aquele cometa que só passa uma vez nas nossas vidas. Lembras-te?
-Quem te disse que não passa uma segunda vez? Podemos tentar.
-Como assim?
-Ficando aqui para sempre neste terraço, a olhar esta noite mágica sobre Marraquexe. Que me dizes? Agora és tu que estás a ver o copo meio vazio. Apanhei-te!
Ris-te. Rimo-nos. Enches a minha taça de vinho. Brindamos ao momento. As nossas gargalhadas não param de ecoar na cidade adormecida.

(1) Abú Aláçane Ali ibn Bassame Assantarini (1058?-1147?), natural de Santarém.

«Marraquexe é considerada uma das grandes cidades do mundo e uma das mais ilustres de África. (...) A sua medina é extensa, inclui (durante o reinado de Hali) cerca de cem mil fogos (...), tem vinte e quatro portões e está rodeada por fortes muros, cuja alvenaria é de cal viva e areia.»

Leão o Africano (1496?-1548) 

«Agora devemos infiltrar-nos pelas brechas da muralha, as aberturas esquecidas; devemos andar na ponta dos pés e apurar o ouvido, não durante o dia, mas sim durante a noite, quando a lua dá sombra à nossa história, quando as estrelas se juntam a um canto do céu e observam o mundo que fica mais suave.»

Tahar Ben Jelloun, A Criança de Areia (L'Enfant de Sable, 1985), Editorial Estampa, Lisboa, 1989, p. 63.

ساحة جامع الفناء / Sāḥat Jāmiʾ al-Fanāʾ / Djemâa el-Fna

fotografia: filipe sousa | 1 fevereiro 2023

 

















Dia 10, mês de Rajab, ano de 1444 da Hégira. 1 de Fevereiro de 2023 da era cristã. Final de tarde em Marraquexe.
Marcamos encontro em Djemâa el Fna, à hora mágica em que a praça se transforma no centro do mundo. Provavelmente, a praça mais fascinante do mundo, como diria Paul Bowles, o escritor nova-iorquino que encontrou em Marrocos o seu lugar de eleição. Há uma espécie de íman que nos atrai para aqui e obrigará a ficar pela noite dentro. Há uma multidão à nossa volta que experimenta o mesmo apelo.
Acabaste de chegar. Prepara-te, preparemo-nos para a aventura, que as próximas horas serão únicas na tua, na nossa vida. Vamos aproveitar o tempo como se fosse a última vez que visitamos este lugar. Tens, temos um papel a cumprir nesta história. Lembra-te que Marraquexe é terra de emboscadas. Em campo aberto, somos uma presa fácil. É uma questão de tempo até sermos notados, alcançados. Não adianta quereres passar despercebido ou esconder-te, evitares ou recusares, que irão dar contigo e aliciar-te até à exaustão. Encantadores de serpentes, amestradores de macacos, contadores de histórias, escrivães, tatuadoras de henna, acrobatas, místicos, vendedores ambulantes de quinquilharias e babuchas, de tagines e cactos, de albornozes e cuscuz fumegante servido em pequenos potes de barro, e tantos outros figurantes que fazem parte deste teatro de sonho. Todos com o mesmo propósito: fazerem-se pagar pelos seus produtos e serviços, utilizando todo o tipo de manhas e estratagemas. Por aqui, sempre vigorou a lei da sobrevivência. Hoje, não será diferente. Dessa experiência, levaremos muitas histórias para contar, que são, afinal, o melhor que podemos levar da vida. De como não escapámos a víboras do deserto penduradas ao pescoço, de como fomos convencidos a dar colo a macacos da Berbéria, ou de como acabámos a comprar duas djellabas para nos disfarçarmos. (De nada adiantou. Fomos descobertos!).
Quando a noite chegar, subiremos ao terraço do Chegrouni para beber um, dois, três copos de chá de menta e daí abarcar, arrebatados, a imensidão da praça com as suas tendas de comida e o seu mar de gente. Pediremos ainda uma tagine de galinha, com legumes e azeitonas, e um cuscuz de borrego, que saberão pela vida. E não partiremos sem ouvir o almuadem da mesquita em frente chamar para a última oração do dia: Allah u Akbar, Allah u Akbar, Allah u Akbar!
Com a noite adiantada, a praça será tomada pelos ritmos electrizantes da música berbere. Os responsáveis são grupos de virtuosos do alaúde, rebabe (guitarra de duas cordas), bendir (espécie de pandeiro) e qraqeb (espécie de castanholas de metal), que abancarão em círculo com os seus acompanhantes, na expectativa de que mais e mais entusiastas se juntem à festa. Para experiência completa, seremos parte desses ajuntamentos que celebram a vida à luz de lamparinas. Lembro-te de que, por aqui, a música e a dança não estão proscritas. Não será, por isso, surpresa se encontrarmos homens e mulheres dançando juntos, experienciando uma espécie de transe colectivo. Acredita que é impossível ficar indiferente ao efeito hipnótico da atmosfera criada. A exaustão e o êxtase vivem aqui de mãos dadas. Quando chegar o momento, embarcaremos também nessa vertigem, com estas frases de Kafka a ecoarem dentro de nós: «A partir de um certo ponto já não há regresso. É esse o ponto que deve ser alcançado.»

«A Djemâa el Fna é provavelmente a praça ao ar livre mais fascinante do mundo. Todas as tardes Marraquexe inteira vem aqui como se fosse a uma feira. Numa tarde qualquer podem ver-se alguns destros sudaneses dançando junto a uma trupe de Gnaoua, uma trupe de acrobatas, os jilabas bebendo água a ferver, os aissaouas encantando cobras e víboras, macacos treinados, e uma actuação surrealista por dois haddaouas sentados sobre tapetes e rodeados por flores de plástico e pombos vivos.»

Paul Bowles, «O que há de tão diferente em Maraquexe?» (1971), Viagens - Compilação de Escritos, 1950-1993 (Travels - Collected Writings, 1950-1993), trad. Jorge Pereirinha Pires, Quetzal Editores, Lisboa, 2013, p. 438. 

مراكش / Marraquexe

fotografia: filipe sousa | 1 fevereiro 2023

 

















Dia 9, mês de Rajab, ano1444 da Hégira. 31 de Janeiro de 2023 da era cristã. Zona ocidental de Marraquexe, a do antigo Protectorado francês. Do alto das almádenas, os muezins chamam à primeira oração do dia. Os vários chamamentos vindos das mesquitas próximas convergem num único cântico, sobrepondo-se, por breves instantes, ao rumor do trânsito de El Gueliz.
No terraço do edifício vizinho daquele onde me encontro, Mohamed prostra-se sobre um tapete, em profunda meditação, voltado para os picos nevados do Alto-Atlas, que distam uns bons cinquenta quilómetros e de cujas aldeias berberes, encavalitadas nas encostas, são originários muitos dos comerciantes e artesãos que encontrarei mais tarde na medina. O ritual da oração a que se entrega Mohamed cinco vezes por dia é em tudo semelhante à manifestação de crença em Alá de Yusuf ibn Tashfin, chefe almorávida e co-fundador de Marraquexe, no ano de 1062 (454 da Hégira), que daqui partiu para glorificar o nome do Profeta na Península Ibérica.
Entretanto, o sol começa a aclarar a oriente, iluminando o percurso, de três quilómetros, que daí a pouco farei a pé até ao coração secular da cidade.
Duas horas depois, deixo as avenidas largas e rasgadas de El Gueliz para me perder no labirinto intrincado da medina.
Sucedem-se, como tentáculos, vielas apertadas e sinuosas onde sou parte ínfima de uma multidão compacta que, à mistura com motoretas, bicicletas e carroças, se desloca, miraculosamente, sem se atropelar e ser atropelada.
Aventuro-me, de olhos e espírito abertos, nas zonas mais recônditas dos souks, onde os caminhos levam a túneis por baixo de casas, onde os cheiros a especiarias, comida feita e urina impregnam o ar.
Esgueiro-me à justa por entre famílias amesendadas, no meio da rua, alheias ao que se passa à sua volta. Tento esquivar-me às investidas de engraxadores, mendigos e vendedores de tudo e mais alguma coisa que surgem dos sítios mais inesperados. Tento não ser notado enquanto observo os que martelam latão e cobre, cardam, fiam e tecem tapetes, batem sola ou costuram albornozes no fundo das suas lojas.
Com destino incerto, sigo os passos misteriosos de mulheres mais ou menos veladas e de homens, com ar de sábios, embiocados nas suas djellabas.
De súbito, o caminho bifurca-se. Vou perdendo o rasto aos que seguem na dianteira. Até que, sozinho, entro num beco de paredes de terra rosada, com a beleza atrás de mim. O cerco fecha-se. Estou definitivamente perdido. Capturado. Não há como evitá-lo.

«Marraquexe é uma cidade de grandes distâncias, plana como uma tábua. Quando sopra o vento, o pó rosado das planícies estende-se para o céu, obscurecendo o Sol, e toda a cidade, pintada com uma demão da terra rosada sobre a qual assenta, reluz em vermelho sob a luz cataclísmica. À noite, da janela de um carro, não parece diferente de uma das nossas cidades ocidentais: longos quilómetros de candeeiros de rua estendendo-se em linha reta sobre a planície. Somente durante o dia se vê que muitas dessas luzes iluminam apenas extensões vazias de palmeirais e deserto. Ao longo dos anos, as franjas exteriores da medina passaram a permitir a circulação de automóveis e das carruagens puxadas por cavalos, das quais ainda existem muitas, mas é necessário um homem destemido para conduzir o seu carro no labirinto de vielas em serpentina cheias de moços de fretes, bicicletas, carroças, burros e vulgares pedestres. Além disso, a única maneira de se ver alguma coisa na medina é caminhando. Para se estar realmente presente, é preciso ter-se os pés sobre a poeira, ou ter-se a consciência do odor quente e poirento dos muros de argila junto ao nosso rosto.»

Paul Bowles, «A Rota para Tassemsit» (1963), Viagens - Compilação de Escritos, 1950-1993 (Travels - Collected Writings, 1950-1993), trad. Jorge Pereirinha Pires, Quetzal Editores, Lisboa, 2013, p. 348. 

Cabroeira

fotografia: filipe sousa | 31 agosto 2019

 
















Cem anos do nascimento de Eugénio de Andrade! (19 Janeiro 1923).

Metamorfoses da Casa

Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.

A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.

Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.

Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.

Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.

Eugénio de Andrade, «Ostinato Rigore» (1963-1965), in Poesia e Prosa (1940-1980), 2ª ed. Limiar, Porto, s.d., pp. 123-124.

Berlin / Berlim

fotografia: clara lourenço | 21 setembro 2013

 

















"Where are you now?" é certamente um dos temas mais pessoais e autobiográficos de David Bowie, que reflecte a sua estada em Berlim entre 1976 e 1978. Não faltam, nessa também homenagem à cidade, referências a KaDeWe, Potsdamer Platz, Dschungel em Nürnberger Straße e ponte Bösebrücke entre Wedding e Prenzlauer Berg.
David Bowie partiu há sete anos (8.1.1947 / 10.1.2016); o seu legado continua bem vivo!
«Look up here, I'm in heaven»

«We can be heroes, just for one day.» Where are you now?

Had to get the train
From Potsdamer Platz
You never knew that
That I could do that
Just walking the dead

Sitting in the Dschungel
On Nürnberger Straße
A man lost in time
Near KaDeWe
Just walking the dead

Where are we now?
Where are we now?
The moment you know
You know, you know

Twenty thousand people
Cross Bösebrücke
Fingers are crossed
Just in case
Walking the dead

Where are we now?
Where are we now?
The moment you know
You know, you know

As long as there's sun
As long as there's sun
As long as there's rain
As long as there's rain
As long as there's fire
As long as there's fire
As long as there's me
As long as there's you

David Bowie, "Where Are You Now?" in The Next Day, 2013.

Olhos de Água

fotografia: filipe sousa | 23 dezembro 2022

 


















Mar camaleónico.

«O mar às vezes parece um véu diáfano, outras pó verde. Às vezes é dum azul transparente, outras cobalto. Ou não tem consistência e é céu, ou é confusão e cólera. De manhã desvanece-se, de tarde sonha. E há dias de nevoeiro em que ele é extraordinário, quando a névoa espessa pouco e pouco se adelgaça, e surge atrás da última cortina vaporosa, todo verde, dum verde que apetece respirar. Diferentes verdes bóiam na água, esbranquiçados, transparentes, escuros, quase negros, misturados com restos de onda que se desfaz e redemoinha até ao longe. E ainda outros azulados, com a cor das podridões. Tudo isso graduado e dependendo do céu, da hora e das marés. Há momentos em que me julgo metido dentro duma esmeralda, e, depois, numa jóia esplêndida, dum azul único que se incendeia. Mas a luz morre, e a luz agonizando exala-se como um perfume. É uma grande flor que desfalece. O doirado não é simplesmente doirado, nem o verde simplesmente verde: possuem uma alma delicada e extática.»

Raul Brandão, Os Pescadores (1923), Estante Editora, Aveiro, 1989, p. 115.

Ilhas Desertas (no horizonte)

fotografia: filipe sousa | 18 setembro 2022

 















Se há livro de António Mega Ferreira capaz de nos dar ao mesmo tempo a dimensão do seu pensamento, da sua obra, dos seus gostos e interesses, do seu espírito cultivado, e a que volto sempre, esse livro é “Uma Caligrafia de Prazeres” – com desenhos de Fernanda Fragateiro.
Nesse roteiro afectivo e íntimo convivem prazeres superlativos que vão da boa mesa aos melhores hotéis, das cidades marcantes, com Veneza à cabeça, ao urbanismo mais visionário, da alma do sapato à defesa da gravata!, passando por teatro, pintura, ópera, música e, claro, os livros, a sua grande paixão!
António Mega Ferreira partiu ontem, deixando um vasto legado ao futuro.

«Um só livro

Admitamos, por cedência ao lugar-comum literário, que as ilhas desertas ainda existem. E que, pressionado por um jornalista persistente, me cabia nomear um livro, um só livro, para levar comigo quando, por obscura razão, fosse obrigado a partir para a tal ilha deserta. Esse livro seria Ficções, de Jorge Luís Borges.
É claro que a leitura de Ficções não dispensa Cervantes, Sterne, Flaubert, Joyce, Nabokov. Mas, perante o desafio (a ameaça?) da ilha deserta, cabe aliviar a bagagem e levar apenas o essencial. Acresce que o exercício é um absoluto relativo, uma espécie de suplício intolerável que se impõe a um leitor: um livro? Só um livro? Convém escolher o que melhor engane a fome de outras leituras, recordando-se todas e em todas buscando a memória de uma outra vida. (...)
Numa ilha deserta, Ficções serve de bíblia a qualquer leitor compulsivo: é um livro interminável e, precisamente porque não é extenso, é a relativa escassez do seu texto que alimenta a elaboração incessante. Ficções é o guião virtual de todos os livros possíveis, a verificação hipotética da sua existência e a possibilidade da sua ainda não existência. Uma coisa e a outra são verosímeis dentro do universo mágico de Ficções

António Mega Ferreira, Uma Caligrafia de Prazeres, Texto Editores, Lisboa, 2003, pp. 16-17. 

Lagoa de Albufeira

fotografia: filipe sousa | 23 dezembro 2022

 

















A certa altura, deixa de haver pegadas no areal. À minha frente, quilómetros de praia selvagem sem vivalma. A caminho da Lagoa de Albufeira* estende-se o paraíso.

*Conhecida também por Lagoa d’el-Rei, por ser o retiro predilecto de D. Pedro V, onde vinha pescar e caçar coelhos, maçaricos e patos. Ramalho Ortigão dá disso nota nas Praias de Portugal, assim como o episódio de ter fisgado um polvo na Lagoa com uma navalha americana oferecida pelo amigo Eça de Queiroz.

«Um belo passeio de cerca de três léguas pela charneca até à Lagoa de El-Rei, o retiro predilecto de D. Pedro V. O pequeno e modesto prédio da casa real, de um só pavimento ao rés-do-chão, fica à beira do lago, na solidão da charneca. A paisagem é de uma grande melancolia simpática, de um encanto profundamente penetrante. A água tranquila da grande lagoa, o áspero aspecto da charneca, a grande solidão, a planície, o profundo silêncio, infundem uma pacificação e um sentimento de serenidade inefável. A lagoa é muito povoada, mas a pesca é proibida sem licença expressa do indivíduo que a arremata em cada ano. Não obstante, o autor destas linhas na última vez que ali foi apoderou-se de um polvo, fisgando-o contra uma rocha com uma navalha americana que o seu amigo Eça de Queiroz lhe mandou de presente das margens do Niagara. Fundámos o nosso direito a este polvo na circunstância de que a rocha não é água mas sim terra firme. Em todo o caso aproveitamos esta ocasião para desencarregarmos a consciência pedindo humildemente perdão a sua excelência o arrematante da lagoa e a sua majestade o proprietário dela. Estamos prontos a dar outro polvo, se a coroa assim o exigir. Os contornos do lago são habitados por óptimos coelhos, magros, mas de um especial sabor salgado e bravio. O sr. D. Pedro V matava-os na carreira, à bala, com notável perícia. A caça não tem arrematante e é permitida ao público. Além dos coelhos, que são abundantes, há maçaricos, patos e outras aves marinhas.»

Ramalho Ortigão, As praias de Portugal - guia do banhista e do viajante (1ª ed. 1876), Frenesi, Lisboa, 2001, pp. 151-152.

Avignon / Avinhão, Rue du Limas 49

fotografia: filipe sousa | 19 outubro 2022

 


Um clássico intemporal.
No melhor pano cai a folha.

Feira Desmanchada

Num frouxo de riso, desmonto o barraco;
vida é outra loiça, que não este caco.

Rio como pode rir um português
ao ouvir ocioso: -Será para outra vez...

-Aqui há talento! Dizem-me os vedores.
Seja para alívio das nossas dores!

Mas que remédio senão ser talentoso
quando tudo anda tão nervoso

e não há licença de porte dessa arma
que é a palavra não desfigurada!

Talento manejado a meu talante,
sê modesto, já que és, afinal, o circunstante,

e eu, o teu dono, se tivesse lazer,
sem disparos verbais andava era aos pardais,

por esses trigais e milharais
que lhes dão de comer...

Alexandre O'Neill, Poesias Completas (Feira Cabisbaixa, 1965), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 251.

Sligeach / Sligo

fotografia: filipe sousa | 2 dezembro 2022

 


















De Sligo a Dublin. A Irlanda de costa a costa. Na companhia de W. B. Yeats (1865-1939), um dos mais importantes poetas irlandeses, que viveu nas duas cidades. E como não há ilhas sem mares, nem mares sem sereias...

The Mermaid

A mermaid found a swimming lad,
Picked him for her own,
Pressed her body to his body,
Laughed; and plunging down
Forgot in cruel happiness
That even lovers drown.

W. B. Yeats, "A Man Young And Old: III. The Mermaid.", The Tower. New York, Macmillan, 1928.

Cora Droma Rúisk / Carrick-on-Shannon

fotografia: filipe sousa | 2 dezembro 2022

 

















Carrick-on-Shannon (gaélico Cora Droma Rúisk).
Norte da República da Irlanda.

Carrick
 
I will not walk these roads of pain
I will turn back to youth again,
Tis fun  sunlight, though passed
the noon,
 
The night will not come very soon,
And if we haste we may lie down,
Before sunset in Carrick town.
 
 
No bigger than a bulrush,
I beside the rushy Shannon cry.
There are no children on the store,
The singing voices sing no more,
The sea draws all the rivers down,
And love has sailed from
Carrick town.
 
Susan Langstaff Mitchell
Poet, satirist, journalist, mystic, nationalist and agri campaigner of the Irish Renaissance
Born in Carrick-on-Shannon 1866
Died in Dublin 1926

Cruachan / Tulsk

fotografia: filipe sousa | 1 dezembro 2022









Ainda sob o signo da insularidade. Depois da Ilha de Gelo e Fogo, o regresso à Ilha Esmeralda.

«-O que procuras na Irlanda? - Seamas O'Hogain.
-...o pote de ouro do duende! - Corto Maltese.
-Como o irás encontrar? - Seamas O'Hogain.
-Encontrá-lo-ei no dia em que encontrar uma rapariga a chorar à beira do rio... Sinn Fein... Sozinhos os dois... - Corto Maltese.
-Sinn Fein... Sozinhos os dois. Bem-vindo à Irlanda, Corto Maltese. - Seamas O'Hogain.»

Hugo Pratt, «Concerto em O menor para Harpa e Nitroglicerina» in Corto Maltese - As Célticas (Les Celtiques, 1970), trad. Jorge Colaço, Edição Geomais, Estoril, 2019, p. 71.

Hjaltadalur

fotografia: filipe sousa | 23 novembro 2022

 

















Não é todos os dias que nos perdemos, rendidos a tanta beleza, numa floresta boreal, no norte da Islândia. Primeiro, pela simples razão de que a Islândia não fica propriamente ao virar da esquina e, depois, porque as árvores não abundam na ilha, quanto mais falar em florestas!
Por isso, o meu encontro fortuito com a rara floresta do vale de Hjaltadalur só pode ser entendido como uma dádiva dos deuses das montanhas a amantes da natureza muito afortunados.
Sigamos, pois, fora dos caminhos e dos trilhos para nos adentrarmos na natureza selvagem da floresta.

«Uma floresta antiga terá muitas árvores antigas verdadeiramente grandes - algumas com copas irregulares, quebradas e musguentas, «sujas» com a enorme acumulação de matéria orgânica, a maioria delas com buracos e afectadas pela podridão. Incluirá árvores mortas ainda de pé e toneladas de troncos tombados. Estas características, embora não sejam desejadas pelos madeireiros (que consideram estes bosques «demasiado maduros») são aquilo que faz de uma floresta antiga algo mais do que um terreno arborizado: é um palácio de organismos, um paraíso para inúmeros seres vivos, um templo onde a vida investiga a fundo o puzzle que ela própria é. A actividade vital cai directamente no solo e no subsolo - a cobertura vegetal, a manta morta. Há térmitas, larvas, centopeias, aracnídeos, minhocas, artrópodes, bichos-de-conta, com os finos fios dos fungos a envolverem tudo.
(...)
Na floresta, o tempo que uma árvore caída leva até se decompor inteiramente é mais ou menos idêntico aos anos que teve de vida. Se as sociedades pudessem aprender a viver a esse ritmo não haveria penúria, nem extinções. Teríamos riachos límpidos, e os salmões regressariam sempre para a desova.
(...)
E depois vêem-se uns leves e compridos montículos - o último vestígio de um tronco há muito desaparecido. Uma linha recta de cogumelos a rebentarem num solo fofo é o último sinal, o derradeiro fantasma, de uma árvore que «morreu» há séculos.
Um tapete de árvores jovens - com tamanhos que variam entre os quinze centímetros e os seis metros - aguarda no solo da floresta que as árvores mortas tombem e libertem com isso um espaço maior no dossel. Soalheiro, ventoso, cálido, aberto, claro - contudo, estamos rodeados de árvores grandiosas. Os seus troncos enchem o céu e reflectem uma luz cálida e dourada.»

Gary Snyder, A Prática da Natureza Selvagem, (The Practice of the Wild, 1990), trad. José Miguel Silva, Antígona, Lisboa, 2018, pp. 169-170, 178-179, 180-181.

Hólar

fotografia: filipe sousa | 23 novembro 2022

 






















Hólar.
Lugar remoto no norte da Islândia, perdido no mapa. Ainda assim, com uma população que ronda os cem habitantes, uma verdadeira multidão para o padrão demográfico e tipo de povoamento do interior da ilha.
A existência de uma igreja, rodeada por cemitério, e de uma universidade, mais o respectivo campus, neste vale profundo de Hjaltadalur, entre montanhas castanhas com neve nos cumes, não deixa de surpreender mesmo o mais prevenido dos forasteiros, como é o meu caso. É aqui que passarei os próximos três dias, isolado do mundo, entre céus azuis cristalinos e tempestades de neve.
Maravilha!

Curiosidade histórica: O bispado de Hólar foi fundado em 1106, nos primórdios do cristianismo na Islândia, para servir a parte norte da ilha, enquanto a parte sul era servida pelo bispado de Skálholt. A construção da primitiva igreja é, no entanto, anterior, datando do século XI. No século seguinte, foi fundado um seminário em Hólar, uma das primeiras instituições de ensino europeias. O seminário extinguiu-se em 1801, quando os dois bispados se juntaram, passando o único bispo a residir em Reykjavík. A igreja actual de Hólar foi construída entre 1759-1763, tendo sido utilizado arenito vermelho das montanhas vizinhas na sua construção. Os templos anteriores eram construções de madeira, com excepção de um de pedra, no século XIV, que nunca foi concluído. Desde 1882, Hólar é sede de uma Escola Superior de Agricultura, renomeada Universidade de Hólar, em 2007. Actualmente, são ministrados cursos de licenciatura e pós-graduação em Estudos Equinos (Hólar é um importante pólo de criação de cavalos islandeses), Aquacultura e Biologia de Peixes e Turismo Rural.

«Em cima dum pequeno monte na charneca estão os restos duma pequena quinta.
Talvez esse monte não seja, num sentido estrito, mais do que uma obra da natureza, talvez tenha sido obra de lavradores há muito falecidos que construíram aqui as suas quintas nas margens verdejantes do riacho, geração após geração, umas por cima das ruínas das outras. Ainda hoje continua a existir um curral para cordeiros, ali, onde há séculos atrás se ouviram ovelhas e crias a balir durante cem primaveras. Afastados do monte e do curral, especialmente para sul, estão espalhados prados amplos com ilhotas de urze, e através do espinhaço de Randsmyri corre um pequeno riacho e outro do lago para leste, pelos vales da charneca oriental. A norte do monte eleva-se uma montanha íngreme, as suas encostas estão marcadas por derrocadas e nas fendas existem relevos cobertos de urze. Das derrocadas erguem-se imponentes rochas escarpadas, e num certo lugar por cima do curral a montanha está rachada, tem uma fenda no basalto, e desta irrompe na Primavera uma cascata comprida e fina. E às vezes o vento do sul sopra na cascata, pulveriza a água para cima da borda da montanha e parece que a queda de água corre para trás. Debaixo da montanha estão pedregulhos espalhados por todo o lado.» 

Halldór Laxness, Gente independente (Sjálfstætt fólk, 1934-1935), trad. Guolaug Rún Margeirsdóttir, Cavalo de Ferro, Lisboa, 2007, pp. 14-15.

Ísland / Islândia

fotografia: filipe sousa | 23 novembro 2022

 






















Não sei se é o mais belo país, como muitos afirmam. Sei apenas que a Islândia é terra de vulcões e géiseres, de campos rugosos de lava escura, de montanhas nevadas, de glaciares e rios abundantes que correm a partir deles, de extensões de tundra a perder de vista, de planaltos onde pastoreiam cavalos e ovelhas em liberdade sem gente por perto, sacudida por ventos fortes e pelas ondas do Atlântico.
Uma sucessão vertiginosa de paisagens imaculadas, cenários agrestes, vastidões onde impera a lei dos elementos e do silêncio, que ajuda a explicar a afortunada viagem de quatrocentos quilómetros entre Reykjavíq e Hólar.
Não sei se a Islândia é o mais belo país, como muitos afirmam. O que sei é que é um dos últimos redutos de natureza selvagem do nosso mundo. Até ver.

«O vento torna-se transparente, a neve que voava em rajadas instala-se sobre a terra e torna-se um manto de silêncio: acima, o céu negro e o cintilar de estrelas tão antigas como o tempo.»

Jón Kalman Stefánsson, A tristeza dos anjos (Harmur englanna, 2009), trad. João Reis, Cavalo de Ferro, Lisboa, 2014, p. 54.

«Via os vales profundos cruzarem-se em todos os sentidos, os precipícios abrirem-se como poços, os lagos transformarem-se em charcos, os rios tornarem-se regatos. À minha direita sucedia-se uma infinidade de glaciares e os picos multiplicavam-se, alguns deles enfeitados de leves fumos. A ondulação destas montanhas sem fim, a que as camadas de neve davam uma aparência de espuma, lembravam a superfície de um mar agitado. Se me virava para oriente, era o oceano majestoso como continuação dos cimos encapelados. Mal se percebia onde acabava a terra e começava o mar.»

Jules (Júlio) Verne, Viagem ao centro da Terra (Voyage au centre de la Terre, 1864), trad. Lídia Jorge, Publicações Europa-América, Mem Martins, 2008, p. 91.

Reykjavík / Reiquejavique, Skólavörðustígur

fotografia: filipe sousa | 21 novembro 2022

 

















Reykjavíq. À letra, baía fumarenta. Cidade pequena e pacata, que se descobre numa manhã. As ruas são estreitas e amigas de peões e ciclistas. As casas irradiam alegria, com a paleta de cores do arco-íris. As mais belas são revestidas de madeira e painel sandwich. A felicidade anda no ar. O mar é presença de sempre, assim como o vento gelado. Até onde a vista alcança, para lá do golfo de Faxa, ergue-se a barreira do Snaefellness, a cratera vulcânica escolhida por Júlio Verne como entrada para o Centro da Terra. A nossa viagem é, porém, outra. Ou talvez não. Com o ocaso às 16 horas, resta-nos uma hora de claridade para os encantos da costa ocidental. Entre Reykjavíq e o próximo destino, no norte da ilha, distam uns bons quatrocentos quilómetros. Já estivemos mais longe do Círculo Polar Ártico.

«Perder-se uma pessoa nas ruas de Reiquejavique não é coisa fácil, por isso não fui obrigado a perguntar o caminho, o que em linguagem de gestos pode provocar muitos equívocos.
A cidade estende-se por um solo baixo e pantanoso, entre duas colinas. De um lado, uma massa de lavas desce em declive suave até ao mar. Do outro, abre-se a vasta baía de Faxa, limitada a norte pelo enorme glaciar do Sneffels, onde apenas a Valkyrie se encontrava ancorada no momento. 
(...)
Das duas ruas de Reiquejavique, a maior é paralela ao mar; moram aí os mercadores e os comerciantes, em cabanas de madeira feitas de vigas pintadas de vermelho, dispostas horizontalmente. A outra rua, mais para oeste, dirige-se para uma lagoa, e é ladeada pela casa do bispo e de outras pessoas não relacionadas com o comércio.
(...)
Em três horas visitei não só a cidade mas também os arredores. O aspecto geral era extraordinariamente triste. Sem árvores, sem vegetação, por assim dizer. Por toda a parte as arestas vivas das rochas vulcânicas.»

Jules (Júlio) Verne, Viagem ao centro da Terra (Voyage au centre de la Terre, 1864), trad. Lídia Jorge, Publicações Europa-América, Mem Martins, 2008, pp. 54-55.

Keflavík

fotografia: filipe sousa | 21 novembro 2022


















Em Keflavík há três pontos cardeais: o vento, o mar e a eternidade.
Desprovida de qualquer valor, e não se conhece sítio onde o céu esteja mais distante da Terra.
Keflavík não existe.

«Prólogo

Deixemos algo bem claro antes de avançarmos e nos embrenharmos no que não compreendemos, no que não toleramos mas desejamos, naquilo que tememos e em simultâneo esperamos alcançar, e é importante clarificarmos isto para termos alguma coisa a que nos agarrar: estamos em Keflavík. Uma vila idiossincrática e remota, com poucos milhares de habitantes, um porto vazio, desemprego, stands de automóveis, carrinhas de comida de rua, uma povoação tão plana que, vista do céu, mais se assemelha a um mar estático. Em manhãs serenas, o Sol nasce como uma erupção vulcânica silenciosa. Vemo-lo quando o seu fogo surge atrás das montanhas distantes, como se algo gigantesco se erguesse das profundezas. É uma força capaz de içar o céu e alterar tudo, vemo-la quando a noite escura dá lugar ao fogo. Depois o Sol ergue-se. Ao início, como uma erupção vulcânica que varre as estrelas no céu, esses cães amistosos, e ascende majestosamente acima da península de Reykjanes. O Sol ergue-se devagar, e nós estamos vivos.»

Jón Kalman Stefánsson, Aproximadamente do tamanho do universo (Eitthvaó á stoeró vió alheiminn, 2013), trad. João Reis, Cavalo de Ferro, Lisboa, 2020, p. 9.

Ísland / Islândia

fotografia: filipe sousa | 21 novembro 2022

 

















-O que queres ser quando chegares à idade maior?
-Guardador de auroras boreais na Ilha de Gelo e Fogo. Ando a treinar para isso.
-A treinar para quê?
-Para guardador de auroras boreais e para chegar à idade maior. Ambas as coisas.
-Nada mau! E onde fica essa Ilha de Gelo e Fogo?

«-Esta é uma das melhores cartas da Islândia, da autoria de Handerson, e estou convencido de que ela nos vai dar a solução para todos os problemas.
Debrucei-me sobre o mapa.
-Vê aqui esta ilha composta de vulcões - disse o professor - e repara que têm todos o nome de Jökull. Esta palavra quer dizer «glaciar» em islandês, e dada a elevada latitude da Islândia, a maior parte das erupções produzem-se através das camadas de gelo. Donde a denominação de Jökull aplicada a todos os montes ignívomos da ilha.»

Jules (Júlio) Verne, Viagem ao centro da Terra (Voyage au centre de la Terre, 1864), trad. Lídia Jorge, Publicações Europa-América, Mem Martins, 2008, p. 32.

Manchester

fotografia: filipe sousa | 20 novembro 2022

 
























O paralelismo cronológico é sobejamente conhecido, mas vem a propósito evocá-lo. O planeta Terra tem 4,6 milhares de milhões de anos. Se passarmos esse vasto espaço de tempo a uma mais reduzida e manejável escala de 46 anos, o aparecimento do homem moderno corresponderá às últimas quatro horas. E a Revolução Industrial ter-se-á iniciado há um minuto, tempo ínfimo mas decisivo no curso da humanidade, pelas melhores e piores razões. Nada será como antes, bem pode dizer-se, com consequências de ordem social, económica, política, tecnológica e ambiental. Até chegarmos onde estamos hoje: bem perto do ponto de ruptura, ou de não retorno, se é que não o atingimos já! A contagem desses últimos sessenta segundos de tempo biológico começa justamente na cidade que tenho diante de mim. Manchester, o expoente máximo da primeira Revolução Industrial, laboratório do que viria a ser o capitalismo e o socialismo, berço do Partido Trabalhista. Assuntos a que espero voltar um dia quando vier com tempo para conhecer a cidade, o que subsiste da sua herança industrial, incluindo visitas aos Museus da Indústria e da História do Povo. Podia falar ainda do Museu Nacional de Futebol, que Manchester também acolhe, mas não me apetece de todo falar de futebol por estes dias, vá-se lá saber porquê! No entanto, sempre direi que a sorte dos migrantes que sacrificaram a vida ou que foram vítimas de exploração laboral durante a construção dos estádios no Catar não difere muito da dos operários dos complexos fabris da Revolução Industrial, há mais de duzentos anos!

Mas afinal, que faço eu em Manchester? Sou apenas um passageiro em fuga, com vontade de rumar ainda mais a norte, à procura de um lugar na Terra poupado às notícias do futebol e do Campeonato do Mundo e, mais importante, a salvo de injustiças. Haverá esse lugar?

«O rugido dos motores aumenta constantemente, e o avião traça uma rota através de campo aberto. Por esta altura, já deveríamos ter podido ver a massa espalhada de Manchester, mas não se via senão um leve vislumbre, como se surgisse de um incêndio quase sufocada em cinzas. Um manto de nevoeiro, erguido das planícies pantanosas que chegavam até ao mar da Irlanda, tinha coberto a cidade, uma cidade espalhada por mil quilómetros quadrados, construída de inúmeros tijolos e habitada por milhões de almas, vivas e mortas.»

H. G. Sebald, Os Emigrantes (The Emigrants, 1992), Quetzal Editores, Lisboa, 2013, p. 108.

Berlin / Berlim

fotografia: filipe sousa | 25 janeiro 2020

 

















«Não saber orientar-se numa cidade - talvez seja desinteressante e banal. Requer ignorância - nada mais. Mas perdermo-nos numa cidade - como nos perdemos numa floresta -, isso já exige uma formação muito diferente. As placas e os nomes de ruas, os transeuntes, telhados, quiosques ou tabernas têm de falar a quem anda por ali às voltas como um galho a estalar na floresta debaixo dos seus pés, como o grito medonho de um abetouro vindo de longe, como o silêncio súbito de uma clareira em cujo centro desabrocha um lírio.»

Walter Benjamim, Crónica Berlinense (Berliner Chronik, 1932), trad. António Sousa Ribeiro, Relógio D'Água Editores, Lisboa, 2021, p. 156.

EN 255-1

fotografia: filipe sousa | 6 novembro 2022














Um clássico intemporal.

«-Não me pouses a mala em cima das mudanças que me atrapalhas.
(...)
-Cuidado com a curva. Tu e a tua mania de cortar as curvas...»

Mário de Carvalho, Fantasia para dois coronéis e uma piscina, 3ª ed. Editorial Caminho, Lisboa, 2003, pp. 76, 78.

Avignon / Avinhão, Place du Palais

fotografia: filipe sousa | 19 outubro 2022

 

















Tenho por certo que a eleição de Lula da Silva é o melhor para a Amazónia, para os povos indígenas e para o combate às alterações climáticas.
Se dúvidas houvesse, bastaria atentar nos depoimentos pungentes dos seus líderes, que integram a mais recente exposição de Sebastião Salgado, para compreender o nível de predação infligido na floresta amazónica e a dimensão dos atropelos aos direitos das suas populações durante o consulado de Jair Bolsonaro.
Amazônia é um grande acontecimento artístico, um grito de denúncia, um manifesto em defesa da vida e da natureza, um repto inadiável para travar a desflorestação e restaurar habitats e a biodiversidade, de que todos dependemos.
Através da lente de Salgado, não nos resta senão perdermo-nos na selva em êxtase, acossados pelo «silêncio sinfónico» da música de Jean-Michel Jarre, que as palavras de Ferreira de Castro, com quase cem anos, conseguem, em grande medida, recriar:

«E por toda a parte o silêncio. Um silêncio sinfónico, feito de milhões de gorjeios longínquos, que se casavam ao murmúrio suavíssimo da folhagem, tão suave que parecia estar a selva em êxtase.
(...)
Adivinhava-se a luta desesperada de caules e ramos, ali onde dificilmente se encontrava um palmo de chão que não alimentasse vida triunfante. A selva dominava tudo. Não era o segundo reino, era o primeiro em força e categoria, tudo abandonando a um plano secundário. E o homem, simples transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele despotismo. O animal esfrangalhava-se no império vegetal e, para ter alguma voz na solidão reinante, forçoso se lhe tornava vestir pele de fera. A árvore solitária, que borda melancolicamente campos e regatos na Europa, perdia ali a sua graça e romântica sugestão e, surgindo em brenha inquietante, impunha-se como um inimigo. Dir-se-ia que a selva tinha, como os monstros fabulosos, mil olhos ameaçadores, que espiavam de todos os lados.
(...)
O rio começara a encher. Era um dilúvio anual que vinha do Peru, da Bolívia, dos contrafortes dos Andes, veios que borbulhavam, blocos de gelo que se derretiam, escoando-se da terra alta, regougando nas cachoeiras e destroçando, de passagem, tudo quanto se lhes opunha. Dir-se-ia que o Pacífico galgara a cordilheira e viera esparramar-se, em fúria ciclópica, do lado de cá. Minava, abria novos caminhos, contorcia-se nas enseadas, engrossava com as chuvas e ia sempre, sem descanso, a caminho dos pontos baixos. Caído nas esplanadas, perdia em violência o que ganhava em imponência. Já não era enxurrada, singra aqui, torce ali, correndo pelos declives e cantando nos despenhadeiros. Era um volume pesado, barro líquido que marchava em grandes amplitudes, levando na face lisa, que já não tinha murmúrios nem rugidos de cataratas, todos os destroços que fizera. Parecia, assim, ter saído dum mundo reduzido a escombros. Os cursos subiam logo, tragando praias estivais, salvando altos barrancos e fazendo das ilhas verdes náugragos tristes e amarrados.
(...)
A selva não aceitava nenhuma clareira que lhe abrissem e só descansaria quando a fechasse novamente, transformando a barraca em tapera, dali a dez, a vinte, a cinquenta, não importava a quatro anos - mas um dia! Seria pelo esgotamento das seringueiras, seria pela intervenção dos selvagens, chacinando os desbravadores, seria por outro motivo - mas seria!
(...)
Toda a terra se arrepiava, voavam milhões de folhas desprendidas e não havia na maranha um só ramo que não se agitasse. Estreitavam-se e tremiam as copas exuberantes, parecendo, no seu desgrenhamento, não presas mas correndo na mesma direcção do vento, com louca velocidade. Era um concerto cada vez mais alarmante de instrumentos desvairados e cada vez também o regente mostrava frenesi maior. A água plácida do igapó pusera-se já a ondular, porque a ventania rompera, enfim, a muralha do entrançado e viera soprar cá em baixo a sua ária estentorosa. E, de quando em quando, lá nas alturas, o bombo da orquestra infernal fazia-se ouvir com fragor. Multiplicavam-se as bichas que iluminavam, por súbito clarão, o manto pardo em que tudo se embrulhara. Nunca Alberto vira, no mundo já trilhado, maior fúria dos elementos turbilhonantes.»

Ferreira de Castro, A Selva (1930), 39ª ed, Guimarães Editores, Lisboa, 2002, pp. 80, 88, 133-134, 145-146.