Ísland / Islândia

fotografia: filipe sousa | 23 novembro 2022

 






















Não sei se é o mais belo país, como muitos afirmam. Sei apenas que a Islândia é terra de vulcões e géiseres, de campos rugosos de lava escura, de montanhas nevadas, de glaciares e rios abundantes que correm a partir deles, de extensões de tundra a perder de vista, de planaltos onde pastoreiam cavalos e ovelhas em liberdade sem gente por perto, sacudida por ventos fortes e pelas ondas do Atlântico.
Uma sucessão vertiginosa de paisagens imaculadas, cenários agrestes, vastidões onde impera a lei dos elementos e do silêncio, que ajuda a explicar a afortunada viagem de quatrocentos quilómetros entre Reykjavíq e Hólar.
Não sei se a Islândia é o mais belo país, como muitos afirmam. O que sei é que é um dos últimos redutos de natureza selvagem do nosso mundo. Até ver.

«O vento torna-se transparente, a neve que voava em rajadas instala-se sobre a terra e torna-se um manto de silêncio: acima, o céu negro e o cintilar de estrelas tão antigas como o tempo.»

Jón Kalman Stefánsson, A tristeza dos anjos (Harmur englanna, 2009), trad. João Reis, Cavalo de Ferro, Lisboa, 2014, p. 54.

«Via os vales profundos cruzarem-se em todos os sentidos, os precipícios abrirem-se como poços, os lagos transformarem-se em charcos, os rios tornarem-se regatos. À minha direita sucedia-se uma infinidade de glaciares e os picos multiplicavam-se, alguns deles enfeitados de leves fumos. A ondulação destas montanhas sem fim, a que as camadas de neve davam uma aparência de espuma, lembravam a superfície de um mar agitado. Se me virava para oriente, era o oceano majestoso como continuação dos cimos encapelados. Mal se percebia onde acabava a terra e começava o mar.»

Jules (Júlio) Verne, Viagem ao centro da Terra (Voyage au centre de la Terre, 1864), trad. Lídia Jorge, Publicações Europa-América, Mem Martins, 2008, p. 91.

Reykjavík / Reiquejavique, Skólavörðustígur

fotografia: filipe sousa | 21 novembro 2022

 

















Reykjavíq. À letra, baía fumarenta. Cidade pequena e pacata, que se descobre numa manhã. As ruas são estreitas e amigas de peões e ciclistas. As casas irradiam alegria, com a paleta de cores do arco-íris. As mais belas são revestidas de madeira e painel sandwich. A felicidade anda no ar. O mar é presença de sempre, assim como o vento gelado. Até onde a vista alcança, para lá do golfo de Faxa, ergue-se a barreira do Snaefellness, a cratera vulcânica escolhida por Júlio Verne como entrada para o Centro da Terra. A nossa viagem é, porém, outra. Ou talvez não. Com o ocaso às 16 horas, resta-nos uma hora de claridade para os encantos da costa ocidental. Entre Reykjavíq e o próximo destino, no norte da ilha, distam uns bons quatrocentos quilómetros. Já estivemos mais longe do Círculo Polar Ártico.

«Perder-se uma pessoa nas ruas de Reiquejavique não é coisa fácil, por isso não fui obrigado a perguntar o caminho, o que em linguagem de gestos pode provocar muitos equívocos.
A cidade estende-se por um solo baixo e pantanoso, entre duas colinas. De um lado, uma massa de lavas desce em declive suave até ao mar. Do outro, abre-se a vasta baía de Faxa, limitada a norte pelo enorme glaciar do Sneffels, onde apenas a Valkyrie se encontrava ancorada no momento. 
(...)
Das duas ruas de Reiquejavique, a maior é paralela ao mar; moram aí os mercadores e os comerciantes, em cabanas de madeira feitas de vigas pintadas de vermelho, dispostas horizontalmente. A outra rua, mais para oeste, dirige-se para uma lagoa, e é ladeada pela casa do bispo e de outras pessoas não relacionadas com o comércio.
(...)
Em três horas visitei não só a cidade mas também os arredores. O aspecto geral era extraordinariamente triste. Sem árvores, sem vegetação, por assim dizer. Por toda a parte as arestas vivas das rochas vulcânicas.»

Jules (Júlio) Verne, Viagem ao centro da Terra (Voyage au centre de la Terre, 1864), trad. Lídia Jorge, Publicações Europa-América, Mem Martins, 2008, pp. 54-55.

Keflavík

fotografia: filipe sousa | 21 novembro 2022


















Em Keflavík há três pontos cardeais: o vento, o mar e a eternidade.
Desprovida de qualquer valor, e não se conhece sítio onde o céu esteja mais distante da Terra.
Keflavík não existe.

«Prólogo

Deixemos algo bem claro antes de avançarmos e nos embrenharmos no que não compreendemos, no que não toleramos mas desejamos, naquilo que tememos e em simultâneo esperamos alcançar, e é importante clarificarmos isto para termos alguma coisa a que nos agarrar: estamos em Keflavík. Uma vila idiossincrática e remota, com poucos milhares de habitantes, um porto vazio, desemprego, stands de automóveis, carrinhas de comida de rua, uma povoação tão plana que, vista do céu, mais se assemelha a um mar estático. Em manhãs serenas, o Sol nasce como uma erupção vulcânica silenciosa. Vemo-lo quando o seu fogo surge atrás das montanhas distantes, como se algo gigantesco se erguesse das profundezas. É uma força capaz de içar o céu e alterar tudo, vemo-la quando a noite escura dá lugar ao fogo. Depois o Sol ergue-se. Ao início, como uma erupção vulcânica que varre as estrelas no céu, esses cães amistosos, e ascende majestosamente acima da península de Reykjanes. O Sol ergue-se devagar, e nós estamos vivos.»

Jón Kalman Stefánsson, Aproximadamente do tamanho do universo (Eitthvaó á stoeró vió alheiminn, 2013), trad. João Reis, Cavalo de Ferro, Lisboa, 2020, p. 9.

Ísland / Islândia

fotografia: filipe sousa | 21 novembro 2022

 

















-O que queres ser quando chegares à idade maior?
-Guardador de auroras boreais na Ilha de Gelo e Fogo. Ando a treinar para isso.
-A treinar para quê?
-Para guardador de auroras boreais e para chegar à idade maior. Ambas as coisas.
-Nada mau! E onde fica essa Ilha de Gelo e Fogo?

«-Esta é uma das melhores cartas da Islândia, da autoria de Handerson, e estou convencido de que ela nos vai dar a solução para todos os problemas.
Debrucei-me sobre o mapa.
-Vê aqui esta ilha composta de vulcões - disse o professor - e repara que têm todos o nome de Jökull. Esta palavra quer dizer «glaciar» em islandês, e dada a elevada latitude da Islândia, a maior parte das erupções produzem-se através das camadas de gelo. Donde a denominação de Jökull aplicada a todos os montes ignívomos da ilha.»

Jules (Júlio) Verne, Viagem ao centro da Terra (Voyage au centre de la Terre, 1864), trad. Lídia Jorge, Publicações Europa-América, Mem Martins, 2008, p. 32.

Manchester

fotografia: filipe sousa | 20 novembro 2022

 
























O paralelismo cronológico é sobejamente conhecido, mas vem a propósito evocá-lo. O planeta Terra tem 4,6 milhares de milhões de anos. Se passarmos esse vasto espaço de tempo a uma mais reduzida e manejável escala de 46 anos, o aparecimento do homem moderno corresponderá às últimas quatro horas. E a Revolução Industrial ter-se-á iniciado há um minuto, tempo ínfimo mas decisivo no curso da humanidade, pelas melhores e piores razões. Nada será como antes, bem pode dizer-se, com consequências de ordem social, económica, política, tecnológica e ambiental. Até chegarmos onde estamos hoje: bem perto do ponto de ruptura, ou de não retorno, se é que não o atingimos já! A contagem desses últimos sessenta segundos de tempo biológico começa justamente na cidade que tenho diante de mim. Manchester, o expoente máximo da primeira Revolução Industrial, laboratório do que viria a ser o capitalismo e o socialismo, berço do Partido Trabalhista. Assuntos a que espero voltar um dia quando vier com tempo para conhecer a cidade, o que subsiste da sua herança industrial, incluindo visitas aos Museus da Indústria e da História do Povo. Podia falar ainda do Museu Nacional de Futebol, que Manchester também acolhe, mas não me apetece de todo falar de futebol por estes dias, vá-se lá saber porquê! No entanto, sempre direi que a sorte dos migrantes que sacrificaram a vida ou que foram vítimas de exploração laboral durante a construção dos estádios no Catar não difere muito da dos operários dos complexos fabris da Revolução Industrial, há mais de duzentos anos!

Mas afinal, que faço eu em Manchester? Sou apenas um passageiro em fuga, com vontade de rumar ainda mais a norte, à procura de um lugar na Terra poupado às notícias do futebol e do Campeonato do Mundo e, mais importante, a salvo de injustiças. Haverá esse lugar?

«O rugido dos motores aumenta constantemente, e o avião traça uma rota através de campo aberto. Por esta altura, já deveríamos ter podido ver a massa espalhada de Manchester, mas não se via senão um leve vislumbre, como se surgisse de um incêndio quase sufocada em cinzas. Um manto de nevoeiro, erguido das planícies pantanosas que chegavam até ao mar da Irlanda, tinha coberto a cidade, uma cidade espalhada por mil quilómetros quadrados, construída de inúmeros tijolos e habitada por milhões de almas, vivas e mortas.»

H. G. Sebald, Os Emigrantes (The Emigrants, 1992), Quetzal Editores, Lisboa, 2013, p. 108.

Berlin / Berlim

fotografia: filipe sousa | 25 janeiro 2020

 

















«Não saber orientar-se numa cidade - talvez seja desinteressante e banal. Requer ignorância - nada mais. Mas perdermo-nos numa cidade - como nos perdemos numa floresta -, isso já exige uma formação muito diferente. As placas e os nomes de ruas, os transeuntes, telhados, quiosques ou tabernas têm de falar a quem anda por ali às voltas como um galho a estalar na floresta debaixo dos seus pés, como o grito medonho de um abetouro vindo de longe, como o silêncio súbito de uma clareira em cujo centro desabrocha um lírio.»

Walter Benjamim, Crónica Berlinense (Berliner Chronik, 1932), trad. António Sousa Ribeiro, Relógio D'Água Editores, Lisboa, 2021, p. 156.

EN 255-1

fotografia: filipe sousa | 6 novembro 2022














Um clássico intemporal.

«-Não me pouses a mala em cima das mudanças que me atrapalhas.
(...)
-Cuidado com a curva. Tu e a tua mania de cortar as curvas...»

Mário de Carvalho, Fantasia para dois coronéis e uma piscina, 3ª ed. Editorial Caminho, Lisboa, 2003, pp. 76, 78.

Avignon / Avinhão, Place du Palais

fotografia: filipe sousa | 19 outubro 2022

 

















Tenho por certo que a eleição de Lula da Silva é o melhor para a Amazónia, para os povos indígenas e para o combate às alterações climáticas.
Se dúvidas houvesse, bastaria atentar nos depoimentos pungentes dos seus líderes, que integram a mais recente exposição de Sebastião Salgado, para compreender o nível de predação infligido na floresta amazónica e a dimensão dos atropelos aos direitos das suas populações durante o consulado de Jair Bolsonaro.
Amazônia é um grande acontecimento artístico, um grito de denúncia, um manifesto em defesa da vida e da natureza, um repto inadiável para travar a desflorestação e restaurar habitats e a biodiversidade, de que todos dependemos.
Através da lente de Salgado, não nos resta senão perdermo-nos na selva em êxtase, acossados pelo «silêncio sinfónico» da música de Jean-Michel Jarre, que as palavras de Ferreira de Castro, com quase cem anos, conseguem, em grande medida, recriar:

«E por toda a parte o silêncio. Um silêncio sinfónico, feito de milhões de gorjeios longínquos, que se casavam ao murmúrio suavíssimo da folhagem, tão suave que parecia estar a selva em êxtase.
(...)
Adivinhava-se a luta desesperada de caules e ramos, ali onde dificilmente se encontrava um palmo de chão que não alimentasse vida triunfante. A selva dominava tudo. Não era o segundo reino, era o primeiro em força e categoria, tudo abandonando a um plano secundário. E o homem, simples transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele despotismo. O animal esfrangalhava-se no império vegetal e, para ter alguma voz na solidão reinante, forçoso se lhe tornava vestir pele de fera. A árvore solitária, que borda melancolicamente campos e regatos na Europa, perdia ali a sua graça e romântica sugestão e, surgindo em brenha inquietante, impunha-se como um inimigo. Dir-se-ia que a selva tinha, como os monstros fabulosos, mil olhos ameaçadores, que espiavam de todos os lados.
(...)
O rio começara a encher. Era um dilúvio anual que vinha do Peru, da Bolívia, dos contrafortes dos Andes, veios que borbulhavam, blocos de gelo que se derretiam, escoando-se da terra alta, regougando nas cachoeiras e destroçando, de passagem, tudo quanto se lhes opunha. Dir-se-ia que o Pacífico galgara a cordilheira e viera esparramar-se, em fúria ciclópica, do lado de cá. Minava, abria novos caminhos, contorcia-se nas enseadas, engrossava com as chuvas e ia sempre, sem descanso, a caminho dos pontos baixos. Caído nas esplanadas, perdia em violência o que ganhava em imponência. Já não era enxurrada, singra aqui, torce ali, correndo pelos declives e cantando nos despenhadeiros. Era um volume pesado, barro líquido que marchava em grandes amplitudes, levando na face lisa, que já não tinha murmúrios nem rugidos de cataratas, todos os destroços que fizera. Parecia, assim, ter saído dum mundo reduzido a escombros. Os cursos subiam logo, tragando praias estivais, salvando altos barrancos e fazendo das ilhas verdes náugragos tristes e amarrados.
(...)
A selva não aceitava nenhuma clareira que lhe abrissem e só descansaria quando a fechasse novamente, transformando a barraca em tapera, dali a dez, a vinte, a cinquenta, não importava a quatro anos - mas um dia! Seria pelo esgotamento das seringueiras, seria pela intervenção dos selvagens, chacinando os desbravadores, seria por outro motivo - mas seria!
(...)
Toda a terra se arrepiava, voavam milhões de folhas desprendidas e não havia na maranha um só ramo que não se agitasse. Estreitavam-se e tremiam as copas exuberantes, parecendo, no seu desgrenhamento, não presas mas correndo na mesma direcção do vento, com louca velocidade. Era um concerto cada vez mais alarmante de instrumentos desvairados e cada vez também o regente mostrava frenesi maior. A água plácida do igapó pusera-se já a ondular, porque a ventania rompera, enfim, a muralha do entrançado e viera soprar cá em baixo a sua ária estentorosa. E, de quando em quando, lá nas alturas, o bombo da orquestra infernal fazia-se ouvir com fragor. Multiplicavam-se as bichas que iluminavam, por súbito clarão, o manto pardo em que tudo se embrulhara. Nunca Alberto vira, no mundo já trilhado, maior fúria dos elementos turbilhonantes.»

Ferreira de Castro, A Selva (1930), 39ª ed, Guimarães Editores, Lisboa, 2002, pp. 80, 88, 133-134, 145-146.

Avignon / Avinhão, Île de la Barthelasse

fotografia: filipe sousa | 19 outubro 2022

 









Da ilha de Barthelasse, no Ródano, tem-se a melhor perspectiva da ponte de Saint Bénézet, cortada a meio do rio. Trata-se da famosa ponte d’Avignon celebrada no refrão da canção infantil: “Sur le pont d’Avignon/On y danse, on y danse/Sur le pont d’Avignon,/On y danse, tout en rond”. Porém, numa missa composta no século XVI, não se dançava sobre mas sob a ponte, numa alusão à sua diminuta largura, que não permitia a execução de farândolas nem sarabandas. Quando muito acolhia “os pífaros e os tamborins”, que não precisavam de tanto espaço, tendo as danças lugar junto dos arcos da ponte, nas margens do Ródano, como deixa entrever este trecho do escritor Alphonse Daudet (1840-1897) em:

«Quem não viu Avignon no tempo dos Papas não viu nada. Pela alegria, pela vida, pela animação, pelo ruído das festas, nunca se viu igual. De manhã à noite, sucediam-se as procissões, as peregrinações, as ruas juncadas de flores, atapetadas de grossas alcatifas, as chegadas dos cardeais pelo Ródano, bandeiras ao vento, galeras enfeitadas, os soldados do Papa cantando latim nas praças, as matracas dos irmãos mendicantes; das casas que se comprimiam em volta do grande palácio papal, como abelhas em volta da colmeia, zumbia o rac-rac dos teares de rendas, o vaivém das lançadeiras tecendo o ouro das casulas, os pequenos martelos dos cinzeladores de galhetas, os alaúdeiros ajustando as cordas, os cânticos das tecedeiras; e além de tudo isso, o badalar dos sinos e também os tamborins que se ouviam rufar, lá em baixo, para os lados da ponte. Porque entre nós, quando o povo está contente, é preciso que dance; e como nesse tempo, as ruas da cidade eram demasiado estreitas para a farândola, os pífaros e os tamborins postavam-se sobre a ponte de Avignon, ao vento fresco do Ródano, e, dia e noite, dançava-se, dançava-se...»

Alphonse Daudet, «A mula do Papa» («La mule du Pape», 30 outubro 1868 in Le Figaro) in Cartas do meu moinho (Lettres de mon molin, 1869), trad. Luís Engénio Ferreira, Atlântida, Coimbra, 1959, p. 18.

Séculos mais tarde, a companhia de bailado de Maurice Béjart (1927-2007), presença assídua no festival de teatro de Avinhão, recuperou essa memória da “dança sob a ponte”, como ilustra a fotografia patente no Jardin des Doms.
Hoje em dia, as coreografias podem ser outras, como as do grupo de jovens canoístas que encontrei a jogar às batalhas navais…debaixo da ponte.

Roma, Fórum, Atrium Vestae

fotografia: filipe sousa | 25 junho 2016

















«No dia em que uma estátua é acabada, começa, de certo modo, a sua vida. Fechou-se a primeira fase, em que, pela mão do escultor, ela passou de bloco a forma humana; numa outra fase, ao correr dos séculos, irão alternar-se a adoração, a admiração, o amor, o desprezo ou a indiferença, em graus sucessivos de erosão e desgaste, até chegar, pouco a pouco, ao estado de mineral informe a que o seu escultor a tinha arrancado.
(...)
Elas passaram por essa decomposição sem agonia, por essa perda sem morte, essa sobrevivência sem ressurreição que é a da matéria entregue às suas próprias leis.»

Marguerite Yourcenar, O Tempo, esse grande escultor (Le Temps, ce grand sculpteur, 1954, 1982), trad. Helena Vaz da Silva, Relógio D'Água Editores, Lisboa, 2020, pp. 55, 59.

Safara, Rua Doutor Francisco Brito Simões Miranda

fotografia: filipe sousa | agosto 2006

 

















O último dos caleiros (embora todos os mourenses o sejam por apodo, naturais mas também adoptivos, bem entendido!).
Ó mulher cal braaaanca… Olhem que é cal branca mulheeeer…

«Em tempo de inverno todos os dias o fumeiro do lume era caiado. Quando necessário caiavas os baixinhos e anualmente toda a casa por dentro e também por fora se não estivesses de luto carregado, que até nisso se te manifestava o sentimento. Se a cal ia estando escassa no caqueiro começavas a andar inquieta, suspirando por um caleiro. A vila de Moura detinha o exclusivo do abastecimento de cal branca de grande parte da margem esquerda do Guadiana e um bom número de filhos seus percorriam as povoações no comércio da cal, que transportavam em carros acogulados das famosas pedras, puxados por parelhas de muares mais ou menos estafadas. Assim, não só pelo azeite, mas também pela cal, ficou famosa a notável vila, hoje digna cidade, ao ponto de cá na região os mourenses serem apodados de caleiros quando se pretende com eles fazer ironia.
Aqueles dignos profissionais pareciam todos escolhidos a dedo. Dotados de prodigiosas vozes de tremenda intensidade, embora de alturas e timbres diversos, a letra era sempre a mesma: Ó mulher cal braaaanca... Olhem que é cal branca mulheeeer... . Com esta lenga lenga acordei fulo, muitas vezes, às seis da manhã. Mas elas, afanosas, sobraçando o espartão adequado, lá iam comprar a arroba de cal, pesada na balança romana do vendedor, cuja língua se destravava se lhe chamavam a atenção para a escassez do peso ou para a má qualidade do produto. Brutos que nem caleiros, salvo seja quem não é.»

Bento Caldeira, «Oh Mulher Cal Braaaanca», Memórias de um médico (Clinicando no agro alentejano), Edições Colibri, Lisboa, 1992, pp. 48-49.

Praia da Rocha

fotografia: filipe sousa | agosto 1990

 















Com a Feira do Livro de Lisboa à porta, revisito esta apropriada memória. Subíamos, eu e a Clara, o Parque Eduardo VII, no dia 10 de Junho de 1991, quando, ao passarmos por um dos stands da Caminho, somos surpreendidos com a presença de Manuel da Fonseca. O escritor não se encontrava no exterior do stand, na área reservada para autógrafos e dedicatórias dos autores, como de costume. Estava, sim, no interior, atrás do balcão, sozinho, fazendo as vezes de um vendedor, recomendando os seus, mas também outros livros de outros autores da editora, e por isso o espanto de o vermos naquele papel e naquele sítio. Entabulámos conversa e acabámos a falar do Alentejo. Ele, do seu torrão natal: Santiago do Cacém. Nós, da intenção de trocarmos Lisboa pelo distrito de Portalegre, sem pressentirmos que o futuro há muito estava traçado e passaria por Moura, mais a sul. Antes da despedida, entre votos de sorte e felicidade, comprámos as suas Crónicas Algarvias, que fez questão de autografar “muito afectuosamente”. Trata-se de um dos melhores livros que conheço sobre o Algarve e um dos melhores sobre viagens escrito em português. Reúne as crónicas publicadas no vespertino A Capital, de 1 a 16 de Agosto de 1968. Vindo a lume apenas em 1986, inclui as partes cortadas pela Censura. A obra é pioneira na abordagem do que viria a ser o boom turístico do Algarve. A sua divisa resume-se a “o menos possível de paisagem”, pois “o que interessa são as pessoas”, como nesta passagem sobre a praia da Rocha:

«Para lá das arribas avermelhadas, a praia, que o bater das marés abriu às meias luas e cerca os leixões sanguíneos na enchente, corre, branca-e-oiro, para os lados de Alvor.
Em frente dos toldos, deitados na areia, corpos torram ao calor deste meio-dia de sol. Na água, há gente ao banho e à braçada. Cabeças que surgem, desaparecem ao compasso da vaga, que é como uma funda respiração do mar.
Como o bar da esplanada está fechado, e apenas funciona a venda de bilhetes-postais ilustrados e recordações da província, entro na casa de chá. Sento-me na única mesa livre da fila que dá para a praia, e peço uma cerveja. A meu lado, o bebé que dorme no carrinho é pretexto para a conversa com a senhora de idade. É a avó, como ela me disse. Os pais do bebé estão na praia. Mas devem chegar daí a pouco, pois vão sendo horas de ir almoçar.
Depois de umas tantas frases próprias de tais circunstâncias, refiro-me à praia da Rocha num certo sentido.
-Compreende-se - diz-me a senhora. -É a praia de maiores tradições de todo o Algarve. Há muitas moradias de portugueses. Muitos não são daqui, mas são moradias antigas que vão passando de pais para filhos. Também de ingleses e, agora, de alemães. É muito procurada por uma certa gente, a praia da Rocha. Como lhe disse, isso entende-se. Repare como tudo isto convida à calma e ao sossego. Na verdade é de férias o tempo que aqui se passa.
Eu, da minha mesa, e a senhora, da mesa ao lado, olhamos para o mar, para o azul intenso do céu, para o doirado da areia da praia.
-É a minha praia desde criança - recomeça a senhora de idade. -Os meus pais já vinham para aqui. Vim eu, depois, os meus filhos e, agora, esta minha netinha.
No sorriso bonito da velha senhora há a expressão agradada de quem sente, a demorar-se no tempo através de gerações, o prazer e a beleza daquela praia.
Olha de novo para o mar. Volta-se. E como a comunicar-me todas as boas recordações do passado, todas as alegrias do presente e as outras, as alegrias imaginadas no futuro, resume tudo isso em quatro palavras:
-A praia da Rocha!...»

Manuel da Fonseca, Crónicas algarvias (1ª ed. 1986), 2ª ed., Editorial Caminho, Lisboa, 1987, pp. 213-215.  

Paris, Boulevard Marguerite-de-Rochechouart

fotografia: filipe sousa | 16 fevereiro 2022

 






















Foram as memórias de Paul Bowles da sua estada em Paris (1931-1932) que me conduziram até ao Perfume do Metro (Parfum du Métro), de que nunca ouvira falar. Aspergida a partir dos próprios comboios, a fragrância servia para amenizar o cheiro a borracha queimada, suor e esgotos acumulado nos subterrâneos da Cidade Luz. A eficácia do perfume surge bem demonstrada no final deste filme promocional dos anos 50: https://www.youtube.com/watch?v=8tPiSj2-7Fw
Não faltam referências sugestivas às “estações odoríferas” do metro parisiense: Lilas, Jasmin, Bel-Air.
Depois de um interregno, sem perfume, a RATP (Régie Autonome des Transports Parisiens) resolveu recentemente, no final dos anos 90, retomar a ideia e testar uma fragância chamada "Madeleine", composto de limão, lavanda, jasmim e almíscar. Com consumos de perto de duas toneladas de perfume por mês, o projecto revelou-se insustentável e voltou a ser abandonado. Hoje em dia, ao que pude apurar, tenta manter-se um cheiro aceitável no métro de Paris através de limpeza regular das estações e tratamento das infiltrações nos túneis. Com diferentes graus de sucesso...

«Dois anos antes, na minha primeira visita a Paris, eu perdera-me de amores pelo métro. Aquilo transportava uma pessoa pela cidade sem a fúria e o tumulto do metropolitano de Nova Iorque, que parecia estar sempre empenhado numa corrida contra o tempo. No metropolitano uma pessoa tinha a compulsão de olhar para o seu relógio; no métro, uma pessoa em vez disso procurava o DUBO-DUBON-DUBONNET. O cheiro do metropolitano nova-iorquino era o de metal quente misturado com esgotos portuários; o métro exalava um odor característico que se escapava das estações para a rua. Eu nunca cheirara aquela fragrância particular em mais lado algum, e para mim aquilo era um símbolo de Paris. Anos mais tarde, numa droguerie de Tânger descobri um desinfetante que vinha em três perfumes diferentes: Lavande, Citron e Parfum du Métro.»

Paul Bowles, «17 Quai Voltaire» (1931-1932), Viagens - Compilação de Escritos, 1950-1993 (Travels - Collected Writings, 1950-1993), trad. Jorge Pereirinha Pires, Quetzal Editores, Lisboa, 2013, p. 20.

Carrasqueira

fotografia: filipe sousa | 8 gosto 2022

 















Regresso ao porto palafítico da Carrasqueira, na baixa-mar, trinta e alguns anos depois. Um labirinto de passadiços avançando estuário do Sado adentro, onde os pescadores de hoje teimam em perpetuar a actividade dos primitivos concheiros, que por aqui viveram há milhares de anos. Apercebo-me de que o pontão principal foi alvo de melhoramentos, permitindo caminhar sem ser de forma instável, como outrora. A construção de uma lota é outra das novidades. Ainda assim, o espírito do lugar permanece intacto. Não há fotografias que consigam traduzir a beleza deste sítio. Único em Portugal e, ao que parece, em toda a Europa.

«Construção palafítica, erguida sobre estacas enterradas no lodo, à maneira dos avieiros, o porto da Carrasqueira parece ter crescido por ondas sucessivas, num entrançado de varas que se desenvolve suspenso sobre o sapal, num milagre de equilíbrio.»

José Manuel Fernandes, Maurício de Abreu, O Homem e o Mar - o litoral português, Círculo de Leitores, 1987, p. 140.

Serra da Arrábida

fotografia: filipe sousa | 8 agosto 2022

 















A manhã de ontem surgiu e manteve-se velada, camoniana, durante a travessia da serra: «(…) anda a névoa cega / sobre os montes da Arrábida viçosos, / enquanto a eles a luz do sol não chega.» Depois veio a tarde corroborar Camões e iluminar de vez «essa nesga mediterrânica entre terras e águas atlânticas», Orlando Ribeiro dixit. De facto, ao avistar o areal da Figueirinha a partir do convento franciscano foi como se tivesse visto, por instantes, Palombaggia ou algum paraíso de férias das ilhas gregas, com as suas enseadas escondidas e águas azul-turquesa.

«Com os enrugamentos calcários cavalgantes sobranceiros ao litoral, despenhando-se por escarpas brutais num mar de rara serenidade, franjada de baías luminosas fechadas por promontórios intransponíveis, a Arrábida é o único troço verdadeiramente mediterrâneo da costa portuguesa: tanto pela arquitectura do terreno, dobrado e cortado de grandes deslocações, como pelas águas tépidas, tranquilas e abrigadas, que mais parecem de um mar interior.»

Orlando Ribeiro, Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico (1ª ed. 1945), 5ª ed., Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1987, p. 125.

Bordeaux / Bordéus, Quai Richelieu

fotografia: filipe sousa | 21 julho 2022

 















Na frente ribeirinha de Bordéus há passeios, ciclovias e equipamentos desportivos, como o Parc des Sports St. Michel, para todos os gostos e modos de exercitar o corpo: caminhada, bicicleta, trotinete, skate, patins, segway, futebol, vólei de praia, basquetebol, artes circenses e até uma espécie de pelota basca! Para os mais ociosos e contemplativos, há jardins de plantas vivazes (mais ecológicas, biodiversas, autóctones, resilientes, económicas e sazonais) para descansar, ler, imaginar, conversar, namorar e até rezar, neste caso virado para Meca, para a margem direita da Garonne.
Assim se mede a qualidade de vida e felicidade dos "bordelais".
Como sabiamente disse um filho desta terra, Montaigne, no século XVI:

«Si la vie n'est qu'un passage, sur le passage au moins semons des fleurs.»

Montaigne, Essais (1ère edition, 1580), Arléa, Paris, 2002, livre III, chapitre XIII, p.783.

Memmingen, Schlossergasse, Hexenturm

fotografia: filipe sousa | 26 junho 2022

 






















Para completar a trilogia de «lugares de passagem» da última semana, iniciada em Bérgamo e prosseguida em Sófia, falta falar de Memmingen, no sul da Alemanha. Uma aprazível cidade de 40 mil habitantes, rodeada de árvores, com um centro histórico antigo e bem cuidado e belos exemplares de arquitectura bávara ao longo de uma rede de canais, eis o que me esperava.
De acordo com o mapa disponível à saída do avião!, pode optar-se pelo circuito monumental, a vermelho, ou pelo périplo que cruza jardins e florestas, a verde, ou então por ambas as propostas, como acabei por decidir.
Numa primeira impressão, árvores e flores estão por todo o lado, veneradas como divindades, assim como esplanadas onde convivem residentes com os de fora.
A bicicleta, a que os locais prestam também culto, substitui o carro em pequenas e grandes deslocações. Há modelos para todos os gostos e com soluções criativas para distribuir a bagagem mais volumosa sem comprometer o desempenho.
Uma sociedade que preza a biodiversidade e modos suaves de transporte como a bicicleta não precisa de dizer muito mais sobre a sua visão do mundo e os valores que perfilha.
Ao fim-de-semana, quando não estão na esplanada ou a andar de bicicleta, os alemães de Memmingen namoram nos jardins ou apanham sol nos seus quintais biológicos, rodeados ainda e sempre de flores e insectos. O sol e a vida sorriem-lhes. E eles têm todas as razões para sorrir também.
Na hora de ir às compras, os preços são inferiores aos praticados em Portugal, embora eles ganhem o triplo de nós! Até os testes rápidos de antigénio para COVID-19 são gratuitos para os habitantes. E querem ver que para os forasteiros também?!: basta que indiquem o nome do hotel onde pernoitaram. É simples. Sem filas, sem incómodos, sem reclamações, sem gritarias. Aliás, o silêncio é uma constante desta cidade, apenas interrompido pelas gargalhadas vindas das esplanadas ou pelo crucitar dos corvos, que aqui substituem os pombos.
Se isto não é felicidade e qualidade de vida, deve andar lá perto.

София / Sófia, бул. княгиня Мария Луиза / Boulevard Knyaginya Maria Luiza

fotografia: filipe sousa | 24 junho 2022






 














A Bulgária moderna é um cadinho de culturas muito antigas, «que mergulham as suas raízes no confronto arcaico entre a civilização agrária do Sudeste e os invasores nómadas das estepes».
Um breve passeio, como o que realizei ontem, pelo centro de Sófia (a antiga Sérdica) é bem revelador da riqueza dessa amálgama cultural.

«O crisol búlgaro é muito mais antigo do que estas pitorescas mesclas balcânico-caucasianas, tem profundidades míticas maiores, mergulha as suas raízes no confronto arcaico entre a civilização agrária do Sudeste e os invasores nómadas das estepes. A Bulgária é um núcleo essencial da grande Eslávia, é de facto o território onde se constitui a língua de Cirillo e Método, paleo-eslava ou, como outros dizem, vetero-búlgara. Pelo seu lado os proto-búlgaros, provenientes de Altai, atravessam o Danúbio no século VII com Kahn Asparuh e fundam um poderoso império que põe várias vezes a saque o Império de Bizâncio, mas são pouco a pouco absorvidos pelos Eslavos, chegados um século antes, e que eles tinham começado por submeter. Amalgamam-se com os vencidos e adoptam a sua língua, são tragados pela grande força de assimilação e solidificação da civilização eslava que por vezes, nas suas origens, parece delegar noutros povos a função de guiar a sua expansão, como quando a eslavização é confiada aos Ávares, vitoriosos conquistadores rapidamente desaparecidos, que fazem progredir a cultura eslava e não a sua própria cultura.
Mas muito mais profundo do que este fundo eslavo sempre reemergente é o trácio, a vastíssima comunidade de povos que constitui o substrato de toda a civilização cárpato-danubiano-balcânica. Os Trácios, diz Anton Doncev - que escreveu, com uma pietas que inclui mesmo a herança turca, frescos épico-mítico sobre as origens do seu país -, são oceano, os proto-búlgaros, huno-gondoros e onoguros, que chegam do mar Cáspio e do mar de Azov, são a onda que agita e move o oceano originário, os Eslavos são a terra e a mão paciente que a amassa e lhe dá forma: os búlgaros modernos são a fusão dos três elementos.»

Claudio Magris, Danúbio (Danubio, 1986), trad. Miguel Serras Pereira, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1992, pp. 363.

София / Sófia, булевард Свети Наум / Boulevard Sveti Naum

fotografia: filipe sousa | 23 junho 2022

 















Como diria um famoso grupo de humoristas: «e agora algo completamente diferente».
O mesmo é dizer, bem-vindo a Sófia, bem-vindo à Bulgária!
Começo por referir que a memória mais longínqua que conservo da Bulgária é de uma fotografia de um guarda nacional publicada na extinta revista Pisca-Pisca, quando tinha 9, 10 anos. Durante algum tempo, aquela fotografia resumia todo o meu saber acerca desse distante país da Europa de Leste.
Diga-se, em abono da verdade, que o conhecimento entretanto reunido não vai muito mais além de uns quantos lugares-comuns sobre o assunto: numa parte da actual Bulgária viviam os Trácios; Spartacus, o famoso gladiador, era trácio; os búlgaros foram subjugados pelos turcos otomanos e ocupados pela Alemanha nazi e libertados dos dois opressores com a ajuda dos russos; a “moeda de troca” foi a integração da Bulgária no bloco comunista, também ele cerceador das liberdades individuais, até à queda do muro de Berlim; só há pouco mais de 30 anos, a Bulgária abraçou a democracia; integra a União Europeia e é o estado mais pobre dos 28; os búlgaros usam o alfabeto cirílico e o lev como moeda; os nomes deles acabam invariavelmente em “ov” e o delas em “ova”; destacam-se na halterofilia, no lançamento do peso e do dardo e no xadrez; Yordanov e Balakov, internacionais de futebol, foram jogadores do Sporting; e, claro, as vozes búlgaras.
Como refere Claudio Magris no seu «Danúbio», continua a pairar sobre a Bulgária um grande desconhecimento, que a torna «o mais ignoto de todos os países de Leste, um lugar onde raramente se vai...»

«Em 1860 Guillaume Lejean, cientista e viajante francês, subia o Nilo Branco, até Gondokoro, e o Nilo Azul, desenhando, como dizem as enciclopédias, uma das primeiras cartas fiáveis do rio. Entre 1857 e 1870 percorreu em contrapartida a Península Balcânica, produzindo um imponente material cartográfico em 49 grandes folhas, vinte das quais revistas e completas. Mas o seu amigo e colega vienense Felix Philipp Kanitz lamentava, ao viajar pela Bulgária em 1875, que os mapas geográficos do país fossem inexactos e imprestáveis e contivessem, no que se referia a territórios próximos do Danúbio, localidades imaginárias sem assinalar em compensação outras existentes, e concordava assim com o professor Kiepert, que proclamava que a Bulgária era o mais desconhecido dos países da Europa Oriental. Outros cartógrafos inventavam cidades ou deslocavam-nas centenas de quilómetros, desviavam nos seus mapas os cursos dos rios e atribuíam-lhes uma foz arbitrária. Kanitz corrigia os meritórios mapas de Lejean, menos exactos do que os do Nilo, e podia por isso definir a Bulgária como «uma terra perfeitamente incógnita»; o Danúbio era mais desconhecido do que o Nilo e do que as gentes do seu curso inferior, reiterava o professor Hyrtl, e sabia-se menos dele do que das ilhas dos mares do Sul.
A cartografia realizou indubitavelmente progressos decisivos, mas a Bulgária, de todos os países do Leste, continua ainda hoje a ser o mais ignoto, um lugar onde raramente se vai e que surge na ribalta como palco de intrigas improváveis e inverificáveis, pistas fantasiosas de conspirações sensacionais, acusações desmentidas de genocídio, entrevistas concedidas por representantes da minoria turca dados como assassinados, pela imprensa internacional. Os comunistas ocidentais, quando ouvem dizer que alguém - especialmente alguém não inscrito no partido - esteve na Bulgária, apressam-se a mostrar uma comiseração irónica e distante e sobretudo uma surpresa maravilhada pelas suas impressões positivas.»

Claudio Magris, Danúbio (Danubio, 1986), trad. Miguel Serras Pereira, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1992, p. 353.

Bergamo / Bérgamo, Via Sudorno

fotografia: filipe sousa | 21 junho 2022

 






















Bérgamo.
Para quem não se recorda, foi o epicentro da primeira vaga de pandemia de Covid-19 em Itália, e na Europa também. Só nos meses de Fevereiro e Março de 2020 morreram nesta cidade lombarda cerca de 4.500 pessoas.
Passaram entretanto dois anos.
Quem a viu em 2020, através dos relatos e lentes dos jornalistas da SkyNews – que nos deram conta do inferno vivido nos hospitais, das morgues improvisadas, dos funerais realizados ao mínimo ou dos cemitérios e crematórios sobrelotados –, e quem a vê em 2022, como eu a vi hoje, "renascida das cinzas", exibindo o mesmo encanto que lhe notei há dezoito anos quando aqui estive pela primeira vez. É como o dia e a noite. O paraíso que sucede ao inferno.
Guiado por este simbolismo, pus-me também eu a caminho do paraíso. Da Città Bassa à Città Alta, preferindo o esforço de subir a escadaria da Via Salita di Scaletta, entre muros antigos e frondosas árvores, à comodidade do funicular disponível perto da porta San Giacomo.
Para lá da Città Alta encontrei finalmente a redenção total, no Parco dei Colli di Bergamo, lembrando os versos de Dante Alighieri:

«E se le fantasie nostre son basse
a tanta altezza, non è maraviglia;
ché sopra 'l sol non fu occhio ch'andasse.»

«Que nossa fantasia se abaixasse
a tanta altura assim não maravilha;
que sobre o sol não houve olhar que andasse.»

Dante Alighieri, A Divina Comédia (La Divina Commedia, sec. XIV), Parte III - Paraiso, Canto X, versos 46-48, trad. Vasco Graça Moura, 6ª ed., Bertrand Editora, 2002, pp. 676-677.

PS. Esforço baldado e redenção efémera é o que cabe dizer no final desta jornada, porquanto na descida à Città Bassa acabei por ser traído por um prazer mundano, que deitou tudo a perder!, ao passar pelo restaurante La Marianna, a pátria do gelado Stracciatella!

Bologna / Bolonha, Strada Maggiore

fotografia: filipe sousa | 2 junho 2022

 
























Não faltam epítetos a Bolonha. «Dotta», «turrita», «città dei portici», «grassa», «rossa». Mas vamos por partes.
«La dotta»: criada em 1088, a universidade de Bolonha é a mais antiga da Europa, continuando a ser uma referência pela qualidade do ensino e pela sua integração na vida da cidade.
«La turrita»: hoje são menos de vinte (incluindo as torres Asinelli, a maior, com 96 metros, e Garisenda, a mais inclinada), mas, no tempo de Dante, Bolonha chegou a ter 180 torres apontadas ao céu.
«La città dei portici»: são cerca de 40 quilómetros de pórticos e arcadas, que fazem de Bolonha a maior cidade coberta da Europa.
«La grassa»: sempre se comeu muito e bem em Bolonha, considerada a capital gastronómica de Itália.
«La rossa»: as cores dos telhados e fachadas em declinações de vermelho e ocre, mas também o vermelho dos automóveis Ferrari e Maserati e das motos Ducatti, produzidos na região, e ainda o facto de ser o bastião da esquerda em Itália.
Foram estas as coordenadas do meu périplo de dois dias pela cidade de Pasolini (este ano comemora-se o centenário do seu nascimento), facilitado ontem pela ausência de carros nas ruas devido à celebração do Dia Nacional de Itália, a «Festa della Repubblica Italiana».
Regresso a Saramago, também ele nascido há cem anos, também ele rendido aos encantos de Bolonha:

«Cidade dos quatro cognomes - «dotta» (sábia), «turrita» (que tem torres), «città dei portici» (cidade das arcadas), «grassa» (gorda) - Bolonha é sedutora, feminina, macia. Aceitem-se os lugares comuns, que melhor dizem que mil palavras raras. E é também uma cidade muito velha que cometeu o milagre de fixar as suas antiguidades, defendendo-as da rasoira do turista, que tudo uniformiza: veja-se a Casa Isolani, uma habitação particular da Strada Maggiore, datada do século XII, onde vivem pessoas e onde o turista, felizmente, não é admitido. Fico também a pensar, a imaginar o que seria a Bolonha que Dante viu, por alturas de 1287, com as suas cento e oitenta torres nobiliárias, disputando em altura e primazia.»

José Saramago, Manual de Pintura e Caligrafia - Ensaio de romance, 1ª edição, Moraes Editores, Lisboa, p. 183.

Roccabianca, Strada Canaletto 2

fotografia: filipe sousa | 31 maio 2022

 















Durante a tarde, nos arredores de Parma, uma experiência imersiva no universo do famoso Parmigiano-Reggiano.

«O Parmigiano-Reggiano é um dos queijos italianos presente na gastronomia um pouco por toda a Europa. Proveniente das províncias de Parma, Modena e Reggio-Emilia assim como de algumas partes de Bolonha e Mântua, mantém o seu processo de fabrico inalterado desde o século XIV. Feito a partir de leite de vaca cru parcialmente desnatado, por repouso do leite durante a noite em tinas longas e pouco profundas, é protegido em Itália por uma Denominação de Origem desde 1955. Esta especifica não só a região de fabrico, como também o tipo de pastagem dada aos animais (apenas erva, feno ou luzerna), o processo de fabrico e o processo e tempo de cura, que é de pelo menos 12 meses. Durante a cura em caves enormes, cada queijo é voltado, limpo e escovado periodicamente. Para avaliar a consistência da pasta, cada exemplar é inspeccionado cuidadosamente com um martelo de percussão. Embora estes cuidados pesem no preço do produto final, as características exepcionais do queijo fazem o investimento valer a pena.
É um queijo de grandes dimensões, de 24 a 50 kg, com uma casca espessa, dura, amarelo-palha-alaranjada, com a marca do seu nome gravada em picotado, e o selo de certificação.. A pasta é dura, granulosa e friável, coroada de pequenos cristais de cálcio que dão um toque muito especial, quando degustado. O sabor suave, ligeiramente frutado e muito característico, é tanto mais intenso quanto mais envelhecido for. É de fácil conservação e pode ser mantido vários meses em casa sem problemas. É apreciado sobretudo ralado como complemento de inúmeros pratos de origem italiana. Pela sua cor e textura é também um excelente e enriquecedor elemento para uma tábua de queijos, acompanhado com fruta.»

Maria de Lurdes Modesto, Manuela Barbosa, Queijos portugueses e um olhar gastronómico sobre famosos queijos europeus, Editorial Verbo, Lisboa, 2007, p. 143.

Parma, Piazza della Pace

fotografia: filipe sousa | 30 maio 2022

 
















A cidadela de Parma, de que fala Stendhal, não existiu. A torre Farnese, onde Fabrício del Dongo, o herói do romance, esteve preso, também é fruto da sua imaginação. E, nos anos em que a história da Cartuxa de Parma se desenrola, o ducado de Parma não foi governado por Ranúncio Farnese IV, como faz crer o autor, mas pela duquesa Marie Louise von Habsburg-Lothinghen, filha de Franciso II da Áustria e segunda esposa de Napoleão Bonaparte, que regressa a Parma, após a morte do marido na ilha de Santa Helena, para fazer parte da história da cidade. Apesar de toda a encenação e do facto de nas mais de quatrocentas páginas da Cartuxa não haver uma única descrição de Parma, a sua sombra não deixa de me seguir na descoberta do espírito do lugar.

«A sudeste, e a dez minutos da cidade, ergue-se uma famosa cidadela, de grande nomeada na Itália, cuja grande torre tem cento e oitenta pés de altura, e é visível de muito longe. Essa torre, construída sobre modelo do mausoléu de Adriano, em Roma, pelos Farnese, netos de Paulo III, em princípios do século dezasseis, é de tal espessura que foi possível construir sobre a esplanada que remata um palácio para o governador da cidadela e outra prisão, denominada "Torre Farnese". Esta prisão, construída em honra do filho mais velho de Ranúncio - Ernesto II, que se tornara amante da madrasta, tem fama de bela e singular no país. A duquesa teve curiosidade em vê-la; no dia da sua visita o calor era sufocante em Parma, e lá no alto, naquelas alturas, encontrou ar respirável, o que a deliciou de tal modo que passou ali várias horas. Apressaram-se a abrir-lhe as salas da torre Farnese.»

Stendhal, A cartuxa de Parma  (La chartreuse de Parme, 1839), trad. Adolfo Casais Monteiro, Editorial Estúdios Cor, Lda, Lisboa, 1957, p. 108.

Alte, Avenida 25 de Abril, 3

fotografia: filipe sousa | 7 maio 2021

 
























Tanto mar (primeira versão)

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Chico Buarque, Tanto mar, 1975 
(Letra original, vetada pela censura; gravação editada apenas em Portugal, em 1975).