Memmingen, Schlossergasse, Hexenturm

fotografia: filipe sousa | 26 junho 2022

 






















Para completar a trilogia de «lugares de passagem» da última semana, iniciada em Bérgamo e prosseguida em Sófia, falta falar de Memmingen, no sul da Alemanha. Uma aprazível cidade de 40 mil habitantes, rodeada de árvores, com um centro histórico antigo e bem cuidado e belos exemplares de arquitectura bávara ao longo de uma rede de canais, eis o que me esperava.
De acordo com o mapa disponível à saída do avião!, pode optar-se pelo circuito monumental, a vermelho, ou pelo périplo que cruza jardins e florestas, a verde, ou então por ambas as propostas, como acabei por decidir.
Numa primeira impressão, árvores e flores estão por todo o lado, veneradas como divindades, assim como esplanadas onde convivem residentes com os de fora.
A bicicleta, a que os locais prestam também culto, substitui o carro em pequenas e grandes deslocações. Há modelos para todos os gostos e com soluções criativas para distribuir a bagagem mais volumosa sem comprometer o desempenho.
Uma sociedade que preza a biodiversidade e modos suaves de transporte como a bicicleta não precisa de dizer muito mais sobre a sua visão do mundo e os valores que perfilha.
Ao fim-de-semana, quando não estão na esplanada ou a andar de bicicleta, os alemães de Memmingen namoram nos jardins ou apanham sol nos seus quintais biológicos, rodeados ainda e sempre de flores e insectos. O sol e a vida sorriem-lhes. E eles têm todas as razões para sorrir também.
Na hora de ir às compras, os preços são inferiores aos praticados em Portugal, embora eles ganhem o triplo de nós! Até os testes rápidos de antigénio para COVID-19 são gratuitos para os habitantes. E querem ver que para os forasteiros também?!: basta que indiquem o nome do hotel onde pernoitaram. É simples. Sem filas, sem incómodos, sem reclamações, sem gritarias. Aliás, o silêncio é uma constante desta cidade, apenas interrompido pelas gargalhadas vindas das esplanadas ou pelo crucitar dos corvos, que aqui substituem os pombos.
Se isto não é felicidade e qualidade de vida, deve andar lá perto.

София / Sófia, бул. княгиня Мария Луиза / Boulevard Knyaginya Maria Luiza

fotografia: filipe sousa | 24 junho 2022






 














A Bulgária moderna é um cadinho de culturas muito antigas, «que mergulham as suas raízes no confronto arcaico entre a civilização agrária do Sudeste e os invasores nómadas das estepes».
Um breve passeio, como o que realizei ontem, pelo centro de Sófia (a antiga Sérdica) é bem revelador da riqueza dessa amálgama cultural.

«O crisol búlgaro é muito mais antigo do que estas pitorescas mesclas balcânico-caucasianas, tem profundidades míticas maiores, mergulha as suas raízes no confronto arcaico entre a civilização agrária do Sudeste e os invasores nómadas das estepes. A Bulgária é um núcleo essencial da grande Eslávia, é de facto o território onde se constitui a língua de Cirillo e Método, paleo-eslava ou, como outros dizem, vetero-búlgara. Pelo seu lado os proto-búlgaros, provenientes de Altai, atravessam o Danúbio no século VII com Kahn Asparuh e fundam um poderoso império que põe várias vezes a saque o Império de Bizâncio, mas são pouco a pouco absorvidos pelos Eslavos, chegados um século antes, e que eles tinham começado por submeter. Amalgamam-se com os vencidos e adoptam a sua língua, são tragados pela grande força de assimilação e solidificação da civilização eslava que por vezes, nas suas origens, parece delegar noutros povos a função de guiar a sua expansão, como quando a eslavização é confiada aos Ávares, vitoriosos conquistadores rapidamente desaparecidos, que fazem progredir a cultura eslava e não a sua própria cultura.
Mas muito mais profundo do que este fundo eslavo sempre reemergente é o trácio, a vastíssima comunidade de povos que constitui o substrato de toda a civilização cárpato-danubiano-balcânica. Os Trácios, diz Anton Doncev - que escreveu, com uma pietas que inclui mesmo a herança turca, frescos épico-mítico sobre as origens do seu país -, são oceano, os proto-búlgaros, huno-gondoros e onoguros, que chegam do mar Cáspio e do mar de Azov, são a onda que agita e move o oceano originário, os Eslavos são a terra e a mão paciente que a amassa e lhe dá forma: os búlgaros modernos são a fusão dos três elementos.»

Claudio Magris, Danúbio (Danubio, 1986), trad. Miguel Serras Pereira, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1992, pp. 363.

София / Sófia, булевард Свети Наум / Boulevard Sveti Naum

fotografia: filipe sousa | 23 junho 2022

 















Como diria um famoso grupo de humoristas: «e agora algo completamente diferente».
O mesmo é dizer, bem-vindo a Sófia, bem-vindo à Bulgária!
Começo por referir que a memória mais longínqua que conservo da Bulgária é de uma fotografia de um guarda nacional publicada na extinta revista Pisca-Pisca, quando tinha 9, 10 anos. Durante algum tempo, aquela fotografia resumia todo o meu saber acerca desse distante país da Europa de Leste.
Diga-se, em abono da verdade, que o conhecimento entretanto reunido não vai muito mais além de uns quantos lugares-comuns sobre o assunto: numa parte da actual Bulgária viviam os Trácios; Spartacus, o famoso gladiador, era trácio; os búlgaros foram subjugados pelos turcos otomanos e ocupados pela Alemanha nazi e libertados dos dois opressores com a ajuda dos russos; a “moeda de troca” foi a integração da Bulgária no bloco comunista, também ele cerceador das liberdades individuais, até à queda do muro de Berlim; só há pouco mais de 30 anos, a Bulgária abraçou a democracia; integra a União Europeia e é o estado mais pobre dos 28; os búlgaros usam o alfabeto cirílico e o lev como moeda; os nomes deles acabam invariavelmente em “ov” e o delas em “ova”; destacam-se na halterofilia, no lançamento do peso e do dardo e no xadrez; Yordanov e Balakov, internacionais de futebol, foram jogadores do Sporting; e, claro, as vozes búlgaras.
Como refere Claudio Magris no seu «Danúbio», continua a pairar sobre a Bulgária um grande desconhecimento, que a torna «o mais ignoto de todos os países de Leste, um lugar onde raramente se vai...»

«Em 1860 Guillaume Lejean, cientista e viajante francês, subia o Nilo Branco, até Gondokoro, e o Nilo Azul, desenhando, como dizem as enciclopédias, uma das primeiras cartas fiáveis do rio. Entre 1857 e 1870 percorreu em contrapartida a Península Balcânica, produzindo um imponente material cartográfico em 49 grandes folhas, vinte das quais revistas e completas. Mas o seu amigo e colega vienense Felix Philipp Kanitz lamentava, ao viajar pela Bulgária em 1875, que os mapas geográficos do país fossem inexactos e imprestáveis e contivessem, no que se referia a territórios próximos do Danúbio, localidades imaginárias sem assinalar em compensação outras existentes, e concordava assim com o professor Kiepert, que proclamava que a Bulgária era o mais desconhecido dos países da Europa Oriental. Outros cartógrafos inventavam cidades ou deslocavam-nas centenas de quilómetros, desviavam nos seus mapas os cursos dos rios e atribuíam-lhes uma foz arbitrária. Kanitz corrigia os meritórios mapas de Lejean, menos exactos do que os do Nilo, e podia por isso definir a Bulgária como «uma terra perfeitamente incógnita»; o Danúbio era mais desconhecido do que o Nilo e do que as gentes do seu curso inferior, reiterava o professor Hyrtl, e sabia-se menos dele do que das ilhas dos mares do Sul.
A cartografia realizou indubitavelmente progressos decisivos, mas a Bulgária, de todos os países do Leste, continua ainda hoje a ser o mais ignoto, um lugar onde raramente se vai e que surge na ribalta como palco de intrigas improváveis e inverificáveis, pistas fantasiosas de conspirações sensacionais, acusações desmentidas de genocídio, entrevistas concedidas por representantes da minoria turca dados como assassinados, pela imprensa internacional. Os comunistas ocidentais, quando ouvem dizer que alguém - especialmente alguém não inscrito no partido - esteve na Bulgária, apressam-se a mostrar uma comiseração irónica e distante e sobretudo uma surpresa maravilhada pelas suas impressões positivas.»

Claudio Magris, Danúbio (Danubio, 1986), trad. Miguel Serras Pereira, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1992, p. 353.

Bergamo / Bérgamo, Via Sudorno

fotografia: filipe sousa | 21 junho 2022

 






















Bérgamo.
Para quem não se recorda, foi o epicentro da primeira vaga de pandemia de Covid-19 em Itália, e na Europa também. Só nos meses de Fevereiro e Março de 2020 morreram nesta cidade lombarda cerca de 4.500 pessoas.
Passaram entretanto dois anos.
Quem a viu em 2020, através dos relatos e lentes dos jornalistas da SkyNews – que nos deram conta do inferno vivido nos hospitais, das morgues improvisadas, dos funerais realizados ao mínimo ou dos cemitérios e crematórios sobrelotados –, e quem a vê em 2022, como eu a vi hoje, "renascida das cinzas", exibindo o mesmo encanto que lhe notei há dezoito anos quando aqui estive pela primeira vez. É como o dia e a noite. O paraíso que sucede ao inferno.
Guiado por este simbolismo, pus-me também eu a caminho do paraíso. Da Città Bassa à Città Alta, preferindo o esforço de subir a escadaria da Via Salita di Scaletta, entre muros antigos e frondosas árvores, à comodidade do funicular disponível perto da porta San Giacomo.
Para lá da Città Alta encontrei finalmente a redenção total, no Parco dei Colli di Bergamo, lembrando os versos de Dante Alighieri:

«E se le fantasie nostre son basse
a tanta altezza, non è maraviglia;
ché sopra 'l sol non fu occhio ch'andasse.»

«Que nossa fantasia se abaixasse
a tanta altura assim não maravilha;
que sobre o sol não houve olhar que andasse.»

Dante Alighieri, A Divina Comédia (La Divina Commedia, sec. XIV), Parte III - Paraiso, Canto X, versos 46-48, trad. Vasco Graça Moura, 6ª ed., Bertrand Editora, 2002, pp. 676-677.

PS. Esforço baldado e redenção efémera é o que cabe dizer no final desta jornada, porquanto na descida à Città Bassa acabei por ser traído por um prazer mundano, que deitou tudo a perder!, ao passar pelo restaurante La Marianna, a pátria do gelado Stracciatella!

Bologna / Bolonha, Strada Maggiore

fotografia: filipe sousa | 2 junho 2022

 
























Não faltam epítetos a Bolonha. «Dotta», «turrita», «città dei portici», «grassa», «rossa». Mas vamos por partes.
«La dotta»: criada em 1088, a universidade de Bolonha é a mais antiga da Europa, continuando a ser uma referência pela qualidade do ensino e pela sua integração na vida da cidade.
«La turrita»: hoje são menos de vinte (incluindo as torres Asinelli, a maior, com 96 metros, e Garisenda, a mais inclinada), mas, no tempo de Dante, Bolonha chegou a ter 180 torres apontadas ao céu.
«La città dei portici»: são cerca de 40 quilómetros de pórticos e arcadas, que fazem de Bolonha a maior cidade coberta da Europa.
«La grassa»: sempre se comeu muito e bem em Bolonha, considerada a capital gastronómica de Itália.
«La rossa»: as cores dos telhados e fachadas em declinações de vermelho e ocre, mas também o vermelho dos automóveis Ferrari e Maserati e das motos Ducatti, produzidos na região, e ainda o facto de ser o bastião da esquerda em Itália.
Foram estas as coordenadas do meu périplo de dois dias pela cidade de Pasolini (este ano comemora-se o centenário do seu nascimento), facilitado ontem pela ausência de carros nas ruas devido à celebração do Dia Nacional de Itália, a «Festa della Repubblica Italiana».
Regresso a Saramago, também ele nascido há cem anos, também ele rendido aos encantos de Bolonha:

«Cidade dos quatro cognomes - «dotta» (sábia), «turrita» (que tem torres), «città dei portici» (cidade das arcadas), «grassa» (gorda) - Bolonha é sedutora, feminina, macia. Aceitem-se os lugares comuns, que melhor dizem que mil palavras raras. E é também uma cidade muito velha que cometeu o milagre de fixar as suas antiguidades, defendendo-as da rasoira do turista, que tudo uniformiza: veja-se a Casa Isolani, uma habitação particular da Strada Maggiore, datada do século XII, onde vivem pessoas e onde o turista, felizmente, não é admitido. Fico também a pensar, a imaginar o que seria a Bolonha que Dante viu, por alturas de 1287, com as suas cento e oitenta torres nobiliárias, disputando em altura e primazia.»

José Saramago, Manual de Pintura e Caligrafia - Ensaio de romance, 1ª edição, Moraes Editores, Lisboa, p. 183.

Roccabianca, Strada Canaletto 2

fotografia: filipe sousa | 31 maio 2022

 















Durante a tarde, nos arredores de Parma, uma experiência imersiva no universo do famoso Parmigiano-Reggiano.

«O Parmigiano-Reggiano é um dos queijos italianos presente na gastronomia um pouco por toda a Europa. Proveniente das províncias de Parma, Modena e Reggio-Emilia assim como de algumas partes de Bolonha e Mântua, mantém o seu processo de fabrico inalterado desde o século XIV. Feito a partir de leite de vaca cru parcialmente desnatado, por repouso do leite durante a noite em tinas longas e pouco profundas, é protegido em Itália por uma Denominação de Origem desde 1955. Esta especifica não só a região de fabrico, como também o tipo de pastagem dada aos animais (apenas erva, feno ou luzerna), o processo de fabrico e o processo e tempo de cura, que é de pelo menos 12 meses. Durante a cura em caves enormes, cada queijo é voltado, limpo e escovado periodicamente. Para avaliar a consistência da pasta, cada exemplar é inspeccionado cuidadosamente com um martelo de percussão. Embora estes cuidados pesem no preço do produto final, as características exepcionais do queijo fazem o investimento valer a pena.
É um queijo de grandes dimensões, de 24 a 50 kg, com uma casca espessa, dura, amarelo-palha-alaranjada, com a marca do seu nome gravada em picotado, e o selo de certificação.. A pasta é dura, granulosa e friável, coroada de pequenos cristais de cálcio que dão um toque muito especial, quando degustado. O sabor suave, ligeiramente frutado e muito característico, é tanto mais intenso quanto mais envelhecido for. É de fácil conservação e pode ser mantido vários meses em casa sem problemas. É apreciado sobretudo ralado como complemento de inúmeros pratos de origem italiana. Pela sua cor e textura é também um excelente e enriquecedor elemento para uma tábua de queijos, acompanhado com fruta.»

Maria de Lurdes Modesto, Manuela Barbosa, Queijos portugueses e um olhar gastronómico sobre famosos queijos europeus, Editorial Verbo, Lisboa, 2007, p. 143.

Parma, Piazza della Pace

fotografia: filipe sousa | 30 maio 2022

 
















A cidadela de Parma, de que fala Stendhal, não existiu. A torre Farnese, onde Fabrício del Dongo, o herói do romance, esteve preso, também é fruto da sua imaginação. E, nos anos em que a história da Cartuxa de Parma se desenrola, o ducado de Parma não foi governado por Ranúncio Farnese IV, como faz crer o autor, mas pela duquesa Marie Louise von Habsburg-Lothinghen, filha de Franciso II da Áustria e segunda esposa de Napoleão Bonaparte, que regressa a Parma, após a morte do marido na ilha de Santa Helena, para fazer parte da história da cidade. Apesar de toda a encenação e do facto de nas mais de quatrocentas páginas da Cartuxa não haver uma única descrição de Parma, a sua sombra não deixa de me seguir na descoberta do espírito do lugar.

«A sudeste, e a dez minutos da cidade, ergue-se uma famosa cidadela, de grande nomeada na Itália, cuja grande torre tem cento e oitenta pés de altura, e é visível de muito longe. Essa torre, construída sobre modelo do mausoléu de Adriano, em Roma, pelos Farnese, netos de Paulo III, em princípios do século dezasseis, é de tal espessura que foi possível construir sobre a esplanada que remata um palácio para o governador da cidadela e outra prisão, denominada "Torre Farnese". Esta prisão, construída em honra do filho mais velho de Ranúncio - Ernesto II, que se tornara amante da madrasta, tem fama de bela e singular no país. A duquesa teve curiosidade em vê-la; no dia da sua visita o calor era sufocante em Parma, e lá no alto, naquelas alturas, encontrou ar respirável, o que a deliciou de tal modo que passou ali várias horas. Apressaram-se a abrir-lhe as salas da torre Farnese.»

Stendhal, A cartuxa de Parma  (La chartreuse de Parme, 1839), trad. Adolfo Casais Monteiro, Editorial Estúdios Cor, Lda, Lisboa, 1957, p. 108.

Alte, Avenida 25 de Abril, 3

fotografia: filipe sousa | 7 maio 2021

 
























Tanto mar (primeira versão)

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Chico Buarque, Tanto mar, 1975 
(Letra original, vetada pela censura; gravação editada apenas em Portugal, em 1975).

Barcelona, Carrer de l'Hospital, 56

fotografia: filipe sousa | 26 junho 2017

 















Observar as regras do jogo, esse pequeníssimo detalhe.

«-Pretas ou brancas?
Para Emanuel era evidente que tinha a haver-se com um pexote. Juvenilmente propôs-se jogar de olhos vendados. Como assim? O outro estava desconfiado e a voz já se lhe entaramelava. Minutos antes tinha garantido que, desde que comesse alguma coisa, podia beber pela noite fora que não lhe fazia mal nenhum. Aliás, era de dormir pouco.
-De olhos fechados?
Emanuel foi dispondo as pedras e, pacientemente, contou. Com muito treino pode jogar-se xadrez sem tabuleiro. Os viajantes portugueses do tempo das descobertas contavam que os árabes, para entreterem o tempo nas longas caravanas, jogavam xadrez de memória, de camelo para camelo. E falou em André Philidor, em Capablanca, em Alekhine...
-Lérias- rosnou o homem, muito seguro de si. - Tapa-me esses olhos que eu fodo-o logo!
-E4 - anunciava Emanuel mais tarde, com os olhos vendados por um lenço preto, e ainda por cima voltado de costas para o tabuleiro.
-Quê?
-E2-e4 - explicitou Emanuel.
-Mas que merda é esta? Falamos chinês, ou o caraças?
-Mas como, prefere a notação geométrica?
-Geométrica o tanas, eu quero é que você me diga as suas jogadas ou o caraças.
Aquela voz, à medida que enferrujava, tornava-se cada vez mais autoritária.
-Faça avançar duas casas o peão que está em frente do rei branco.
-OK, agora sou eu - as peças estalaram com força no tabuleiro como as do dominó jogadas por peritos de taberna, na fórmica das mesas. - Afinfo-lhe com os dois cavalos!
-Perdão?
-Os dois cavalos, caraças!
Som de líquido a gotejar de fiada. Mais uma rodada, pensou Emanuel.
-Mas desculpe lá, não pode sair com os dois cavalos ao mesmo tempo...é contra as regras...
-Ai que este está a querer fornicar-me! Pensas que eu comecei a jogar esta merda ontem?
-Desculpe. Assim não continuo.
Desamparado ruído de uma cadeira que tombava. Emanuel, numa pressa, desvendou-se. Januário espalhou as peças no tabuleiro e olhou para ele com um ar torvo.
-Cabrão do puto. Queria-me ensinar a jogar xadrez, o sacana! Ainda os teus pais não eram nascidos já eu jogava xadrez em tudo o que era caserna e em tudo o que era messe lá na tropa, ou o caraças, pá.
A Emanuel faltavam as palavras. estava mais preocupado em descobrir as saídas.
-O batoteiro, o intrujão da penica, a querer convencer-me que os cavalos não saem ao mesmo tempo. Com quem é que aprendeste a jogar, ó desgraçado? Foi com a tua avó torta?
E que voz, roufenha, hesitante, formada debaixo da língua! Emanuel recuou.
Januário varreu a mesa com mão em cutelo e foi o belo xadrez parar ao chão onde se estilhaçou, em companhia da garrafa de uísque e do copo. Emanuel relanceou em volta. Natacha espreitava entre portas. O homem avançava para ele:
-Anda cá, meu cabrão, que eu vou-te mostrar o que faço aos batoteiros - passou pela mesa grande e agarrou num candelabro.
Emanuel não correu, voou. Ouviu vagamente uma voz feminina, umas palavras assustadas numa língua estrangeira e o vozeirão do Januário:
-Volta para trás, malandro! Sê homem, sê homem.
Sem saber como, por escadas e portas desconhecidas, acabou por se encontrar em frente do portão.
-Meu Deus, os cães!»

Mário de Carvalho, Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina, 3ª ed., Editorial Caminho, Lisboa, 2003, pp. 58-60.

Berlin / Berlim, Mühlenstrasse (East Side Gallery)

fotografia: filipe sousa | 25 janeiro 2020

 













FRENTE A FRENTE

Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
-e é tão pouco.

Eugénio de Andrade, «Até Amanhã» (1951-1956), in Poesia e Prosa (1940-1980), 2ª ed. Limiar, Porto, s.d., p. 75.

Paris, Place des Vosges

fotografia: filipe sousa | 18 fevereiro 2022

 

















Paris, teremos-sempre-Paris.

«O Sena passa espesso, cor de chumbo, da cor do céu. Notre Dame como um grande mamífero branco cheio de gárgulas.
Volto costas, meto para dentro.
Saint-Louis são três ruas e eu tenho de andar para não morrer do coração.
(...)
Um, respirar. Dois, abrir os olhos. Cá estão os parisienses no seu frufru de petit-quois. Compram baguetes com mãos enluvadas e cachecóis de caxemira. Já cá estavam antes, cá estarão depois.
(...)
Volto à beira-rio, com o meu saco de viagem. É aquela hora em que o dia muda para a noite. O céu está cheio de silhuetas. Tenho a cara gelada, lábios de morta. Mais um minuto e morro disto.
Mas vais aparecer nas minhas costas.
Aqui estás.
(...)
...damos a volta ao clarão fantasmagórico de Notre Dame, e paramos de queixo levantado para a fachada, como se fosse a lua.
As noites de inverno têm a aura das coisas fechadas sobre si. Uma noite assim é para nós.
(...)
Dois anos e meio depois - no verão depois de teres desaparecido  -, fui a Paris fazer uma entrevista.
Quando me vi livre, caminhei até ao Jardim das Tulherias. O sol estava a um palmo de se pôr. Árvores em recorte negro, a grande roda muito lenta, o lago com patos e repuxos, sabrinas na gravilha, japonesas com indianos, carrinhos de bebés, uma barraquinha artisan glacier, gelados morango-menta, um homem de cabelos brancos e olhos fechados, mãos cruzadas no colo.
Pensei em Proust e na Condessa de Ségur. Pensei viver em Paris, cadeirinhas reclinadas ao poente como diante do mar, tantas coisas para fazer em Paris, e para não fazer.
(...)
Antes mesmo de entrar no quarto, gosto muito que este hotel só possa ser em Paris, a ranger e a afundar desde Victor Hugo.
(...)
Andamos por Paris. Passamos a ponte para Notre Dame e daí para o Marais. Vagueamos ao longo das arcadas da Place des Vosges onde Marjane Satrapi teve um ateliê. Eu falo-te do Persépolis e tu falas-me de Fela Kuti e do filho, Femi. Ouviste-o na Nigéria.
É bom dar as mãos neste frio. É bom andar abraçado neste frio. Paris, teremos-sempre-Paris.»

Alexandra Lucas Coelho, E a noite roda, Edições Tinta-da-China, Lisboa, 2014, pp. 75, 76, 78, 80, 82.

Paris, Rue du Chevalier de la Barre 35

fotografia: pedro sousa | 17 fevereiro 2022

 

















Hoje, subi à Basílica do Sacré-Coeur, nos cimos de Montmartre, na companhia de Jacinto e Zé Fernandes.

«Era um domingo silencioso, enevoado e macio, convidando às voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) sugeri a Jacinto que subíssemos à Basílica do Sacré-Coeur, em construção nos altos de Montmartre.
-É uma seca, Zé Fernandes...
-Com mil demónios! Eu nunca vi a Basílica...
-Bem, bem! Vamos à Basílica, homem fatal de Noronha e Sande!
E por fim logo que começámos a penetrar, para além de S. Vicente de Paulo, em bairros estreitos e íngremes, de uma quietação de província, com muros velhos fechando quintalejos rústicos, mulheres despenteadas cosendo à soleira das portas, carriolas desatreladas descansando diante das tascas, galinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados secando em canas - o meu fastidioso camarada sorriu àquela liberdade e singeleza das coisas.
A vitória parou em frente à larga rua de escadarias que trepa, cortando vielazinhas campestres, até à esplanada, onde, envolta em andaimes, se ergue a Basílica imensa. Em cada patamar barracas de arraial devoto, forradas de paninho vermelho, transbordavam de imagens, bentinhos, crucifixos, corações de jesus bordados a retrós, claros molhos de rosários. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a ave-maria. Dois padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava na doçura cinzenta da tarde. E Jacinto murmurou, com agrado:
-É curioso!
Mas a Basílica em cima não nos interessou, abafada em tapumes e andaimes, toda branca e seca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E Jacinto, por um impulso bem jacíntico, caminhou gulosamente para a borda do terraço, a contemplar Paris. Sob o céu cinzento, na planície cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada de caliça e telha. E, na sua imobilidade e na sua mudez, algum rolo de fumo, mais ténue e ralo que o fumear de um escombro mal apagado, era todo vestígio visível da sua vida magnífica.»

Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras (1901), Edição Livros do Brasil, Lisboa, s.d., pp. 84-85.

Paris, Avenue de New York

fotografia: filipe sousa | 16 fevereiro 2022






















Ontem, fui conhecer o 102 do Boulevard Haussmann, onde Marcel Proust morou, no 1º andar, entre 1906 e 1919. Aí escreveu boa parte das mais de três mil páginas da Recherche (Em Busca do Tempo Perdido), a sua obra-prima. Dormia de dia e escrevia de noite, na cama. Às vezes, durante várias noites, sem intervalos. Chegava a passar semanas sem se levantar, atormentado pela escrita, pela asma e pelo ciúme. Só saía para jantar no Hotel Ritz, na Place Vendôme, e às horas mais tardias. Ou então para algum périplo mais aventuroso ou mais suspeito pelos lupanares da cidade, movido a injecções de adrenalina e cafeína.
Nos anos da Primeira Grande Guerra, enquanto Paris se defendia dos raids aéreos alemães, encontramo-lo a vaguear pelos boulevards e pontes do Sena, no meio do apocalipse, dos aviões-constelações, dos zepelins, do som das sirenes, dos projectores anti-aéreos, por entre as bombas e os estilhaços de obus, fascinado com a beleza da guerra.
Pode a guerra, causadora de destruição, dor e sofrimento, ser um espectáculo de grande beleza estética, como quer fazer crer Marcel? Pode a morte transformar-se em ressurreição, a uma descida aos infernos seguir-se a revelação da luz, o fim passar a ser o início, a procura do Uno suceder o apocalipse, a catástrofe converter-se em alegria, fazendo tudo parte da harmonia do mundo? Marcel explica-se nesta passagem d'O Tempo Reencontrado, que, decerto, não passou despercebida a Francis Ford Coppola quando realizou Apocalypse Now:

«Com humildade, contei a Robert como em Paris pouco se sentia a guerra. Ele respondeu-me que mesmo em Paris havia às vezes coisas «bastante insólitas». Aludia a um raid de zepelins que tivera lugar na véspera e perguntou-me se eu vira, mas como se outrora me falasse de um espectáculo qualquer de grande beleza estética. Na frente ainda se compreende que haja uma espécie de afectação em dizer: «É maravilhoso, olha aquele cor-de-rosa, e aquele verde-claro», quando quem o diz pode ser morto a todo o momento; mas não era isto que acontecia com Saint-Loup, em Paris, a propósito de um raid insignificante, mas visto da nossa varanda, naquele silêncio de uma noite em que houvera de repente uma festa de verdade com foguetões úteis e protectores, toques de clarim que já não eram só de parada, etc. Falei-lhe da beleza do aviões que subiam de noite. «E talvez seja maior ainda a dos que descem», disse-me ele. «Reconheço que é muito belo o momento em que sobem, em que vão formar em constelação, obedecendo a leis tão exactas como as que regem as constelações, por que o que a ti te parece um espectáculo é a junção das esquadrilhas, as ordens que recebem, a sua partida para a caça, etc. Mas não preferes o momento em que, definitivamente assimilados às estrelas, se afastam delas para partirem em perseguição ou regressarem após o toque de dispersar, o momento em que criam um apocalipse, em que nem sequer as estrelas se mantêm no mesmo lugar? E aquelas sirenes eram uma coisa bastante wagneriana, o que aliás era muito natural para saudar a chegada dos Alemães, tinham muito de hino nacional, com o Konprinz e as princesas no seu camarote imperial, Wacht am Rhein, apetecia perguntar se eram mesmo aviadores ou se não seriam antes Valquírias subindo.» Parecia comprazer-se nesta assimilação dos aviadores às Valquírias, e explicou-o aliás por razões puramente musicais: «É que a música das sirenes, senhores, era de uma Cavalgada! Decididamente é preciso que cheguem os Alemães para se poder ouvir Wagner em Paris.» E, de resto, de certos pontos de vista, a comparação não era falsa. Da nossa varanda a cidade parecia um escuro monstro informe e negro, e que de repente se transferia das profundezas e da noite para a luz e para o céu, onde um a um os aviadores se elevavam obedecendo ao apelo dilacerante das sirenes, enquanto, num movimento mais lento, mas mais insidioso, mais alarmante, porque o seu olhar faz pensar no objecto ainda invisível e talvez já próximo que buscava, os projectores se moviam incessantemente, farejando o inimigo, cercando-o com as suas luzes até ao momento em que os aviões encaminhados saltariam em perseguição para o agarrarem. E, esquadrilha após esquadrilha, cada aviador arremetia assim da cidade agora transportada para o céu, semelhante a uma Valquíria.»

Marcel Proust, Em busca do tempo perdido (À la recherche du temps perdu, 1927) O tempo reencontrado (Le Temps Retrouvé, 1927), trad. Pedro Tamen, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2005, pp. 69-70.     

Este ano celebra-se o centenário da morte de Proust.   

Paris, Rue Blondel

fotografia: filipe sousa | 15 fevereiro 2022

 


















Dei-me ao trabalho de contar 3.521 lombadas distribuídas por sete estantes embutidas nas paredes da casa de C. G., perto do Marais, um paraíso para quem gosta de livros! Convenhamos que acomodar todo este acervo numas águas-furtadas com cerca de 70 m2 é obra. Muita obra, mesmo! E mais ainda, construí-lo criteriosamente com autores e títulos de referência dos mais diversos temas (filosofia, botânica, livros de viagem, literatura, poesia e, sobretudo, teatro!) e disponibilizá-lo a visitantes desconhecidos de todo o mundo! São pistas preciosas que vou recolhendo sobre a biblioteca e me dão a conhecer um pouco mais do seu misterioso criador. De Portugal, encontro dois livros de viagens, mais a Ode Maritime e Le Gardeur de troupeaux, de Fernando Pessoa. Não há vestígios de Eça de Queiroz, mas é com ele que viajo para essa outra biblioteca, fictícia, do 202 dos Campos Elísios, que dista uma boa légua em linha recta do local onde me encontro. Curiosamente, o reencontro de Zé Fernandes com Jacinto, e com o seu “depósito de livros”, deu-se em Fevereiro, num “fim de tarde arrepiado e cinzento”, como o de ontem. Bienvenue à Paris!

«Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arrepiado e cinzento, quando eu desci os Campos Elísios em demanda do 202. Adiante de mim caminhava, levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes até às abas recurvas do chapéu donde fugiam anéis de um cabelo crespo, ressumava elegância e a familiaridade das coisas finas. Nas mãos, cruzadas atrás das costas, calçadas de anta branca, sustentava uma bengala grossa com castão de cristal. E só quando ele parou ao portão do 202 reconheci o nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos.
-Oh Jacinto!
-Oh Zé Fernandes!
O abraço que nos enlaçou foi tão alvoraçado que o meu chapéu rolou na lama. E ambos murmurávamos, comovidos, entrando a grade:
-Há sete anos!...
-Há sete anos!...
(...)
Jacinto empurrou uma porta, penetrámos numa nave cheia de majestade, onde reconheci a Biblioteca por tropeçar numa pilha monstruosa de livros novos. O meu amigo roçou de leve o dedo na parede: e uma coroa de lumes eléctricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as estantes monumentais todas de ébano. Nelas repousavam mais de trinta mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com retoques de ouro, hirtos na sua pompa e na sua autoridade como doutores num concílio.
Não contive a minha admiração:
-Oh Jacinto! Que depósito!
Ele murmurou, num sorriso descorado:
-Há que ler, há que ler...»

Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras (1901), Edição Livros do Brasil, Lisboa, s.d., pp.25-26.

Dublin, Hanover Quay 16

fotografia: filipe sousa | 5 fevereiro 2022

 


















Prestes a despedir-me de Dublin, abro caminho ao longo do Hanover Quay, no Grand Canal, deixando para trás o edifício da Google e a velha fábrica de bicicletas Raleigh, transformada na sede europeia da Airbnb. Apesar da densidade do edificado, continuam a florescer novos projectos imobiliários no recém-baptizado Innovation District. O capitalismo no seu esplendor. Dos armazéns originais do século XVIII, resistem a residência de Mr. e Mrs. Cicero e os estúdios originais dos U2 (nº 16).

«Cicero (...) mora nas docas, na margem sul do rio, junto à foz do Grand Canal - se é que os canais têm foz -, num antigo armazém de cereais do século XVIII que ele e Mrs. Cicero transformaram numa das residências mais espantosas da cidade. É paredes-meias com o estúdio de gravação dos U2, que ele vendeu à banda; quando o ruído se torna demasiado ensurdecedor, explica-me, bate com o sapato na parede para os avisar de que têm de baixar o som.»

Jonh Banville, Retalhos do tempo - Um Memorial de Dublin (Time Pieces - A Dublin Memoir, 2016), trad. Paulo Faria, Relógio d'Água Editores, Lisboa 2017, p. 126.

Bagottonia (Dublin)

fotografia: filipe sousa | 5 fevereiro 2022

















O canal que cruza a Bagottonia, entre Baggot Street e Lower Mount Street. Uma Dublin oculta - oculta dos olhares distraídos, é claro! -, que descubro com a ajuda de John Banville.

«Imagino que todos possuamos um lugar especial que constitua uma espécie de paraíso privativo, o Céu para onde gostávamos de ir depois da morte, se é que temos de ir para algum lugar. Para mim, aquele trecho de água plácida e juncos rumorejantes, com o caminho de sirga ocre-escuro que vai desde a Baggot Street até à Lower Mount Street, é a paisagem aquática mais encantadora que conheço, superando até aquele outro Canale Grande, o tal dos gondoleiros de voz maviosa. Considero uma das maiores bênçãos da minha vida ter-me sido permitido, desde uma idade precoce, travar conhecimento com aquela zona, «Baggotonia», tal como os seus moradores a designavam, cheios de ternura e de sentido de posse, e, mais tarde, ter tido a imensa sorte de ali morar (...)».

Jonh Banville, Retalhos do tempo - Um Memorial de Dublin (Time Pieces - A Dublin Memoir, 2016), trad. Paulo Faria, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2017, pp. 24,27.

Éireann / Irlanda

fotografia: filipe sousa | 1 fevereiro 2022

 






















-Ouves...Parece música...A mesma música que o bardo mágico Merlim ouviu quando veio com a fada Morgana procurar uma espada encantada... - Banshee O'Danann.
-...E foi esta música que deu ao rei Finn de Fianna a ideia de construir a harpa... - Banshee O'Danann.
-...É o vento que passa entre os ossos daquela carcaça de baleia...Vê...- Banshee O'Danann.
-...Como esses ossos fazem lembrar uma harpa...A harpa da Irlanda, a Irlanda...- Banshee O'Danann.
-...Meu Deus, que idiotices te conto... - Banshee O'Danann.
-Partes, Corto Maltese? - Banshee O'Danann.
-Sim...! - Corto Maltese.
-...Queres vir comigo? - Banshee O'Danann.
- Chamo-me Banshee, lembras-te?...Dou má sorte.- Banshee O'Danann.
-Dei-a aos dois homens que amei...não posso arriscar-me a isso contigo...e depois a Irlanda ainda precisa de todos os seus...Adeus, Corto. - Banshee O'Danann.

Hugo Pratt, «Concerto em O menor para Harpa e Nitroglicerina» in Corto Maltese - As Célticas (Les Celtiques, 1970), trad. Jorge Colaço, Edição Geomais, Estoril, 2019, pp. 83-84.

Serra do Álamo

fotografia: filipe sousa | 30 janeiro 2022

 
















«Gramáticas de pedra: a imensidão de gestos empilhados, argamassados, inteiros, derrocados, precários, resistentes, soltos, protectores, desolados, ruidosos - traços que como rios serpenteiam na paisagem seca da história imprimindo aos lugares o silêncio habitado que a ausência humana sempre deixa.

(...)

Muros são gigantes solitários presos às origens da sedentária gesta humana. Não apenas dos grandes feitos, mas de todas as realizações, aspirações desejos e sonhos íntimos, perdidos, esquecidos - passados e presentes - de homens laboriosos que assim buscam na apropriação do espaço a perpetuação da sua própria eternidade transformada em escrita da paisagem.»

Gabriella Casella, Gramáticas de Pedra - Levantamento de tipologias de construção murária, CRAT - Centro Regional de Artes Tradicionais, 2003. 

Berlin / Berlim, Mühlenstrasse (East Side Gallery)

fotografia: filipe sousa | 25 janeiro 2020

 















Nikolai Gógol (1809-1852) é considerado o grande prosador da literatura russa moderna. Com o seu Poema (Almas Mortas, na tradução portuguesa) imaginou "o livro" sobre a Rússia, uma obra épica que não apenas retratasse a Rússia feudal do seu tempo como lhe traçasse o futuro.
Curiosidade: Gógol nasceu na província de Poltava, que hoje pertence à Ucrânia, mas que na época fazia parte do Império Russo czarista.
Como consequência, tanto a Rússia quanto a Ucrânia reivindicam agora a sua nacionalidade.
O que Gógol não imaginou é que a disputa sobre as suas origens se tornaria num dos rastilhos da actual tensão entre os dois blocos políticos e militares.

«Também tu, ó Rússia, não correrás assim, como uma troika célere e inultrapassável? Fumega o caminho debaixo das tuas rodas e tudo vai ficando para trás. Queda-se o espectador, espantado com o milagre divino: não será isto um raio do céu? O que significa esta correria de meter medo? Que força obscura existe nestes cavalos que o mundo desconhece? Eh, cavalos, cavalos, que cavalinhos! Será que as vossas crinas transportam furacões? Tereis em cada veia um ouvido apurado? Ouvistes de cima uma cantiga familiar e logo retesastes, todos de uma vez, os vossos peitos de cobre e, quase sem tocardes com os cascos em terra, tornastes-vos linhas estiradas voando pelo ar, e toda ela corre, inspirada por Deus... Rússia! Para onde corres tu? Responde-me. Não há resposta. Desfazem-se os guizos num divino guizalhar; troveja e faz-se vento o ar rasgado em pedaços; a teu lado voa tudo o que há na terra e, olhando de soslaio, afastam-se e abrem-lhe alas os outros povos e Estados.»

Nikolai Gógol, Almas Mortas - poema, (Mertvi Duchi (Poema), 1842), trad. Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p.327.

Évora, Rossio de S. Brás

fotografia: filipe sousa | 26 novembro 2021

 
















Há semanas, o circo (da família) Monteiro abancou em Évora. Pretexto para evocar, lendo e ouvindo, «No circo Monteiro nunca chove», ou Portugal ao espelho, by Sérgio Godinho.

NO CIRCO MONTEIRO NUNCA CHOVE

No circo Monteiro nunca chove chuva
Punha com o laço e o palhaço a luva
Trapezistas, tropecistas virtuosos trapacistas
E nas contabilidades sempre equilibristas

O circo Monteiro é sempre ao sol, fá, mi, ré
O circo Monteiro é sempre em pé

No circo Monteiro nunca neva neve
Lá fora há borrasca e toda a rasca em breve
Mas cá dentro lantejoulas, acrobatas em ceroulas
Apanhados com as calças na mão pé ante pé

Mas se o circo Monteiro é marcha à ré, dó, si, lá
Lassa de manter o alvará
Mas se o circo Monteiro é marcha à ré, dó, si, lá
Lassa de manter o alvará

Contada a caixa baixam-se as lonas
E ó ironia era nas lonas que o circo se erguia
Contada a caixa baixam-se as lonas
E ó ironia era nas lonas que o circo se erguia

No circo Monteiro nunca venta o vento
Aqui o arco-irís não vira cinzento
Hipotecados os dentes restam sorrisos contentes
Vê-se no escuro da boca a luz ao fim do túnel

No circo Monteiro é sempre a Belle Époque
O circo Monteiro é flic flac flop
No circo Monteiro é sempre a Belle Époque
O circo Monteiro é flic flac flop

Contada a caixa baixam-se as lonas
E ó ironia era nas lonas que o circo se erguia
Contada a caixa baixam-se as lonas
E ó ironia era nas lonas que o circo se erguia 

No circo Monteiro não se esfria o frio
O calor das palmas dá-lhes às almas frio
Em cada bancada cada susto, espanto, gargalhada
Deixam sem tostões a caixa das reclamações

O circo Monteiro é português
Ai, zis, uis
Dum buraco só doutros azuis
O circo Monteiro é sempre ao sol, fá, mi, ré
O circo Monteiro é sempre em pé
Mas se o circo Monteiro é marcha à ré, dó, si, lá
Lassa de manter o alvará
O circo Monteiro é português
Ai, zis, uis
Dum buraco só doutros azuis

Sérgio Godinho, «No circo Monteiro nunca chove» in Ligação Directa, 2006.

Amareleja, Rua da Fábrica 2

fotografia: filipe sousa | 18 novembro 2021

 















Aqui de magnos cachos nos seduz
A promessa da vide, e o sol que luz
Apraz de sombras o passeio onde imos
Sem fim nem astro, sem dever nem cruz.

Seja dos maus atalhos das florestas,
Seja onde por janelas ou por frestas
Olhamos para o mundo pouco a pouco,
E o mundo é um ermo onde se movem festas.

Ah, bebe! A vida não é boa ou má.
O que lhe demos é o que ela dá.
Tudo é restituído ao que não foi.
E ninguém sabe o que é ou haverá.

Cansa ter tédios, sem que sejam mágoas.
Da rumorosa solidão das águas
Sobe na noite um som que 'stá connosco.
Ao despertar bebe vinho. Leio e apago-as.

Ah, vinde aqui onde há o vosso amigo,
Este velho Khayyam só inimigo
Não dos que buscam mas de eles buscarem
Khayyam em cujo lar não há postigo.

O esforço dura quanto dura a fé.
Mas quanto a quem não é dura o quê?
Ah, bebe, bebe, bebe, até 'squeceres
O como, donde, aonde, onde e porquê!

Trazes as rosas que te não pedi.
E mais que às rosas, vens trazer-me a ti.
Mas estou cheio só do entendimento
E tudo quanto tragas já perdi.

13-5-1931 

Fernando Pessoa, Canções de beber - Ruba'iyat na Obra de Fernando Pessoa, edição e prefácio Maria Aliete Galhoz, Assírio e Alvim, Lisboa, 2003, pp. 58-59. 

Moura, Estrada da Barca

fotografia: filipe sousa | 16 abril 2016

 
















É uma expressão latina atribuída a Santo Agostinho. «Solvitur ambulando», ou seja, «caminhar tudo resolve», «resolve-se caminhando». Fixada por Bruce Chatwin, séculos mais tarde, no The Songlines (O Canto Nómada, na tradução portuguesa), é uma espécie de fio condutor da sua deambulação de nove semanas pelo deserto australiano em busca das virtudes da errância. Uma ode à itinerância, ao movimento, ao nomadismo, à caminhada.
«Solvitur ambulando» é uma máxima que também faço minha, como um lema de vida. E que procuro praticar todos os fins-de-semana perto de casa, caminhando ou sobretudo correndo, enquanto não tenho possibilidade de sair para outros cenários e percorrer distâncias de maior fôlego. Dez quilómetros a levitar, entre Moura e o Guadiana (e vice-versa), na estrada mais bela do mundo (até ver!), são reparadores o suficiente para enfrentar a semana de trabalho e as agruras do quotidiano, permitindo-me desligar de mim e do mundo por momentos para, já refeito, reconciliar-me comigo e com o mundo. Nada contraditório! É uma terapia, uma necessidade, um escape, um impulso, um acto de purificação, um carregar de baterias, um prazer sem limites, chame-se o que se quiser, que me é vital para aliviar o corpo e a mente, para manter o equilíbrio, para rever o passado e projectar o futuro, para criar, arrumar e desarrumar ideias, para definir prioridades e fazer escolhas: «não sei para onde vou, não sei para onde vou – sei que não vou por aí!», como diria Régio.

A estrada da Barca chama-me de novo, amanhã. E sei que vou por aí, faça sol ou chuva!

Solvitur ambulando. «Caminhar tudo resolve».

Bruce Chatwin, O Canto Nómada (The Songlines, 1987), trad. José Luís Luna, Quetzal Editores, Lisboa, 1995, p. 213.