Moura, Monte da Esperança

SOBRE O DESEJO

Hei-de levar este esplendor para um poema, dizia eu, sempre que me estendia à sombra branca e miúda de uma oliveira. Mas fosse onde fosse, em terras de Corfu ou de Maiorca, nos campos de Siena ou no chão da minha infância, sempre adormeci sobre o desejo.
Hoje, que a violência do estio me levou a escarvar a própria pedra, queria apenas uma dessas árvores de bruma, por mais exígua, e adormecer à sua sombra.

Eugénio de Andrade, «Memória Doutro Rio» (1976-1977), in Poesia e Prosa (1940-1980), 2ª ed., Limiar, Porto, s.d., pp. 252-253.

fotografia: filipe sousa | 1 agosto 2018


Torino / Turim, Via Emanuele Artom

«Voltei à praia, gotejante, e atirei-me sobre a areia. Tinha os olhos fechados.
Quando os reabri e me sentei, lancei um olhar de desânimo para a costa. Sobre a palidez desesperada das plantas carnosas e das casas mais próximas, cor-de-rosa, continuava a bater aquele sol. O meu fato formava uma mancha escura junto do barco.
-Também está aqui desterrado? - gritou, do outro lado, o rapaz.
-Aqui todos o somos, pouco mais ou menos, - disse eu, em voz alta. - O único recurso é metermo-nos dentro de água.
-E de Inverno, que recurso há?
-De Inverno pensa-se na nossa terra.
-Eu penso mesmo de Verão.
Veio para junto de mim e sentou-se na areia. Tinha tirado o casaco e trazia uma camisa escura, sem mangas.
-Em que terra acha que pensará esta gente daqui? - perguntou.
-Pensam no norte da Itália ainda mais do que nós.
-Sim, mas esta é a terra deles. A eles não lhes falta nada.
Através da via férrea, entre a praia e as primeiras casas, desenconchadas da fracção marinha, passava um grupo de mulheres. Iam para o seu recanto entre os escolhos, pela costa acima, tomar banho. Eram velhas, vestidas de castanho, e baixas, e entre elas ia uma rapariga de branco.
Disse qualquer coisa. - Claro que no Pó se nada melhor. Há menos sol e mais comodidade.
-Onde é que mora, em Turim?
Disse-lho.
-Mas que faz aqui nesta terra?
-Estou a trabalhar na estrada provincial. Sou o engenheiro.
O desterrado esfregou o nariz com o dorso da mão. - Eu era mecânico, - disse, fitando-me. - Recebe correspondência de Turim?
-De vez em quando?
-Eu também recebi outro dia, - e tirou da algibeira um  postal ilustrado com a vista da estação. - Conhece este sítio?
Olhei, com um sorriso, para a ilustração e restituí-lha, embaraçado.
-Traz saudades de uma rapariga. Se me manda saudades quer dizer que me prega os cornos. Eu conheço-as.
A presunção desagradou-me. Acendi um cigarro sem responder: aguardava o resto. Mas ele calou-se. Daí a bocado restitui-me o jornal, com um agradecimento brusco, e foi-se embora, tropeçando na areia.»

Cesare Pavese, «Terra de Exílio» (1936), in Noites de Festa (Notte di Festa, 1956), trad. Rosália Braancamp, Editorial Minerva, Lisboa, 1964, pp. 13-15.


fotografia: filipe sousa | 12 abril 2018

Évora, Praça do Giraldo

«Esta última cidade é grande e bem povoada. Cercada de muros, possui um castelo e uma mesquita-catedral. O território que a cerca é de uma fertilidade singular. Produz trigo, gado e toda a espécie de frutos e legumes. É uma região excelente onde o comércio é próspero, quer em objectos de exportação quer em objectos de importação. 
De Évora a Badajoz, para oriente, 2 jornadas.»

Abu Abd Allah Muhammad al-Idrisi al-Qurtubi al-Hasani al-Sabti (simplesmente al-Idrisi ou Edrici), século XII, in António Borges Coelho, Portugal na Espanha Árabe - vol. 1 Geografia e Cultura, 2ª ed., Editorial Caminho, Lisboa, 1989, p. 67. 


fotografia: filipe sousa | 26 abril 2016

Paris, Notre-Dame

«O Sena passa espesso, cor de chumbo, da cor do céu. Notre Dame como um grande mamífero branco cheio de gárgulas. (...)
Então andamos lado a lado, com a nossa bagagem, por Saint-Louis à noite. Levo-te à Ulysses e às papelarias da rue du Pont Louis-Philippe onde há anos descobri uns cadernos encadernados a pano que parecem livros, mas com as páginas todas brancas. Ficamos de nariz na montra.
Depois damos a volta ao clarão fantasmagórico de Notre Dame, e paramos de queixo levantado para a fachada, como se fosse a lua.
As noites de inverno têm a aura das coisas fechadas sobre si. Uma noite assim é para nós. (...)
Antes mesmo de entrar no quarto, gosto muito que este hotel só possa ser em Paris, a ranger e a afundar desde Victor Hugo.
E ao abrires a porta tenho a certeza de que a janela ao fundo já existia quando Hugo nasceu. Ele bem podia ter escrito O Corcunda de Notre Dame ou mesmo Os Miseráveis nesta alcova comprida e estreita, com a cama numa ponta e a janela na outra. Atrás da cama há um cubículo onde foi acrescentada a casa de banho, mas de resto tudo estaria assim há 150 anos: o padrão de flores na parede, a velha escrivaninha com tampo, o peso da janela altíssima, e quando a abrimos:
-Uau!
Notre Dame, incandescente. (...)
Estás de costas para Notre Dame, portanto a tua cara está escura, com os olhos a brilhar. A luz deve estar na minha cara. (...) 
Então, à luz de Notre Dame estamos em pé, deitados, ajoelhados. Eu caio de costas, a tua cabeça desaparece, eu apoio os pés nos teus ombros, tu respiras fundo, respiras. Vai tornar-se uma vocação.
Na manhã seguinte, recolhes a roupa e deixamos a nossa alcova d'Os Miseráveis para sempre.»

Alexandra Lucas Coelho, E a Noite Roda, Edições Tinta-da-china, Lisboa, 2014, pp. 75-76, 80-81, 88-89.


fotografia: pedro courinha | 29 fevereiro 2012

Castilla - La Mancha / Castela - La Mancha

«(...) passou o odre a Sancho, que, empinando-o, posto na boca, esteve a olhar as estrelas um quarto de hora e, acabando de beber, deixou cair a cabeça para um lado, e dando um grande suspiro, disse:
-Oh filho da puta, velhaco, e como é de estalo!
-Vedes agora - disse o do Bosque ao ouvir o filho da puta de Sancho -, como louvaste este vinho chamando-lhe filho da puta
-Digo - respondeu Sancho -, que confesso que não é desonra chamar filho da puta a ninguém, quando se tem a intenção de gabá-lo. Mas diga-me, senhor, pela alma de quem mais quer: este vinho é de Cidade Real?
-Bravo, grande provador! - respondeu o do Bosque. - Na verdade, não é de outra parte e tem alguns anos de idade.
-E que tenho eu com isso? - disse Sancho. -Não acrediteis que eu não iria descobri-lo. Não seria admissível, senhor escudeiro, que, tendo eu uma propensão tão grande e tão natural para conhecer os vinhos, dando-me um a cheirar, logo acerte a terra, a casta, o sabor e a idade e as voltas que terá de dar, com todas as circunstâncias que ao vinho dizem respeito? Mas não há razão para se ficar assombrado, se tive na minha ascendência por parte do meu pai, os dois melhores provadores de vinhos que durante muitos anos conheceu a Mancha, para prova do qual lhes aconteceu o que vou contar. Deram aos dois a provar vinho de uma cuba, pedindo-lhes a opinião sobre o estado, qualidade, excelência ou defeitos do vinho. Um provou-o com a ponta da língua, o outro não fez mais que chegá-lo ao nariz. O primeiro disse que aquele vinho sabia a ferro; o segundo disse que mais sabia a cordovão. O dono disse que a cuba estava limpa e que o tal vinho não tinha preparado nenhum pelo qual tivesse tomado sabor ferro nem de cordovão. Apesar disso, os dois famosos provadores mantiveram o que tinham dito. Passou o tempo, vendeu-se o vinho, e ao limpar-se a cuba acharam dentro dela uma chave pequena, pendente de uma correia de cordovão. Para que veja vossa mercê se quem vem desta raça poderá dar o seu parecer em semelhantes causas.»

Miguel de Cervantes, O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha (El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha, 1605), trad. José Bento, Relógio d'Água Editores, 2005, parte II, cap. XII, p. 553. 


fotografia: filipe sousa | 14 abril 2019

Toledo

«A cidade aparece dourada numa colina. É a vista que temos do Parador, um antigo palácio, convidas tu. Quarto 4537, uma cama que não acaba, uma tapeçaria sobre a cabeceira. Pousámos as malas e agora olhamos Toledo da varanda. (...)
Na Câmara ficamos a saber da estratégia para o Quixote: pins, esculturas, silhuetas, cartazes, folhetos, álbum de colorir, colheita de vinho, livro de cozinha, concurso de televisão, site de internet, jogo interativo, calquitos, peça de teatro, musical, marcador de livros, rota turística, percurso pedestre e uma edição especial a um euro.
Quixote rules.»

Alexandra Lucas Coelho, E a Noite Roda, Edições Tinta-da-china, Lisboa, 2014, pp. 95-96.

fotografia: filipe sousa | 7 abril 2019

Paris, Notre-Dame

«A Françoise, quando eu lhe falava de uma igreja de Milão - cidade aonde provavelmente nunca iria - ou da catedral de Reims, ou mesmo da de Arras - que não poderia ver, já que estavam mais ou menos destruídas -, invejava os ricos que podem dar-se ao luxo do espectáculo de tesouros assim, e exclamava num nostálgico lamento: «Que belo que devia ser!» - ela que, vivendo agora em Paris havia tantos anos, nunca tivera curiosidade  de ir ver Notre-Dame. É que Notre-Dame, precisamente, fazia parte de Paris, da cidade onde decorria a vida quotidiana da Françoise e onde por consequência era difícil para a nossa velha criada - como o seria para mim se o estudo de arquitectura me não tivesse corrigido em certos pontos os instintos de Combray - situar os objectos dos seus sonhos.»

Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido - O Tempo Reencontrado (À la Recherche du Temps Perdu - Le Temps Retrouvé, 1927), trad. Pedro Tamen, Relógio d'Água, Lisboa, 2005, vol. VII, p. 157.


fotografia: clara lourenço | 29 fevereiro 2012

Trujillo, Plaza Mayor

«São três horas da tarde quando entro em Trujillo, e tenho sorte, porque tem apenas quinze mil habitantes e estão todos a dormir. Através de ruelas silenciosas conduzo para a Plaza Mayor, onde o único sobrevivente põe, a troco de dez pesetas, um talão de estacionamento por baixo do limpa-pára-brisas e se retira para a sombra, nas escadas ao lado da igreja de San Martín. A única coisa que ainda se mexe agora são as cegonhas, dentro e em cima das torres, pateiam um pouco para cá e para lá nos seus ninhos desordenados, despreocupadamente, no seu próprio calor africano. Mesmo à minha frente encontra-se uma colérica estátua equestre do conquistador Pizarro, a espada em riste pronta para espetar alguns incas, e é o que terá de continuar a fazer até ele próprio ser assassinado, pois o escultor esqueceu-se de lhe dar uma bainha para guardar a arma. O relógio solta uns sons roucos, portanto sem dúvida que aconteceu algo com o tempo, mas na praça nada muda.»

Cees Nooteboom, O (Des)Caminho para Santiago, (De Omweg Naar Santiago, 1992), trad. Patrícia Couto e Arie Pos, Asa Editores, Porto, 2003, p. 144. 


fotografia: filipe sousa | 14 abril 2019

Torino / Turim

«-Gajeiro! - bradou o Corsário Negro, mal a escuridão foi completa a bordo. -Onde navega esse barco?
-Para o sul, comandante.
-Na costa de Venezuela?
-Creio que sim!
-A que distância?
-Cinco ou seis milhas?
O Corsário Negro debruçou-se no varandim e lançou esta ordem: - Homens à coberta!
Em menos de meio minuto os cento e vinte corsários que constituíam a tripulação do Relâmpago estavam todos a postos.
Aqueles piratas reunidos no Golfo do México, de todas as partes da Europa e recrutados entre a pobre canalha dos portos do mar da França, Itália, Holanda, Alemanha e Inglaterra, gente com todos os vícios, mas nada preocupados com a morte e capazes dos maiores heroísmos e das mais incríveis audácias nas naus corsárias, tornavam-se mais submissos do que cordeiros até se transformarem em tigres no combate.
Bem sabiam que o seu comandante não deixaria impune qualquer descuido e que a mais leve indisciplina seria castigada com um tiro de pistola na cabeça ou pelo menos com o abandono em alguma ilha deserta.
Quando o Corsário Negro viu todos os seus homens a postos, observando-os quase um a um, voltou-se para Morgan, o qual esperava ordens:
-Achas que aquele navio será?...-perguntou-lhe.
-Espanhol, senhor - respondeu logo o imediato.
-Espanhóis! - exclamou o Corsário Negro com voz cava. -Será uma noite terrível para eles, e muitos não chegarão a ver o sol de amanhã.
-Assaltaremos aquele navio esta noite, senhor?
-Sim, metê-lo-emos a pique. No fundo do mar dormem os meus irmãos, mas não dormirão sós.»

Emilio Salgari, O Corsário Negro (Il Corsaro Nero, 1898), trad. A. Duarte de Almeida, Clube do Autor, Lisboa, 2010, pp. 112-113.


fotografia: filipe sousa | 10 abril 2018

Telheiro e Outeiro

«Ala para o Alentejo, para os grandes espaços, o apartamento em Lisboa ficava para as excepções. Antes a rústica simplicidade que o contacto com melíflua e falsa gente que não prestava preito à competência e capacidade de mando dum cidadão que passar a vida a dar provas.
O monte era habitação dos caseiros numa propriedade de Maria das Dores. Negociaram demoradamente a saída do casal, com as respectivas compensações -  a cortiça duma outra herdade dava para tudo -, de maneira que, com a ajuda dum arquitecto amigo, assaz carote, ali refizeram um monte corrido, baixo, com portas características, degraus entre as divisões, todas em fiada, tijoleira da região e duas vastas lareiras, com chaminés que atiravam muito lá para cima e davam para se fazer uma vida de conforto, durante boa parte do ano. À cautela, instalaram-se recuperadores de calor, que os quartos alentejanos são gelados no Inverno, e dispuseram-se mosquiteiros nas janelas, que por ali investem melgas em falange cerrada, ombro com ombro, asa com asa, ferrão com ferrão, as campeãs dos arredores de Serpa, aliás celebradas numa canção tradicional. Melhoramento aqui, melhoramento ali, foi preciso gastar muito dinheiro para disfarçar os cómodos modernos com a aparência artesanal de quartas nos poiais, talhas na sala, e um charabã na garagem, ao lado do jipe e do Audi.
Maria das Dores tinha garantido: «Desde que você me largue da mão, qualquer entrouxo me serve. Não me azucrine é o juízo.» E logo se acomodou com os seus jornais, as suas revistas, as suas fichas, os seus álbuns, o seu computador e ocupou boa parte da casa. Estava a preparar uma tese de mestrado, na universidade de Évora, sobre «O Traje Feminino entre os Povos Originários da Lusitânia Tarragonense». Não queria maçadas.»

Mário de Carvalho, Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina, 3ª ed., Editorial Caminho, Lisboa, 2003, pp. 31-32.

fotografia: filipe sousa | 9 abril 2016

Arrábida

TARDE FERIDA

Que mar a pique
ou luz,
ausente e quente,
na boca tão intensa
que fere a tarde?

Eugénio de Andrade, «Coração do Dia» (1956-1958), in Poesia e Prosa (1940-1980), 2ª ed. Limiar, Porto, s.d., p. 89.

fotografia: filipe sousa | 27 março 2016


Anemzi

Anemzi é uma pequena aldeia situada a 2.400 metros de altitude e vigiada de perto pelos cimos nevados do Jbel Masker. Desligado o motor do Land Rover, uma estranha quietude tomou conta do lugar, proporcionando a atmosfera perfeita para a nossa iniciação aos mistérios dessas casas de espessas paredes de taipa e pedra sobreposta (algumas delas com reboco de argila e palha), cobertas por açoteias com algerozes de madeira e esguias chaminés em actividade. Logo nos acudiram à memória as nossas casas do Sul, de taipa e cal, que, à semelhança daquelas, constituem um notável exemplo de adaptação às condições do meio. Arquitectura caracterizada por uma singular funcionalidade e plasticidade, fruto do apuramento de saberes e técnicas que passaram a prova do tempo e ainda hoje resistem envoltos no seu aparente arcaísmo.

Filipe Sousa, Alto Atlas Oriental: no coração de Marrocos (diário de viagem), 1993. 


fotografia: filipe sousa | dezembro 1993 

Venezia / Veneza, Basilica di Santa Maria della Salute

VENEZA

Que música serias
se não fosses água?

Eugénio de Andrade, «Escrita da Terra» (1970-1978), in Poesia e Prosa (1940-1980), 2ª ed. Limiar, Porto, s.d., p. 139.

fotografia: filipe sousa | julho 2003

Safara, Estrada dos Lameirões

RÉPTEIS
                                   Pequena lagartixa branca,
                                   ó noiva brusca dos ladrilhos!
                                   Cecília Meireles

Na infância íamos ao quintal, à noite, cortávamos um ramo de brincos-de-princesa, trazíamos uma osga ao peito, como um broche. Osgas pálidas, de olhinhos brilhantes. Já na cama, sonhávamos que as estrelas eram osgas de cabeça tremulante de chama. O céu cravejado de estrelas-osgas com nomes de mouras encantadas. Uma caía de repente, pousava-se-nos no ombro, assustava-nos.
Osgas. Lagartixas. Não lhes fazíamos mal. Rezava a lenda que tinham beijado os pés do Senhor.
Encontrámo-las depois em África, cor de tabaco, vivendo connosco, comendo os mosquitos. Na Índia, grandes, soltando gargalhadas nos tectos de madeira. Em Macau, de corpo róseo, translúcido, alabastro.
Cobras e lagartos andam simbolicamente unidos: emblema de maledicência, de maldade. Imagem do mundo subterrâneo do homem?
Sonhar com cobras, segundo o povo das aldeias, adivinha traição.
E se alguém é mesmo ruim é «ruim como as cobras».
Répteis. Corpo de rastos. Figura da vileza. Sinónimo de perfídia e de dissimulação. No cristianismo o pé da Virgem esmagou a cabeça da serpente-demónio. Na mitologia oriental o Génio do Mal empunhava uma víbora à laia de ceptro.
Mas os livros da tradição chinesa falam da Cidade das Doze Serpentes como capital do Reino da Felicidade, e na História Antiga a serpente de asas era a Sabedoria. Os hindus ainda hoje respeitam as cobras. Algumas tribos africanas têm-nas por deuses.
Saint-Exupéry fala de como as crianças punham o dedo nos lábios a mandar calar os adultos, nessa terra à borda do deserto, quando, ao pôr do Sol, a cobra prateada saía do seu esconderijo sob o alpendre.
Em longínqua missão no Norte de Moçambique, uma freira contou-me que certa vez uma cobra fizera ninho no muro da capela. Bicho bonito, de pele mosqueada. Aos nativos quem falava em a matar? Era sagrada. As irmãs de caridade não ganhavam coragem para tal. Então, à missa, quando a campainha tocava ao erguer da hóstia, a cobra abandonava o seu buraco, com os filhos atrás, e dirigia-se majestosamente para o altar.

Maria Ondina Braga, A Revolta das Palavras, Livraria Bertrand, Amadora, 1975, pp.169-170.


fotografia: filipe sousa | 24 abril 2004

Marseille / Marselha

«Em Marselha, ficámos chocados por ver pessoas normais fazerem uma careta e declararem-se prontas a liquidar um árabe. Os Marselheses são gente franca que aprecia os prazeres simples da vida. São, felizmente, imunes à arte. A sua cidade é a única metrópole que não exibe a grandeza do seu passado e que não nos oprime com o peso dos seus monumentos. Marselha é igualmente um mil-folhas étnico cujas portas se abriram a todos os géneros de viajantes e imigrantes: anarquistas espanhóis, gregos de Esmirna, marinheiros arménios e africanos - la marine au charbon. Reproduções do retrato de Napoleão pintado por Ingres enfeitam as paredes, como propaganda política, dos cafés corsos do bairro do Panier. Toda a gente sabe que Marselha é uma cidade de bandidos e, outrora, o facto era anunciado com jovialidade. Esta cidade de individualistas está a virar as costas ao mar e a sua nova prosperidade fá-la detestar os estrangeiros, o que a torna mesquinha e desconfiada.»

Bruce Chatwin, «A tristíssima história de Salah Bougrine» (1974) in O que faço eu aqui (What am I doing here, 1989), 2ª ed., trad. José Luís Luna, Quetzal Editores, Lisboa, 1996, pp. 274-275. 


fotografia: clara lourenço | novembro 2017

Genova / Génova

«Estamos no primeiro dia de Janeiro do ano de mil seiscentos e sessenta e sete.
O ano chamado "da Besta" terminou, mas o sol ergue-se sobre a minha cidade de Génova. No seio dela nasci há mil anos, há quarenta anos, e de novo neste dia.
Desde o alvorecer que estou alegre, e tenho vontade de olhar o sol de lhe falar como Francisco de Assis. Deveríamos alegrar-nos sempre que ele começa a iluminar-nos, mas hoje os homens têm vergonha de falar com o sol.
Assim, ele não se apagou, nem os outros corpos celestes. Se não os vi a noite passada, foi porque o céu estava encoberto. Amanhã, ou daqui por duas noites, hei-de vê-los, e não precisarei de contá-los. Eles estão lá, o céu não se apagou, as cidades não estão destruídas, nem Génova, nem Londres, nem Moscovo, nem Nápoles. Deveremos viver ainda rente ao chão com as nossas misérias de homens. Com a peste e as vertigens, com a guerra e os naufrágios, com os nossos amores, com as nossa feridas. Nenhum cataclismo divino, nenhum dilúvio virá afogar medos e traições.
É possível que o Céu não nos tenha prometido nada. Nem o melhor nem o pior. É possível que o Céu viva apenas ao ritmo das nossas próprias promessas.» 

Amin Maalouf, O Périplo de Baldassare (Le Périple de Baldassare, 2000), trad. António Pescada, 3ª ed., Difel, Algés, 2001, p. 401.


fotografia: filipe sousa | julho 2004


Venezia / Veneza, Piazzetta, Basilica di San Marco

«Mais, não são só as frases que desenham aos nossos olhos as formas da alma antiga. Entre as frases - e estou a pensar em livros muito antigos que foram inicialmente recitados -, no intervalo que as separa permanece ainda hoje, como num hipogeu inviolado, enchendo os interstícios, um silêncio muitas vezes secular. Várias vezes no Evangelho de São Lucas, ao encontrar os dois pontos que o interrompem antes de cada uma das partes quase em forma de cânticos de que está semeado, ouvi o silêncio do crente, que acabava de parar a leitura em voz alta a fim de entoar os versículos seguintes como um salmo que lhe fizesse lembrar os salmos mais antigos da Bíblia. Este silêncio enchia ainda a pausa da frase que, ao ter-se cindido para o englobar, guardara a forma dele; e mais de uma vez, enquanto eu lia, ele me trouxe o perfume de uma rosa que a brisa entrando pela janela aberta espalhara pela sala de tecto alto onde estava reunida a Assembleia e que se evaporara desde há quase dois mil anos. A Divina Comédia, as peças de Shakespeare, dão também a impressão de contemplarem, inserido na hora actual, um pouco do passado; esta impressão tão exaltante que faz com que certos "Dias de Leitura" se assemelhem a certos dias de deambulação por Veneza, pela Piazetta por exemplo, quando se tem diante de nós, na sua cor semi-irreal de coisas situadas a poucos passos e a muitos séculos, as duas colunas de granito cinzento e rosa que têm nos capitéis, uma o leão de São Marcos, a outra Santo Teodoro esmagando o crocodilo; estas duas belas e esbeltas estrangeiras vieram outrora do Oriente trazidas pelo mar que as seus pés se quebra; sem compreenderem as conversas tidas à sua volta, continuam a alongar os seus dias do século XII na multidão de hoje, naquela praça pública onde brilha ainda distraidamente, ali tão perto, o seu sorriso distante.


fotografia: fiipe sousa | julho 2003


























(...)
E é por esta razão que é conveniente ler os escritores clássicos na íntegra, em vez de nos contentarmos com excertos escolhidos. As páginas ilustres dos escritores são muitas vezes aquelas em que esta contextura íntima da sua linguagem está dissimulada pela beleza, com um carácter quase universal, do excerto. Não creio que a essência particular de Gluck se faça sentir numa determinada ária sublime do mesmo modo que numa determinada cadência dos recitativos onde a harmonia é como que o próprio som da voz do seu génio quando recai sobre uma entoação involuntária onde está marcada toda a sua gravidade ingénua e a sua distinção, sempre que a ouvimos por assim dizer tomar fôlego. Quem já viu fotografias da Praça de São Marcos em Veneza pode julgar (e só estou a falar do exterior do monumento) que tem uma ideia dessa igreja de cúpulas, quando é apenas ao aproximarmo-nos, quase a podermos tocá-las com a mão, do pano matizado das colunas sorridentes, é apenas ao vermos o poder estranho e grave que enrola as folhas onde se empoleiram os pássaros nesses capitéis que só podemos distinguir de perto, é apenas ao termos sobre a própria praça a impressão desse monumento baixo, a todo o comprimento da fachada, com os mastros floridos e a sua decoração festiva, o seu ar de "palácio de exposição", que sentimos brotar, nesses traços significativos mas acessórios e que nenhuma fotografia retém, a sua verdadeira e complexa individualidade.»

Marcel Proust, O Prazer da Leitura (Journées de Lecture, 1906), trad. Magda Bigotte de Figueiredo, Editorial Teorema, Lisboa, pp. 61-62, 77-78.

Portinho da Arrábida

«Há em Ítaca um porto dito de Fórcis, o velho do mar:
nele dois promontórios se projectam em saliências rochosas,
íngremes do lado do mar, mas inclinados para o porto,
impedindo as ondas levantadas pelos ventos terríveis
de fora; lá dentro, sem amarras, estão fundeadas
as naus bem construídas, quando atingem o ancoradouro.
No cabeço deste porto está uma oliveira de esguias folhas,
e perto dela há uma gruta aprazível e sombria,
consagrada às ninfas que têm por nome Náiades.
Lá dentro estão taças e ânforas de pedra;
as abelhas também lá guardam o seu mel.
Há compridos teares de pedra, onde as ninfas
tecem tramas de púrpura, maravilha de se ver!
No interior existem nascentes de água inesgotável
e duas portas: uma virada a norte, por onde entram
os homens; e outra a sul, que os homens evitam:
pois essa é caminho dos deuses imortais.»

Homero, OdisseiaCanto XIII 96-112, trad. Frederico Lourenço, Livros Cotovia, Lisboa, 2003, pp. 215-216.


fotografia: filipe sousa | 27 março 2016

Ponta Delgada, Rua João de Melo Abreu 42

«Os golfinhos, as baleias e todos os cetáceos deste género não têm guelras, mas um espiráculo, devido a possuírem um pulmão. Quando recebem a água do mar pela boca, expelem-na pelo espiráculo. Têm, com efeito, necessidade de absorver líquido, porque é por ele que recebem alimento. Ora, uma vez que  o absorveram, precisam de o expelir. As guelras são úteis aos animais que não respiram. A razão do facto ficou exposta no estudo Sobre a Respiração. Com efeito, é impossível a um mesmo animal respirar e ter guelras. Mas é para expulsar a água que têm o espiráculo, o qual se encontra antes do cérebro, aliás separá-lo-ia da coluna vertebral.
O motivo de estes animais possuírem um pulmão e respirarem é que os animais grandes precisam de mais calor, para se moverem. Por isso é que têm o pulmão cheio de calor sanguíneo. São eles em certa medida animais terrestres e marinhos, porquanto absorvem ar como os terrestres, são ápodos, e extraem a sua alimentação da água, como os aquáticos.»

Aristóteles, As Partes dos Animais, 697a  in Hélade - Antologia da Cultura Grega, org. e trad. Maria Helena da Rocha Pereira, 8ª ed., Edições Asa, Porto, 2003, p. 459.  

http://walktalkazores.org/Cartaz/Hazul?Edicao=2019

fotografia: filipe sousa | 26 julho 2016

Berlin / Berlim, Muhlenstrasse (Muro de Berlim, East Side Gallery)

BERLIM

Há uma ruptura
uma fenda no escuro
do silêncio:

ouve-se o murmúrio
da urina
dos soldados contra o muro.

Eugénio de Andrade, «Escrita da Terra» (1970-1978), in Poesia e Prosa (1940-1980), 2ª ed. Limiar, Porto, s.d., p. 138

fotografia: clara lourenço | 18 maio 2017

Sobral da Adiça

«Faustino diz:
-Pode ser que chova.
Todos levantamos a cara e olhamos uma nuvem negra e pesada que passa por cima das nossas cabeças. E pensamos: «Pode ser que sim.»
Não dizemos o que pensamos. Há bastante tempo que se nos acabou a vontade de falar. Acabou-se com o calor. Uma pessoa conversaria com muito gosto noutro sítio, mas aqui dá muito trabalho. Uma pessoa põe-se a conversar aqui e as palavras aquecem na boca com o calor de lá de fora, e secam-se-nos na língua até nos deixarem sem fôlego.
Aqui as coisas são assim. Por isso a ninguém lhe dá para conversar.
Cai uma gota de água, grande, gorda, fazendo um buraco na terra e deixando um empaste como de uma cuspidela. Cai sozinha. Nós esperamos que continuem a cair mais. Não chove. Agora, se olharmos para o céu, vê-se a nuvem aguaceira correndo para bem longe, cheia de pressa. O vento que vem da aldeia arrima-se-lhe empurrando-a contra as sombras azuis dos cerros. E a gota caída por engano é comida pela terra, que a faz desaparecer na sua sede.
Quem diabo terá feito esta planície tão grande? Para que é que serve, hã?»

Juan Rulfo, "Deram-nos a terra" in A Planície em Chamas (El llano em llamas, 1953), trad. Ana Santos, Cavalo de Ferro Editores, Lisboa, 2003, p. 12.

fotografia: filipe sousa | 23 abril 2017

Roma, Piazza del Colosseo

«A notícia das incursões sármatas chegou a Roma durante a celebração do triunfo dácio de Trajano. Essas festas, várias vezes adiadas, duravam há oito dias. Tinham levado cerca de um ano para mandar vir da África e da Ásia os animais selvagens que se projectava abater em massa na arena; o massacre de doze mil feras, a decapitação metódica de dez mil gladiadores faziam de Roma um lugar de orgia da morte. (...)
(...) aprendi a suportar os Jogos em que não vira, até então, senão feroz esbanjamento. A minha opinião não mudara: detestava aqueles massacres em que a fera não tem uma probabilidade; no entanto, ia percebendo pouco a pouco o seu valor ritual, os seus efeitos de trágica purificação sobre a multidão inculta; queria que o esplendor das festas igualasse o de Trajano, com mais arte e mais ordem todavia. Impus a mim mesmo apreciar  a rigorosa esgrima dos gladiadores, com a condição, porém, de que ninguém fosse forçado a exercer aquela profissão contra sua vontade. Aprendi, do alto da tribuna do Circo, a parlamentar com a multidão através da voz dos arautos, a não lhe impor silêncio senão com uma deferência que ela me retribuía a centuplicar, a não lhe conceder coisa alguma que ela não tivesse o direito de esperar, a não recusar nada sem explicar o motivo da minha recusa. Não levava, como tu, os meus livros para a tribuna imperial: aparentar desdém pelas alegrias dos outros é insultá-los. Se o espectáculo me aborrecia, o esforço de suportar era para mim um exercício mais valioso que a leitura de Epicteto.»

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano (Mémoires d'Hadrien, 1951), trad. Maria Lamas, 3ª ed., Editora Ulisseia, 1984, pp. 60, 93.

fotografia: filipe sousa | 9 julho 2009



København / Copenhaga, Randersgade 45

OS DIÁLOGOS FALHADOS
(...)
«E as bicicletas? O que são para ti as bicicletas, rapaz? As bicicletas que de cabeleira ao vento correm sobre nós de todos os lados tão prontas a uma agressão como a um beijo, as bicicletas loucas que nos sobem pelas costas e ficam horas e horas a rodar no alto da cabeça, as bicicletas que às vezes são usadas como lunetas pelos pobres de espírito? Interessava-me saber o que pensas das bicicletas. Lembras-te, com certeza, dos mendigos fardados que distribuem telegramas, que martirizam as pobres pequenas bicicletas... E nelas, pensas? Acaso te aproximaste já de alguma com verdadeira intenção de a conhecer?»
(...)

Alexandre O'Neill, Poesias Completas (Poemas com Endereço, 1962), 3ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p. 186.


fotografia: filipe sousa | agosto 2001