Barcelona, Carrer de l'Hospital, 56

fotografia: filipe sousa | 26 junho 2017

 















Observar as regras do jogo, esse pequeníssimo detalhe.

«-Pretas ou brancas?
Para Emanuel era evidente que tinha a haver-se com um pexote. Juvenilmente propôs-se jogar de olhos vendados. Como assim? O outro estava desconfiado e a voz já se lhe entaramelava. Minutos antes tinha garantido que, desde que comesse alguma coisa, podia beber pela noite fora que não lhe fazia mal nenhum. Aliás, era de dormir pouco.
-De olhos fechados?
Emanuel foi dispondo as pedras e, pacientemente, contou. Com muito treino pode jogar-se xadrez sem tabuleiro. Os viajantes portugueses do tempo das descobertas contavam que os árabes, para entreterem o tempo nas longas caravanas, jogavam xadrez de memória, de camelo para camelo. E falou em André Philidor, em Capablanca, em Alekhine...
-Lérias- rosnou o homem, muito seguro de si. - Tapa-me esses olhos que eu fodo-o logo!
-E4 - anunciava Emanuel mais tarde, com os olhos vendados por um lenço preto, e ainda por cima voltado de costas para o tabuleiro.
-Quê?
-E2-e4 - explicitou Emanuel.
-Mas que merda é esta? Falamos chinês, ou o caraças?
-Mas como, prefere a notação geométrica?
-Geométrica o tanas, eu quero é que você me diga as suas jogadas ou o caraças.
Aquela voz, à medida que enferrujava, tornava-se cada vez mais autoritária.
-Faça avançar duas casas o peão que está em frente do rei branco.
-OK, agora sou eu - as peças estalaram com força no tabuleiro como as do dominó jogadas por peritos de taberna, na fórmica das mesas. - Afinfo-lhe com os dois cavalos!
-Perdão?
-Os dois cavalos, caraças!
Som de líquido a gotejar de fiada. Mais uma rodada, pensou Emanuel.
-Mas desculpe lá, não pode sair com os dois cavalos ao mesmo tempo...é contra as regras...
-Ai que este está a querer fornicar-me! Pensas que eu comecei a jogar esta merda ontem?
-Desculpe. Assim não continuo.
Desamparado ruído de uma cadeira que tombava. Emanuel, numa pressa, desvendou-se. Januário espalhou as peças no tabuleiro e olhou para ele com um ar torvo.
-Cabrão do puto. Queria-me ensinar a jogar xadrez, o sacana! Ainda os teus pais não eram nascidos já eu jogava xadrez em tudo o que era caserna e em tudo o que era messe lá na tropa, ou o caraças, pá.
A Emanuel faltavam as palavras. estava mais preocupado em descobrir as saídas.
-O batoteiro, o intrujão da penica, a querer convencer-me que os cavalos não saem ao mesmo tempo. Com quem é que aprendeste a jogar, ó desgraçado? Foi com a tua avó torta?
E que voz, roufenha, hesitante, formada debaixo da língua! Emanuel recuou.
Januário varreu a mesa com mão em cutelo e foi o belo xadrez parar ao chão onde se estilhaçou, em companhia da garrafa de uísque e do copo. Emanuel relanceou em volta. Natacha espreitava entre portas. O homem avançava para ele:
-Anda cá, meu cabrão, que eu vou-te mostrar o que faço aos batoteiros - passou pela mesa grande e agarrou num candelabro.
Emanuel não correu, voou. Ouviu vagamente uma voz feminina, umas palavras assustadas numa língua estrangeira e o vozeirão do Januário:
-Volta para trás, malandro! Sê homem, sê homem.
Sem saber como, por escadas e portas desconhecidas, acabou por se encontrar em frente do portão.
-Meu Deus, os cães!»

Mário de Carvalho, Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina, 3ª ed., Editorial Caminho, Lisboa, 2003, pp. 58-60.

Berlin / Berlim, Mühlenstrasse (East Side Gallery)

fotografia: filipe sousa | 25 janeiro 2020

 













FRENTE A FRENTE

Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
-e é tão pouco.

Eugénio de Andrade, «Até Amanhã» (1951-1956), in Poesia e Prosa (1940-1980), 2ª ed. Limiar, Porto, s.d., p. 75.

Paris, Place des Vosges

fotografia: filipe sousa | 18 fevereiro 2022

 

















Paris, teremos-sempre-Paris.

«O Sena passa espesso, cor de chumbo, da cor do céu. Notre Dame como um grande mamífero branco cheio de gárgulas.
Volto costas, meto para dentro.
Saint-Louis são três ruas e eu tenho de andar para não morrer do coração.
(...)
Um, respirar. Dois, abrir os olhos. Cá estão os parisienses no seu frufru de petit-quois. Compram baguetes com mãos enluvadas e cachecóis de caxemira. Já cá estavam antes, cá estarão depois.
(...)
Volto à beira-rio, com o meu saco de viagem. É aquela hora em que o dia muda para a noite. O céu está cheio de silhuetas. Tenho a cara gelada, lábios de morta. Mais um minuto e morro disto.
Mas vais aparecer nas minhas costas.
Aqui estás.
(...)
...damos a volta ao clarão fantasmagórico de Notre Dame, e paramos de queixo levantado para a fachada, como se fosse a lua.
As noites de inverno têm a aura das coisas fechadas sobre si. Uma noite assim é para nós.
(...)
Dois anos e meio depois - no verão depois de teres desaparecido  -, fui a Paris fazer uma entrevista.
Quando me vi livre, caminhei até ao Jardim das Tulherias. O sol estava a um palmo de se pôr. Árvores em recorte negro, a grande roda muito lenta, o lago com patos e repuxos, sabrinas na gravilha, japonesas com indianos, carrinhos de bebés, uma barraquinha artisan glacier, gelados morango-menta, um homem de cabelos brancos e olhos fechados, mãos cruzadas no colo.
Pensei em Proust e na Condessa de Ségur. Pensei viver em Paris, cadeirinhas reclinadas ao poente como diante do mar, tantas coisas para fazer em Paris, e para não fazer.
(...)
Antes mesmo de entrar no quarto, gosto muito que este hotel só possa ser em Paris, a ranger e a afundar desde Victor Hugo.
(...)
Andamos por Paris. Passamos a ponte para Notre Dame e daí para o Marais. Vagueamos ao longo das arcadas da Place des Vosges onde Marjane Satrapi teve um ateliê. Eu falo-te do Persépolis e tu falas-me de Fela Kuti e do filho, Femi. Ouviste-o na Nigéria.
É bom dar as mãos neste frio. É bom andar abraçado neste frio. Paris, teremos-sempre-Paris.»

Alexandra Lucas Coelho, E a noite roda, Edições Tinta-da-China, Lisboa, 2014, pp. 75, 76, 78, 80, 82.

Paris, Rue du Chevalier de la Barre 35

fotografia: pedro sousa | 17 fevereiro 2022

 

















Hoje, subi à Basílica do Sacré-Coeur, nos cimos de Montmartre, na companhia de Jacinto e Zé Fernandes.

«Era um domingo silencioso, enevoado e macio, convidando às voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) sugeri a Jacinto que subíssemos à Basílica do Sacré-Coeur, em construção nos altos de Montmartre.
-É uma seca, Zé Fernandes...
-Com mil demónios! Eu nunca vi a Basílica...
-Bem, bem! Vamos à Basílica, homem fatal de Noronha e Sande!
E por fim logo que começámos a penetrar, para além de S. Vicente de Paulo, em bairros estreitos e íngremes, de uma quietação de província, com muros velhos fechando quintalejos rústicos, mulheres despenteadas cosendo à soleira das portas, carriolas desatreladas descansando diante das tascas, galinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados secando em canas - o meu fastidioso camarada sorriu àquela liberdade e singeleza das coisas.
A vitória parou em frente à larga rua de escadarias que trepa, cortando vielazinhas campestres, até à esplanada, onde, envolta em andaimes, se ergue a Basílica imensa. Em cada patamar barracas de arraial devoto, forradas de paninho vermelho, transbordavam de imagens, bentinhos, crucifixos, corações de jesus bordados a retrós, claros molhos de rosários. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a ave-maria. Dois padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava na doçura cinzenta da tarde. E Jacinto murmurou, com agrado:
-É curioso!
Mas a Basílica em cima não nos interessou, abafada em tapumes e andaimes, toda branca e seca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E Jacinto, por um impulso bem jacíntico, caminhou gulosamente para a borda do terraço, a contemplar Paris. Sob o céu cinzento, na planície cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada de caliça e telha. E, na sua imobilidade e na sua mudez, algum rolo de fumo, mais ténue e ralo que o fumear de um escombro mal apagado, era todo vestígio visível da sua vida magnífica.»

Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras (1901), Edição Livros do Brasil, Lisboa, s.d., pp. 84-85.

Paris, Avenue de New York

fotografia: filipe sousa | 16 fevereiro 2022






















Ontem, fui conhecer o 102 do Boulevard Haussmann, onde Marcel Proust morou, no 1º andar, entre 1906 e 1919. Aí escreveu boa parte das mais de três mil páginas da Recherche (Em Busca do Tempo Perdido), a sua obra-prima. Dormia de dia e escrevia de noite, na cama. Às vezes, durante várias noites, sem intervalos. Chegava a passar semanas sem se levantar, atormentado pela escrita, pela asma e pelo ciúme. Só saía para jantar no Hotel Ritz, na Place Vendôme, e às horas mais tardias. Ou então para algum périplo mais aventuroso ou mais suspeito pelos lupanares da cidade, movido a injecções de adrenalina e cafeína.
Nos anos da Primeira Grande Guerra, enquanto Paris se defendia dos raids aéreos alemães, encontramo-lo a vaguear pelos boulevards e pontes do Sena, no meio do apocalipse, dos aviões-constelações, dos zepelins, do som das sirenes, dos projectores anti-aéreos, por entre as bombas e os estilhaços de obus, fascinado com a beleza da guerra.
Pode a guerra, causadora de destruição, dor e sofrimento, ser um espectáculo de grande beleza estética, como quer fazer crer Marcel? Pode a morte transformar-se em ressurreição, a uma descida aos infernos seguir-se a revelação da luz, o fim passar a ser o início, a procura do Uno suceder o apocalipse, a catástrofe converter-se em alegria, fazendo tudo parte da harmonia do mundo? Marcel explica-se nesta passagem d'O Tempo Reencontrado, que, decerto, não passou despercebida a Francis Ford Coppola quando realizou Apocalypse Now:

«Com humildade, contei a Robert como em Paris pouco se sentia a guerra. Ele respondeu-me que mesmo em Paris havia às vezes coisas «bastante insólitas». Aludia a um raid de zepelins que tivera lugar na véspera e perguntou-me se eu vira, mas como se outrora me falasse de um espectáculo qualquer de grande beleza estética. Na frente ainda se compreende que haja uma espécie de afectação em dizer: «É maravilhoso, olha aquele cor-de-rosa, e aquele verde-claro», quando quem o diz pode ser morto a todo o momento; mas não era isto que acontecia com Saint-Loup, em Paris, a propósito de um raid insignificante, mas visto da nossa varanda, naquele silêncio de uma noite em que houvera de repente uma festa de verdade com foguetões úteis e protectores, toques de clarim que já não eram só de parada, etc. Falei-lhe da beleza do aviões que subiam de noite. «E talvez seja maior ainda a dos que descem», disse-me ele. «Reconheço que é muito belo o momento em que sobem, em que vão formar em constelação, obedecendo a leis tão exactas como as que regem as constelações, por que o que a ti te parece um espectáculo é a junção das esquadrilhas, as ordens que recebem, a sua partida para a caça, etc. Mas não preferes o momento em que, definitivamente assimilados às estrelas, se afastam delas para partirem em perseguição ou regressarem após o toque de dispersar, o momento em que criam um apocalipse, em que nem sequer as estrelas se mantêm no mesmo lugar? E aquelas sirenes eram uma coisa bastante wagneriana, o que aliás era muito natural para saudar a chegada dos Alemães, tinham muito de hino nacional, com o Konprinz e as princesas no seu camarote imperial, Wacht am Rhein, apetecia perguntar se eram mesmo aviadores ou se não seriam antes Valquírias subindo.» Parecia comprazer-se nesta assimilação dos aviadores às Valquírias, e explicou-o aliás por razões puramente musicais: «É que a música das sirenes, senhores, era de uma Cavalgada! Decididamente é preciso que cheguem os Alemães para se poder ouvir Wagner em Paris.» E, de resto, de certos pontos de vista, a comparação não era falsa. Da nossa varanda a cidade parecia um escuro monstro informe e negro, e que de repente se transferia das profundezas e da noite para a luz e para o céu, onde um a um os aviadores se elevavam obedecendo ao apelo dilacerante das sirenes, enquanto, num movimento mais lento, mas mais insidioso, mais alarmante, porque o seu olhar faz pensar no objecto ainda invisível e talvez já próximo que buscava, os projectores se moviam incessantemente, farejando o inimigo, cercando-o com as suas luzes até ao momento em que os aviões encaminhados saltariam em perseguição para o agarrarem. E, esquadrilha após esquadrilha, cada aviador arremetia assim da cidade agora transportada para o céu, semelhante a uma Valquíria.»

Marcel Proust, Em busca do tempo perdido (À la recherche du temps perdu, 1927) O tempo reencontrado (Le Temps Retrouvé, 1927), trad. Pedro Tamen, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2005, pp. 69-70.     

Este ano celebra-se o centenário da morte de Proust.   

Paris, Rue Blondel

fotografia: filipe sousa | 15 fevereiro 2022

 


















Dei-me ao trabalho de contar 3.521 lombadas distribuídas por sete estantes embutidas nas paredes da casa de C. G., perto do Marais, um paraíso para quem gosta de livros! Convenhamos que acomodar todo este acervo numas águas-furtadas com cerca de 70 m2 é obra. Muita obra, mesmo! E mais ainda, construí-lo criteriosamente com autores e títulos de referência dos mais diversos temas (filosofia, botânica, livros de viagem, literatura, poesia e, sobretudo, teatro!) e disponibilizá-lo a visitantes desconhecidos de todo o mundo! São pistas preciosas que vou recolhendo sobre a biblioteca e me dão a conhecer um pouco mais do seu misterioso criador. De Portugal, encontro dois livros de viagens, mais a Ode Maritime e Le Gardeur de troupeaux, de Fernando Pessoa. Não há vestígios de Eça de Queiroz, mas é com ele que viajo para essa outra biblioteca, fictícia, do 202 dos Campos Elísios, que dista uma boa légua em linha recta do local onde me encontro. Curiosamente, o reencontro de Zé Fernandes com Jacinto, e com o seu “depósito de livros”, deu-se em Fevereiro, num “fim de tarde arrepiado e cinzento”, como o de ontem. Bienvenue à Paris!

«Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arrepiado e cinzento, quando eu desci os Campos Elísios em demanda do 202. Adiante de mim caminhava, levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes até às abas recurvas do chapéu donde fugiam anéis de um cabelo crespo, ressumava elegância e a familiaridade das coisas finas. Nas mãos, cruzadas atrás das costas, calçadas de anta branca, sustentava uma bengala grossa com castão de cristal. E só quando ele parou ao portão do 202 reconheci o nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos.
-Oh Jacinto!
-Oh Zé Fernandes!
O abraço que nos enlaçou foi tão alvoraçado que o meu chapéu rolou na lama. E ambos murmurávamos, comovidos, entrando a grade:
-Há sete anos!...
-Há sete anos!...
(...)
Jacinto empurrou uma porta, penetrámos numa nave cheia de majestade, onde reconheci a Biblioteca por tropeçar numa pilha monstruosa de livros novos. O meu amigo roçou de leve o dedo na parede: e uma coroa de lumes eléctricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as estantes monumentais todas de ébano. Nelas repousavam mais de trinta mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com retoques de ouro, hirtos na sua pompa e na sua autoridade como doutores num concílio.
Não contive a minha admiração:
-Oh Jacinto! Que depósito!
Ele murmurou, num sorriso descorado:
-Há que ler, há que ler...»

Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras (1901), Edição Livros do Brasil, Lisboa, s.d., pp.25-26.

Dublin, Hanover Quay 16

fotografia: filipe sousa | 5 fevereiro 2022

 


















Prestes a despedir-me de Dublin, abro caminho ao longo do Hanover Quay, no Grand Canal, deixando para trás o edifício da Google e a velha fábrica de bicicletas Raleigh, transformada na sede europeia da Airbnb. Apesar da densidade do edificado, continuam a florescer novos projectos imobiliários no recém-baptizado Innovation District. O capitalismo no seu esplendor. Dos armazéns originais do século XVIII, resistem a residência de Mr. e Mrs. Cicero e os estúdios originais dos U2 (nº 16).

«Cicero (...) mora nas docas, na margem sul do rio, junto à foz do Grand Canal - se é que os canais têm foz -, num antigo armazém de cereais do século XVIII que ele e Mrs. Cicero transformaram numa das residências mais espantosas da cidade. É paredes-meias com o estúdio de gravação dos U2, que ele vendeu à banda; quando o ruído se torna demasiado ensurdecedor, explica-me, bate com o sapato na parede para os avisar de que têm de baixar o som.»

Jonh Banville, Retalhos do tempo - Um Memorial de Dublin (Time Pieces - A Dublin Memoir, 2016), trad. Paulo Faria, Relógio d'Água Editores, Lisboa 2017, p. 126.

Bagottonia (Dublin)

fotografia: filipe sousa | 5 fevereiro 2022

















O canal que cruza a Bagottonia, entre Baggot Street e Lower Mount Street. Uma Dublin oculta - oculta dos olhares distraídos, é claro! -, que descubro com a ajuda de John Banville.

«Imagino que todos possuamos um lugar especial que constitua uma espécie de paraíso privativo, o Céu para onde gostávamos de ir depois da morte, se é que temos de ir para algum lugar. Para mim, aquele trecho de água plácida e juncos rumorejantes, com o caminho de sirga ocre-escuro que vai desde a Baggot Street até à Lower Mount Street, é a paisagem aquática mais encantadora que conheço, superando até aquele outro Canale Grande, o tal dos gondoleiros de voz maviosa. Considero uma das maiores bênçãos da minha vida ter-me sido permitido, desde uma idade precoce, travar conhecimento com aquela zona, «Baggotonia», tal como os seus moradores a designavam, cheios de ternura e de sentido de posse, e, mais tarde, ter tido a imensa sorte de ali morar (...)».

Jonh Banville, Retalhos do tempo - Um Memorial de Dublin (Time Pieces - A Dublin Memoir, 2016), trad. Paulo Faria, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2017, pp. 24,27.

Éireann / Irlanda

fotografia: filipe sousa | 1 fevereiro 2022

 






















-Ouves...Parece música...A mesma música que o bardo mágico Merlim ouviu quando veio com a fada Morgana procurar uma espada encantada... - Banshee O'Danann.
-...E foi esta música que deu ao rei Finn de Fianna a ideia de construir a harpa... - Banshee O'Danann.
-...É o vento que passa entre os ossos daquela carcaça de baleia...Vê...- Banshee O'Danann.
-...Como esses ossos fazem lembrar uma harpa...A harpa da Irlanda, a Irlanda...- Banshee O'Danann.
-...Meu Deus, que idiotices te conto... - Banshee O'Danann.
-Partes, Corto Maltese? - Banshee O'Danann.
-Sim...! - Corto Maltese.
-...Queres vir comigo? - Banshee O'Danann.
- Chamo-me Banshee, lembras-te?...Dou má sorte.- Banshee O'Danann.
-Dei-a aos dois homens que amei...não posso arriscar-me a isso contigo...e depois a Irlanda ainda precisa de todos os seus...Adeus, Corto. - Banshee O'Danann.

Hugo Pratt, «Concerto em O menor para Harpa e Nitroglicerina» in Corto Maltese - As Célticas (Les Celtiques, 1970), trad. Jorge Colaço, Edição Geomais, Estoril, 2019, pp. 83-84.

Serra do Álamo

fotografia: filipe sousa | 30 janeiro 2022

 
















«Gramáticas de pedra: a imensidão de gestos empilhados, argamassados, inteiros, derrocados, precários, resistentes, soltos, protectores, desolados, ruidosos - traços que como rios serpenteiam na paisagem seca da história imprimindo aos lugares o silêncio habitado que a ausência humana sempre deixa.

(...)

Muros são gigantes solitários presos às origens da sedentária gesta humana. Não apenas dos grandes feitos, mas de todas as realizações, aspirações desejos e sonhos íntimos, perdidos, esquecidos - passados e presentes - de homens laboriosos que assim buscam na apropriação do espaço a perpetuação da sua própria eternidade transformada em escrita da paisagem.»

Gabriella Casella, Gramáticas de Pedra - Levantamento de tipologias de construção murária, CRAT - Centro Regional de Artes Tradicionais, 2003. 

Berlin / Berlim, Mühlenstrasse (East Side Gallery)

fotografia: filipe sousa | 25 janeiro 2020

 















Nikolai Gógol (1809-1852) é considerado o grande prosador da literatura russa moderna. Com o seu Poema (Almas Mortas, na tradução portuguesa) imaginou "o livro" sobre a Rússia, uma obra épica que não apenas retratasse a Rússia feudal do seu tempo como lhe traçasse o futuro.
Curiosidade: Gógol nasceu na província de Poltava, que hoje pertence à Ucrânia, mas que na época fazia parte do Império Russo czarista.
Como consequência, tanto a Rússia quanto a Ucrânia reivindicam agora a sua nacionalidade.
O que Gógol não imaginou é que a disputa sobre as suas origens se tornaria num dos rastilhos da actual tensão entre os dois blocos políticos e militares.

«Também tu, ó Rússia, não correrás assim, como uma troika célere e inultrapassável? Fumega o caminho debaixo das tuas rodas e tudo vai ficando para trás. Queda-se o espectador, espantado com o milagre divino: não será isto um raio do céu? O que significa esta correria de meter medo? Que força obscura existe nestes cavalos que o mundo desconhece? Eh, cavalos, cavalos, que cavalinhos! Será que as vossas crinas transportam furacões? Tereis em cada veia um ouvido apurado? Ouvistes de cima uma cantiga familiar e logo retesastes, todos de uma vez, os vossos peitos de cobre e, quase sem tocardes com os cascos em terra, tornastes-vos linhas estiradas voando pelo ar, e toda ela corre, inspirada por Deus... Rússia! Para onde corres tu? Responde-me. Não há resposta. Desfazem-se os guizos num divino guizalhar; troveja e faz-se vento o ar rasgado em pedaços; a teu lado voa tudo o que há na terra e, olhando de soslaio, afastam-se e abrem-lhe alas os outros povos e Estados.»

Nikolai Gógol, Almas Mortas - poema, (Mertvi Duchi (Poema), 1842), trad. Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, p.327.

Évora, Rossio de S. Brás

fotografia: filipe sousa | 26 novembro 2021

 
















Há semanas, o circo (da família) Monteiro abancou em Évora. Pretexto para evocar, lendo e ouvindo, «No circo Monteiro nunca chove», ou Portugal ao espelho, by Sérgio Godinho.

NO CIRCO MONTEIRO NUNCA CHOVE

No circo Monteiro nunca chove chuva
Punha com o laço e o palhaço a luva
Trapezistas, tropecistas virtuosos trapacistas
E nas contabilidades sempre equilibristas

O circo Monteiro é sempre ao sol, fá, mi, ré
O circo Monteiro é sempre em pé

No circo Monteiro nunca neva neve
Lá fora há borrasca e toda a rasca em breve
Mas cá dentro lantejoulas, acrobatas em ceroulas
Apanhados com as calças na mão pé ante pé

Mas se o circo Monteiro é marcha à ré, dó, si, lá
Lassa de manter o alvará
Mas se o circo Monteiro é marcha à ré, dó, si, lá
Lassa de manter o alvará

Contada a caixa baixam-se as lonas
E ó ironia era nas lonas que o circo se erguia
Contada a caixa baixam-se as lonas
E ó ironia era nas lonas que o circo se erguia

No circo Monteiro nunca venta o vento
Aqui o arco-irís não vira cinzento
Hipotecados os dentes restam sorrisos contentes
Vê-se no escuro da boca a luz ao fim do túnel

No circo Monteiro é sempre a Belle Époque
O circo Monteiro é flic flac flop
No circo Monteiro é sempre a Belle Époque
O circo Monteiro é flic flac flop

Contada a caixa baixam-se as lonas
E ó ironia era nas lonas que o circo se erguia
Contada a caixa baixam-se as lonas
E ó ironia era nas lonas que o circo se erguia 

No circo Monteiro não se esfria o frio
O calor das palmas dá-lhes às almas frio
Em cada bancada cada susto, espanto, gargalhada
Deixam sem tostões a caixa das reclamações

O circo Monteiro é português
Ai, zis, uis
Dum buraco só doutros azuis
O circo Monteiro é sempre ao sol, fá, mi, ré
O circo Monteiro é sempre em pé
Mas se o circo Monteiro é marcha à ré, dó, si, lá
Lassa de manter o alvará
O circo Monteiro é português
Ai, zis, uis
Dum buraco só doutros azuis

Sérgio Godinho, «No circo Monteiro nunca chove» in Ligação Directa, 2006.

Amareleja, Rua da Fábrica 2

fotografia: filipe sousa | 18 novembro 2021

 















Aqui de magnos cachos nos seduz
A promessa da vide, e o sol que luz
Apraz de sombras o passeio onde imos
Sem fim nem astro, sem dever nem cruz.

Seja dos maus atalhos das florestas,
Seja onde por janelas ou por frestas
Olhamos para o mundo pouco a pouco,
E o mundo é um ermo onde se movem festas.

Ah, bebe! A vida não é boa ou má.
O que lhe demos é o que ela dá.
Tudo é restituído ao que não foi.
E ninguém sabe o que é ou haverá.

Cansa ter tédios, sem que sejam mágoas.
Da rumorosa solidão das águas
Sobe na noite um som que 'stá connosco.
Ao despertar bebe vinho. Leio e apago-as.

Ah, vinde aqui onde há o vosso amigo,
Este velho Khayyam só inimigo
Não dos que buscam mas de eles buscarem
Khayyam em cujo lar não há postigo.

O esforço dura quanto dura a fé.
Mas quanto a quem não é dura o quê?
Ah, bebe, bebe, bebe, até 'squeceres
O como, donde, aonde, onde e porquê!

Trazes as rosas que te não pedi.
E mais que às rosas, vens trazer-me a ti.
Mas estou cheio só do entendimento
E tudo quanto tragas já perdi.

13-5-1931 

Fernando Pessoa, Canções de beber - Ruba'iyat na Obra de Fernando Pessoa, edição e prefácio Maria Aliete Galhoz, Assírio e Alvim, Lisboa, 2003, pp. 58-59. 

Moura, Estrada da Barca

fotografia: filipe sousa | 16 abril 2016

 
















É uma expressão latina atribuída a Santo Agostinho. «Solvitur ambulando», ou seja, «caminhar tudo resolve», «resolve-se caminhando». Fixada por Bruce Chatwin, séculos mais tarde, no The Songlines (O Canto Nómada, na tradução portuguesa), é uma espécie de fio condutor da sua deambulação de nove semanas pelo deserto australiano em busca das virtudes da errância. Uma ode à itinerância, ao movimento, ao nomadismo, à caminhada.
«Solvitur ambulando» é uma máxima que também faço minha, como um lema de vida. E que procuro praticar todos os fins-de-semana perto de casa, caminhando ou sobretudo correndo, enquanto não tenho possibilidade de sair para outros cenários e percorrer distâncias de maior fôlego. Dez quilómetros a levitar, entre Moura e o Guadiana (e vice-versa), na estrada mais bela do mundo (até ver!), são reparadores o suficiente para enfrentar a semana de trabalho e as agruras do quotidiano, permitindo-me desligar de mim e do mundo por momentos para, já refeito, reconciliar-me comigo e com o mundo. Nada contraditório! É uma terapia, uma necessidade, um escape, um impulso, um acto de purificação, um carregar de baterias, um prazer sem limites, chame-se o que se quiser, que me é vital para aliviar o corpo e a mente, para manter o equilíbrio, para rever o passado e projectar o futuro, para criar, arrumar e desarrumar ideias, para definir prioridades e fazer escolhas: «não sei para onde vou, não sei para onde vou – sei que não vou por aí!», como diria Régio.

A estrada da Barca chama-me de novo, amanhã. E sei que vou por aí, faça sol ou chuva!

Solvitur ambulando. «Caminhar tudo resolve».

Bruce Chatwin, O Canto Nómada (The Songlines, 1987), trad. José Luís Luna, Quetzal Editores, Lisboa, 1995, p. 213.

Venezia / Veneza

fotografia: filipe sousa | julho 2003

A primeira vez de Goethe em Veneza, neste dia 28 de Setembro, há 235 anos.

«Estava, pois, escrito na minha folha do livro do destino que no dia 28 de Setembro de 1786, às cinco da tarde pela nossa hora, eu veria pela primeira vez Veneza, entrando nas lagunas pelo Brenta, e pouco depois poria pé e olhos nesta maravilhosa cidade insular, nesta república de castores. E assim, Deus seja louvado, Veneza deixa de ser para mim mais uma palavra apenas, um nome oco que tantas vezes me assustou, a mim, o inimigo fidagal dos invólucros sonoros das palavras.
Quando a primeira gôndola se aproximou do nosso barco (fazem isso para transportar rapidamente para Veneza os passageiros que têm pressa), lembrei-me de um brinquedo antigo em que já não pensava há cerca de vinte anos. O meu pai tinha um belo modelo de gôndola, que trouxera da sua viagem: estimava-o muito, e para mim era uma grande honra o poder brincar com ele. Os primeiros bicos de chapa de ferro brilhante, as cabines pretas, tudo me recebia e saudava com se de velhos conhecimentos se tratasse, e eu deliciei-me com esta amável reminiscência da juventude, durante tanto tempo ausente.
Estou bem alojado na «Rainha de Inglaterra», não muito longe da Praça de S. Marcos, e esta é a grande vantagem deste alojamento; as minhas janelas dão para um canal estreito entre casa altas, mesmo por baixo fica uma ponte de um arco e em frente uma viela estreita e muito animada. É aqui que vivo, e aqui ficarei por algum tempo, até que a minha encomenda para a Alemanha fique pronta e eu me tenha saciado da sede de ver esta cidade. A solidão por que tantas vezes tinha ansiado, posso desfrutá-la plenamente agora; pois nunca nos sentimos tão solitários como entre a multidão, no meio da qual podemos andar incógnitos. Em Veneza talvez só uma pessoa me conheça, e tão depressa não é natural que me encontre.»

J.W.Goethe, Viagem a Itália (Italienische Reise, 1786-1787), trad. João Barrento, Relógio d'Água Editores, Lisboa, pp. 78-79.

Tain-l'Hermitage

fotografia: filipe sousa | 23 setembro 2021

 















«A que velocidade, continuei eu, batendo as palmas, descerei o rápido Ródano, tendo o Vivarais à direita, e o Delfinado à esquerda, entrevendo apenas as antigas cidades de Vienne, Valence e Viviers. Que chama viva nas nossas lamparinas ao apanhar um cacho de uvas vermelhinhas de Hermitage e Côte rôti, enquanto passo disparado aos pés das videiras! e que fresco manancial no sangue! contemplar as margens aproximando-se e afastando-se, os castelos lendários, de onde cavaleiros corteses outrora libertaram os infelizes - e ver, vertiginosas, as rochas, as montanhas, as cataratas, e a Natureza cheia de pressa com todas as suas grandes obras em redor.»

Laurence Sterne, A Vida e Opiniões de Tristram Shandy (The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman, 1759 - 1767), trad. e not. Manuel Portela, Edições Antígona, Lisboa,1998, parte segunda, vol. VII, cap. XXIX, pp. 225-226.

Valence, Rhône / Ródano

fotografia: filipe sousa | 22 setembro 2021

 















«Gosto da vida, caminhando ao longo das margens do Ródano; paro debaixo de um salgueiro magnífico.»

Stendhal, Mémoires d'un touriste (1854), Éditions Gallimard, 1992, p.196.

Valence, Rue Denis Papin 38

fotografia: filipe sousa | 20 setembro 2021

 















«A bonomia, a naturalidade que já tinha notado em Vienne, brilha ainda mais em Valence; aqui estamos nós no Midi. Nunca fui capaz de resistir a esta impressão de alegria.»

Stendhal, Mémoires d'un touriste (1854), Éditions Gallimard, 1992, p.195.

Algures entre Lyon e Valence

fotografia: filipe sousa | 20 setembro 2021

















«Nenhum meio de transporte inspira uma observação mais pormenorizada do que o comboio ferroviário. Não há literatura da viagem aérea, nem grande coisa sobre as jornadas de autocarro, e os navios de cruzeiro inspiram observação social mas pouco mais. O comboio é útil porque uma pessoa que goste pode escrever (bem como dormir e comer) num comboio. A viagem calmante e sem tensão deixa profundas impressões da paisagem que passa e do próprio comboio. As viagens de avião são todas iguais; as jornadas ferroviárias são todas diferentes. O viajante ferroviário é frequentemente sociável, conversador, até liberto. Talvez seja por isso que pode andar por aí. Essa pessoa, esse estado de espírito, é aquilo a que os psicólogos chamam «solto» - esses estranhos são os melhores conversadores e os melhores ouvintes.»

Paul Theroux, A Arte da Viagem (The Tao of Travel, 2011), trad. José António Freitas e Silva, Quetzal Editores, Lisboa, 2021, p. 21.

Lisboa, Alameda das Comunidades Portuguesas

fotografia: filipe sousa | 20 setembro 2021


«L'avion est une machine sans doute, mais quel instrument d'analyse! C'est instrument nous fait découvrir le vrai visage de la terre. Les routes, en effet, durant des siècles, nous ont trompés. Nous ressemblions à cette souveraine qui désira visiter ces sujets et connaître s'ils se réjouissaient de son règne. Ses courtisans, afin de l'abuser , dressèrent sur son chemin quelques heureux décors et payèrent des figurants pour y danser. Hors du mince fil conducteur, elle n’entrevit rien de son royanme, et ne sut point qu’au large des campagnes ceux qui mouraient de faim la maudissaient.
Ainsi, cheminions-nous le long des routes sinueuses. Elles évitent les terres stériles, les rocs, les sables, elles épousent les besoins de l’homme et vont de fontaine en Fontaine. Elles conduisent les campagnards de leurs granges aux terres à blé, reçoivent au seuil des étables le bétail encore endormi et le versent, dans l’aube, aux luzernes. Elles joignent ce village à cet autre village, car de l’un à l’autre on se marie. Et si même l’une d’elles s’aventure à franchir un désert, la voilà qui fait vingt détours pour se réjouir des oásis.
Ainsi trompés par leurs inflexions comme par autant d’indulgents mensonges, ayant longé, au cours de nos voyages, tant de terres bien arrosées, tant de vergers, tant de prairies, nous avons longtemps embelli l’image de notre prison. Cette planète, nous l’avons crue humide et tendre.
Mais notre vue s’est aiguisée, et nous avons fait un progrès cruel. Avec l’avion, nous avons appris la ligne droite. A peine avons-nous décollé nous lâchons ces chemins qui s’inclinent vers les abreuvoirs et les étables, ou serpentent de ville en ville. Affranchis désormais  des servitudes bien-aimées, délivrés du besoin des fontaines, nous mettons le cap sur nos buts lontains. Alors seulement, du haut de nos trajectoites rectilignes, nous découvrons le subassement essentiel, l’assise de rocs, de sable, et de sel, où la vie, quelquefois, comme un peu de mousse au creux des ruines, ici et là se hasarde à fleurir.
Nous voilà donc changés en physiciens, en biologistes, examinant ces civilisations qui ornent des fonds de vallées, et, parfois, par miracle, s’épanouissent comme des parcs là où le climat les favorise. Nous voilà donc jugeant l’homme à l’échelle cosmique, l’observant à travers nos hublots, comme à travers des instruments d’étude. Nous voilà relisant notre histoire.»

Antoine de Saint-Exupéry, Terre des Hommes (1939), Éditions Gallimard, 1979, pp. 55-56.

Madrid, Calle de Claudio Moyano

fotografia: filipe sousa | 6 setembro 2021



«Passaram sem pressas diante do Museo do Prado e do gradeamento do Jardim Botânico antes de virarem à esquerda, subindo a ladeira da Claudio Moyano, deixando para trás o tráfego ruidoso e a contaminação da praceta de Atocha. O sol iluminava as barracas cinzentas e as bancas de livros escalonadas rua acima.

-O que vieste fazer a Madrid?»

Arturo Pérez-Reverte, O Cemitério dos Barcos sem Nome (La Carta Esférica, 2000), trad. Helena Pitta, Edições Asa, Porto, 2002, p. 59.

Madrid, Calle de Cervantes 2

fotografia: filipe sousa | 7 setembro 2021
















Ainda Madrid. De volta ao Bairro das Letras. Onde viveram Miguel de Cervantes (1547-1616) e Félix Lope de Vega (1562-1635), os mais ilustres representantes do Século de Ouro das letras espanholas. Chegaram a residir na mesma rua, após o autor de D. Quixote ter trocado o número 18 da calle de las Huertas, onde se situa, desde 1827, a Casa Alberto, um dos mais icónicos estabelecimentos de tapas da cidade, pelo número 2 da calle de Cervantes.
Apesar de vizinhos (Lope de Vega morava no número 11), não morriam de amores um pelo outro, como provam os poemas satíricos em que se desacreditavam mutuamente. Neste ambiente de rivalidade permanente, triunfou o prolífico Lope de Vega, autor de mais de 2.000 peças de teatro. Quanto a Cervantes, ainda que reconhecido em vida devido ao sucesso alcançado com o seu D. Quixote, acabaria por morrer pobre.
Já perto do fim, manifestou o desejo de ser sepultado no convento das Trinitárias Descalças, situado no número 18 da calle Lope de Vega, paralela à calle de Cervantes e à calle de las Huertas, em sinal de agradecimento aos monges trinitários que, em 1580, reuniram o resgate necessário para o libertar do cativeiro, em Argel, um dos muitos episódios da sua vida atribulada.
Desengane-se, porém, quem espere encontrar aí os restos mortais do "Príncipe dos Engenhos".

«A casa onde Cervantes viveu e morreu encontra-se, naturalmente, na calle de Cervantes, a mesma rua onde nesses dias vivia Lope de Vega, embora a rua tivesse então outro nome. Agora há duas ruas antigas e estreitas, próximas uma da outra, com os nomes destes dois grandes das letras espanholas que, como costuma acontecer nos meios literários, muito mal diziam um do outro. Lope de Vega era o autor de êxito do seu tempo, o homem das duas mil peças de teatro e «vinte e um milhões de versos», enquanto Cervantes levava uma vida aventureira, participava em batalhas marítimas, ficou ferido, foi preso por corsários berberes e viveu, juntamente com o irmão, durante cinco anos como escravo no Norte de África até ser resgatado por um monge. (…)
É de manhã cedo numa segunda-feira que erro pelas duas ruas com os nomes dos escritores. (…) Por fim, encontro a casa de Cervantes. É o número 2. (…) Na rua contígua encontro o convento onde Cervantes está enterrado. Segundo a placa na fachada era um convento das Trinitárias e o escritor foi aí enterrado a seu pedido, por ter sido um trinitário que o salvou da escravidão.
Com alguma dificuldade abro a porta e entro num espaço escuro onde se encontra uma outra porta, entreaberta. Agora estou perante o que é claramente a porta de uma igreja, mas esta está fechada. Nisto ouço uma outra porta abrir lentamente e vejo duas cabeças de freiras a olharem para mim. «Cervantes está enterrado aqui?» pergunto, e a resposta é muito espanhola: «Está sim, mas não está cá». Digo que mesmo assim gostaria de dar uma vista de olhos à igreja, mas não é possível. A missa terminou e então fecha-se a igreja.
-Mas há pelo menos uma sepultura?
-Não, não há propriamente uma sepultura.
Este escritor apagou minuciosamente o seu rasto, porém não se escapa tão facilmente à posteridade. Perto das Cortes encontra-se uma estátua num pequeno jardim triangular.»
 
Cees Nooteboom, O (Des)Caminho para Santiago(De Omweg Naar Santiago, 1992), trad. Patrícia Couto e Arie Pos, Asa Editores, Porto, 2003, pp. 98-100. 

Madrid, Gran Vía

fotografia: filipe sousa | 9 setembro 2021

 





















«Os homens e as mulheres, que vão àquelas horas até Madrid, são os noctívagos puros, os que saem por sair, os que têm o gosto de perder as noites; os clientes endinheirados dos cabarés, dos cafés da Gran Vía, cheios de mulheres perfumadas e provocadoras, que usam o cabelo pintado e um impressionante casaco de peles, de cor escura, e alguma boquilha branca de vez em quando; ou os noctívagos de bolsa mais magra, que se metem a conversar numa tertúlia ou que vão beber copos pelas tascas. Tudo menos ficar em casa.»

Camilo José Cela, A Colmeia (La Colmena, 1951) trad. Victor Filipe, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1991, p. 136.

Madrid, Parque de El Retiro

fotografia: filipe sousa | 6 setembro 2021

 















«-Podemos obter um apartamento em Madrid, naquela rua ao lado do Parque del Buen Retiro. Eu conheço uma americana que alugava apartamentos lá, antes do movimento, e sei como hei-de encontrar um apartamento assim pelo preço de antes do movimento. Há uns que ficam em frente do parque, e vê-se o parque todo pela janela; a grade de ferro, os jardins, as alamedas com passeios de saibro bem cuidado, as ervas dos canteiros, que ladeiam os passeios, e as árvores que dão profundas sombras e todas as fontes. Os castanheiros devem estar agora em flor. Em Madrid poderemos passear no parque e remar no lago se já estiver outra vez com água.
-E porque não há-de ter água?
-Secaram-no em Novembro por se ter tornado um ponto de referência para os bombardeamentos aéreos. Julgo que já deve estar agora cheio de água, mas não tenho a certeza. Mas mesmo que não esteja podemos passear no parque para além do lago. Há nele um trecho que é uma verdadeira floresta com árvores de todos os países do Mundo: têm o nome escrito em tabuletas que dizem que árvores são e de que país vêm.
-Gostaria muito de ir ao cinema – disse Maria. -Mas as árvores devem ser interessantes e fixá-las-ei todas contigo se for capaz de me lembrar.
-Não estão ali como num museu. Crescem naturalmente, e há colinas no parque e um pedaço que parece uma floresta virgem.»

Ernest Hemingway, Por quem os sinos dobram (For whom the bell tolls, 1940) trad. Monteiro Lobato, edição Livros do Brasil, Lisboa, 1955, pp. 331-332. 

Madrid

fotografia: pedro sousa | 5 setembro 2021

 














«Vi Madrid surgir da planície, massa branca e composta no cimo de uma pequena altura ao fundo de uma região comida pelo sol.»

Ernest Hemingway, Fiesta (The Sun also rises, 1926) trad. Jorge de Sena, Editora Ulisseia, Lisboa, 1985, pp. 210-211.

Castilla - La Mancha / Castela - La Mancha

fotografia: filipe sousa | 14 abril 2019

 















«O viajante levanta-se, passeia pelo quarto, põe direito um quadro, empurra um livro, cheira umas flores. Diante de um mapa da península detém-se, ambas as mãos nos bolsos das calças, as sobrancelhas quase imperceptivelmente franzidas. (…) 
O viajante faz um gesto com a boca.
-E também não importa se me desviar um pouco, se é que me desvio. Afinal de contas, qual é o problema? Ninguém me obriga a nada; ninguém me diz: vá por aqui, suba por ali, percorra aquele outeiro, esta encostazinha, este outro vale suave e de bom caminhar.
O viajante remexe nos papéis da mesa à procura dum duplo decímetro. Encontra-o, aproxima-se de novo da parede e, com o cigarro na boca e o sobrolho franzido para que os olhos não se encham de fumo, passeia a régua sobre o mapa.
-Etapas nem curtas nem longas, outra légua e outra hora, e assim até ao fim. Vinte ou vinte e cinco quilómetros por dia já é uma boa marcha; é passar as manhãs no caminho. Depois, sobre o terreno, todos estes projectos caem em saco roto e as coisas saem, como sempre acontece, como podem.
Procura umas notas, consulta uma cadernetazita, folheia uma velha geografia, estende sobre a mesa um plano da região.
-Sim; sem dúvida alguma, as regiões naturais. Os rios unem e as montanhas separam, é a velha sabedoria: não há outra divisão que valha. (…)
-As cidades, passarei à beira delas, como os bufarinheiros e os ciganos, como o javali e o gato montês.
Coça uma sobrancelha e franze a testa. O viajante não está muito convencido.
-Ou não, não passarei à beira. As cidades têm de ser atravessadas, a meio da tarde, quando as meninas saem a passear um bocado, antes do terço.
O viajante sorri. Tem os olhos semifechados, como de estar a sonhar.
-Bem, logo veremos.
Fica um bocado em silêncio, a pensar muito confuso, muito precipitadamente. Já é muito tarde.
-Que loucura!
O viajante – que se cansa de repente, como um pássaro ferido – pensa, afinal, que já só falta começar, que talvez esteja a dar muitas voltas à cabeça por uma viagem que se pretende fazer a eito, um pouco como o fogo numa eira: ao deus-dará e ao calhas.
Da mesma garrafa bebe o último gole.
-Não. Estas contas são outras; o melhor será pegar na mochila e desatar a andar.»

Camilo José Cela, Vagabundo ao serviço de Espanha (Vagabundo al servício de España, 1948), trad. Cristina Rodriguez, Artur Guerra, Edições Asa, Porto, 1995, pp. 12-14.